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07/03/2014

DECADA DE 70

No ano de 1971, eu era um kandengue que morava no Bairro Popular nº 2, tinha dezassete anos de idade. Estudava na Escola Indústrial de Luanda, e acabado o Curso, então não me restou outra alternativa a não ser começar a trabalhar para ter a minha independência, continuando os estudos á noite, para comprar a minha primeira motorizada uma Honda SS50Z, para levar a namorada ao cinema nos finais de semana, para beber uns finos, comer uns camarões e uma dobradinha nos Bares do bairro com os amigos, principalmente no Bar do Matias.


Tenho que agradecer aos meus Pais, muito obrigado Sr. Júlio e Dona Maria do Carmo, muito obrigado Luanda por darem-me a oportunidade de me tornar homem, responsável, destemido e acima de tudo um cidadão que aprendeu a amar Angola, a amar a cidade de Luanda, e continuando a amá-la até os dias de hoje.

Na década de 70, muitas novidades e fatos inesquecíveis aconteciam no mundo. Eu e muitos jovens na época ouvíamos as belas músicas dos Beatles, Bee Gees, Elton John, John Lennon, Pink Floyd, Yes, Supertramp, Roberto Carlos, Chico Buarque, Raul Seixas, Led Zeppelin, Deep Purple e tantos outros que faziam sucesso naquele tempo

Pink Floyd

Eu e meus amigos que residíamos no Bairro Popular nº 2, em Luanda, quase todos os avilos tinham a sua torraite e curtiamos as belas passeatas ao Porto Kipir, á Barra do Kuanza, ou na grande cidade de Luanda, ouvíamos os bons rocks clássicos, e também merengadas, rebitas, e dançávamos nos bailes, fossem em clubes ou na residência de alguém nosso amigo, nas festas de aniversário, casamentos, noivados ou qualquer comemoração. Foi uma época inesquecível, em que caminhávamos pelas ruas da cidade, principalmente nos seus musseques, em qualquer hora do dia, ou da noite, sem o perigo que se diz que se vive atualmente.

Quantas vezes atravessamos a Estrada de Catete, mesmo de madrugada, ou caminhava-mos pelas ruas do Sambizanga, Casa Branca, Rangel, Prenda Terra Nova, Cazenga, Palanca e tantas outras ruas de outros Bairros falando de alguma canção de sucesso ou mesmo conversando sobre os temas da actualidade, acompanhados de amigos ou mesmo das namoradas. 

Vivi na verdade o melhor tempo da minha Juventude. 

Bairro Popular nº 2 

Por onde será que estão atualmente os velhos amigos: Paquito, Zé – Tó, Minguitos, Luis Manuel ( Lili ) Zé Manuel, Zé Avelino, Carlos Barbara, Dativo, Moedas, Caroças, Tony Novo, Chico Maia, Nascimento, Seabra, Carlos ( Perninhas ) Nogueira, Zeca Dificil, Taúta, Barros, Manelito, Litó, Quim Costa, António Costa, Chico Teixeira, Cacito, Manuel João, Ninito, Zé Ideias, Soares, Sousa, Cacipita, Mano Meira, Soares, Faisca, Tony Sanguito, João da Lusolanda, Carlos Clara, Madruga, Mário Dias, e tantos outros? 

E as garinas Betty, Celina, Chú, Mila, Dina, Virinha, Leonor, Zeza, Crisanta, Teresa, Alice e Ivone, Goretty, Judite, Isabelinha, Lourdes, Florinda, Teresa, Rosário, Célia, Luisa, Marinha ( São ) minha namorada, e tantas outras. 

E os avilos do conjunto , “Os Rubis“ que abrilhantavam as farras, tocavam nos clubes, Chico Leite, Claudino, e os Manos Bondosos? E os The Windies do meu amigo Beto Calulu.

The Windies

No almolço anual da malta do Bairro Popular nº 2, encontramos muitos avilos da nossa meninice do Bairro, e logo ali matamos as saudades, recordando esses tempos. 

Os bares do Matias, Tirol, Pisca Pisca, o Bar Cravo, e as cervejarias na Baixa de Luanda, que não existem mais? Ou será que existem!! 

Quando eu estudava na Escola Indústrial, tinha também colegas, do Bairro, o Pinguiço, o Guimarães, o Fernando Simões, o Camilo da Terra Nova, o António Gilberto do Sarmento Rodrigues, o António Rodrigues do Cazenga. 

Quando eu ouço as músicas daquela época, logo me vem à lembrança as calças á boca de sino, as camisas justinhas ao corpo, os sapatos de tacão alto, os cabelos compridos, das pessoas e dos lugares por onde eu passei. São boas lembranças e espero que todos os meus amigos e conhecidos estejam muito bem em suas vidas. 

Sei que alguns já faleceram, como o Litó, o Filipe Santarém, o Jaimito, o Carlos Capacete, o Machado, o Mikinho, o Fernando das Quarras, o Fernando Transmontano, o Pinguiço, a Alice ( Nixa ), que descansem em paz, no seu eterno sono. 

Na juventude, dos anos 1960 a 1975, íamos muito ao cinema, trabalhei no Bar do Cinema para poder assistir aos filmes, aos encontros de jovens da igreja de Santa Ana, ( J.O.C. ) com os amigos (as) e namorados ( as ). 

O cinema do Bairro Popular o cine São João, muito famoso na época, depois de assistir a um bom filme, iamos para o muro do Bar do Matias até altas horas da madrugada. Vida muito difícil, para nossos pais que trabalhavam, pagávam os nossos estudos, tínhamos que ser responsáveis desde muito cedo, diferente da juventude de hoje, onde os pais patrocinam os filhos, que demoram muito mais para serem independentes. 

Fazíamos passeatas, que iam sempre dar ao Largo da Mutamba, quase tudo acontecia nas Avenidas próximas. Nesta época, surgiu o moderno Edificio da Mutamba, foi desde sempre o ponto de encontro, para curtir, simplesmente deixamos de ir a Biker jogar bilhar para frequentarmos o Mutamba, ou para simplesmente ouvir os amigos, desabafar, rir em amenas cavaqueiras, enfim ser feliz.

Largo da Mutamba ( foto Mário Silva 1972 )

Foi muito bom viver cada momento, marcado por boas e más lembranças, que fazem a história de nossa vida, ainda hoje tenho saudades desse tempo. 

Alguns comentários: 

Do grupo de AMIGOS que cresceram felizes no seu Bairro onde a amizade se foi fortalecendo ao longo de horas infindáveis de confraternização e brincadeira como se de uma imensa família se tratasse numa sala de visitas imensa, o Largo e o Café do Matias onde a qualquer hora sabia-mos onde estavam os nossos Amigos. ( Moedas

Na rua de Loulé, que mais tarde em frente foi construída a Defesa Civil (era a rua de Transição para o Bairro Sarmento Rodrigues ), e como todos os moradores frequentei o cinema S. João, a Igreja de Santa Ana, e quando entrei para a escola primária fui estrear a referida escola denominada Escola Primária nº 176. Tenho recordações das professoras Dona Fernanda e Dona Amélia, recordações dos intervalos, e da venda de doçarias á porta da escola, confecionadas pelas "quitandeiras" como a paracuca, pirolitos e o doce de coco. 

A minha sogra era cliente da loja de confeções Confiança, do Sr. Novo, pois ela era modista e confecionava roupa para a maior parte da malta jovem do Bairro principalmente camisas bem justinhas. Na entrada do Sarmento Rodrigues havia uma mercearia cujos donos eram o Sr. Aníbal e D. Dulce, onde havia uma frondosa árvore, o Imbondeiro, era a chamada loja do Sr. Dias. 

Todos os anos por alturas do Natal visitávamos a Mutamba onde no Jardim da Camara Municipal de Luanda se montava o imponente presépio e esta zona estava sempre toda iluminada. O presépio era algo de maravilhoso com todas as personagens bem representadas. Penso que de ano para ano havia uma inovação na sua montagem, o presépio era lindíssimo. ( Tiza

Infelizmente, ou felizmente, a vida é como uma roda gigante: uma hora estamos no alto, noutra hora, estamos em baixo, mas o mais importante é que as lembranças ficam cravadas na parede da nossa memória. 


ZÉ ANTUNES 

1970

PRIMEIRO RELÓGIO


O meu primeiro relógio, tive-o quando passei para a quarta classe, em 1964 e foi-me oferecido pelo meu pai. Nunca me esquecerei daquela manhã de Julho em que nos dirigimos à ourivesaria de São Paulo em Luanda me colocou no pulso um relógio, com bracelete de couro, era um Cauny. Custou na altura 250$00. Para mim era uma fortuna imensa, nunca tinha recebido uma prenda tão generosa. Ainda guardo esse relógio religiosamente.


Relógio Cauny Prima


Muitos episódios de minha vida esse relógio marcou: os amores, as partidas, os encontros e desencontros. Marcou com seus ponteiros e seu passo suíço minha esperanças e conquistas, como também as perdas e os vazios. Foi muito mais que um relógio.



“RELÓGIOLANDIA” Uma história discreta ( net )

Os relógios Cauny carregam consigo uma história suíça como qualquer outra saída do país que é conhecido e reconhecido como a capital da relojoaria… ou talvez não.

Ainda hoje persistem dúvidas acerca da própria fundação da empresa Cauny – enquanto uns apontam para a data de 1889, outros afirmam que foi bem mais tarde, no ano de 1927, que se começaram a produzir os primeiros exemplares dos relógios Cauny. Certezas há duas: por um lado, a empresa tem, desde a primeira hora, o seu quartel-general na emblemática cidade de Le-Chaux-de-Fonds, berço da arte de relojoaria suíça e sede de inúmeras marcas famosas e internacionais. Por outro lado, a Cauny, mesmo que discreta, destaca-se pelo design de relógios únicos.

A filosofia que tem impulsionado o trabalho da empresa Cauny desde que entrou para o mundo relojoeiro é: criar timepieces excepcionais, quer em termos de beleza e apresentação, quer em termos de um rigoroso processo de execução e montagem, onde nenhum detalhe, por mais ínfimo que pareça, é deixado ao acaso. 

A segunda metade do século XX foi um boom para o mercado dos relógios, com a introdução da tecnologia quartzo. Para a marca Cauny foi mais um motivo para fazer mais e melhor e, como sempre, esteve à altura ao apresentar ao mundo a linha “Cauny Prima”, um verdadeiro ex-libris da marca e ainda hoje aclamada. 

Gozando de grande popularidade nas décadas de 50 e 60, quem possui um modelo Cauny dessa época, guarda-o religiosamente, até porque continua actual e fiável. 

Hoje, a Cauny faz parte de um restrito legado de especialistas na arte que é criar um relógio e todo o seu processo de produção é monitorizado segundo testes de controle, que exigem padrões da mais elevada qualidade. À qualidade, que é e sempre foi a sua grande bandeira, a Cauny junta elegância, precisão e prestígio. 

Com uma vasta gama de modelos para homem e mulher, que incluem relógios de bolso, cronógrafos, relógios em ouro, desportivos e de “fantasia”, o prestígio da Cauny revê-se ainda nos seus preços, que podem atingir os €4800! No entanto, a marca pretende chegar a todos, por isso, também pode ter um Cauny no pulso por apenas €60!

ZÉ ANTUNES

1964


10/01/2014

BRAÇO FRACTURADO

As brincadeiras de kandengues muitas vezes fazem mazelas que marcam para toda a vida, foi o que aconteceu ao Fernando.


Depois de uma manhã de aulas na Escola Primária nº 176 no Bairro Popular nº2 em Luanda, ele andava na 3ª classe do Ensino Primário.



Fernando com os seus nove anos era um kandengue, irrequieto, muito activo sempre pronto para as brincadeiras mais arrojadas e perigosas, desde esticar uma corda de árvore em árvore e fazer equilibrismo como vira no circo Monumental que se instalava na D. João II, ou a baloiçar-se de cabeça para baixo só com as pernas agarradas nos troncos das árvores, subia com uma destreza e ligeireza ás árvores, principalmente aos mamoeiros, que como toda a gente sabe a sua copa é bastante frágil, os outros kandengues sempre com medo que ele caísse.

Certa vez depois de uma descarga de areia para uma obra, empoleirou-se na carroceria da camioneta e atirou-se para cima do monte de areia e bateu com o cotovelo numa barra de ferro que servia para desmontar os pneus. 

Foto net

No momento, ainda a quente, não parecia assim tão grave, mas, à medida que arrefecia o seu corpo, as queixas de dores aumentavam e o dia do Fernando acabou no hospital de São Paulo no Bairro Marçal, diagnóstico de braço deslocado, onde o engessaram.

Regressou à escola, dois dias depois, com o braço engessado. Nada que o impedia de estudar e escrever, visto, “sorte” a dele, ter sido no braço esquerdo.

Passados dois meses foi tirar o gesso e o braço ficou atrofiado, não dobrava e não conseguia por a mão no ombro, o Hospital queria-o operar mas meu pai resolveu ir até ao endireita que morava na Rua dos Pombeiros, junto aos correios no Bairro de São Paulo.

Fez-se o tratamento fisioterapêutico para a fratura, que consiste em devolver a mobilidade da articulação afetada após a retirada do gesso.


Foto net

A fisioterapia era realizada diariamente e o objetivo deveria ser o aumento da amplitude dos movimentos da articulação e o ganho de força muscular, o que não aconteceu, ficando o braço até aos dias de hoje com as articulações atrofiadas.

Lá andou em tratamentos e o braço nunca ficou bom.

Ainda hoje ele tem aquele braço com um nervo atrofiado.



ZÉ ANTUNES 

1970

08/01/2014

EUSÉBIO




Eusébio no jogo da Coreia ( 5-3 )

A primeira vez que vi jogar o Eusébio ao vivo foi em Luanda no Estádio dos Coqueiros no dia 11 de Maio de 1969, no dia seguinte, dia 12 de Maio eu comemorei 14 anos.

Nesse ano ainda assisti á derrota do Benfica nos Coqueiros no dia 10 de Agosto de 1969 contra o Sporting resultado final 5-2, a favor dos leões.

Depois já o vi jogar o Eusébio em Lisboa, em 1970 a quando da minha estadia em Lisboa.

Estádio dos Coqueiros estava cheio, eu que era ainda kandengue por intermédio de amigos fui para a sede do Sporting, que ficava num dos topos do Estádio dos Coqueiros, e vi o jogo dai.



O Benfica jogava com o "ASA" um dos melhores clubes de Angola. Era um jogo para a Taça de Portugal (nessa época o campeão angolano jogava para esta Taça)... O Asa era campeão desde a época de 1964/1965 até 1967/1968 ( Quatro títulos seguidos ).

Equipa do Atlético Sport e Aviação

O Asa alinhou 

ASA : 

Carlos ( Gr )

Justino, Inguila, Garrido e Jindungo ( Defesas )

Armindo, Duda, Mateus e Cruz ( Centro Campistas)

Dinis e Juvenal ( Avançados )

Sulentes: Gaspar, Pratas,Valente, Sousa

O Benfica alinhou com a sua equipa habitual

BENFICA:

José Henrique ( G.R. )

Zeca, Humberto Coelho, Jacinto e Adolfo ( Defesas )

José Augusto, Jaime Graça ( Toni ), Coluna e Simões ( Médios )

Eusébio ( Praia ) e Torres (Avançados)

Sei que o primeiro golo foi de Eusébio de canto directo, a bola fez um arco e anichou-se na Baliza do ASA, logo aos 3 minutos depois Eusébio marcaria já na segunda parte aos 52 minuto e 75 minutos, tendo o Praia fechado a contagem aos 89 minutos, resultado final Benfica 4 - Asa 0

No dia 10 de Agosto de 1973 tornei a ver os craques que se deslocaram a Luanda e a Organização do Torneio TAP convidou o América Futebol Clube do Rio de Janeiro, para disputarem um amistoso internacional no Estádio dos Coqueiros, o Benfica perdeu por 1-0 Golo do jogador brasileiro Sérgio Lima.

As equipas alinharam segundo crónica do Jornal “A Bola “

AMÉRICA : 

Vanderlei ( G.R. )

Paulo Mauricio, Alex, Mareco e Álvaro ( Defesas )

António Carlos, ( Luisinho ) Ivo, Mauro e Flecha ( Centro Campistas)

Tadeu e Sérgio Lima ( Avançados )


BENFICA:

José Henrique ( G.R. )

Malta da Silva, Humberto Coelho, Messias e Adolfo(Defesas )

Bastos Lopes ( Barros ), Victor Martins, Toni e Néné 

(Centro Campistas)

Eusébio e Moinhos ( Victor Batista) (Avançados)

Com este resultado a equipa do Rio de Janeiro ganhou o Troféu TAP.

O "king" morreu antes do dia dos "Reis Magos", para ser sepultado no dia a eles dedicado. Assim nasceu mais um Rei, tínhamos o Baltazar, o Belchior e o Gaspar agora mais o Rei Eusébio.

Assinou pelo Beira-Mar em 11 de Novembro de 1978 depois de ter passado pelo futebol americano.

Palavras dele num jogo Beira-Mar/Benfica: "Não vou marcar nenhum golo nem nenhum livre ao meu Benfica", foi o Sousa que depois se transferiu para o Porto e mais tarde para o Sporting que estava encarregue dessas marcações.

Morre o Homem, fica a lenda.

Tinha eu 11 anos e no Mundial de 1966, Angola parou e como não havia televisão , foi a ouvir o jogo relatado por Artur Agostinho, a nossa selecção e naqueles 5-3 à Coreia do Norte (foi no dia 23-07-1966- sábado,), sofri a bom sofrer, 3-0 era derrota para Portugal, até que apareceu o Pantera Negra o nosso Eusébio, e deu a volta ao resultado marcando um Poker ( 4 golos )!

A última vez que falei com o Eusébio, dei-lhe um aperto de mão e desejei-lhe um feliz Natal e as suas melhoras, pois foi com o motorista até ás garagens no seu automóvel, e depois num carrinho de rodas para o camarote, foi no Estádio de Alvalade a quando do Jogo Nacional da Madeira versos Sporting que teve como resultado final uma igualdade a zero golos, jogo realizado no dia 21 de Dezembro de 2013 .


O King


ZÉ ANTUNES

1973


10/11/2013

ALDEIA ONDE NASCI

Nos tempos em que o meu avô materno, que nasceu e sempre viveu na Póvoa de Penafirme, nesta pequena aldeia situada perto da Praia de Santa Cruz, pertencente á freguesia de A-dos-Cunhados. Foi nessa aldeia que nasceu minha mãe, e mais tarde nasci eu. Antes de ir para África, ali minha mãe viveu até aos 20 anos.

O meu avô vivia numa casa feita de pedra, com as divisões em alvenaria, sem casa de banho, só em 1970 é que construíram a casa de banho e mais um quarto para o meu tio Zé, não tinha eletricidade, nem água da rede, nem esgotos, não tinha nada. Era á luz de uma candeia a petróleo que os iluminava e iam buscar água ao poço da aldeia. A casa tinha ao fundo do quintal umas capoeiras e umas arrecadações. Comia–se praticamente do que se cultivava na horta e dos animais que se criavam.

Matança do Porco na Aldeia ( foto net ) 

Quando era feita a matança de um porco, as carnes eram conservadas nas salgadeiras (arca feita em barro ou pedra que levava sal grosso), as bebidas eram metidas num poço com água, para ficarem frescas. O pão que se comia era feito pelos cereais moídos no moinho do Tio Fernando Moleiro, e eram cozidos num forno a lenha. Raramente se comia peixe, apenas quando aparecia o peixeiro e era só o peixe mais barato, peixelim, carapaus e caras de bacalhau. 

Na loja do Ti André, uma mercearia que tinha quase tudo, era onde as mulheres ( minhas tias e primas ) iam ás compras. 
Perto da casa do meu avô estava o Zé Crispim (padrinhos de minha mãe), dum lado um mini mercado do outro uma tasca à antiga portuguesa. 

Durante o Inverno, o aquecimento era ao lume da lareira e este servia também para, numa panela de ferro, fazer a comida. 
Muitas histórias contadas pelo meu avô que trabalhava no campo de sol a sol, para poder sustentar a família. Como não tinham dinheiro, não havia luxos. Os sapatos duravam uma vida e ainda cortavam a biqueira para dar para mais tempo. Não é do meu tempo, nem me lembro mas contaram-me que muitas vezes, andavam descalços. Era na taberna do Tio João Lourenço “Canino” que se juntavam para jogar às cartas e combinar as caçadas ( os caçadores ) ou as vindimas (os agricultores), Era ai que eu ficava quando vinha da Escola á tarde, a ver os filmes do Bonanza, e do Agente Secreto 99.

Serie do Bonanza ( foto net ) 

Na loja da ti Maria do Carmo, era os correios, os telefones, havia sempre um jornal ou uma revista para se ler.

“Moderníssimo” telefone instalado na casa da tia Maria do Carmo 
( foto net ) 

Quando se estava doente, eram os mais velhos ( medicina popular) que nos receitavam uns chás de ervas do campo. Curaram a perna do meu irmão que estava com uma valente ferida na canela. 

O meu avô democraticamente obrigava os filhos a irem para casa antes do pôr-do-sol, não deixava as filhas saírem sozinhas, nem ir a festas. ( quatro meninas e um rapaz ). 

O meio de transporte mais utilizado era a carroça puxada por burros, pois só os mais abastados é que tinham mota ou carro. 

Para eu ir estudar para a Escola em Torres Vedras, viajava nas Camionetas dos Claras.


Autocarro do Claras ( foto net ) 

Até á instrução primária, estudava-se na Póvoa de Penafirme que também tinha o Seminário no Convento. 

A malta nova frequentava muito, para beber o seu cafézinho e entabular umas conversas o Bar “Gaiato” 

Quando surgiu a luz elétrica na aldeia, minha avó para poupar só ligava a luz quando fosse preciso, meu avô gostava de tudo acesso e dizia que queria tudo iluminado pois tinha muito tempo de ficar no escuro quando morre-se. 

Era na taberna Perola da Póvoa do Manuel Custódio ( que é hoje a Churrasqueira da Povoa) onde se juntava mais pessoas, porque foi ai que instalaram a primeira televisão a preto e branco, e uma telefonia, para aos domingos ouvirem os relatos de futebol. Era ai que eu ia ler os jornais desportivos. E davam informações sobre os horário das carreiras dos Claras. 

A tasca do José Nogueira ficava numa transversal á rua principal e era onde os mais velhos iam jogar ás cartas e beber o seu copito. 

Ao lado da Serração do Albino havia a loja do Manuel Lourenço que vendia rações e algumas alfaias agrícolas. 

Mais tarde, depois do 25 de Abril de 1974, com a revolução em curso pavimentaram os acessos e ruas principais, hoje a Póvoa de Penafirme é uma aldeia modernizada, virada para a agricultura e para o turismo. 

Com a ajuda de todos foi fundada a “ COJOPE “ Comissão de Jovens de Penafirme, edificada ao lado da Padaria que cedeu os terrenos, para mais tarde as instalações serem ampliadas, e que existe até aos dias de hoje, e é onde as raparigas e rapazes, se divertem nos bailes, e onde todos os dias se convive. 

Aos domingos, todos com os seus fatos domingueiros, os habitantes principalmente os mais idosos, encaminhavam-se para o Convento onde iam assistir á missa.


Celebração da Santa Missa. ( foto net ) 

As festas em honra de Nossa Senhora da Graça, padroeira da Póvoa de Penafirme, muito venerada por um povo extremamente religioso, realizam-se no último domingo do mês de Julho de cada ano. 

Lembro-me ainda de uma oficina de bicicletas e motorizadas do José Luis que ficava ao pé da Maria do Carmo e mais tarde foi para a estrada nacional. 

Já nos anos 90, a Povoa de Penafirme teve um projeto para passar a freguesia. 

Perto da minha casa e na estrada que vai para o Vimeiro tem a moderníssima discoteca Faraó


Discoteca 

Esta é a minha aldeia onde vivi o ano de 1970 e depois de 1975, no meu regresso de Angola, e porque tenho lá família, e a casa da minha mãe, vou lá muitas vezes, passar os fins de semana. 


ZÉ ANTUNES 

1970

10/07/2013

BELOS TEMPOS DE MENINO



Longe vão os tempos em que feliz saltava os muros dos quintais dos vizinhos e no Preventório Infantil de Luanda, onde existia uma variedade enorme de árvores de fruto, mamoeiros, goiabeiras, fruta pinha, sape sapeiros, bananeiras, e até uma macieira da índia, cajueiros, onde passava-mos horas e horas nas suas sombras, a descascar pedaços de cana de açúcar e a comê-las. No meu quintal existia uma pitangueira, um mamoeiro, um sape sapeiro e uma pereira.

Lembro-me de ver o meu pai á tardinha, á hora do jantar, depois de um dia de trabalho, colher com todo o amor que impunha ao ato, uma pera, ou umas pitangas, já maduras com um sorriso e um ar de satisfação que lhe inchava o peito, lavá-las, descascá-las e dar-nos um pedaço a cada um. Terra abençoada! 

As horas que passava empoleirado no cajueiro, a praticar os malabarismos que a idade permitia, talvez pensando um dia vir a ser artista de circo!

Eu andava ali descalço, sem camisa, a brincar, a jogar á bola com putos pretos e brancos, fui muito feliz, as brincadeiras, correr ali naquele espaço infinito, a bicharada… as formigas fuca fuca, e os seus montinhos, as aventuras que se viviam.

Os sustos que pregava á minha mãe, quando me lembrava de trepar, através do terraço da garagem e dava acesso ao telhado e me punha a chamá-la do lado de fora do telhado que dava para a rua e a pobre coitada que calmamente se encontrava na varanda a bordar, quase lhe saltava o coração pela boca de me ver ali empoleirado! 
SEMPRE FUI UM MIÚDO CALMO!
Na escola primária nº 176, estava aqui a lembrar-me de... quando um dia... por ser um menino sossegado, me puseram fora da aula e como não tinha nada que fazer... pus-me a desaparafusar os parafusos do sino, que era uma barra de carril que dava inicio e término das aulas.
Escondido fiquei a observar o efeito da minha obra, da minha brincadeira
À hora certa, lá veio o continuo bater nele
e.....PUMMMMMMMMMMMMM!!
Que grande estrondo fez ao cair, no cimento, no chão, até eu me assustei!!! Nem me passou pela cabeça que o Senhor José Santos podia ter ficado ferido, tal o peso do carril!!

Até hoje o pobre do continuo deve ter ficado a pensar o que tinha sucedido!!
E como ninguém me viu...lá passei sem ser castigado...mais uma vez! 

Da minha escola Preparatória “João Crisóstomo “, não conheço mesmo outra igual, com as suas salas amplas e arejadas, escola nova a estrear, e onde o rigor imperava à proporção das minhas brincadeiras e patifarias!

Nosso professor de Matemática era o famoso Saratoga, mas por um qualquer motivo foi substituído por uma professora... a raiva à professora de Matemática era tanta, tal a sua severidade que o Sérgio, jurou a ele próprio, que ela iria pagar por isso!

Um belo dia, durante um intervalo das suas aulas, esse colega entrou na sala e pôs-se a desencaixar a cadeira onde ela se iria sentar, rodando-a até ao limite, mas não totalmente ( era sempre a sua técnica) e saiu sorrateiramente (já nessa altura ele tinha queda pela sobrevivência!) A aula começou, entramos todos e sentamo-nos. O Sérgio estava ansioso para ver o que aquilo ia dar.

A dita Professora, Gabriela de seu nome, sentou-se e abriu o livro dos sumários, escreveu o que ia dar na aula nesse dia e...até aqui tudo normal se desenrolou, O Sérgio até já pensava...tanto trabalho para nada.. acabando de escrever o sumário, levantou-se e dirigiu-se para o quadro para escrever com giz no grande quadro negro, a matéria daquela aula, nunca mais me esqueço...terminada que foi a explicação, dirige-se para a secretária e sentou-se!!

Bem!! Depois de um reboliço de barulhos de algo a partir-se, que ninguém percebeu o que se estava a passar, a pobre da professora desapareceu e só se lhe via o carrapito da touca, ficou toda enfiada dentro do espaço da secretária reservado às pernas!! Nunca ninguém percebeu o que se tinha passado!!
ahahahahahahahahahahahahaha. Quem foi ! Quem não foi! Ninguém se acusou e a turma toda levou um processo disciplinar e um dia de suspensão, falta coletiva. O chefe de turma o Piteira, esse levou dois dias de suspensão, mas nunca disse nada e todos nós sabia-mos o autor da brincadeira.

Ficamos com tanto medo, que ninguém teve a coragem de se rir !! NEM EU!!!
Ri-me mas para dentro!

Outra...

Num altura de Carnaval...ainda era no tempo em que se usava canetas de tinta permanente e o tinteiro estava mesmo ali na secretária dos professores, e aí em combinação com mais uns quantos, para que, fica-se no ar a dúvida de quem tinha sido, parti duas bombas de mau cheiro, nos ditos tinteiros, trouxe os caquinhos na mão, e fui para o meu lugar.

Não tardou muito tempo o cheio invadiu o ambiente e ninguém parava ali dentro!
Ainda hoje consigo lembrar-me da cara séria da professora Couto Pires a olhar para nós, movimentando os olhos em todas as direções! Muito altiva, sem nada dizer, levantou-se, saiu e deixou-nos lá fechados à chave! 

Achava ela que ia-mos lá ficar???

A sala onde estávamos tinha uma portada que dava para uma pequena saliência tipo varanda. De gatas fomos todas para essa a varanda e passamos para a sala ao lado que para nossa sorte estava vazia, e lá ficamos até ao final da aula, altura em que regressamos para dentro e nos sentamos como se ali tivesse-mos permanecido o tempo todo!! Como a mesma professora nos dava 3 aulas da disciplina de ciências por semana...estão a imaginar o ambiente nas duas aulas seguintes!


SEMPRE FUI UM MIÚDO CALMO!!!!

Um dia já nem sei bem porquê, mas devia ter sido mais uma das vezes em que fui injustiçado... um outro professor, professor de trabalhos manuais, sem querer, deu-me uma palmada no pescoço, mas com força! Até vi estrelas!! E deve ter sido por isso que.... em auto defesa, estiquei-me todo, pois o dito professor era bem alto, e dei-lhe um estalo com a força toda que consegui imprimir à mão!! 

Ficamos a olhar nos olhos um para o outro e...pensei.. é desta!! Ele vai-se a mim e....vou levar poucas!! E ainda vais levar mais do diretor!!
Nada aconteceu nesses segundos a seguir e pensei.. será que ele se vai ficar sem resposta?!
A resposta veio a seguir, quando entramos na aula e me pediu o caderno...escreveu algo...e fiquei então a saber que ia três dias pra casa de férias (SUSPENSÃO)!!!
Já naquela altura se "inventavam" umas "baixas"!!

Cheguei a casa e a minha mãe tinha que ficar a saber pois tinha que assinar o dito recado!

Fui pelo caminho muito empertigado a pensar como me ia desenvencilhar de outro castigo, este dado agora pela minha mãe que também não era pera doce e passava a vida a "acertar-me o passo"!!!

Como cedo aprendi que a melhor arma de defesa era o ataque, entrei logo a reclamar que o professor tinha sido mal educado comigo etc.. etc.. etc.. e talvez porque a minha mãe, com a minha atitude, fosse apanhada de surpresa ... acho até que nem tempo teve para reagir...lá me safei!!!

O meu pai coitado.. só abanava a cabeça, admitindo para ele mesmo que tinha um filho “HIPER ACTIVO” e que não ia lá com tareia!!!

E cedo aprendeu que comigo funcionava muito mais a Psicologia! Era assim que ele me levava, aliás o único que me soube entender e levar à certa, até aos dias !!!!! até nos deixar !!!! até á sua morte!!

BELOS TEMPOS DE MENINO 

Saudades da baía de Luanda, ( marginal ) dos gelados do Baleizão, das praias de água quente da Ilha de Luanda, do cheiro da terra encarnada, do dinheiro, do negócio do café, das amizades férreas, muitas perduram até aos dias de hoje, das mangas e dos Cajús maduros, dos cinemas elegantes, da rádio ousada, do sabonete Lux e o Life Buoy, de um dia quente de sol tropical, da noite vestida de estrelas, do horizonte a perder de vista,das cervejas Cuca e Nocal geladas na Cervejaria Amazonas, ou mesmo no Matias ( Bar São João ) com um pires de dobrada, das festas de quintal, dos slows, do dançar agarradinho á namorada, dos Caricocos, do Liceu Salvador Correia e da Escola Industrial, do bolo rocha (mata fome) das lagostas no Cacuaco, das costureiras de olho na Burda, de apanhar caranguejos, do primeiro amor, das manhãs a caçar passarinhos na lagoa do Roldão, e das tardes a ouvir discos, e a ler o Tio Patinhas. A liberdade e a juventude. Os meus melhores anos, o nascer e o pôr do sol inigualáveis, me fazem ter muitas saudades “.
ZÉ ANTUNES

1967

05/03/2013

CROCODILO



Esta é uma das muitas histórias que minha mãe contava a quando da nossa estadia em Cambambe, quando meu pai estava na construção da Barragem de Cambambe.

Uma ocasião eu pequeno e traquinas, não parava quieto e ia para o Rio Quanza onde as mulheres iam lavar a roupa, nessa tarde fui com minha mãe e enquanto ela lavava a roupa, eu e alguns kandengues por ali ficavamos a brincar.

Do meio das águas do Rio Quanza, silenciosamente e muito devagarinho sai um crocodilo que fica ali na praia quietinho.

Eu quando vi o enorme bicharoco, com os olhos bem abertos, como que a hipnotizar-me, corri para ele a gritar.

Mãe é um pexe!! Mãe é um pexe!!!

Minha mãe aflita deu um pulo e correu atrás de mim, agarrou-me e fugiu comigo nos braços para outro sitio mais seguro e  dificil de o crocodilo nos apanhar.

Minha mãe toda assustada disse-me:

Não é peixe! É o bicho mau que come criancinhas.

Eu mais que assustado, se calhar em pânico, disse:

Mãe, não saio mais de ao pé de ti.


ZÉ ANTUNES

1959

BARRAGEM DE CAMBAMBE




Estas histórias que aqui vão ser narradas são do tempo em que não me recordo, tenho vagas ideias do que se passava, e muitas foram contadas pelos meus pais.
Esta foi minha mãe que ma contou, estavamos em Agosto de 1959.

Certa vez, moravamos em Cambambe nas casas edificadas com aduelas de barril e forradas a papel, casas provisórias para os trabalhadores da Barragem, e uma noite meu pai e minha mãe foram ao cinema ao Alto Dondo, dizendo ao casal vizinho Dona Ana e Senhor Raminhos que estivessem atentos se acontecesse algo, e aconteceu!

O Victor que era o mais bébé, caiu da cama e começou a chorar. Não sabia como o calar, e veio o casal amigo para ajudar e ai aconteceu o imprevisto, a porta estava fechada á chave!!! Fui eu, que com curiosidade a fechei.

Do lado de fora o casal perguntava? Oh Zé o que se passa?

Eu respondia: Foi o Victor que caiu da cama!

Então tens ai a chave? Sabes abrir a porta?

Tenho!! Sabo!!!

Então abre lá a porta!

Oh ! não sabo!!!!

Depois de muito trabalho lá consegui tirar a chave da fechadura da porta e passar por baixo da mesma para a Dona Ana e o Senhor Raminhos acudirem ao choramingas do meu irmão Victor.

De lembrar que eu tinha 4 anos, meu irmão Fernando tinha 2 anos e o meu irmão Victor 15 meses.

Conclusão ainda hoje nos rimos, a bom rir ao recordar esta história.

ZÉ ANTUNES

1959

15/01/2013

A CRIANÇA QUE FUI ONTEM


São tantas a histórias daqueles anos especiais da nossa infância. Tudo nos fascinava e tudo nos despertava a imaginação de criança, tudo era novo.

Na minha infância foram anos repletos de muita traquinice, muitas descobertas da vida, muitos amigos, muitas quedas com e sem moto, mas também de muito mimo e amor.

A minha cúmplicidade com outros miúdos também foi notada desde cedo, como filho mais velho tomava conta dos mais novos, e a quando do nascimento de minha irmã, já cuidava dela, dando-lhe o biberão, meu pai fez um carrinho de um caixote das latas de leite Nido, com quatro rodas de triciclo e com uma corda de sisal, puxava-a para ela não chorar, meus irmãos também mais novos do que eu faziam uma choradeira para que eu também os puxa-se e assim também poderem andar no carrinho de madeira. Essa foi uma ligação criada naqueles momentos, trocados por crianças, que permanece até aos dias de hoje.

O futebol fez parte da minha adolescência desde sempre, e de todas as imagens que me lembro, são os trumunos que fazia nos terrenos do Preventório Infantil de Luanda, euforia e alegria era o sentimento que se notava, quando dava escapadelas na hora dos estudos e trabalhos de casa, para ir jogar com outros madiés, tristeza quando minha mãe vinha ao portão e me chamava para ir estudar, e com cara de poucos amigos dizia “ já para dentro e vamos lá a estudar” mais tarde dizia-me:

Agora és muito calmo, mas em pequeno eras um traquinas.

Mas também me lembro quando ia ao Estádio dos Coqueiros ou ao Campo de São Paulo para ver os meus clubes de sempre o Atlético Sport Aviação (ASA) e o Sport Luanda e Benfica ( Benfica de Luanda).

A curiosidade pelo Desenho Técnico, foi despertada logo que entrei para a Escola Indústrial de Luanda, e foi esta área que escolhi para meu futuro, acompanhava muitas vezes meu pai que era encarregado de Obras e apaixonei-me por tudo que seja construção ( Civil, Estruturas Metálicas, Estradas etc. etc).

São poucas as palavras aqui impressas para descrever toda uma infância.

Posso dizer que sentimentos e valores ganhos nesta fase tão especial da vida, vincaram e permanecem comigo até aos dias de hoje, como o carinho e a união familiar, o desejo e a curiosidade de aprender mais, o espirito aventureiro, empreendedor e social, a dedicação aos outros e ainda com muita traquinice e desejo de conviver com a familia e amigos.


ZÉ ANTUNES

2013

13/12/2012

A PRIMEIRA VEZ

Vou começar do princípio. Eu tinha 17 anos, era cabeludo e vestia à moda da altura, todo bangão. Aquele bangão que vivia em casa dos pais e andava sempre limpinho, camisa cintada e calças à boca de sino, estudante fim de curso, muitas vezes viajava com minha mochila nas costas, nos anos 70, muitas vezes à boleia outras com amigos, mas não ia muito longe, ia até as Palmeirinhas, Mussulo, Barra do Dande, Barra do Kuanza, outras vezes sim, ía mais longe, Nova Lisboa, Benguela, Lobito e por outras paragens. Havia vários jovens como eu, que ou sozinhos ou em grupos, fazíam essas viagens. Sexo era uma coisa linda, era o que importava além de PAZ e AMOR, um mundo livre da guerrilha de Angola e ter algum dinheiro para as despesas do dia ( tabaco, cerveja ). Diga-se de passagem nunca fumei Liamba. Aliás só fumava cigarros AC !

Numa dessas viagens loucas, com a turma da Escola Industrial de Luanda, passeio de fim de curso, fomos parar a uma Vila bem pequena, perto do Huambo, cujo o nome é Waco Kungo ( Antiga Cela ), mas vale ressalvar que tal Vila tinha como principal atração a exposição agro pecuária de gado, e de gado leiteiro. Enfim, rural, ruralíssima. Mesmo sem dinheiro no bolso, os anos 70 eram um verdadeiro paraíso pra viajantes amadores como nós, que não criávamos laços e que não faziam questão de se arriscar um pouco mais. Sempre se tinha o céu de estrelas como cobertor, Lá nessa Vila, conheci uma garina de 18 anos de Nova Lisboa, que também viajava com os amigos á boleia, e ai ficamos amigos..

Preciso falar dela, preciso dizer ao mundo o quanto ela foi importante na minha vida. Não, ela não foi o AMOR da minha vida. Não, mil vezes não, isso não é um conto romântico, não passa nem de longe de uma história cor-de-rosa, de contos de fadas ou de um romance apaixonado. Digo que ela foi importante, porque foi a mulher que me relacionei sexualmente pela primeira vez. Tivemos alguns minutos na conversa, mas não aguentei muito mais, sentei-me ao lado dela e beijei-a. Sentia-a nervosa, acho que ela se apercebeu do que ia acontecer. Fomos para a minha tenda e …….

Por favor, não tenho remorsos, nem tão pouco vaidades, não estou nem aí que ela me processe. Mas eu preciso de falar da minha primeira vez. Tinha que haver uma primeira vez, e esta foi a minha primeira vez, tinha 17 anos.

E A MINHA PRIMEIRA VEZ FOI COM A ALICE……..

1972

02/12/2012

HISTÓRIAS DA ESCOLA PRIMÁRIA


O meu contacto oficial com as primeiras letras foi feito na Escola Primária nº. 176 no Bairro Popular nº 2 , onde muitos de nós vivíamos. Nos dois primeiros anos, tive como professora uma respeitável senhora, Dª Fernanda, disciplinadora à moda antiga, exigente e, diga-se em abono da verdade, com alguma tendência para o castigo físico. Exageradamente, acrescento.

Dª Fernanda tinha um Fiat 600 em que as portas abriam de frente para trás e a garotada ficava à espera que ela chegasse para a ver sair do carro, ela de saias ou mesmo de vestido, claro está que a garotada queria era ver cinema à borla e Dª. Fernanda , do “alto” do seu 1,60 m de altura, impunha a disciplina à custa da “famigerada” “menina dos 5 olhos” que não era exatamente uma régua, tal a sua parecença com uma bolacha de madeira, artesanal, pesada e, sobretudo, dolorosa! Assim se castigava quem, por incapacidade, distração ou indisciplina, não agradava à professora.

São muitos os episódios que retenho desse tempo, desde a lousa de ardósia, à caneta de madeira e aparo, às carteiras com o tinteiro a meio, às brincadeiras e às primeiras “futeboladas” no recreio, à cabeça que parti ao Figueiredo (Fritas) com uma pedra mal direcionada, outra com umas setas de capim espetei uma na perna do João ( Bala ), ao respeito (ou seria medo?) que a presença da Professora Amélia (diretora da Escola) inspirava, em cada brincadeira que causasse danos físicos era chamado à Diretora, Lá ia eu a tremer como varas verdes, depois de uns raspanetes, tudo ficava bem.

Mas há um episódio para mim extremamente marcante e que hoje, à distância destes anos todos, revivo com muito pormenor. Estávamos no recreio já na 4ª classe e numa brincadeira daquelas dos miúdos se exibirem, o José Pacavira estava a equilibrar-se no muro da escola e eu vá lá saber-se porque, empurrei-o. Ele estatelou-se no chão e partiu um braço. Naquele tempo o respeito pelos professores era uma regra a ser considerada com extrema exigência e, por conseguinte qualquer “mau ato ou desrespeito” seria, com toda a certeza, objeto de intervenção “régual”. Daí o meu natural constrangimento quando fui chamado ao gabinete da Diretora que era minha professora da 4ª classe, entrei e lá vi a menina dos 5 olhos !

Começou o inquérito, pergunta daqui, pergunta dali, e eu calado sem dizer nada, cheio de medo do que me iria acontecer.

Às tantas, esgotada a paciência da Dª Amélia, que nem era muita, apercebo-me que a “menina dos 5 olhos” se preparava para entrar em ação, o que veio a acontecer, mas não da forma habitual. Eu, que me encontrava de pé, ela pega na minha mão e poisa a dita cuja e diz :

Para a próxima levas mesmo quero é juízo nessa cabeça e que não volte a acontecer nada semelhante.

Foi um alivio, e desde essa altura comecei a ter mais concentração nas brincadeiras com os colegas. Resultado, o José Pacavira foi para o Hospital acabando o ano letivo de braço ao peito.

Felizmente no ano seguinte, alguns de nós fomos para a João Crisóstomo, outros para o Liceu Salvador Correia e quase todas as meninas para o Liceu Feminino, para continuarmos os nossos estudos.

Outros tempos, outros métodos de ensino, outras formas de lidar com os nossos professores… nada comparável com os tempos atuais.

1967

12/09/2012

O VELHO DO SACO

O velho Trabuca, já só espera que as almas caridosas do Bairro lhe dessem alguma coisa para comer, deambula pelo bairro com um cajado na mão pois o peso do corpo é muito e ele nasceu com uma deficiência, a perna direita era mais curta, e com um saco de sarapilheira ás costas. Passou a chamar-se Trabuca, pois ele disse uma frase “Quem não trabuca, não manduca” e ficou com o nome de Trabuca, aliás ninguém nunca soube o nome verdadeiro dele, dizia-se que era muito prestativo que fazia os recados todos quando jovem, mas agora com os seus 80 anos só esperava caridade. Era empregado jardineiro do Proventório Infantil de Luanda no Bairro Popular nº. 2 e vivia no barracão onde se guardava tudo o que fosse da jardinagem, aquele espaço era uma horta e bananal que depressa virou um campo de futebol para os kandengues fazerem os seus trumunos.

Dai as mães dos meninos mal comportados e que não comiam a sopa quando ele passava, começaram a dizer que ele era o homem do saco.

Segundo a lenda, as crianças do saco que o
velho carrega, eram crianças que estavam sem nenhum adulto por perto, em frente às suas casas ou brincando na rua. O velho pegaria a criança caso ela saísse sem ninguém de dentro de casa.

Derivada dos mendigos que permeiam todas as cidades, essa lenda urbana é usada pelas mães para assustar os meninos malcriados que saem para brincar sozinhos na rua. De acordo com ela, um velho malvestido, e com um enorme saco de pano nas costas, anda pela cidade levando embora as crianças que fazem “asneiras, mal comportadas e , desobedientes”. Em algumas versões, o velho é retratado realmente como um mendigo, outras ainda o apresentam como um cigano; creio que isso dependa da região do país onde ela é contada. Há ainda versões mais detalhadas (entendam como cruéis) em que o velho (mendigo ou cigano) leva a criança para sua casa e lá faz sabonetes e botões com elas.

No início do surgimento da lenda do Velho do Saco, os pais amarravam uma fita vermelha na perna da cama da criança indesejada e o velho do saco passava a noite de casa em casa, se houvesse uma fita vermelha na perna da
cama o velho do saco poderia levar embora a criança em questão. Essa história era a versão original da lenda do velho do saco, os pais a usavam para assustar as crianças ou para forçarem as crianças a serem obedientes.


O Velho do saco

10/09/2012

EXAME DA 4ª CLASSE E ADMISSÃO


A professora que saudosamente recordo deu-me aulas na 3.ª e na 4.ª classes da já extinta Escola de Primária nº 176 no Bairro Popular nº2 em Luanda.
A escola existe , mas não é mais primária. Era alta, seca de carnes e muito afável, segundo o que a minha memória consegue resgatar da lonjura dos tempos de infância (tinha 9-10 anos na altura). Mas o facto que mais me marcou na convivência com a professora Amélia, assim se chamava, foi a sua disponibilidade para me dar gratuitamente explicações de preparação para os exames de admissão, após o final da 4.ª classe, Eu fiz exame de admissão, como os jovens da minha geração que concluíam a 4ª classe, que decidiam o acesso ao liceu ou à escola técnica (fiz os dois exames, e passei nos dois ) tendo optado pela Escola Técnica na altura e fiz o preparatório na novíssima Escola “ João Crisóstomo” na Rua dos Quarteis, Era novinha em folha! Tinha sido inaugurada naquele Verão e, uma escola tão grande perante os meus dez anos, deixava-me perdido. Era novidade a mais! Ingressei depois na Escola Industrial de Luanda.

É que, "antigamente", os estudantes da quarta classe sujeitavam-se a ter até três exames no final do ano: o da quarta classe, feito na própria escola, a que habitualmente não se chamava exame, mas "prova", feito em folha dupla de papel de 25 linhas e folha dupla de papel quadriculado, dobradas a um terço para anotar a classificação; e um ou mesmo dois exames de admissão, um ao liceu, outro à escola técnica, para os que usavam de cautela, não fossem reprovar num deles e ficar "paraquedistas" (nem na escola primária, nem no liceu ou escola técnica). Este exame era feito no liceu ou na escola técnica a que se concorria, com impressos próprios. Por razões óbvias, o exame da quarta classe a ("prova") só tinha solenidade para as famílias que já sabiam que o estudante iria ficar por aí, nem sequer concorrendo ao exame de admissão.

Em ambos os exames de admissão, na Escola Emidio Navarro e depois no Liceu Salvador Correia. Primeiro, a prova escrita. Chamaram-me. Um nervoso pequenino, que se foi desfazendo ao subir a escada. Lá em cima, alguém a chamar pelo meu nome, e a encaminhar-me para uma sala grande, enorme, com janelas à esquerda. Depois, foi a oral. E a seguir, a festa da passagem.

Eu passei para a Quarta classe, e a professora Amélia a quando do inicio do ano letivo tinha-nos dito que íamos aprender a escrever com caneta de tinta permanente e que por isso tínhamos que comprar uma. À saída da escola dei o recado à minha mãe que o deve ter transmitido ao meu pai. Meu pai veio ter comigo e disse-me “pronto filho, aqui tens a caneta para levares amanhã para a escola, hoje à tarde vais à papelaria comprar tinta para a pôr a escrever”. Eu fiquei contente por ter logo a questão resolvida, mas quando me mostraram a caneta que tinha sido do Sr. Calisto (o padrinho do meu irmão Vitor ), preta com uma argola dourada, todo o meu entusiasmo se desvaneceu. No dia seguinte cheguei à escola com a dita caneta. a professora começou logo a ensinar-nos a escrever com ela, tarefa que não achei nada fácil, e quando todos os alunos abriram os estojos e tiraram as suas, eu fiquei com uma lágrima no canto do olho, a olhar para a minha. Todos tinham canetas com super heróis, no caso dos rapazes, e cor-de-rosa ou com corações no caso das raparigas, tive vergonha, digo-o hoje, quando tive que tirar a minha caneta preta de argola dourada do estojo. Toda a manhã a escrever com aquela caneta, “feia” de bico estranho e com mau jeito… olhava para os outros meninos de língua ao canto da boca a aplicarem-se a escrever com as suas novas canetas de tinta permanente tão bonitas…

Ao almoço, minha mãe perguntou-me como é que tinha sido a manhã na escola e eu, com quase duas lágrimas a deslizarem-me pela cara, contei-lhe a minha manhã de caneta-de-tinta-permanente-preta-de-argola-dourada. Os meus pais registaram os meus queixumes mas não reagiram logo, coisa que me angustiou.


Caneta Parker 51

O assunto tinha ficado em stand by, passaram-se mais uns dias e eu sem nova caneta de tinta permanente, e, uma tarde, quando cheguei a casa minha mãe

tinha-me comprado uma caneta de tinta permanente nova bem bonita dourada e preta uma Parker 51, que estava na moda, resolveu ali todas as minhas preocupações e foi assim que no dia seguinte eu cheguei à escola com uma caneta nova, e com os respectivos frascos de tinta e ainda o famoso mata borrão.


Frascos de Tinta

Esses exames eram obrigatoriamente feitos com canetas de tinta permanente, e durante a 4ª. Classe, tínhamos que treinar o manuseamento da dita caneta, e a fazer uma caligrafia o mais arredondada possível.


Mata borrão




Os meus livros de leitura da Instrução Primária



ZÉ ANTUNES

24/05/2012

( J.O.C. )

A JOC nasceu na Bélgica em 1925 pela iniciativa dum jovem padre, Joseph Cardijn e de um grupo de jovens trabalhadores e trabalhadoras. Nasceu para dar resposta à situação de sofrimento e exploração vivida pelos jovens operários e à necessidade da Igreja os entender e organizar.   A JOC é uma oportunidade, uma proposta que ajuda os jovens a descobrir o valor, sentido e motivos de esperança para a sua vida.
Entrei para a J.O.C. Júnior teria talvez uns 16/17 anos, portanto em 1972.  Não me recordo como é que fui parar à J.O.C. ( mas penso por se organizarem festas e acampamentos ), e  que funcionava num espaço ao lado da Capela que mais tarde se transformou em Casa Mortuária. Lembro-me que era um movimento de jovens que incutidos no ideal católico procuravam saber junto da comunidade envolvente os vários aspectos na vertente social,  laboral, académica e outras, e assim obter testemunhos reais das desigualdades encontradas, fazendo denúncia dessas situações através da elaboração de relatórios que eram dados a conhecer nas reuniões coordenadas pelo Páraco Costa Pereira.
Para além das denúncias apresentadas nos relatórios, obtidas através de inquéritos, junto das familias visitadas, os grupos de acção dos jovens procuravam nas reuniões realçar o factor humano como sendo o mais imperioso na busca de uma solução, a fim de ser obtida uma decisão mais premente no apoio a determinada familia que apresentasse uma estrutura familiar de condições mais prementes, e havia muitas, infelizmente.
Entre os nossos mentores os mais populares eram o Padre Costa Pereira e o Padre Luis com as suas longas barbas, e a “Vespa “ da moda como transporte. Também havia o Padre Vergilio, a irmã Celeste, a única que me lembro, talvez por  andar a “dar” catequese às meninas, pois a igreja também tinha uma área destinada às freiras ( mais tarde fez-se um Prédio para apoio às Freiras). O Padre Costa Pereira era tido como sendo “malandreco” por procurar obter, através da confissão, o conhecimento de situações mais intimistas das garinas que se confessavam. E também por tirar a batina sempre que necessário  e ir no seu B.M.W passear para a Ilha de Luanda, pois segundo dizia, também era homem e como homem tinha que se fazer à vida.
A grande dificuldade da J.O.C. era não ter recursos financeiros suficientes que ajudassem, nalguns dos casos encontrados, a solucionar algumas situações que só através dessa via poderiam ser minimizadas. Eram assim feitos peditórios “especiais” nas missas e os “Jocistas” vendiam à saida das missas um jornal de cariz católico.
Na “J.O.C.” faziam-se projecções de filmes, num cineminha com bancos de madeira, mais para projectar filmes de animação e desenhos animados para os mais kandengues. Esse cineminha foi feito pelos mais crescidos os Seniores, serões músicais e outros arteficios a fim de se obter alguma receita, com a única finalidade de ajudar a comunidade. Realizavam-se campeonatos entre Jocistas de futebol 11 nos Maristas. Nos Santos Populares fazia-se uma grande Quermesse, e era mais um dinheiro extra que entrava. Um dos aspectos que me marcou de forma positiva e que contribuiu para a minha formação de vida, foi procurar-se incentivar a entreajuda na coisa comum às familias, vizinhos e amigos, fazendo com que através  do conhecimento e na discussão do assunto eles próprios encontrassem também as suas próprias soluções para os problemas envolventes.
Era um movimento de jovens bastante interessante, dinâmico e apelativo, fazendo com que os envolvidos no projecto se tornassem adultos, que para o terreno levavam e procuravam ajudar a resolver. Também os meus irmãos , assim como amigos do Bairro, andaram na “J.O.C.” de certa forma a juventude alinhava na causa. Ainda hoje e passados estees anos todos o Manuel Alves é conhrcido prlo Manel da JOC. Pertenciamos a grupos diferentes pois havia os Seniores e os Júniores.
Sai da “J.O.C.” porque se formou um grupo mais lato e de convivio entre as várias dioceses de Luanda  os “Encontristas”, donde saliento os passeios temáticos e os acampamentos que se faziam. Deste grupo sai por um qualquer motivo pois comecei-me a dedicar mais a outros interesses, e a disponibilidade de tempo era mais restrita.
                         Igreja de Santa Ana
                             1972

RECORDAÇÕES E MÚSICA

De repente  vi-me  num passado em que, sempre que ia á baixa de Luanda, impunha-se uma ida aos Supermercados  Angola para espreitar as novidades, era para mim como ir a Roma e não ver o Papa. Escusado será dizer que saía de lá com algo debaixo do braço,  e esse algo era um disco. Dos negros. Aqueles em vinil que faziam um barulhinho típico quando a agulha do gira-discos era poisada suavemente na primeira faixa, lembram-se?
Aprendi a gostar de música nessa discográfica, cresci a espreitar as vitrinas, aprendi a manusear os vinis alinhados nas estantes com as pontas dos dedos, era como se dedilhasse as cordas de uma guitarra de caixa, uma "Fender" preciosa ou um "Stradivarius" melodioso e envolvente. Quando escolhia, pegava neles com cuidado como quem pega numa relíquia, e mal sabia eu que naquela altura estava mesmo a comprar algo que um dia iria - quase, felizmente! - ser obsoleto, o mundo não iria parar, o Homem não iria deixar de evoluir, e com essa evolução vieram os CD's, o som quase impecável, as misturas digitalizadas fizeram milagres. E os vinis, aqueles discos pretos, quase ficaram esquecidos nas estantes da minha casa. O meu velho gira-discos ficou de lado, parado e triste, em silêncio.
Também cresci, e amante como sou dos sons, fui na leva e adoptei os CD's.  Mas hoje, quando voltei a esse passado, de repente vi-me na sala de estar de casa, a colocar no gira-discos, um disco , senti os meus dedos novamente a passar os álbuns e a pegar o escolhido, voltei a colocar um disco no prato, e a pegar na pontinha da asa da agulha, puxando-a para trás até ouvir o estalido, o prato começar a girar nas 33 rotações, e pousá-la com cuidado na primeira faixa, enquanto me afastava durante aqueles segundos de "barulhinho" para o sofá da sala. Era assim que passava as minhas tardes de fins-de-semana, a ouvir o som dos meus ídolos que comprava nos supermercados Angola. Mais tarde o José Maria e mais uns sócios abriram na D. João II a discoteca “BONZÃO”. Lembro-me das filas que enfrentei quando saiam os êxitos dos bee gees,  beatles ou  outro qualquer disco da moda,  relembro-me quando consegui chegar à frente e pegar finalmente no disco que eu pensava que me escapava, que aflição!, depois mais feliz que nunca enfrentar novamente a fila para pagar a dinheiro, aquele dinheiro que eu poupava durante o mês.




1972