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19/06/2012

ÚLTIMOS DIAS EM LUANDA

Apesar de há anos haver em Angola ensino básico obrigatório, liceus e universidades para todos os que tivessem capacidade de prosseguir, serviços de saúde gratuitos, uma classe média e média alta de naturais de Angola alguns bem colocados em lugares de destaque na sociedade e na política, trabalho para aqueles que quisessem e tudo o mais necessário para a vida quotidiana, havia sempre aqueles que doutrinados em comícios de “musseque” do MPLA contestavam tudo como é hábito dos militantes dos partidos esquerdistas.

A partir desta data o comportamento dessa gente dos “musseques” mudou completamente alguns mesmo confrontando os brancos sem motivo que o justificasse só por provocação. Estava claro que havia uma doutrinação pelo MPLA nesse sentido porque Luanda era onde tinha mais influência. Felizmente aqueles que sempre trabalharam honestamente quer no comércio, na construção civil ou noutras profissões e que sempre foram tratados por igual, o seu comportamento sempre foi o mesmo que anteriormente salvo raras excepções. O pessoal que trabalhava comigo sempre me estimou até ao dia que resolvi regressar a Portugal.

Foi sugerido a quem fosse branco filiar-se num dos três partidos conforme a nossa ideologia política. Muitos escolheram a UNITA porque acreditavam em Savimbi porque conheciam perfeitamente a sua maneira de actuar no mundo e a história veio dar-lhes razão.
 
 UNITA              M.P.L.A.       F.N.L.A.

Um vizinho colocou numa das suas janelas um cartaz do Galo Negro mas quando em Luanda os partidos começaram a guerrear-se apressou-se logo a retirar o galo do poleiro. Um outro dos meus vizinhos que era militante da FNLA viu a sua casa assaltada por gente do MPLA deixando só as paredes nuas porque até as portas levaram. O que ainda restava das tropas portuguesas assistiam impávidos aos saques. Isto foi muitas vezes presenciado por mim. Até dava raiva tanta humilhação!

O MPLA nessa altura não tinha praticamente tropa armada e foram os tais presos políticos libertados das cadeias alguns criminosos presos por delito comum, que foram engrossar as fileiras dos heróicos combatentes do MPLA. Rosa Coutinho e os seus camaradas depois de parte significativa das nossas tropas se terem retirado, entregaram ao MPLA as armas do militares portugueses, fardamentos, rações e tudo o mais que restou. Agora imagine-se uma G3 nas mãos de um criminoso! Mais tarde, quando as tropas portuguesas retiraram a maior parte dos soldados nativos que serviram no exercito português passaram para o MPLA com todo o armamento.

Um meu amigo com quem contacto quase diariamente e que ficou lá algum tempo depois da independência, quando terminou o contrato com a firma onde trabalhava um dos seus colegas com quem tinha mais confiança disse-lhe se não queria trazer para o Puto uma G3. Recusou. Imagine-se sair de Angola ou entrar em Portugal com uma G3! Por curiosidade perguntou-lhe onde ele tinha conseguido a arma. A resposta foi imediata: foi o Rosa Coutinho que as mandou distribuir pelo povo! Mais tarde, veio a saber que o empregado era simpatizante da FNLA e foi assassinado. Afinal o homem o que queria era desfazer-se da G3.

Uma manhã ia ao Bairro de São Paulo e, para encurtar caminho, subi a avenida do Brasil e voltei junto ao hospital
Dr. Américo Boavida (na altura Hospital Universitário de São Paulo) por uma rua junto ao musseque Marçal que ia dar à estrada da Cuca à Francisco Newton e ao Bairro de São Paulo onde estava instalada a estação dos Correios. Saiam densas nuvens de fumo do meio do musseque e as casas dos comerciantes brancos que ladeavam a rua estavam todas a arder. Junto das casas vi automóveis também arder um dos automóveis com um branco lá dentro já carbonizado, provavelmente os comerciantes e as famílias que tentaram escapar. Era uma visão apocalíptica. Nem queria acreditar no que via! Para mim, o que estava vendo, destruiu imediatamente a intenção da paz tão apregoada pelo MPLA e pelos restantes partidos.

Não obstante todos esses problemas havia liberdade de expressão tal como havia em Portugal senão mais ainda. Para atenuar um pouco as complicações surgidas no dia a dia ia de vez em quando ao cinema ver filmes que nunca até então tinham sido autorizados a projectar tal como o filme erótico “Emmanuelle” ou o “Último tango em Paris”e outros mas foi este filme que foi projectado no cinema Avis que ficava no bairro "chique" do Alvalade que mais apreciei. Ainda hoje recordo com saudade este excelente filme.

Como de costume ia com, a minha Honda 350 Scrambler que havia comprado. Um pouco mais adiante, passando no Bairro do Rangel, estava colocada na rua uma barricada com as bicuatas dos comerciantes brancos a arder, em Outubro de 1974 todos os comerciantes que estavam nos mussseques tinham sido expulsos. Olhei para o lado do mussseque e vi um grupo de nativos armados com catanas que, apontando para a minha Mota diziam: "Vem ali mais um filho da p... do branco, vamos matar o gajo". Vendo o perigo, abrandei a marcha e aproximei-me lentamente da barreira a arder. Parei, Eles já vinham a correr para me lincharam, meti a primeira velocidade e acelerei a fundo. Tive sorte eles não terem uma arma automática caso contrário ficaria lá como os outros brancos a estorricar. Era a barbárie instalada com o consentimento do MPLA. Era este o comportamento dos heróis do MPLA tal como foi os da FNLA em 1961.

Para vos mostrar a estupidez e ignorância desses soldados de ocasião do MPLA vindos das cadeias, vou contar um caso que mais parece uma anedota mas que foi real. Uma manhã quando ia para o trabalho na Rua Machado Saldanha que ligava o Bairro Popular nº 2 à Estrada de Catete, um miúdo pioneiro do MPLA armado com uma arma feita de madeira, foi para o meio da rua e fez-me sinal para parar.





Disse para com os meus botões: - mas que é que esse puto quer? Parei e olhando para o lado do Cemitério de Santa Ana vi dois soldados do MPLA armados com G3. Um deles aproximou-se de mim e disse-me para descer da Mota porque queria me revistar e ver se eu trazia armas. Tás fodido branco da tuge (merda) ". Tinha que conseguir uma desculpa rapidamente senão iria ter problemas.

Calma camarada eu vou só nas bumbas, sem maka nenhuma, estamos juntos, sou mangolé…. Disse eu… lá me deixaram seguir, depois de bem revistado, …como poderia ser esconder uma arma na mota ou no meu corpo…, mas com o aviso que tinha que os respeitar, e ai eu sai de pianinho, e o miúdo ( pioneiro ficou a rir ).

Quando cheguei aos Escritórios da Empresa e contei o sucedido ao pessoal e disse que se assim continuasse, teria que ir para Portugal porque estava a arriscar a minha vida. Estávamos já em Junho de 1975. Eles nem queriam acreditar que eu me iria embora e um deles perguntou-me:

E quem vai ficar aqui ? Indiquei-lhe um Desenhador ( tirocinante ) angolano mestiço o Ernesto, que eu estava a ensinar mas sabia de antemão que ele não daria conta do recado, e a mais estava tudo parado... O quê? "Esse mulato, não pode!"(tal era o racismo) Tá bem disse eu, então quem é que aqui mais sabe desenhar? Silêncio.

Nesse dia à tarde estava eu no Bar do Matias no Bairro Popular nº2, De repente um gatuno sem que eu visse, deita a mão ao relógio de pulso do Luis Peralta “Luis Gordo” que era um cronómetro que se usava para mergulhar e voar, desatando depois a fugir. Naquela altura para mim era fácil deitar-lhe a mão. Olhei em volta e quem estava ali. Dois soldados do MPLA armados impávidos e serenos com um sorriso nas fuças pelo que acabavam de presenciar.

Foi feito um aviso pela rádio e nos jornais para que todos os brancos entregassem as armas que tinham em casa. Era uma maneira de nos desarmar. Constava que isto tinha sido ideia do almirante vermelho Rosa Coutinho.

A vida em Luanda estava cada vez pior e era um problema já não digo para viver mas para sobreviver, havia prepotência mesmo daqueles que tinham mais instrução pois já se julgavam os senhores da terra e com direito a tudo. Uma tarde estava no Baleizão a beber umas cervejas e à minha frente estava um grupo de angolanos (pretos) a beber e conversar. Pela conversa depreendi que eram militantes do MPLA e trabalhavam para o Governo Provisório provavelmente como subalternos. Quando acabei de beber um deles levantou-se e veio ter comigo e de modo autoritário disse-me:
Leva-me ao Palácio. Eu respondi-lhe. O xiante é da Empresa e está sem gasolina.Essa viatura agora é nossa por isso faz o que estamos a mandar. Para quem conheceu o Baleizão, havia uma rua com calçada muito estreita e íngreme que só tinha sentido descendente e ia dar à rua da Fortaleza. Eu tinha o VAUXHALL estacionado no fim da rua mesmo junto ao bar. Pensei cá para comigo se não levo este gajo ao palácio vou ter problemas mas tenho de lhe dar uma lição para lhe acabar com a prepotência. Está bem, entra ai, te levo. Acelero a 1º velocidade a toda a força e de seguida faço um pião, que o homem vendo aquela manobra arriscada de preto ia virando branco! Pára aí, você é maluco e ainda me mata. Voltei para a minha cerveja e ninguém mais me chateou.

Já havia pouca comida em casa, e nos restaurantes não prestava por ser de má qualidade e um dia até o peixe estava estragado. A dactilógrafa menina Pacavira ( era assim que a tratavamos )disse-me: Zé Antunes, hoje não tenho dinheiro para comer. Não faço ideia o que ela fazia ao seu vencimento (metia uns vales de vez em quando) mas parece que gostava de beber uns copitos ou coisa parecida.

Bom, então só tens uma solução: eu tenho arroz e azeite em casa dos meus cotas mas conduto não há. Como há ai uma cana de pesca vais até à ilha pescar e depois grelhas o peixe e comes com arroz. Já que pouco havia que fazer nos serviços pois estava tudo parado com as confusões, ela tinha tempo de sobra para ir pescar. Eu sabia que ela se gabava de ser boa pescadora.

Foi para a ilha, ali na chicala toda a manhã, e pescou mabangas na praia para isco. E nesse almoço tínhamos bom peixe para comer, mas faltava o vinho. Então ela disse que poderia conseguir os garrafões de vinho que quisesse, bastava ir com ela ao musseque onde morava.

Tens a certeza de que não há problemas? Olha que eu já me safei de umas e não me quero meter em outras. Eu não sabia que ela era militante do MPLA. Fomos no VAUXHALL da empresa ao tal musseque ao Katambor. Estacionei o carro na Avª. Lisboa e entramos no musseque, tinha andado ainda poucos metros, quando ouvi dizer. Oh ..... ainda andas com o colono?

Ela respondeu: cala a boca este não é um colono é o meu amigo, meu kamba, meu avilo é mangolé. Chegados à casa do fornecedor bateu à porta e quando a porta se abriu apareceu o suposto dono, pois a loja deveria ter sido de algum branco o homem, um preto grandalhão, olhou-me com cara de espanto mas ela disse-lhe:

Camarada, este é o meu avilo e não é um branco como os outros. Queremos comprar dois garrafões de vinho. Dentro de instantes tínhamos o vinho no carro fomos almoçar. Dali para a frente quando precisava de comida íamos ao musseque ao fornecedor que tinha de tudo, desde rações de combate e outras comidas enlatadas até aos garrafões de vinho, etc. Era mais que evidente que eu sabia perfeitamente de onde tinha vindo aquilo tudo, houve um roubo nos Armazéns António de Paula ali no Bairro do Café, mas não o comentei com a Pacavira.

Aqui está uma prova mais que evidente de que o camarada Rosa Coutinho permitiu o saque dos armazéns, a tropa portuguesa nada fazia porque parte dela queria vir embora e parte dela estava já a abandonar Luanda. No dia 21 de Junho de manhã chegou o avião e embarquei rumo a Lisboa. Quando o avião levantou voo olhei para trás para ficar para sempre na minha memória aquela terra a quem tanto dei e nada recebi !

1975


 

ANIVERSÁRIO ( 20 anos )








                                        ZÉ ANTUNES 1975

Nessa Segunda feira dia 12 de Maio de 1975 fiz 20 anos e apesar das makas todas com a vinda dos movimentos de Libertação para Luanda, quis nesse meu aniversário despedir-me da cidade de Luanda. Estava próximo a minha vinda para a Metrópole.



Mutamba

Fui trabalhar normalmente, tendo nessa manhã matabichado na Suissa no Largo de Serpa Pinto, e os meus colegas quiseram presentear-me com o almoço no Restaurante Mutamba. que logo ali depois da sobremesa e com um magnifico e saboroso bolo me cantaram os parabéns, nessa altura ainda havia muito comer mas começava a escassear a cerveja, e nessa altura já se via muito movimento de carrinhas e camionetas com os caixotes que iam despachar ao porto de Luanda.
No começo da noite com uns amigos ( Vitor Madeira, Luis Filipe, João Santos e Carlos Clara ) fomos em direcção a baixa de Luanda, paramos no kinaxixe e ficamos a olhar o pôr do sol.

Maria da Fonte ( Kinxixe )

Pelo eixo viário rumamos até ao Clube Ferroviário e fomos dar um dedo de conversa com uns amigos que estavam lá no Clube, como era segunda feira estavam só alguns amigos pois ainda estavam nas limpezas da funguta do fim de semana.









Eixo Viário

Clube onde fui a muitas farras e onde fiz muitas e boas amizades, foi no Clube Ferroviário que passei a última passagem de ano em Luanda de 1974/1975. Grande farra .



Clube Ferroviário Bungo

De lembrar que ao principio quando estudava na Escola Indústrial no Curso de Formação de Serralheiro era para ir trabalhar para as oficinas na manutenção no Bungo, logo que termina-se o curso, mas a vida deu-me outra prespectiva e ingressei na Represental como tirocinante de desenhador que era o que mais queria.
Passagem pela igreja da Nazaré em direcção à Rua Direita de Luanda

                     Igreja da Nazaré

Resolvemos estacionar a viatura o Opel Kadete que meu pai tinha trazido da Africa do Sul, era só banga pois o volante era à direita, ali perto do Quintas Irmãos e ir a pé para o nosso destino préviamente programado.
Quintas & Irmão

Para inicio de noite do comemorativo dia, fomos comer uns rissóis de lagosta e beber umas cervejas à Paris, ai fui felicitado pelos muitos amigos que se encontravam na Pastelaria ouvindo pela segunda vez o Parabéns a você.

Pastelaria Paris Cerveja Cuca

Sempre a pé passamos pela cidade e fui-me despedindo da cidade, olhando e recordando momentos vividos em cada uma delas, Quintas & Irmão, Citta, Paris, Mabilio de Albuquerque, Modas do Minho, Casa Hitachi, Robert Hudson, Espelho da Moda, Biker, Versailles,Portugália, Polo Norte, Hotel Globo e muitas mais.



Palácio do Comercio Espelho da Moda
Cervejaria Biker Hitel Globo

Ainda paramos na Biker para beber uns fininhos pois de tanto caminhar as gargantas estavam sequiosas, e ai enquanto bebiamos iamos vendo a rapaziada a jogar snoker, principalmente malta militar que nas suas folgas iam para a baixa de Luanda e para a cervejaria Biker e faziam grandes jogatanas de snoker.

Finalmente chegamos ao nosso ponto de encontro ao Amazonas para degustamos o nosso jantar. Bem comidos e melhor bebidos rumamos ao Baleizão onde se degustou a bela cassata, sempre gostei dos gelados do Baleizão, logo ali o Manel Teddy Boy me felecitou por mais um aniversário.

Bairro do Coqueiros Baleizão

Depois de todos bem tratados rumamos para o lado dos Coqueiros, para os Bares ali existentes, Joquei, Caixote, Cortiço entre outros, por onde começar era o busilis da questão, e ali nos reunimos e democraticamente e dicidimos por maioria 3 contra 2 que iniciariamos a nossa perigrinação pelo que estivesse mais proximo.

1975

VERSAILLES



Da célebre varanda da versailles era ver os mirones debruçados a darem belos piropos ás mini saias que por ali passavam.
Mas também não se apagou da minha memória quando subia ao 1º.andar e pedia o célebre fino fresquinho e os deliciosos rissóis de LAGOSTA.... sim não era camarão era LAGOSTA bem quentinhos que ao falar neles até me cresce água na boca......
Que saudades de tudo o que era bom na minha linda Luanda.....
Esses famosos rissóis de Lagosta quase me custaram .... não sei bem o quê mas coisa boa não era....e não sei se saía vivo dela..e passo a explicar..
Já em 75...talvez Maio ou Junho....no quentinho da guerra..e das prisões á toa...dos "Vou-te dizer"...eu todas as 2ªas feiras comprava quentinhos rissóis para o Almoço...chegava à Represental e comprava na Apolo 11 ali mesmo ao lado um arrozinho de tomate...e já está almoço feito.
Tinha-mos uma empregada de Limpezas lá na Represental....nova, prima da antiga que me disse " Menino vou embora para a minha terra..lá o preto e o branco não tem guerra...lá é tudo calmo....aqui em Luanda estes patrícios só conhecem a guerra...e eu perguntei aonde era esse Paraíso também queria ir....No Sul menino..mal ela sabia o que a esperava no Sul"..deixou-me a tal prima que, ao almoço nós dava-mos a mesma comida que nós comia-mos...nunca demos comida diferente aí veio a dita cuja…..
"Menino...vou-te dizer no movimento..." olha a minha cara…. porque???
"Viste a comida que me estás a dar?"
e...... abria o rissol ao meio...
e eu...com cara de parvo...
"Vou-te dizer....estás-me a dar comida com bichos (Eram os camarões e a lagosta)..vou-te dizer..."
primeiro que eu a convencesse e mostrei que todos estávamos a comer a comida com bichos…era marisco…camarões...blá..blá..
Nisto ela vira e diz---e tu és da Unita
Porque???
Tens ali o galo....
Olhei e disse...este galo?
Este galo é de Barcelos...
Que Barcelos que nada...num tem movimento com esse nome…és da Unita
Bem....nunca mais lhe dei comida com bichos...e lá se foi o galo que havia em cima da mesa do chefe...para o lixo aos cacos....porque ela estava com vontade de me filar na Tourada..e o problema foi mandá-la embora....as desculpas....o que o chefe passou com a dita empregada.
Por isso....tenham cuidado em dar comida com bichos os tais rissóis da Versailles....que eu quase todos dias comia a meio da manhã e á 2ª feira eram sempre o nosso almoço....e até hoje eu digo…lá vamos comer comida com bichos..Vou-te dizer...
 que se pode arranjar em tempos de guerra....talvez umas boas cacetadas..na tola e um galo de Barcelos.
Só tenho que recordar de mau o dia que subi as escadas daquela ave gigantesca que há 34 anos levantou voo e levar-m para nunca mais voltar....

1975

A FUNGUTA



Como já sabia que brevemente iria bazar para o “puto” faço a 12 de Abril de 1975, um sábado, a minha festa de despedida na casa do Pompeu e do Salvador na Rua de Porto Alexandre, e com tudo preparado os comes eram fornecido pelas garinas, cada uma levava qualquer coisa (frangos, pães, rissóis, sumos etc.) que distribuíam pelas mesas. As barricas estavam já preparadas com o gelo, mas faltavam só as cervejas em quantidade suficiente para o pessoal saciar a sua sede. Eis que tenho uma ajuda preciosa, o Agostinho o “Bom Moço” que se oferece para ir comigo ao musseque Rangel pois tem um primo que tomou conta de uma mercearia aquando da expulsão dos brancos dos musseques, e sabe que está bem abastecida de cerveja, e que tem muita clientela de outros bairros, pois em Luanda a cerveja era ouro e estava a escassear.

Entro no Rangel com a carrinha Datsun de minha mãe, e sou logo rodeado de jovens pioneiros com ar de quem vai armar maka, armados com armas verdadeiras, mas logo o “Bom Moço” falou: este branco é nosso avilo, por isso calma ai com as kilunzas, ele só vem aqui à mercearia do meu primo buscar abastecimentos para uma funguta.

Senti medo, ao carregar as vinte grades de cerveja, mas depois à medida que saia do Rangel senti-me mais seguro e bazamos o mais depressa possível..

A farra realizou-se com bastantes garinas e todos se divertiram, tivemos sempre companhia da tropa que andava a patrulhar o Bairro e sempre que paravam era para saciarem a sede. Foi a última farra que participei e que não me senti seguro, pois já se tinha iniciado a guerra para saber q
uem era o mais poderoso.


1975

06/06/2012

DIA A DIA EM LUANDA


O quotidiano, o dia a dia tipico das minhas rotinas, depois que comecei a trabalhar era acordar ás 07 h 00 e depois da higiene matinal, fazia-me transportar na minha torraite, rua de Serpa acima, Machado Saldanha, Estrada de Catete ai desviava para a Eugénio de Castro já na Vila Alice e ia até à Escola Indústrial de Luanda,


dois dedos de conversa com malta amiga e de seguida ia até a Escola Preparatória João Crisóstomo onde minha namorada e minha irmã estudavam, mais umas conversas e de seguida pela D.João II, ia ao Liceu Feminino ver a entrada das garinas para as aulas.


Cruzamento do Polo Norte

Seguidamente ia até ao Largo D. João IV, onde ia tomar o matabicho ( ou na Versailles, na Paris, no Polo Norte ) ou noutra pastelaria ou bar que estivesse mais afim, ou onde me encontraria com os amigos.


Depois de morto o bicho dirigia-me para a Represental onde me apresentava ao serviço pelas 08 h 30 .

Ao almoço quando não ia almoçar ao Apolo XIII, ou ao Donga, ou à Tendinha, ia a casa ao Bairro Popular nº2, onde minha mãe me presenteava com gulosos manjares, indo de seguida beber o cafézinho ao Bar S. João do Jorge e do Matias, seguindo calmamente até à Represental para complementar o resto do dia de trabalho.

Hora de jantar e voltamos ao Bar para depois tomarmos novo rumo, ou iamos ao cinema, ou ficavamos no nosso poleiro a contar anedotas até altas horas da madrugada, o Matias é que não gostava nada da brincadeira, de vez em quando aparecia de pistola de alarme para nos afugentar, o que já não ligavamos nenhuma ou pintava o muro com alcatrão para não nos podermos sentar.

Horas de ir deitar e descansar que outro dia se avizinhava, a assim passavamos os dias e logo de seguida era fim de semana, e ai outras aventuras nos esperavam. 



ZÉ ANTUNES
1974

05/06/2012

A CAÇA

                                 Impala
Victor Malheiros, filho da Dona Romana e do Sr, Malheiros, gostava muito de caçar. Certa vez  fomos visitar uns amigos às Palmeirinhas ali para os lados da  Barra do Quanza, e na Fazenda do Gomes e  Irmãos onde  havia muitos Veados e Gazelas que se alimentavam naquele imenso pasto, existia ai também muita galinha do mato que para a Muamba era uma maravilha
Numa noite decidiram ir caçar e eu fui também convidado, era a  minha primeira experiência de caça noturna, meu pai ,o sr. Victor, Sr. Rogério, Sr. Carlos Pinto e eu,  lá preparamos tudo, baterias para os faróis que foram  montados na grade da carroceria do jeep , o petisco e as bebidas, pois regressaríamos de manhã.
Entramos na fazenda e dirigimo-nos para os lados de Quenguela, e à primeira investida matamos um veado, tiro certeiro do Carlos Pinto, logo depois foi a vez do Victor e acertou numa gazela, Tendo ali feito logo o acampamento, e começou-se a esfolar os animais, acendeu-se uma fogueira e logo ali petiscamos umas febras só temperadas com sal, acompanhadas de um bom vinho cabeça de giz, e com umas cucas. Dividiu-se os pedaços de carne pelos presentes, para clandestinamente poderem ser transportados  pelas pessoas  nos seus automóveis, claro que no jeep Land Rover não vinha nada e assim poderia ser revistado o que era normal no posto do Futungo de Belas, Como primeira vez foi uma experiência cheia de andrenalina, pois sabia o perigo que corria por aquela caçada ser clandestina.
Meu pai não era que fosse batido nas caçadas, mas sempre ia para fazer companhia e dar uns tiros e quase sempre trazia umas belas peças de carne, que eram acondicionadas nos frigoríficos, e que minha mãe, e bem as temperava para nossa degustação..

Zé Antunes
1974

MINI-HONDA ROUBADA

Numa  determinada semana de um mês que  não posso precisar do ano de 1973 , fiquei com a Mini-Honda do João Silva “ João Mulato”, para a pintar e como o João  ia ausentar-se por motivos profissionais,  salvo erro ia para o Huambo (Nova Lisboa) ia montar uns balcões de frio, penso que  ele trabalhava na “Prestcold” com o Luis Manuel ( Lili) e então preparei a Mini – Honda, toda desmontada, lixada e pintei-a com uma cor castanha e com púrpurina  parecia mesmo castanho metalizado estava linda, Toda montada, levou pistão e segmentos novos, vamos fazer a rodagem.
Assim  naquele dia levo a Mini-Honda para o meu emprego, na “Represental” estacionada em frente à portaria e digo ao nosso porteiro que na altura era o Agostinho um negro fixe   (fui o único branco convidado para o casamento dele já em 1974). Agostinho pelo sim pelo não vai vendo ai a Mini-Honda,  de dentro dos vidros das montras via-se tudo, de fora para dentro não se via nada pois os vidros eram espelhados.
De repente ai a meio da tarde num  pequeno descuido só já lá estava o lugar da motinha, a Mini-Honda tinha desaparecido. Fui á policia na Mutamba ao pé da Casa de Trás os Montes e partecipei  o desaparecimento da Mini-Honda. Nessa tarde fui para o Bairro Popular nº 2 no maximbombo 22, todo chatiado e bem aborrecido pois se a Mini-Honda não aparecesse teria que ressarcir  o meu amigo João. Cheguei ao Bairro e desabafei com vários avilos lá no nosso poleiro ou seja no muro do Bar do Matias.
Eis que o Luis Manuel Van-Dúnen diz: é pá eu vi no Liceu Salvador Correia um puto com essa Mini-Honda dessa cor que estás a descrever e o candengue até falou com  a garina Milita, que lhe perguntou de quem era a Mini-Honda, e a garina sabe onde o candengue mora, fiquei logo animado e lá fomos no Opel Kadete do meu pai para o Bairro do Prenda, fui eu a Milita e o Luis Van-Dúnem e o meu pai. Deveriam ser para ai umas 20 horas quando chegamos ao Prenda, subimos ao 6º piso. Batemos à porta e veio a mãe do candengue, lá explicamos ao que iamos e o candengue já estava na cama o que até a mãe estranhou. Veio ter connosco e ia dizendo que não tinha estado no Liceu Salvador Correia, e ai o Luis Van-Dúnen  perguntou se ele conhecia a Milita ele disse que sim,  vim cá abaixo e levei a Milita para o confrontar, logo que o candengue viu a garina pôs-se a chorar e sentindo-se encurralado,  disse onde estava a Mini-Honda e que estava guardada na casa da Tia dele na Rua de Serpa Pinto, perto do Largo da Maianga. Lá fomos a tal direcção e resgatamos a Mini-Honda que estava impecável sem nenhum arranhão, fiquei mais tranquilo e nos dias a seguir já tinha cadeado e fechava a Mini-Honda no poste da electricidade em frente à “Represental”. Fui a policia retirar a queixa do desaparecimento.
O João quando chegou da sua deslocação nesse fim de semana,  lá lhe contei o que se tinha passado e ele só se ria da minha possivel desgraça, pois se a Mini-Honda não aparecesse, lá teria que o ressarcir pelo dano causado.
HISTÓRIAS DE VIVÊNCIA QUE FICAM SEMPRE NA NOSSA MEMÓRIA


                            João Mulato na sua Mini-Honda
              ZÉ ANTUNES

 
                     1973

DÁRIO E A QUEDA

Esta cena passou-se quem ia para o Palanca junto à casa do Sr. Morais  no topo da rua.  A casa era a única  e tinha um monte de terra apetitosa para uns saltos, a uns 10 m de largura. Vai daí, embalagem tomada sai salto. Um, dois, três, foi-se juntando malta,  das redondezas, cada vez mais velocidade e era diversão para todos. Até que...Em vez de 1 eram 2 na mota (o Dário a conduzir  e o Luis  atrás).Em rigor da verdade não me lembro como as coisas se passaram, ao pormenor mas juntando o que eles  me contaram , as deduções pós-situação, terão sido assim: Ao fazer um dos saltos, ele ter-se-á levantado (ou não), houve um  desiquilíbrio e quando a mota bateu no chão, fê-lo meio de lado, e foram bater de frente num poste (naqueles cinzentos, gordos, feios e com mania de se mudarem quando a mini-honda passa).Foi grave, o Dário ficou  inconsciente muito tempo, só se  lembra de acordar na casa de banho no 1º andar da casa do Sr. Morais, com ele a perguntar-me "Como te chamas?" averiguando o seu estado de (in)consciência. Não se lembrava de nada, desci e  vi a mota (a suspensão empenou de tal forma que a roda quase tocava na cabeça do motor). Subi  de novo,  não acreditando no que tinha acontecido. Conta o Luis  que ao sentir que iam bater colocou a mão dele na  testa do Dário e a puxou para trás.  Bateu  com o peito e (segundo ele) foi um estrondo. Creio que aquele gesto do Luis salvou a vida do Dário , pois à velocidade que iam, se batesse de cabeça, não havia escapatória. O medo do Dário  era  a reacção que o pai poderia ter, nem ao hospital foi. Um primo que tinha vindo de Cabo Verde e estava a viver com ele tratou de arranjar a mota, levou-a (não me lembro a quem) cortaram a suspensão e acrescentaram uns 10 cm, soldaram a coisa e assim passou  a ter uma mini  easy ryder como eu a chamava. Os quilómetros nunca mais aumentaram porque a bicha não tinha comprimento suficiente.  Após a vinda para Lisboa,  o Dário  levou-a  para Cabo Verde , vendeu-a  anos mais tarde (através do meu amigo  Moreira) e com o combu recebido (20.000$00) abriu  a sua 1ª conta no banco, que serviu para pagar  a carta de condução, perpetuando dessa forma a existência da sua  mini-honda na sua mente.


                       Mini Honda

Zé Antunes

1973

04/06/2012

TRUMUNO


Quando nós eramos  kandengues,  punhamos  os livros no chão, ali mesmo naquele largo do Preventório Infantil de Luanda, de areia batida pelos pés dos  mais velhos que passavam ali sempre que iam para as  bumbas ( trabalho ).
Naquele largo, descalçávamos os kedes (para não estragar, senão a  mãe nos ia ralhar) para fazer de baliza e com uma bola de meia bem forrada. Enquanto uns faziam as balizas e marcavam a área com os pés descalços, outros iam jogando a caçumbula.


Aí o Barata e  o  Beto mandavam a gente parar com a brincadeira e diziam:
Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha...Eles saltavam e faziam medição.  Um escolhia o Nando, o Zé Antunes, o Tó Barata, o Tino, o Antoninho e o Kubota…..
O outro escolhia o Gila, o Dário, o Beto,  o Tonito, o Perninhas, o Rui  e o Victor…. e aí iamos começar nosso trumuno.


Os trumunos de bairro, em alguns casos, não têm duração certa. Podem ir aos 90 minutos ou mais, as vezes era noitinha já e ainda se jogava. Mas também podem ter menos tempo. As substituições são à vontade dos atletas e craque que é substituído pode entrar outra vez. Às vezes os adversários são apanhados distraídos e uma equipa, na dança das substituições, fica a jogar com mais um atleta do que a outra. Cuidado! O tempo de jogo depende do cabedal dos integrantes da equipa.


Nem é futebol de campo nem de salão. Cada equipa pode alinhar com sete, oito ou mais jogadores. Joga quem aparece e se aparecerem mais do 11, há lugar para todos. Nos trumunos só marca golos quem tem o pé afinado. Muda aos cinco e acaba aos dez. Ali o golo é uma festa.


O Beto virou doutor, passa nem cumprimenta - doutor não conhece amigo da pelota. Ah, mas eu não esqueço quando aquele madié  pegava na pelota ninguém lhe agarrava, dava cada vírgula e adiós que os outros caíam com o mataco no chão, diziam até que ele ia ir em Lisboa jogar.


O Mukuna guarda-redes,  (pópilas, era cada mergulho! A garotada aplaudia).
Tinha também o Kubota...- Coitado do Kubota! Nós lhe chamávamos assim porque ele quando corria batia com os calcanhares no mataco.


É verdade, e o Rui?  Que é feito, que é feito dele? Aquele rapaz tinha uma berrida! Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava até na baliza.
E o Gila? O miúdo pequeno que pulava os quintais para roubar mangas e cajús e depois batia uma fuga das velhas que queriam lhe agarrar.  Fraquito , mas tinha uma berrida!  Nunca mais! Nunca mais! Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!...


Era bom aquele tempo, era boa a vida a fugir da escola, a trepar aos cajueiros a roubar os doceiros e as quitandeiras  às caçumbulas...


No tempo dos trumunos rijos, no campo do Preventório Infantil de Luanda,   éramos os campeões do mundo. Nas férias, as partidas duravam todo o dia e não nos restava tempo para pensar em coisas más. Apesar de amigáveis, os jogos entre bairros eram, também, a oportunidade para manifestarmos o orgulho pelo nosso bairro, pela nossa rua, pela nossa gente. Dávamos o litro para não perder. Muitos partiram pernas e tiveram outras lesões graves para evitarem a derrota.
Na hora de perder, a humilhação não era apenas nossa, dos atletas. Era da claque que nos acompanhava para nos ver jogar, era dos moradores todos lá do bairro.
Os miúdos do meu tempo, hoje quase todos acima dos 50, mostraram isto mesmo, sem pedir nada em troca. Era um tempo em que nós, os meninos, cientes dos nossos deveres, nos esquecemos dos nossos direitos.
E a gente fazia o nosso trumuno... Oh, como eu gostava!
Eu gostava qualquer dia de voltar a fazer medição com o Mukuna... escolhia o Beto, o Victor, o Tonito, o Nando,  o Dário e o Rui e íamos fazer um trumuno  como antigamente!
Ah, como eu gostava... Mas talvez um dia quando a sombra das mulembeiras for melhor,  quando todos os que isoladamente padecemos  nos encontrarmos iguais como antigamente talvez a gente ponha as dores, os medos desesperadamente no chão do largo de areia batida pelos mais velhos que iam bumbar.
Vamos então fazer o nosso trumuno...
Zé Antunes -adaptado de um mail de Vergilio Morais


1973



SELO DE POVOAMENTO



Todos nos lembramos do selo de Povoamentos. Ele perseguia-nos a toda a hora e em qualquer local. E não havia documento ou acto que não estivesse a ele subjugado. Havia selos de diversos valores.

Confesso que ao contrário do que hoje se passa comigo, naquele tempo eu via com bons olhos o pagamento daquele selo porque "sentia-se" que Angola estava em crescimento e os nossos impostos eram bem aplicados (pelo menos aparentemente).

Associado a isto veio-me à memória o célebre “selo de povoamento”, criado ao abrigo do diploma legislativo nº 3230 de 21/3/1962, um imposto “para o progresso das populações de Angola”.

Havia vários a preços diferentes, mas o mais emblemático era mesmo um rectangular com um fundo azul berrante onde sobressaiam três caras jovens de cor diferentes, que pretendiam simbolizar a multirracialidade da então “província de um vasto império”.

Esse selo tinha que ser comprado e colocado em todo e qualquer acto ou requerimento. Penso que em determinada altura nas cartas para o interior de Angola também era obrigado a partilhar o canto superior esquerdo do envelope com as estampilhas do correio. Nos anos setenta ainda se fez na Angola independente um selo com as mesmas características para a “Reconstrução Nacional”.




Zé Antunes

1973







RUCA

Decorria o ano de 1974 e ainda hoje me lembro sempre de um garotinho bem canuco,  o RUCA deveria ter 4 anos irmão do Carlos Santos (Bia) sobrinho do Chico Leite que era todo espevitado e inteligente e quando eu chegava  pelas 18H00 ao bairro e á rua da Gabela  depois de mais um dia de trabalho e como era usual ir dar um alô as Garinas ele queria ir sempre comigo para dar uma voltinha na torraite, e ainda me lembro de ele me pedir Banga Zé vamos dar uma kicorta na tua mota e lá ia com ele dar a voltinha e dar uns piropos às Garinas.
Nesse dia não sei precisar a data chego ao bairro e à Rua da Gabela e não vejo o candengue, pergunto e dizem-me que tinha ido para o Hospital pois tinha sido electrocutado na tomada eléctrica da sala quando procurava um berlinde que teria ido para debaixo de um candeeiro de Sala ( Pé ). Lá fui direito ao Hospital de São Paulo e recebo a triste noticia, que ele não se tinha salvo, No funeral foi quase toda a malta do Bairro, pois todos tinham um carinho muito especial por ele. RUCA meu amigo descansa eternamente em Paz que eu sempre me lembro de ti, com muito amor e amizade.





                  Ruca no portão da casa da Inês
Zé Antunes
1974

CASAPIANOS

Depois do Sargento Correia acabar a comissão militar, estavam alojados na nossa casa no Bairro Popular nº 2,  ele a esposa e os dois filhos, regressando a Portugal, alugou-se a casa a vários amigos Artur, Paquito, Reis, Guerra, Miguel e amigos casapianos iam lá almoçar e jantar destacando-se o Baltazar, o Passarinho, Ventura e quem tratava desta turma toda era a Mélita, pois na ocasião meus pais estavam na Africa do Sul. Minha mãe foi ter com o meu pai e ai foi operada a uma pequena maleita,  deste pessoal todo guardo boas recordações.
Artur era o mais velho da rapaziada pois já tinha cumprido o serviço militar e por Luanda ficou, alinhei com ele em muitas paródias, ficou só manchado por ter comprado o Opel Kadete ao meu pai, ter pago metade do acordado, e um belo dia foi ao  posto abastecedor da Texaco na Maianga, abastece a viatura e foge sem pagar, claro que mais tarde a conta aparece em casa do meu pai  via tribunal, lá fomos buscar o automóvel que estava acidentado, com a parte da frente toda danificada.
Paquito,  foi para lá viver em virtude de ter ficado em Luanda pois os seus pais vieram para Lisboa, ficou em Luanda a trabalhar com um tio.  Irrevente e sempre pronto para a cowboiada, casou com a Rosário, ainda hoje nos encontramos nos almoços do Bairro e vamos falando da vida e dos nossos amigos todos.
Reis e Guerra, pessoas muita calmas estavam a cumprir o Serviço Militar nos comandos, depois que se deu o 25 de Abril vieram para portugal,  o Reis nunca mais o vi, o Guerra ainda viveu em minha casa em Lisboa, mas nos anos oitente deixei de ter contactos com ele.
Dos casapianos o Baltazar, Ventura e Passarinho estiveram pouco tempo em minha casa mas há sempre uma história para contar e aqui destaco o Baltazar  que só queria dormir (muito dormia ele), começou a namorar, comprou uma torraite e já poucas as vezes o viamos, também  era guloso pelos pudins que a Mélita e a minha Mãe faziam,
Queres mais Pudim Baltazar? Perguntava a minha Mãe.
Não quero mais dona Maria do Carmo, virando a cara para o outro lado, mas estendia o prato para querer mais !!!!!!!
O Passarinho tinha tudo sobre controle, pois tinha hora para tudo, muito metódico, hora do banho, hora das refeições hora do trabalho e hora de namorar, tive o previlégio de o ir visitar à gráfica LITOTIPO e ai pude constatar toda a organização do seu trabalho. Numa das primeiras casas que eles alugaram, ia lá dormir e  constatei que o planeamento das tarefas de casa,  eram feitas pelo Passarinho e que todos estavam democráticamente de acordo sem objectar nada em contrário. O Passarinho ficou em Luanda, casou com  a Lena e só veio para Portugal em 1984.
O Ventura, mais farrista, alinhei com ele em muitas tertúlias báquicas noturnas, foi dele que veio o convite para colaborar no Campeonato Mundial de Hóquei em Patins que se iria realizar em Luanda, infelizmente foi adiado e transferido para Lisboa já devido aos acontecimentos que se registavam em Luanda. Nos anos  setentas estavamos mais vezes juntos pois ele ficou aqui por Lisboa e viveu o Verão Quente de 1975, Não poderei esquecer o Chico, que trabalhava com o Ventura e era na altura o mais velho e na minha maneira de ver o mais caseiro, nunca o vi em grandes festividades, conheci também o Beto que é desenhador como eu, e trabalhava na Lusolanda em Luanda, namorava e casou e por Luanda ficou, vou sabendo que se encontra bem.
Conheci o Miguel numa viagem no maximbombo 22 e ai ele com 16 ou 17 anos, muito triste disse-me que se tinha zangado com o pai e que vivia com uns amigos casapianos, foi ai que através do Miguel, e como estavamos na época de a juventude querer viver o “make love not a war” que conheci o grupo de casapianos que tinham chegado a Luanda e ao Bairro, e fui viver com eles uma temporada. Tempos depois o Miguel ficou em minha casa. O Miguel sempre foi uma jóia de pessoa, muito calado, calmo  e sempre disposto a partecipar nas nossas farras, de salientar que hoje depois de nos perdermos nesta selva da  europa, estamos em contacto uns com os outros. Só no ano de 2010 é que pude estar novamente com ele, pois a vida dá tantas voltas, foi o Passarinho que viu uma foto do Miguel numa revista e telefona-lhe, dando-me depois o contacto.
Lembrar ainda que na equipa dos Gansos que parteciparam num torneio de futebol de salão na Defesa Civil de Luanda eu era o único que não era casapiano, mas a convivência era boa e todos nos davamos bem. Apesar de haver algumas pessoas que tinham um pouco  de inveja, pois as garinas começaram a  sair com eles e a malta dizia que lhes vinham roubar as namoradas. Como a mota era o meio de transporte predilecto em Luanda, a rapaziada juntava-se toda e era ver a malta toda reunida a caminho das praias, ou das matinés dançantes ou cinematograficas.
Mais histórias poderiamos contar, se a memória deste tempo passado que nos castrou da convivência com nosos amigos e mesmo familiares, não fosse muitas vezes uma pequenina recordação, mas sempre que possamos recordar a nossa juventude é bom para o nosso ego, e faz-nos lembrar das nossas verdadeiras amizades.

Zé Antunes

1973

ACIDENTES

Tive vários acidentes com as motas,  desde novo que comecei a conduzir motorizadas, primeiro a N.S.U que meu pai tinha depois com a Zundap teria uns 15/16 anos


         


                                                                                                                                   


ACIDENTE EM 1972
Em Fevereiro de 1972, comprei na Auto-Liz na Estrada de Catete à entrada do Bairro Popular nº 2,  a minha motorizada Honda SS50Z , que depois de uma boa rodagem fui fazer o meu primeiro moto-cross ao Bairro do Cazenga, estávamos em Agosto de 1972, não terminei a corrida, porque entretanto dei uma queda ao descer o declive em que fui projectado para a frente saindo da mota em vôo, conclusão roda dianteira da moto com uns raios partidos e jante empenada, quanto a mim o joelho da perna esquerda com rotula partida, umas escoriações, alguns  arranhões e o corpo todo dorido, ainda andei 3 meses com  gesso, na parte de trás da perna e a fazer sondas para extrair o liquido da rótula.



ACIDENTE EM 1973

Numa outra vez estamos já em Setembro de 1973, não sei por que carga de água, tive uma desavença com o meu irmão, e depois do almoço peguei na mota e ao chegar ao Largo na rua da Gabela fui embater no Toyota Celica de um cota que morava no Sarmento Rodrigues, resultado, mota com a forqueta dianteira empenada, mais a jante e um pneu que rebentou, a viatura com o capom todo amassado que teve que ser pintado, e eu fui para o Hospital de São Paulo com a cana do nariz fracturada, sai as 12h00 do dia seguinte, estive 15 dias em casa, com uma grande batata no nariz, o mais proveitoso deste acidente é que tinha visitas das garinas todos os dias em casa e as tardes eram bem passadas.

ACIDENTE EM 1973

Num belo domingo em Novembro de 1973, a caminho da praia da Corimba e para não ser intersectado pela policia, iamos direitos ao Aeroporto pela vala e dali até Benfica e depois desciamos o morro e estávamos na praia do ti Lopes e da ti Conceição na Corimba. Nessa manhã levava à pendura  um  avilo  que era amigo do Jaques, e não sei o que se passou que ao descermos o morro em direcção à estrada da samba a mota fugiu na areia atirando-nos para o meio do pó da estrada, resumindo já não houve praia pois fiquei todo arranhado que até parecia um cristo.

ACIDENTE EM 1974

Pior acidente que tive , e não foi por ter mais ou menos ferimentos foi pelo que aconteceu à Maria João que morava na Praia do Bispo.  
Numa noite de Sábado em Outubro de 1974 e percorrendo os bailaricos de Luanda, para podermos dar um pé de dança, eu e a minha amiga Maria João resolvemos ir até ao fundo da ilha á praia da Barracuda onde na altura parava muita malta, uns para namoricar outros para conversar e beber uns copos, depois de estarmos um bom tempo com alguns amigos, disseram-nos que havia uma festa  no Bairro da  Vila Alice e que lá estariam alguns amigos em comum. Agradecemos a informação e pusemo-nos a caminho a Honda 350 Scrambler até que andava bem e era maneirinha de conduzir, mas ao chegar à Rotunda da Praia da Floresta, não consegui fazer a rotunda e fui bater com a jante da frente no lancil do passeio, tendo a Maria João sido projectada por cima de mim, indo de rastos mais de 20 metros com o peito a raspar o alcatrão, ficando o peito dela do lado esquerdo todo desfeito, ela apesar de algumas cirurgias já  em Portugal nunca ficou com o peito recuperado, eu fui de rastos com as nádegas,  que ficaram em carne viva, mas as calças LOIS não rasgaram, grande aparato e fomos transportados para o Hospital Maria Pia , eu sai na 2ª feira seguinte, a Maria João saiu um mês depois.


ACIDENTE EM 1975

Numa tarde fui ao Castelo S. Jorge ter com os meus amigos,  Octávio, Nascimento e o José Manuel Mendes que tinha chegado de Angola, ele trabalhava na Petrangol e por lá ficou mais uns aninhos,  estávamos em fins de Novembro, já se tinha dado a independência e em Lisboa já tinha acontecido o 25 de Novembro, depois de mena cavaqueira no bar do Daniel e como  a Mini-Honda que tinha comprado antes de vir e que tinha alterado com um motor SS50Z de cinco velocidades, com suspenssão traseira,  meto-me a caminho desde o Castelo até à Avª da Liberdade onde residiam meus pais, venho a toda a velocidade na Rua Augusta e depois de passar os sinais em frente à Pastelaria Suissa,  na curva do Teatro a Mini–Honda devido ao óleo dos maximbombos resvala atira-me ao chão e vou  de rastos ficando todo arranhado e dorido. Como o José Cabrita andava-me sempre a pedir que lhe  vende-se a Mini-Honda, foi na hora, foi vendida e  ainda existe essa Mini-Honda está em Santarém.


ACIDENTE EM 1976

Depois de vir de Angola o pessoal amigo ia para a funguta da esplanada de  São José em Cascais, bebia-se uns copos e dançava-se muita música africana.  Numa dessas vezes e reconheço depois de beber uns finos a mais estava a choviscar e digo ao João da Lusolanda,  para irmos embora,  e assim fizemos,  tudo normal sei que para não cair na curva da Morte em Cascais estava o piso escorregadio devido á cacimba que caia, fomos parar no meio do Jardim junto a fortaleza sem bater em nada nem em bancos do Jardim, nem nas diversas árvores e arbustos que ai existiam. Não nos aconteceu nada, nem um arranhão, ainda hoje o João me pergunta como eu fiz aquilo e eu digo que não sei que não tem explicação.
Entre estes acidentes tive várias quedas, mas por serem o trivial de quem anda em duas rodas que não são aqui narrados.

Zé Antunes
1976

BASSAÚLA

Cuidado com esse Cainga  “O Barbosa “ era o terror dos motoqueiros, até que um dia o Zé Antunes ( Russo ) vinha de uma prova  de motocross,  no bairro da Terra Nova em Luanda com a mini honda, a fugir pelo meio das árvores  junto ao Ngola cine,  pregou-lhe um nó cego, deu-lhe  um baile  tal  que o o mr.  Barbosa malhou com a sua Harley, e lá teve que  desmontar e arranjar  uma transmissão dianteira.
Zé Antunes chegado a casa guardou a mini- Honda e nessa tarde não saiu de casa com medo que os caingas estivessem à sua espera.



      Mini Honda

Zé Antunes

1973