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01/11/2015

GENTE ANÓNIMA " ILUSTRE"

Eu quando cheguei a Lisboa em 1975, e por aqui fiquei a morar na Av. da Liberdade, com o passar dos tempos, passei a perceber certas particularidades por vezes tão desconcertantes nesta cidade, fui descobrindo uma multidão anônima que parecia transitar invisível aos olhos das pessoas. Dentre esses anônimos alguns se destacaram ao ponto de fazer parte do dia-a-dia dos transeuntes e da história da cidade.

O FALSO CEGO – O Homem que nos anos 80, teria os seus 50 anos de idade ficava na Estação do Metro do Rossio com uns óculos de lentes muita grossas e uma bengala, fingindo-se cego ia pedindo esmola, como a mentira tem perna curta, mais tarde foi descoberta a sua malandrice. Deixei de o ver .
 

A VIÚVA – Mulher já com bastante idade, Enrolada em panos pretos Esmolava na esquina da Rua 1º de Dezembro com o Largo da Estação, ali ao pé da entrada do Restaurante Beira Gare implorava pela caridade chorando a sua dor de viúva. Descobriu-se que era o próprio filho que a punha ali desde manhã até ao anoitecer, a pedir esmola. A policia descobriu a farsa, e ela nunca mais foi vista.


                       Foto da net
 

A JOANA MALUCA DE LISBOA - Andava nos caixotes do Lixo a apanhar papel . Diambulava pelo Rossio e pela Praça da Figueira . Era uma mulher , alta e esguia que insistia em usar pó-de-arroz e um incrível batom vermelho a delinear-lhe a boca sem dentes. Uma rosa de plástico enfeitava-lhe os cabelos. Não deveria tomar banho á muitos meses. Sempre que arranjava uns centimos , era no álcool que se metia e depois de ficar já com o chamado grão na asa , gritava, xingava, ameaçava as pessoas. Só sossegava quando chegava a viatura da Policia. Um dia desapareceu.deixamos de a ver

 

                                 Foto da net 


TÓGUTO – Amigo da nossa geração, também veio na ponte aérea de Luanda, a profissão dele era aprendiz de mecânico, nunca conseguiu trabalho, ia vivendo da caridade de muitos de nós. Arrumava automóveis ali na Rua dos Sapateiros e sempre se ia alimentando com as esmolas que lhe davam, só que meteu-se na droga e foi a sua ruina, numa das vezes estivemos a admira-lo, sempre pedrado ele arrumava os carros dormia em pé , comia uma maçã e bebia uma Cerveja Super – Bock tudo ao mesmo tempo, e sempre que tinha 500 Escudos até de táxi ia á meia Laranja no casal Ventoso comprar a dose, Um belo dia do ano de 2006, recebemos a noticia que tinha falecido, com uma overdose.


ZÉ HUILA – Em 1976, quando isto se passou, eu tinha 21 anos de idade, e estes foram os meus primeiros contactos com quem estava agarrado á droga ( Zé Huila) que era empregado bancário em Sá da Bandeira e tinha chegado a Portugal na Ponte Aérea, deambulava pelo Rossio embrulhado num cobertor muito seboso, muito sujo, e já só se alimentava com um bolo de arroz esfarelado e metido dentro de uma garrafa de coca cola.
Estava senil , há várias versões que circulavam sobre a sua doença. Sei que a policia ás vezes o levava para a Mitra e até banho e roupas lhe davam. Mas ele fugia e aparecia de novo enrolado no cobertor, faleceu ainda jovem no ano de 1981.


FATIOTAS - Uma figura digna de um filme, bem vestido fatinho azul escuro camisa branca uma rosa na lapela, sapatinho de verniz preto. Intitulava-se “poeta incompreendido”. Circulava pela Praça Dom Pedro IV ( Rossio ), no passeio em frente ao Snack-bar PIC NIC e ao café Nicolas em cima de um pequeno caixote, costumava ai declamar seus versos. Morreu atropelado na Rua do Ouro.


EMPLASTRO - Uma das figuras actuais é o adepto do F.C. Do Porto, Fernando Alves, mais conhecido por “ emplastro”, tornou-se figura mítica por ficar junto aos jornalistas quando estão em diretos para a Televisão. De certeza que em Portugal todos o conhecem.

Depois destes anos todos a dizer que Jorge Nuno Pinto da Costa era seu pai e de fazer juras que é do F. C. do Porto, apareceu num video a dizer que é adepto do Benfica e que Filipe Vieira é seu Pai. Última vez que o vi foi no Estádio do Restelo num jogo do Belenenses. Mas o jornalista Eugénio Queirós do jornal Record descreve tudo ou quase tudo da vida do “
O emplastro "


http://www.record.xl.pt/revista-r/detalhe/o-emplastro-978366.html

 
 

                                  Foto da net 


DONA ROSA A FADISTA - Há poucas pessoas que não tenham já visto e ouvido a Rosa Francelina Dias Martins mais conhecida somente por Rosa, uma invisual que toca ferrinhos e canta fados e canções conhecidas portuguesas enquanto espera por uma dádiva na sua caixa de madeira com ranhura, ali junto á casa da Sorte no Rossio. Chegou a dormir na rua enquanto procurava uma casa para ela.

 

                                       Foto da net 

Dormia onde podia pagando com o dinheiro que ganhava pela venda dos bilhetes da lotaria. Foi roubada quando vendia lotaria e mais tarde concorreu a um bairro social do Monte da Caparica e foi-lhe atribuida uma casa onde habita até aos dias de hoje. Dizem que foi ao Estrangeiro gravar um C.D. No rossio deixei de a ver. Dona_Rosa
 
                               Foto da net 


O HOMEM SEM ROSTO - Chama-se José Mestre, e tem perto de 60 anos. É conhecido por ter a face completamente desfigurada não se lhe reconhecendo qualquer contorno do rosto. Há mais de vinte anos que é pedinte no largo do Rossio por não ser capaz de arranjar trabalho nestas circunstâncias. O tumor que foi aumentando desde os tempos de adolescente. Recusava-se a fazer qualquer tipo de cirurgia devido à sua opção religiosa, testemunha de Jeová, religião que é contra as transfusões de sangue.


José Mestre, o ‘Homem sem rosto’, que já foi operado nos Estados Unidos ao tumor, já está em Portugal e foi observado pelo cirurgião plástico Fernando Gomes Rosa, no Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), Não o tenho visto na Baixa de Lisboa. 
 

 

 

 
 
                                    Foto da net 

 

OS METRALHAS - Os metralhas que arranjavam maneira de vender e consumir, droga, eram três irmãos, quando apareciam no Rossio pediam dinheiro a quase todas as pessoas dizendo que era para se alimentarem, todos sabiam que era para a droga, o irmão mais novo matou o irmão mais velho à facada, no ano de 1983, os outros dois faleceram no ano de 1985, causa da morte “ Droga” nesse ano também faleceram por causa da maldita droga, os irmãos o “Tico” e o “Teco”, que andavam com eles, eram filhos de uma ilustre família vinda de Angola que moravam no Estoril.



HOMEM ESTÁTUA - Entre as a personagens do dia a dia de Lisboa, há um homem estátua verdadeiramente singular.
António Gomes dos Santos é dos motivos mais fotografados na baixa lisboeta pelos turistas. É o homem estátua. Uma ocupação que nasceu por causa de um problema de saúde.
Há 25 anos foi-lhe diagnosticada uma neurodermite, uma doença nervosa sem cura que impede os doentes de trabalharem, a não ser que fiquem imóveis.
 
 


                                      Homem estátua de Lisboa tem 4 recordes mundiais

Ver mais em:
http://www.lux.iol.pt/internacional/recorde-mundial/video-homem-estatua-de-lisboa-tem-4-recordes-mundiais


Eu, nas minhas andanças por Lisboa conheci muitos desconhecidos que se tornaram “ “ilustres”, e que dariam páginas de histórias.


 ZÉ ANTUNES

2015 

13/10/2015

CRONOLOGIA DO VERÃO QUENTE DE 1975

Já muito se tem falado no Verão Quente de 1975 e porque passados 40 anos ainda nos recordamos do que foi esse período épico, com as amplas massas populares a tomarem em mãos a construção dum futuro melhor, no qual, então, acreditavam.

Período épico e alucinante, com um ritmo desenfreado de acontecimentos naquele chamado «verão quente»

O período que ficou conhecido em Portugal por Verão Quente de 1975 teve a sua origem no chamado Caso República no mês de Maio e como consequência crescentes tensões entre grupos de esquerda e de direita, que se confrontavam nessa época.

Paradoxalmente, é precisamente no epicentro deste período que a população derrota nas urnas, em 25 de Abril de 75, as vias radicais, dando a vitória ao PS e o segundo lugar ao PPD .

Alguns dos mais importantes acontecimentos desse ano épico de 1975

Comecemos pelo pelo principio desse ano.


15 de Janeiro - Acordos de Alvor , assinados, nos termos do qual Portugal reconhecia a independência de Angola, transferindo o poder para o MPLA, a UNITA e a FNLA.

11 de Março - Divisões profundas entre oficiais do MFA. A ala spinolista é levada a tentar um golpe de estado. Insurreição na Base Aérea de Tancos e ataque aéreo ao Quartel do RAL1. 

12 de Março - São extintos a Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado e em sua substituição é criado o Conselho da Revolução. O Governo dá início à execução de um grande plano de nacionalizações (Banca, Seguros, Transportes etc...).

26 de Março - Tomada de Posse do IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves. 

31 de Março - O Decreto-Lei n.º 169/75 de 31 de Março cria o IARN, Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais. A este competia "(…) estudar e propor superiormente as medidas necessárias para a integração na vida nacional de todos os cidadãos portugueses" e "(…) encarregar-se dos assuntos que superiormente lhe forem cometidos e que dentro da sua esfera de acção possam estar directa ou indirectamente ligados ao processo de descolonização e ao possível retorno de emigrantes."

16 de Abril - Nacionalização da Siderurgia Nacional e das várias sociedades exploradoras do serviço público de produção, transporte e distribuição de energia eléctrica.

 25 de Abril - Eleições para a Assembleia Constituinte com uma taxa de participação de 91,7%. Resultados dos Partidos com representação parlamentar: PS 37,9%; PPD 26,4%; PCP 12,5%; CDS 7,6%; MDP 4,1%; UDP 0,7%.

30 de Abril - Terminava a Guerra do Vietname, o conflito que proporcionou à maior potência mundial, os EUA, a grande derrota de sua História. Enquanto os cidadãos americanos eram retirados da embaixada do país em Saigão, por ordem do presidente Gerald Ford a capital, tomada pelos guerrilheiros vietcongues, passava a se chamar Cidade de Ho Chi Minh.

Leia mais sobre esse assunto em
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 15 de Maio - Oficialmente começa a Ponte aérea de Angola chegam 1500 refugiados a Lisboa. Gonçalves Ribeiro, mais tarde alto-comissário para os refugiados, afirma o seu pudor em abordar a matéria em causa, que define como “a experiência da sua vida”. Mal ou bem, é ele o nome que todos apontam como coordenador do air-lift-ponte aérea-que em três meses e meio transportou quase meio milhão de pessoas de Nova Lisboa e Luanda para o aeroporto da Portela. rapidamente e em força" tornou-se palavra de ordem para os cerca de 500 mil portugueses que (ainda) permaneciam na ex-colónia, no verão de 1975. Com o escalar da guerra entre os movimentos africanos, só restava salvar a pele - e deixar toda uma vida para trás ler mais

 
Embarque na Ponte Aérea ( Foto da net )


 15 de Maio – Dão-se as primeiras ocupações de casas vagas. As ocupações de casas, em ritmo vertiginoso, vêm a ser legalizadas por Decreto-Lei de 14 de Abril (D-L nº 198-A/75), que obriga os senhorios a celebrar contratos de arrendamento não só em relação às habitações já ocupadas, mas em relação a todas as que se encontrassem ainda devolutas, funcionando as câmaras e juntas de freguesia como mediadoras imobiliárias. Por isso, logo em Maio, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa apela às comissões de moradores que assinalem os fogos vagos para que sejam “requisitados a favor da população necessitada”.

 Ocupação de casas ( Foto da net )


 
19 de Maio - Início do chamado Caso República, Raul Rêgo é afastado da direcção do jornal pelos trabalhadores, acusado de ter tornado o República no órgão oficioso do Partido Socialista.

25 de Maio - Ocupação pelos trabalhadores das instalações da Rádio Renascença, propriedade do Episcopado.

 27 de Maio - Revogação da Lei do Divórcio. Decreto Lei nº 261 /75

 28 de Maio - Prisão de elementos do MRPP 


 
 Caso República ( Foto da net )
 

30 de Maio - chegada a Lisboa da Marinha Ribeiro vinda de Angola acompanhada da mãe indo directamente para Guimarães.

6 de Junho - Em Ponta Delgada realiza-se a primeira manifestação pública da Frente de Libertação dos Açores (FLA). Este movimento sem grande expressão e peso político reivindicava a autodeterminação dos Açores.

21 de Junho - chegada a Lisboa de José Antunes vindo de Angola acompanhado com a mãe Maria do Carmo e irmã Amélia Antunes

25 de Junho - Independência de Moçambique.

05 de Julho - Independência de Cabo-Verde.

12 de Julho - Independência de S. Tomé e Príncipe.

13 de Julho - Assalto à sede do PCP em Rio Maior. Têm aqui início uma série de acções violentas contra as sedes de partidos e organizações políticas de esquerda, registadas por todo o país mas com maior intensidade no Norte e Centro.

Além de politicamente ter acontecido estes escaldantes episódios nesse verão de 1975 foi mesmo tórrido. Durante dias seguidos, sobretudo nos meses de julho e agosto, os termómetros subiram acima dos 35 graus, as florestas (incluindo a serra de Sintra, a sul, e a serra da Agrela, a norte) foram pasto de incêndios com grandes labaredas e as populações debandaram em massa para as praias. Só no segundo fim de semana de julho, cerca de meio milhão de pessoas, vindas de Lisboa e arredores, invadiram os areais da Costa de Caparica, provocando engarrafamentos de mais de duas horas nos acessos à Ponte 25 de Abril e filas intermináveis nas paragens de autocarros da Praça de Espanha e de Alcântara, com zaragatas e desmaios. A água faltou com frequência e, nas cidades, a população procurava abrigo e algum conforto nas sombras dos jardins.

29 de Julho - um Domingo, em pleno PREC, ocorreu um episódio caricato e ao mesmo tempo exemplar do tipo de país que somos: 89 agentes da DGS, polícia política do regime que caiu com Marcello Caetano estavam presos, juntamente com mais 754 colegas, em Alcoentre, futura prisão modelo de segurança, mas na altura "mera fantasia", fuga espectacular e que ocorreu do modo mais simples e prosaico que é costume: bastou que dois agentes da temível "PIDE/DGS" explorassem as fraquezas do sistema de segurança, para se porem ao fresco e só não aconteceu o mesmo aos restantes por mera sorte e voluntarismo de um GNR que " ao presenciar a passagem de pessoas pelo topo do morro, a praça da GNR apercebeu-se de que se tratava de uma fuga"...
O jornalista Hernâni Santos de “O Jornal “ deu conta do modo como foram ridicularizados...

08 de Agosto - Tomada de posse do V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves. 

11 de Agosto - Quando muitos dos militantes do P.C.P. tinham já saído da sede, que um grupo de marginais, chefiados pelos célebres cadastrados irmãos “Corrécios” com desperdícios a arder, pegaram fogo ao rés-do-chão da casa onde funcionava o escritório de uma empresa de camionagem, onde se encontrava um bidão com combustível cuja explosão se propagou rapidamente à velha casa, sede do PCP. Este ataque levou à destruição total do edifício, bem como do seu conteúdo.

18 de Agosto - famoso discurso de Vasco Gonçalves (em Almada). 

Em plenoVerãoQuente de 1975, Portugal suspendeu a aplicação dos Acordos de Alvor em Angola, assumindo, assim, a sua impotência para travar a escalada do conflito que opunha MPLA, FNLA e UNITA. E que levara já o movimento de Agostinho Neto a expulsar de Luanda as restantes formações.

22 de Agosto . Em Lisboa, Vasco Gonçalves vivia os últimos dias como primeiro-ministro e Carlos Fabião (que chefiava o Estado-Maior do Exército) tentava, com o apoio de Costa Gomes, formar um executivo que lhe sucedesse, evitando o braço-de-ferro que já se anunciava entre a Esquerda Militar e o Grupo dos Nove, tendo Otelo Saraiva de Carvalho pelo meio. 

25 de Agosto - Oficialmente é criada, a FUR (Frente de Unidade Revolucionária), claramente afecta ao COPCON. Aderem: FSP, LCI, LUAR, MDP/CDE, MES, PCP, PRP/BR e 1º de Maio.

 Manifesto da FUR ( Foto da net )


Em Agosto de 1975, surgiram os SUV (Soldados Unidos Vencerão). Os SUV eram grupos de militares que actuavam no interior dos quartéis com vista a promover a auto-organização política dos militares. Tratava-se de uma organização clandestina no interior das Forças Armadas e incluía, não só soldados como também alguns graduados.

Fotos da net 



30 de Agosto - Vasco Gonçalves é demitido do cargo de Primeiro Ministro. Iniciam-se as negociações para a formação do VI Governo Provisório, PS/PPD/PC.

01 de Setembro - Ocupação do Banco de Angola pelos Retornados em Lisboa, para trocarem escudos Angolanos por escudos Portugueses.



 Banco de Angola ( Foto net )
 

02 de Setembro
- pronunciamento de Tancos contra Vasco Gonçalves

10 de Setembro - Desvio de 1000 espingardas automáticas G3 do DGM 6 em Beirolas.

10 de Setembro - Em Angola começa a ponte aérea; 1500 refugiados chegam a Lisboa. 

11 de Setembro - Manifestação dos SUV no Porto, numa tentativa de criar no seio das Forças Armadas uma zona de influência adepta do Poder Popular de Base como advogavam alguns partidos da chamada esquerda revolucionária.

19 de Setembro - Posse do VI Governo Provisório, chefiado pelo almirante Pinheiro de Azevedo

21 de Setembro - Bomba na messe da Marinha em Cascais onde dormia Pinheiro de Azevedo.

21 e 22 de Setembro - Agudiza-se a luta política nas ruas: manifestação dos Deficientes das Forças Armadas com ocupação de portagens de acesso a Lisboa e tentativa de sequestro do Governo.

25 de Setembro - Nova manifestação dos SUV em Lisboa. Na intenção de retirar poderes ao COPCON o Governo cria o AMI - Agrupamento Militar de Intervenção.

 Fotos da net 

 
27 de Setembro - Manifestantes de partidos de esquerda assaltam, destroem seguido de um incêndio as instalações da Embaixada de Espanha como medida de protesto contra a execução pelo garrote de cinco nacionalistas bascos, decidida pelo governo ditatorial do Generalíssimo Franco.

 

 Embaixada de Espanha em Lisboa

29 de Setembro de 1975, os estúdios de várias rádios e da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) foram ocupados por decisão tomada numa reunião onde estiveram presentes Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro e também Presidente da República interino (Resolução DD1479), vários elementos do Conselho da Revolução .

08 de Outubro - 50 feridos nos confrontos junto ao Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, no Porto ,

 09 de Outubro - quando colavam cartazes junto à Praça do Comércio, um grupo do MRPP foi atacado por elementos da UDP e da ORPC (m-l) que os empurraram para o cais e os atiraram ao Rio Tejo, resultando daí a morte por afogamento de Alexandrino de Sousa, que não sabia nadar

15 de Outubro - Manifestação dos SUV em Évora.

18 de Outubro - Incendiada sede da UDP no Porto.

06 de Novembro - grande debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal na RTP, com o célebre «olhe que não, olhe que não!»

 «olhe que não, olhe que não!»
 

 07 de Novembro - Por ordem do Governo, o recém-criado AMI, faz explodir os emissores da Rádio Renascença.

09 de Novembro - Famosa manifestação a favor do governo no Terreiro do Paço, com o deflagrar de granadas de fumo, dando origem à celebre frase do primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo: «o povo é sereno. É só fumaça».

 11 de Novembro - Independência de Angola.

 

 Recolha da Bandeira Portuguesa
 

12 de Novembro - Manifestação de trabalhadores da construção civil cercam o Palácio de S. Bento sequestrando os deputados. Em resposta às vaias dos trabalhadores o primeiro-ministro respondeu com um contundente “vão todos bardamerda”.

20 de Novembro - o Governo entra em greve e suspende o exercício da sua actividade, acto inédito no mundo. O Governo anuncia a suspensão das suas actividades alegando "falta de condições de segurança para exercício do governo do país".

Nesse chamado Verão quente a indisciplina, notava-se na rua nos estabelecimentos Comerciais e também nas viagens de comboio que fazia entre Lisboa e Porto, quando ia passar alguns fins-de-semana a Guimarães. Assisti a cenas bastante lamentáveis, nos comboios especiais para militares, protagonizadas por alguns elementos quando eram abordados pelo revisor, pois houve uma altura em que havia uma recusa generalizada em pagar a viagem e já quase ninguém comprava bilhete, o que provocava conflitos com os funcionários da C.P., isto numa altura em que o preço das viagens para militares correspondia a 50% do bilhete normal, antes da redução que ocorreu posteriormente em que o preço passou a ser de ¼ do custo total.

O chamado “verão quente de 1975” foi um período alucinante, que só terminaria no dia 25 de Novembro. O 25 de Novembro de 1975 foi o golpe militar que pôs fim à influência da esquerda radical iniciada em Portugal com o 25 de Abril de 1974. Após um Verão Quente de disputas entre forças revolucionárias e forças moderadas, pela ocupação do poder do  Conselho da Revolução, civis e militares.

Na continuidade do 25 de Novembro o PREC acalmou a sua politica. Ramalho Eanes, sendo de Esquerda não era comunista e por conseguinte durante algum tempo o ambiente politico social serenou. Mas os derrotados do 25 de Novembro, os utópicos da revolução não ficaram quietos nem calados.

Mais tarde começaram a explodir “ engenhos” reivindicados pelas chamadas Forças Populares 25 de Abril ( FP25 ) foram uma organização armada clandestina de extrema – esquerda que operou em Portugal entre os anos de 1980 a 1987 . Ainda está para contar toda a história desta organização clandestina.

A figura mais conhecida das FP 25 foi Otelo Saraiva de Carvalho que nunca se assumiu como membro do grupo armado FP-25. Foi condenado e amnistiado. 

 

 Frente Popular 25 de Abril

ZÉ ANTUNES

1975
 





 
 

27/09/2015

ASSALTO À EMBAIXADA DE ESPANHA

Assalto à Embaixada de Espanha. Invoca-se um protesto contra os cinco Bascos que vão ser condenados á morte, três deles por fusilamento e dois deles executados a 27 de Setembro de 1975, por meio de garrote. A manifestação contra a execução dos bascos pelo regime de Franco, a embaixada de Espanha em Lisboa é assaltada, saqueada e incendiada.
 


 Embaixada incêndia ( foto net )


 Em Lisboa, em contrapartida dos ataques ao partidos de esquerda, é assaltado na noite de 26 de Setembro o consulado de Espanha por elementos da extrema-esquerda conotados com a UDP, porventura infiltrados por elementos não identificados, a pretexto da repressão em Espanha de independentistas bascos. A embaixada é incendiada a 27 de Setembro . Imagens dos assaltos são destacadas nos EUA pela cadeia de televisão CBS.
 
 
 
                         Prédio da Av. da liberdade 141 e Embaixada de Espanha




Já era do domínio público que em Espanha, por sentença dos tribunais, foram condenados à morte os jovens terroristas, o que provocou forte reacção em toda a Europa, tanto no campo diplomático como nas áreas populares, muito especialmente por Franco não ter comutado a pena. 



 

 Os últimos assassinados por Franco
 

 
Dois dos condenados foram executados e, entre nós, a reacção fui muito empolada, nomeadamente pela Rádio que, a partir da meia-noite do dia de execução, principiou a incitar as massas populares para, como desagravo, assaltarem a Embaixada e o Consulado de Espanha. Até o poeta Miguel Torga, redigiu um texto de protesto (que muito contribuiu para encorajar o assalto) e que foi lido aos microfones da então chamada Emissora Nacional pelo próprio e depois repetido por um dos poetas do PC, Ary dos Santos.


 
 Ary dos Santos
 

 
Condenados à morte por terrorismo, não se livraram da pena, apesar dos pedidos de clemência enviados de todo o Mundo. Os dois ‘etarras’ morreram presos ao garrote – uma máquina de horrores que aperta o pescoço aos condenados até os olhos lhes saltarem das órbitas. 
 
 
 

 Garrote ( foto net )
 

 Vivendo eu na Avenida da Liberdade no número 141 – 5º Andar, na altura dos acontecimento , acompanhei o saque à embaixada a par e passo.



     Predio da Av. da liberdade 141


 Os manifestantes forçaram a entrada, lá dentro destroem quadros de El Greco, rasgam os vestidos da embaixatriz e as casacas do embaixador, roubam jóias, lançam fogo ao mobiliário. Grossas colunas de fumo saem pelas janelas. No parque Mayer e na Rua do Salitre a população apoia e grita palavras de ordem : “A embaixada está a arder… E bem!” “ Deixem arder”.
 Quando nessa noite saí de casa para ir ver um espectáculo no Parque Mayer, eu e mais dois amigos o Carlos Clara e o Fernando Aderito dirigimonos à Cervejaria Ribadouro, para podermos jantar. Lá chegados constatamos que a Cervejaria se encontrava fechada por causa da manifestação, por ali ficamos a ver os acontecimentos, depois do incêndio extinto lá fomos assistir no Teatro Variedades, a revista à portuguesa “Adeus Valentina “ com a Famosissima Laura Alves. No fim do espetáculo pude ver e constatar o caos que ficou a fachada do Edificio e todo o lixo na rua. 

 



 Manifestação
 

O governo português fora informado por governos amigos de que em Portugal se previam represálias particularmente violentas. Tomaram-se as providências usuais nestes casos: o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Costa Gomes, chamou o general Fabião e responsabilizou-o pela segurança das missões diplomáticas espanholas, o general Fabião transmitiu as suas ordens à força operacional, que era o COPCON comandado por Otelo.

 

 Prédio da Av. da Liberdade 141 e Embaixada de Espanha
 

Este escolheu o RALIS como unidade encarregada de assegurar a referida segurança. Como era de prever, dado o caos reinante, o RALIS recusou-se a sair para cumprir a ordem recebida. Portanto, a responsabilidade principal pelo sucedido cabe aos oficiais que estavam de serviço naquele Regimento, um dos quais era o capitão Diniz de Almeida. A PSP também teve como missão defender a Embaixada mas, faltando-lhe o apoio do RALIS, com que contava, viu-se impotente para conter o ataque provocado pela Rádio. Sabia-se todas as ordens que foram emitidas pelo "quartel-general" aos marginais (entre os quais muitos militantes de partidos de esquerda) que assaltaram a embaixada e o consulado.
 

 
 Francisco Franco
 
 

No dia 20 de Novembro de 1975 morre o general de seu nome completo Francisco Paulino Hermenegildo Téodulo Franco y Barramonde, general e ditador fascista espanhol que governou a Espanha desde 1939, quando venceu a guerra civil.

A 29 de Dezembro de 1978 a Constituição espanhola aboliu a pena de morte, exceto em casos previstos lei militar em tempo de guerra. No seu artigo 15, o Código Penal Militar prevê a pena de morte como punição máxima por traição, rebelião militar, espionagem, sabotagem ou crimes de guerra.

 
ZÉ ANTUNES

1975







 
 

 

 


04/02/2015

O MEU EXAME DO “PROPEDÊUTICO“


No ano letivo de 1975/1976 matriculei-me na Escola Industrial Machado de Castro, no número 41 da Rua Saraiva de Carvalho, em Campo de Ourique, ali perto da Avenida Alvares Cabral, trabalhava de dia e á noite estudava para acabar o chamado Propedêutico que era uma preparação para a entrada no Instituto Superior Técnico recordar os exames do Propedêutico que, globalmente, me correram bem, para quem, durante o ano letivo, tinha feito quase tudo menos assistir às aulas e estudar. As provas escritas deram, pelo menos, para ir à oral a todas as disciplinas - mesmo a Geometria Descritiva, em que era a disciplina mais fraca na qual tive apenas 8 valores! – razoável a Matemática, claro, na qual tive 13 valores. Mas, desta vez, havia a 2ª chamada, em Setembro e eu tinha que acabar o ano. Estava cansado das poucas aulas, das greves, dos comícios da associação de estudantes que por tudo e por nada arranjavam maneira de não haver aulas!

A preparação dos exames do Propedêutico, começou a ser feita na Avenida Álvares Cabral, em casa da Maria Inês. Depressa descobri que, assim, não conseguiria estudar coisa nenhuma… A Maria Inês queria era tempo para andar na politica fazia parte da Juventude do MRPP – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado de inspiração
maoísta, fundado em 18 de Setembro de 1970,  

Foi então que comecei a estudar na Pastelaria Estrela, um cafezinho simpático mesmo em frente ao prédio onde residia na Álvares Cabral, e que tinha, só cinco ou seis mesas, sempre ocupadas por estudantes. Naquele tempo, estudar nos cafés era prática corrente. Lá, podia-se estar descansado, horas seguidas, com uma bica à frente e com um maço de cigarros SG Gigante, a estudar as diversas matérias. Foi nessa Pastelaria que conheci o Eduardo Pires que acabara de entrar no Instituto Superior Técnico e que era um barra em Geometria Descritiva. Assim que tive conhecimento da mísera nota que obtivera no exame de Geometria Descritiva, pedi-lhe que me preparasse para o exame da 2ª época. Passámos o verão de 1975 enfiados na Pastelaria Estrela a fazer exercícios mas o esforço valeu a pena. Na 2ª época, tive 12 valores na prova escrita e, na oral, consegui subir para 15 valores! 

Em Junho de 1976, concluía o curso complementar de acesso ao ensino superior ramo mecanotécnico na Escola Industrial Machado de Castro.

Ainda mal refeito deste esforço, agarrei-me outra vez aos livros para os exames de admissão ao Instituto Superior Técnico. O que eu marrei!… E, dessa vez, não fui premiado. Consegui só 10 valores na prova escrita, mesmo assim suficientes para ir ás provas orais e, em Outubro de 1975, por motivos de trabalhos faltei a esses exames, tendo só no ano 1991 retomado os exames já com a equivalência do 12º ano.

Foi também em 1975 que comecei uma espécie de Diário, onde escrevia comentários sobre o meu dia-a-dia e colava recortes de jornais com notícias que eu achava importantes, cartoons, publicados nos jornais diários, bilhetes de cinema dos filmes que ia ver, com comentários diversos, registo dos livros que ia lendo (sobretudo os famosos Cadernos D. Quixote, com temas como "A pílula é um perigo?" ou "O futuro é dos jovens") escritos em toalhas de papel dos restaurantes, e até alguns registos dos jogos de futebol a que ia assistir, prática que mantinha desde que cheguei a Lisboa…

A frequência na Pastelaria Estrela , para além das disciplinas que ali estudava, também foi lá que conheci o Júlio, filho do proprietário, o Norberto de Andrade, Madruga e o Pedro que tinham chegado de Moçambique, e o prazer inimitável da bica e do cigarro, com a sinergia desses dois sabores que se complementam, a cafeína que confere à língua um toque de veludo quente e o fumo que se enrola na boca e desce pela garganta com um paladar único.

Já tinha bebido bicas antes, claro em Luanda. Lembro-me que a primeira bica que bebi, teria talvez uns 12 anos, foi no Bar São João ( Matias ) um snack bar no Largo do Bairro Popular nº2, na altura a convite dos mais velhos que frequentavam a J.O.C. ( Juventude Operária Católica ) . Na altura soube-me mal, quase tão mal como o primeiro cigarro mas, como dizia o Fernando Pessoa a propósito da Coca Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas foi aos 20 anos, com o estudo sistemático na Pastelaria Estrela, que aprendi a gostar de beber a bica enquanto degustava um cigarro. E afirmo que é um prazer único. O problema é que há muitos prazeres únicos (e não é problema nenhum, antes pelo contrário…)

E falando em cigarros!! Qual é o cigarro que sabe melhor? O mítico cigarro depois do sexo? Não me parece. Julgo que o cigarro depois de um bom sexo (e postulo que todos os atos sexuais têm sempre qualquer coisa de bom) é como a Serra da Estrela ao pé dos Himalaias. Trata-se de mais uma daquelas imagens que o cinema introduziu e divulgou massivamente, de tal modo que mesmo alguns não fumadores não dispensam um cigarro depois de fazer amor. O primeiro cigarro da manhã é bom; o cigarro a meio da manhã, quando faço uma curta pausa no trabalho também é óptimo; o cigarro antes de almoçar e o que se fuma depois, com a bica e o whisky também sabe bem; e vários outros cigarros são tão bons como os melhores. É este o problema dos fumadores: é raro o cigarro que sabe mal, caramba! Se, no nosso dia a dia, um ou outro cigarro começasse a saber mal e esse número fosse aumentando à medida que os dias fossem passando, talvez nós acabássemos por só fumar depois do ato sexual.

Foi também na Pastelaria Estrela que conheci o Zé Lima que acabou por se tornar o meu grande amigo durante anos. O Zé Lima era mais velho um ano do que eu alfacinha de gema, e frequentava o 2º ano na Faculdade de Ciências. Não fumava. Até ao Natal de 1975, eu o Zé Lima, os seus dois irmãos mais velhos, o Fernando, o Luís, e um amigo deles o Joaquim ( Madeirense ) que trabalhava nas oficinas aeronáuticas de Alverca e que introduziu, no grupo, a célebre frase "É o fim pá!") formámos uma equipa que se reunia diariamente no Pingo Bar, no Pic – Nic, no Leão Douro e no Bessa, ou no Sol Mar (e daí partia-se para os programas mais variados). E o que é que se entendia por programas, nos anos 70, para jovens de 18-20 anos com o pouco dinheiro que tinham, e estando em Lisboa? Ir ao cinema, por exemplo.

Alguns filmes que eu registei ter visto, além do tal com o Clint Eastwood e da "Morte em Veneza": "Borsalino", "A Filha de Ryan", "Os Caminhos de Katmandu", "Easy Rider", "Dr. Divago", "Destinos Opostos" (com o Jack Nicholson), "Lawrence d'Arábia", "Os Insaciáveis", "Inimigo Público" (com o Woody Allen), "As Sandálias do Pescador", "Romeu e Julieta", "A Festa" (com o Peter Sellers), "Um homem e uma mulher", "Love Story". 

 Outro programa: ir ao cinema, à meia-noite, ao Politeama, ver "filmes de terror" e, depois, emborcar imperiais no Sol-Mar, ali na Rua Jardim do Regedor e regressar a casa a pé, chegando perto das cinco da matina, para grande desespero do Ti Júlio e da Ti Carmitas meus pais , que viam o filho a fugir-lhe por entre os dedos da sua autoridade cada vez mais posta em causa. O que vale é que a minha irmã Melita estava sempre presente, para pôr água na fervura...

Outro programa: jogar à bola num campo de futebol em terra batida. Ali para os lados de Xabregas, assim, aproveitávamos algumas tardes, e íamos dar uns toques na bola. Depois, suados e cansados, íamos até ao bar mais próximo beber umas cervejolas e comer pregos. Já em 1975 o estrago de um desses dias: um prego, dois pasteis de bacalhau, uma caneca e uma imperial - 50 escudos…
Outro programa ainda: jogar á lerpa. Neste particular, eu, o Zé Lima, o Fernando, o Transmontano, o Machado e outros, que já esqueci, juntávamo-nos, geralmente em casa do Manel, ( já mais velho que era vendedor de vinhos), na Rua do Ouro num 2º andar, para o depenar, alguns de nós tínhamos uma série de sinais combinados, fazíamos o pobre Manel perder grandes somas. Outro que era um Cristo o Zé Alfredo, que perdeu 2500 escudos numa tarde. Pode parecer pouco mas, mas na altura era meio ordenado mais ou menos…

No final de cada lerpa tinham que abrir as janelas dos aposentos , porque o fumo dos cigarros era tanto que parecia ter caído um denso nevoeiro. Quanto aos pais, do Manel já se tinham habituado à ideia de que tinham um filho fumador mas eu, sempre muito respeitador, não fumava ostensivamente à frente deles. Foi ai que conheci o Henrique dos Prazeres, que tinha vindo de Luanda e morava num quarto nesse prédio. Aliás, visto à distância, este grupinho de bons rapazes até que se integraram bem na vida Lisboeta, mas a verdade é que comungávamos as mesmas ideias e, sobretudo eu e quase todos os amigos acabamos por mais tarde criar a Confraria do Penico Dourado.

Havia quem não gosta-se destas amizades, e a pouco e pouco iam-se afastando e acabavam por desaparecer. 
ZÉ ANTUNES

1975

30/07/2014

O AMOLADOR


Hoje quando me dirigia para as Finanças do Cacém vi com uma motorizada toda moderna um antigo amolador de tesouras e facas e que também arranja chapéus de Chuva. Com curiosidade e por ser um jovem entabulei conversa e ele disse-me: amigo antes isto que andar a roubar, esta era uma das profissões do meu avô. Nostalgicamente recordo-me que nos idos anos em frente à Ginjinha da Avenida, depois de percorrer a rua de São José nos anos de 1975 parava o Amolador Sr. Venâncio para se refrescar com uma ginja com elas e ter dois dedos de conversa com o meu pai que na altura trabalhava na dita Ginjinha. Esta pequena história, passada na minha juventude para dizer que é umas das tais profissões que com os avanços tecnológicos se extinguiu. O Senhor Venâncio percorria todo o Rossio e Praça da Alegria, 

foto obtida em: http://www.amolador.htm

 
Estamos em tempo de chuva e este é também tempo de amoladores! Antigamente associava-se o som da “gaita” deles, ao sinal de chuva iminente.

O amolador o qual, antigamente, também era reparador de sombrinhas, é um comerciante ambulante, o qual transporta-se numa bicicleta ou motocicleta para oferecer seus serviços de amolar facas, tesouras e outros instrumentos de corte. Modernamente, ao longo do século XX, os amoladores urbanos tinham que se estabelecer em comércios situados já dentro do recinto dos mercados já na rua. Estes comércios têm uma dupla função, tanto lugar de trabalho para o amolado de ferramentas de corte como ponto de venda das mesmas.

O amolador tinha como funções afiar tesouras e facas, consertar guarda-chuvas, rebitar panelas e tachos e consertar alguidares de barro partidos (por aplicação de gatos – pequenos ganchos de arame).

Na primeira metade do século XX, havia uma grande comunidade de galegos em Lisboa, dedicados nomeadamente às antigas profissões de aguadeiros, amoladores, carvoeiros, taberneiros, merceeiros e alguns ligados à indústria hoteleira, que mais tarde se tornaram grandes empresários.


A bicicleta tem sido modificada de forma que em sua parte traseira leve montada o esmeril mecânico com uma pedra de amolar a qual emprega-se para amolar os objetos cortantes. Anda pelas ruas da cidade ou povoado e para anunciar sua proximidade usa uma flauta de pã de canos ou plástico como apito, chamada em espanhol de chiflo, a qual sopra fazendo soar suas tonalidades consecutivas, de grave a aguda e vice versa.


A começos do século XXI Já não se veem amoladores pelas ruas, mas agora vejo que ainda os há e assim vão ganhando uns trocados para as despesas.






 

 
 
 
 
 


 
Amolador da era moderna
 

 
ZÉ ANTUNES

1975











28/03/2014

GARINA

Alfredo vive no Bairro Popular nº2 em Luanda – Angola, começa a rondar a casa de uma garina minha amiga de infância a Maria, ele já a tinha visto várias vezes, a quando das viagens no maximbombo 22, nas viagens do Bairro para o Liceu Femenino Dona Filipa de Lencastre onde ela estudava.

Alfredo um pouco timido não consegue aproximar-se da Maria. Ela entretanto já tinha percebido das intenções dele e comentou com alguns amigos, e esperava que ele toma-se a iniciativa de se aproximar dele e ai entabular uma conversa.

Num certo dia numa festa de quintal apresentei-o à minha amiga Maria, logo na festa criou-se uma empatia entre os dois e eles não pararam de dançar e de conversar.

Durante os dias seguintes iam-se encontrando aos fins de tarde, durante esses dias deixavamos de ter a companhia do Alfredo e da Maria.

Passados uns tempos, ele pede-a em namoro, os dois pombinhos felizes da vida dão-nos a novidade, desejamos felicidades aos jovens namorados.

Muitos madiés do Bairro ficaram com ciúmes do namoro deles, pois a Maria ainda nos tempos de hoje continua linda como naquele tempo. A Maria é linda e os rapazes do Bairro e de toda a cidade de Luanda por onde ela passava, ficavam boamados a olhar tanta beleza.

Alfredo ficara-se pelos estudos secundários e aprendeu o oficio de eletricista de automóveis, Maria ainda estudava, acabando o 7º ano Liceal, começa logo a trabalhar numa instituição bancária.

O namoro dos dois vai bem, em 1975 a quando da “Descolonização das Provincias Ultramarinas” devido ao conflito armado que alastrou por toda Angola, o Alfredo e a Maria embarcam na “Ponte Aérea” para Portugal para a Cidade de Lisboa, ai ficando uns tempos, até irem definitivamente para a cidade do Porto.

Alfredo emprega-se numa oficina de automóveis e a Maria numa Instituição Bancária.

Casam-se e do casamento nascem dois filhos. Um menino e uma menina, com as dificuldades que todos conhecemos, com sacrificios e agruras da vida, conseguem levar uma vida sem sobressaltos, os dois empregados e os filhos a estudar para terem uma vida melhor e um bom futuro.

Um casal feliz estes meus amigos de infância, o Alfredo, a Maria e os seus filhotes.

“Ninguém casa pensando em se separar. Quando o casamento se rompe, temos que lidar com o luto, com a perda, com a dor, com o fracasso. É muito doloroso.

Maria descobriu que o Alfredo mantinha um caso com uma mulher mais nova do que ela. “Penso que ele só estava esperando que a Maria descobri-se e pedi-se a separação. Ficou evidente que ela tinha que tomar uma iniciativa”.

E separaram-se.

Ocorrendo a separação, ambos os ex-parceiros , independente de quem tenha tomado a iniciativa, passam por um período de sofrimento em decorrência da perda da relação, por pior que essa estivesse no período imediatamente anterior ao divórcio.

No ano de 2010 recebo a noticia da separação, Alfredo foi viver com outra pessoa, a Maria ficou sózinha com os seus filhotes. 

Foto ( net )
Para mim uma separação é uma separação. Eu acredito que só desgasta o relacionamento, e tudo que se quebra uma vez , não tem conserto, sempre vai ficar as marcas ali....

A Maria durante dois longos anos passou mal, entrou em depressão, situações emocionais e psicológicas.

Ela sempre se repetia durante esse tempo “Eu gostava dele” “ eu amava-o” “ eu não merecia esta traição”

Acho difícil na minha opinião alguém passar por uma traição por exemplo e depois ¨perdoar¨ e esquecer completamente e começar do zero...... perdoar até se pode perdoar, mas esquecer penso que não……..

Alfredo entretanto foi para Luanda – Angola onde se encontra a viver e a trabalhar num novo projeto.

Entretanto a Maria refez toda a situação e presentemente está numa relação com outra pessoa.

Eu na altura fiquei triste, pois ambos são meus amigos de muitos anos, não poderei interferir nas suas vidas, poderei sim dar a minha opinião sobre a separação deles, e na minha opinião uma separação é sempre má e angustiante e principalmente para quem gosta mesmo e ama o parceiro.

Só tenho que desejar que tenham muita saúde e como dizia o Raúl Solnado
“Façam favor de serem felizes”
 
ZÉ ANTUNES

 2013

19/03/2014

FADO

A palavra fado vem do latim fatum, ou seja, "destino", é a mesma palavra que deu origem às palavras fada, fadario, e "correr o fado".


Uma explicação popular para a origem do fado de Lisboa remete para os cânticos dos Mouros, que permaneceram no bairro da Mouraria, na cidade de Lisboa após a reconquista Cristã. A dolência e a melancolia, tão comuns no Fado, teriam sido herdadas daqueles cantos.

O Fado encontra-se numa primeira fase, associado á marginalidade e transgressão, em ambientes frequentados por prostitutas, faias, marujos e marialvas. Muitas vezes surpreendidos na prisão, os seus atores, os cantadores, são descritos na figura do faia, tipo fadista, rufião de voz áspera e roufenha, ostentando tatuagens, hábil no manejo da navalha de ponta e mola, recorrendo á giria e ao calão. Esta associação ao fado ás esferas mais marginais da sociedade ditar-lhe-ia uma rejeição pela parte da intelectualidade portuguesa.

Fado ( foto Net )

Atestando a comunhão de espaços lúdicos entre a aristocracia boémia e os mais desfavorecidos da população lisboeta, a história do fado cristalizou em mito o episódio do envolvimento amoroso do Conde de Vimioso com Maria Severa Onofriana ( 1820-1846 ) , meretriz consagrada pelos seus dotes de cantadeira e que se transformará num dos grandes mitos da História do Fado. A evocação deste amor perpassará em muitos poemas cantados, e mesmo no cinema, no teatro, ou nas artes visuais, desde logo a partir do romance A Severa, de Júlio Dantas, publicado em 1901 e transportado para a grande tela em 1931, naquele que seria o primeiro filme sonoro português, dirigido por Leitão de Barros.

Também em eventos festivos ligados ao calendário popular da cidade de Lisboa o fado ganharia terreno. Apesar deste tipo de representação constituir um dos divertimentos célebres do carnaval lisboeta, de franca adesão popular e muitas vezes com um vincado carácter de intervenção, a regulamentação da censura em 1927 iria contribuir, de forma lenta mas irreversível, para a extinção deste tipo de espetáculo. O Teatro de Revista, género de teatro ligeiro tipicamente lisboeta nascido em 1851, cedo descobrirá as potencialidades do fado que, a partir de 1870 integra os seus quadros musicais, para ali se projetar junto de um público mais alargado.

No teatro de revista, com refrão e orquestrado, o fado será cantado quer por famosas atrizes, quer por fadistas de renome. Ficariam na história duas formas diferentes de abordar o fado: o Fado dançado e estelizado por Francis e o fado falado de João Vilaret. Figura central da história do fado, Herminia Silva consagrou-se nos palcos do teatro nas décadas de 30 e 40 do Século XX, somando os seus inconfundíveis dotes de cantadeira com os de atriz cómica e revisteira.

A guitarra, ao longo do século XIX, define-se na sua componente específica de acompanhamento do fado. 


Guitarra Portuguesa ( Net )

A partir das primeiras décadas do século XX o fado conhece uma gradual divulgação e consagração popular. Paralelamente, sedimentava-se a relação do Fado com os palcos teatrais, multiplicando-se as atuações de intérpretes de fado nos quadros musicais da Revista e das operetas.

O aparecimento das companhias de fadistas profissionais a partir da década de 30, veio permitir a promoção de espetáculos e a sua circulação pelos teatros de norte a sul do Pais, ou mesmo digressões internacionais. 

O Fado tem uma dimensão cada vez mais importante na vida cultural portuguesa e tem alcançado uma crescente projecção internacional.

A canção que deve a Amália os primeiros grandes esforços de internacionalização, em 27.11.2011, a Unesco declarou o Fado como Património Imaterial da Humanidade.


A partir de agora, o Fado não é apenas a canção de Portugal, a canção de Severa, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo, e de tantos outros que os seguiram, é um tesouro do mundo.

Um tesouro que fala de Portugal, da sua cultura, da sua lingua, dos seus poetas, mas também tem muito de universal nos sentimentos que evoca: a dor, o ciúme, a solidão, o amor.

O fado sente-se, não se compreende, nem se explica - Amália Rodrigues.


ZÉ ANTUNES

2014