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09/07/2012

DESABAFOS… PERDOA-ME LUANDA

De uma amiga, professora, jornalista, mulher de mil artes mas acima de tudo, angolana que ama seu povo e a sua terra, mas que tem o azar de ter as suas raízes em dois continentes ...
Perguntam-lhe sempre porque deixou de viver em Luanda. Dá sempre a mesma resposta.

Cansou! Da falta de energia, de andar atrás de camiões cisternas para ter água em casa, cansou das filas intermináveis no trânsito, dos corruptos, da discriminação contra mulatos (segundo algumas pessoas, todas de pele negra..., os mulatos são muito armados e geralmente ricos, por isso, merecem ser maltratados).

Cansou das discotecas com porteiros negros e que a deixam entrar a ela mas, barram as amigas negras dela, porque "mulata atrai". Complexados!
Cansou dos mal educados da DEFA, do gerador velho que todas as semanas avariava, de não lhe venderem combustível para o gerador nas bombas, "porque não se vende". Ai sim?
Num país que tem cortes de energia diários, onde os alimentos cheiram a mofo nos frigoríficos porque mesmo quando há energia eléctrica ela não chega para arrancar alguns electrodomésticos.
Cansou  dos vaidosos, que moram no musseque e andam de Prada, que vivem de aparências, são 'mobília de muitos clubs' mas, comem funge 7 vezes por semana, não por escolha mas, para poupar para festas de 100 dólares.
Pessoas que nunca te convidam para as suas casas, marcam encontros em grandes restaurantes porque, na realidade, têm vergonha das próprias casas.

Cansou da exploração, quem trabalha sem preguiça e tem dois palmos de testa é para ser explorado ao máximo e, fazer o trabalho de 5 pois a Lei do trabalho - como muitas outras - foi engavetada e comida por ratos, cansou também das professoras do Infantário que ensinam "Ou me matam ou quê" aos putos. Cansou.

Assim, em Dezembro de 2010,  voltou para casa, para Portugal.
Onde são mais pobres, onde diamante não se vê nem em montras de lojas, onde não têm um único centro comercial, onde há poucos carros de luxo ainda a circular mas, as pessoas moram em casas a sério e não ganham 4 mil dólares, nem perto disso. Ela ganha  quatro vezes menos do que ganhava lá mas, vive quatro vezes melhor.
Tem saudades e vai voltar com certeza - se não virar persona non grata depois deste post - mas, a passeio. Quer rever o mussulo, ouvir boa música no 'Domingo Vivo' do Miami, comer o peixinho grelhado da Chicala, percorrer os corredores do Belas, falar crioulo na Praça do São Paulo, rever amigos e visitar Benguela, Lobito e Lubango. Visitar Porto Amboim e Huambo e matar saudades do português cantado dos angolanos.
Saudades sim e, muita pena de ver angolanos da South ou dos States falarem mal do seu país no facebook enquanto demoram 15 anos a fazer um curso superior no estrangeiro.
Enquanto lá esteve deu o seu humilde contributo para o desenvolvimento daquele país. Ensinou primeiro no Ispra e depois na UnIA tudo o que lhe tinham ensinado a ela sobre jornalismo, corrigiu erros ortográficos crassos a jovens e adultos mais velhos do que ela, deu sermões e foi apelidada de 'chata' por alguns alunos (outros preferiam amenzar a ofensa e chamavam-lhe 'a competente') mas, puxou por eles e viu muitos progredirem e serem eles agora os contribuintes para o desenvolvimento económico e social das terras de Agostinho Neto. Apresentadores de TV, artistas de teatro, realizadores de cinema, jornalistas e até misses ficaram com um pouco do melhor que ela tem para dar.E ainda ajudou a fundar o primeiro canal de televisão privado do país e agora acompanha a sua degradação ao longe por incompetência de gestão.
Chegou a hora de ajudar o seu país e, ser mais feliz.
Perdoa-lhe Luanda porque não aguentou mas, aprendeu a amar-te como és e a desejar dias melhores para ti.
Nota: Por questões de proteção e segurança, não colocaremos a fonte.

ZÉ ANTUNES

GERAÇÃO À RASCA



A geração dos meus pais não foi uma geração à rasca.

Foi uma geração com capacidade para se desenrascar. Numa terriola de Trás os Montes as condições de vida não eram as melhores. Mas o meu pai Júlio não ficou de braços cruzados à espera do Estado ou de quem quer que fosse para se desenrascar. Veio para Lisboa, aos 14 anos, onde um seu irmão, um pouco mais velho, o Manuel, já se encontrava. Mais tarde veio o Delmar, o irmão mais novo. Depois vieram as raparigas (Branca, Madalena e Esperança). Apenas sabendo tratar da terra e do pastoreio, perdidos na grande e desconhecida Lisboa, lançaram-se à vida.


Porque recusaram ser uma geração à rasca fizeram uma coisa muito simples. Foram trabalhar.

Não havia condições para fazerem o que sabiam e gostavam. Não ficaram à espera.
Foram taberneiros, Carvoeiros, Carpinteiros, Governantas e Mulheres a dias. Fizeram milhares de bolas de carvão e serviram milhares de copos de vinho ao balcão.
Foram simples empregados de tasca. Mas pouparam. E quando surgiu a oportunidade estabeleceram-se como comerciantes no ramo, ou mesmo assim emigraram.

Cada um à sua maneira foram-se desenrascando.

Porque sempre assumiram as suas vidas pelas suas próprias mãos. Porque sempre acreditaram neles próprios. E nós, eu e os meus primos, nunca passámos por necessidades básicas. Nós, eu e os meus primos, sempre tivémos a possibilidade de acesso ao ensino e à formação como ferramentas para o futuro. Uns aproveitaram melhor, outros nem tanto, mas todos tiveram as condições que necessitaram. E é este o exemplo de vida que, ainda hoje, com 55 anos, me norteia e me conduz. Salvaguardadas as diferenças dos tempos mantenho este espírito.

Não preciso das ajudas do Estado.
Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.

Não preciso das ajudas da família que também têm as suas próprias vidas. Não preciso das ajudas dos vizinhos e amigos. Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.

Preciso de mim. Só de mim.
E, por isso, não sou, nunca fui, de qualquer geração à rasca. Porque me desenrasco. Porque sempre me desenrasquei.

O mal desta auto-intitulada geração à rasca é a incapacidade que revelam.

Habituados, mal habituados, a terem tudo de mão beijada.

Habituados, mal habituados, a não precisarem de lutar por nada porque tudo lhes foi sendo oferecido. Habituados, mal habituados, a pensarem que lhes bastaria um canudo de um qualquer curso dito superior para terem garantida a eterna e fácil prosperidade.
Sentem-se desiludidos.

E a culpa desta desilusão é dos "papás" que os convenceram que a vida é um mar de rosas.Mas não é.

É altura de aprenderem a ser humildes.É altura de fazerem opções. Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não encontram emprego "digno". Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não conseguem ganhar o dinheiro que possa sustentar, de imediato, a vida que os acostumaram a pensar ser facilmente conseguida.Experimentem dar tempo ao tempo, e entretanto, deitem a mão a qualquer coisa.

Mexam-se.Trabalhem.Ganhem dinheiro.

Na loja do Shopping.Porque não ? Aaaahhh porque é Doutor... Doutor em loja de Shopping não dá status social.Pois não.Mas dá algum dinheiro. E logo chegará o tempo em que irão encontrar o tal e ambicionado emprego "digno". O tal que dá status.

O meu pai e tios fizeram bolas de carvão e venderam copos de vinho.
Eu, que sou Desenhador de Estruturas, Construção Civil e Maquinas, em alturas de aperto, vendi bolos, ginginhas, trabalhei em cafés, etc.
E garanto-vos que sou hoje muito melhor e mais reconhecido socialmente do que se sempre tivesse tido a papinha toda feita.

Geração à rasca ? Vão trabalhar que isso passa.

À rasca, mesmo à rasca, também já tenho estado.
Mas vou à casa de banho e passa-me.

Recebido na net com alterações

Zé antunes

26/06/2012

MANO MINGO



Mano Mingo tava desempregado há meses. Com a resistência que só os angolanos têm Mano Mingo foi tentar mais um emprego em mais uma entrevista. Ao chegar ao escritório, o entrevistador observou que o candidato tinha o perfil desejado, as virtudes ideais e lhe perguntou:
- Qual foi seu último salário?
- 30 mil Kwanzas, respondeu Mano Mingo.
- Pois se o Senhor for contratado, ganhará 10 mil dólares por mês!
- Aká.... Jura?
- Que carro o Senhor tem?
- Eu tinha um carro de mão aonde punha legumes pra vender na zunga, mas tambem era alugado!
- Pois se o senhor trabalhar conosco terá um VW para si e um Toyota para sua esposa, novos a estalar!
- Aiwéééé minha vida....Jura?
- O senhor viaja muito para o exterior?
- Quer dizer já fui até M'bula Tumba, visitar uns parentes...
- Pois se o senhor trabalhar aqui viajará pelo menos 10 vezes por ano,
para Londres, Paris, Dubai, China, Nova Iorque, etc.
- Adjiiiiiiiii num fala mais....Jura só?
- E lhe digo mais.... O emprego é quase seu. Só não lhe confirmo agora porque tenho q falar com meu Sócio.
Mas já está praticamente garantido. Se até amanhã (6ª feira) a meia-noite o senhor NÃO receber uma carta nossa a cancelar,
pode vir trabalhar na segunda-feira com todas essas regalias que eu lhe disse.
Então já sabe: se NÃO receber carta até a meia-noite de amanhã, o emprego é seu!
Mano Mingo saiu do escritório fraco das pernas mas feliz, apanhou um taxi com os ultimos 100 Kz e foi pra casa.
Agora era só esperar até a meia-noite da 6ª feira e rezar, mas tambem previniu-se e amarrou capim e colocou na esquina da rua que dava pra casa dele para que não aparecesse nenhuma maldita carta.
Sexta-feira, dia do homem, mais feliz não poderia haver.
E Mano Mingo ganhou coragem e reuniu a família e contou a nova.
Convocou o bairro todo para uma sentada comemorativa à base de muito cabrité´, fino e música de kilape.
Sexta à tarde já tinha 2 barris de fino aberto dos 7 de kilape.
Às 21 horas a festa fervia.
O Dj (de kilape) estava a pôr todas ketas fixe, o povo dançava (era do cambuá, era tudo...), a bebida era bar aberto....
22 horas, a mulher do Mano Mingo (tia Fatita) aflita, já achava que tudo era um exagero, e perguntava se a carta chegar...

A vizinha Matilde gostosa lá do bairro (mais conhecida por Beyoncé), interesseira dum raio, a bicha, já dançava do cambua só pro Mano Mingo.
E o Dj tocava (grandes cassetes sim senhora pá...)!
E as pipas abriam, uma atrás da outra!
O povo cantava "deixa a vida me levar... vida leva eu... (tava lhes kuiááááá malé)!

23 horas, Mano Mingo já era o papoite do bairro, pois tudo seria pago com os 10 mil Doláres....
E também porque o ultimo evento grande no bairro foi o óbito do Man Dadão que segundo o povo "bateu de milhões, muita bebida"...
E a mulher (tia Fatita) já não se aguentava, tava aflita, uns coxe alegre e já descabelada (quer dizer já com a peruca de lado)...
Às 23h50 minutos... Vira na esquina quase a chocar (por causa do capim amarrado lembram, ya quase deu certo)
e fazendo jogo de luzes, um Corolla amarelo da DHL...
Ewéééééé, era a carta!
O amistoso (boda) parou!
O Dj parou a música!
O homem do cabrité apagou o carvão!
A vizinha Matilde (bicha dum raio) afastou-se!
Tia Fatita peidou!
Todos se perguntavam, e agora? Os kilapes?
" Coitado do Mano Mingo!" Era a frase mais ouvida.
- O sr. das pipas já bebado exclamou, "eu então quero o meu kumbú, também fiz kilape na Cuca..."!
O fino parou!
O Corolla amarelo parou!
Sai um kota kilombo e se dirigiu ao Mano Mingo:
- Senhor Domingos Makubikua? (nome do Mano Mingo)
- Si, si....simmm, só, só eu simmm...
-Tia Fatita lhe empurrou para frente e disse " agora fala bicho de merda, não finge que és gago eu te avisei..."
A multidão não resistiu....
Ewééééééééé, bandeiraaaaa!!!!!!!!!!!
E o kilombo do Corolla diz:
- Tenho uma carta muito importante para o senhor...
Mano Mingo não acreditava...
Pegou na carta, com os olhos cheios d'água, levantou a cabeça e olhou para todos....
Silêncio total.
Não se ouvia sequer um mosquito, até o transito de repente aquela hora engarrafou a espera da noticia...!
Mano Mingo respirou fundo e abriu a carta a tremer, enquanto uma lágrima escorregava no canto do olho....
Olhou de novo para o povo e tirou a carta do envelope, abriu e começou a ler em silêncio....
O povo todo em silêncio aguardava a notícia e se perguntava:
- E agora? Quem vai pagar os kilapes?
Mano Mingo recomeçou a ler, levantou os olhos e olhou mais uma vez para o povo que olhava pra ele tipo novela da Globo...
Foi então que Mano Mingo abriu um largo sorriso, deu um berro triunfal e começou a gritar eufórico.
- É Mamã que morreeeeuuu!
-Mamã morreeeeuuu!!!!!!!
Pode continuar a festaaaaaaaaa...
E o povo gritou, ehhhhhhhh vivaaaa....

Autor desconhecido ( recebido via mail
2011

22/06/2012

ESCRITOR MOÇAMBICANO



Mia Couto - Geração à Rasca - A Nossa Culpa



"Um dia, isto tinha de acontecer.

Existe uma geração à rasca?

Existe mais do que uma! Certamente!

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa

abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes

as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar

com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também

estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.

Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância

e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus

jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.



Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a

minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)

vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós

1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram

nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles

a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes

deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de

diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível

cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as

expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou

presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o

melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas

vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não

havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado

com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.



Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A

vaquinha emagreceu, feneceu, secou.



Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem

Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde

não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar

a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de

aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e

da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que

os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,

nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.



São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter

de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e

que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm

direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,

porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,

querem o que já ninguém lhes pode dar!



A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo

menos duas décadas.



Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por

escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na

proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que

o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois

correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade

operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em

sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso

signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas

competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por

não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração

que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que

queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a

diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que

este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo

como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as

foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não

lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.



Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de

montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o

desespero alheio.



Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e

inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no

retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e

nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como

todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados

pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham

bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados

académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos

que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,

oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a

subir na vida.



E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos

nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares

a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no

que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida

e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme

convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem

fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e

a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.

Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Escrito por Mia Couto ( escritor moçambicano )

2010

21/06/2012

RAINHA / ZUNGUEIRA / GINGA





Rainha Ginga. Rainha preta. Senhora das guerras e das demandas. Mulher, angolana, guerreira. Nzinga Mbandi Ngola. Filha de Ngola Kiluanji, rei de São Paulo de Assumpção de Loanda no tempo da colonia e do tribalismo, no tempo de lágrimas.
Zungueira (kitandeira ) é a negociante do mercado das ruas informais que percorrem toda a Luanda. Seja o pão por 25 kwanzas ou o tomate por 100 kwanzas a dúzia, elas são filhas de pais e mães sem nomes, guerreiros como elas e como

muitas outras ao longo de muitos sóis.


A Rainha Ginga foi Rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI e XVII (1578 a 1663). Considerada uma das primeiras líderes nacionalistas, lutou ferozmente contra a Metrópole. Símbolo da resistência angolana ao colonialismo português. Conterrânea de Zumbi dos Palmares, senhor das guerras e senhor das demandas.
As irmãs desta zungueira também são inominadas(véis?) mas podem atender pelo nome de Ana, Maria, Sila, Elsa, Glória, Bárbara, Engrácia, Rosa, Filomena, amém, seja feita a vontade de quem puder mais. São tantas as tranças destas guerreiras, são todas as cores estampadas nos panos, é quase nada o que recebem debaixo de

tantos sóis.


Para reaver o seu território em poder dos portugueses precisou negociar a sua fé, sendo batizada então como Dona Anna de Sousa e suas irmãs Cambi e Fungi como Dona Bárbara e Dona Engrácia. Antes da capitulação refugiou-se numa ilha do rio Kwanza, mas a história que segue é que morreu de causas naturais segundo

informações colhidas.


A zungueira vai de lá para cá com a bacia na cabeça e a criança no dorso oferecendo os seus produtos e é chegada a hora de revelar que a ladainha interminável e por vezes onírica que envolve o viajante todas as manhãs na Rainha Ginga nada mais é do que o pregão de uma distinta senhora que oferece a dúzia de carapinhas [peixe de água salgada servido grelhado] por 1000 kwanzas ao longo de toda a rua. O seu território é a Maianga, o Prenda, a Mutamba, a Baixa, o Mártires, os Palancas o comércio informal é combatido a chutes e pontapés (uma lágrima) pelos babas sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.




Kitandeiras



A senhora imortalizada na estátua de bronze, um dia Angola foi o reino Kongo, Cassange, Planalto Central, Huíla-Humbe, Matamba e Ndongo, a senhora vestal impõe-se soberbamente e empoeirada e de uma só vez no meio dos prédios incrédulos e sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.



2010


Ó POBRE PORTUGAL ! QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ!



É verdade! Quem te viu e quem te vê. Desfalcado, indefeso, traído, transformado numa sucata de valentões reformados, cabisbaixos, poderosos nas injúrias, calúnias e nas mentiras que os seus órgãos de informação propalam, diariamente. Pobre Portugal, que outrora esteve amordaçado, hoje, está alagado pela onda da corrupção, fraudes, pelos crimes de peculato, desvios de verbas transferidas dos nossos impostos, para serem depositadas em bancos falidos, para o sustento de alguns gestores, que auferem chorudos vencimentos. Que comédia e comedoria! Os ricos cada vez mais ricos, a pavonearem-se e a derreterem-se em luxuosas bebedeiras, sublimes no jogatório verbalista e nos clichés lustrosos das aparências, lá vão acompanhando, no seu dia-a-dia, alguns líderes políticos, estremunhados por noitadas de mulherio e copos, fazendo-se transportar pelo topo da gama, “pelo espalhafato da carroçaria, pelo aparato da cilindrada, em locais de grande exposição, como seja, em cima dos passeios ou das passadeiras”. É vê-los nas Docas, na 24 de Julho e agora mais recentemente na zona da Expo. Os pobres, esses, aguardam em filas, pelos restos de comida destes “vilões” anafados, assoberbados pelos ideólogos penduras, seus incensadores, que neste literato da política acharam ouvidos assaz atentos para recitarem a sua revolução livresca.

É um tripúdio toda essa “palhaçada”! Uma orgia, onde o mais pequeno, é amordaçado, constantemente, pelos tentáculos dos poderosos comediantes. “Os carrões do Estado, em frotas permanentemente renovadas e de custos invariavelmente agravados - haja crise ou, o que não há memória, não haja – revestem e disfarçam muitas vezes a mediocridade e banalidade dos ocupantes. Qualquer funcionário de meia-tigela tem direito a carro e esse é um direito adquirido com direitos colaterais: o carro pressupõe a sua própria renovação, por troca de um carro melhor”! Que bailar de ébrios é este em volta deste Portugal moribundo, com milhares de jovens, homens e mulheres desempregados?

Não espremais mais as tetas das vacas famintas, que ordenhareis sangue!

ESTAMOS JUNTOS

2010

M E D I T A N D O



Esta coisa abstracta, de passarmos tantas horas sentados defronte do monitor do computador, leva-nos, por vezes, a pensar, a pensar…sei lá em quê!!! Em tanta coisa, que vocês não imaginam. É um turbilhão, este meu cérebro. Mas…penso muito na vida. Nesta passagem veloz, onde passa tudo tão rápido, tão enigmático, tão sem nada…?!! Já lá dizia a minha falecida mãe: “A vida é uma passagem do berço para o túmulo”! Sentia muito medo de morrer a minha Mãe! Um dia, sentindo-se doente, já sem forças e com alguma dificuldade em falar, perguntou-me muito baixinho: -“Ó Filho…Haverá vida, depois da morte”? Disse-lhe que sim!

Cada um deve estar completamente consciente que a sua própria vida é uma aventura, mesmo quando a crê fechada numa segurança funcional, todo o destino humano, penso eu, contém uma incerteza irredutível, incluindo a certeza absoluta, que é a da sua morte, mesmo que ignore a data. Cada um deve estar plenamente consciente de participar na aventura da humanidade que é, doravante, com uma rapidez acelerada, lançada no desconhecido.

Que confusão que isso me faz tudo! Descartes dizia:

“Não posso duvidar que duvido, então penso. Se penso, então eu sou, quer dizer existo na primeira pessoa como sujeito”.

E é aqui que me surge o mistério: o que é o “EU” e o “SOU” que não é simplesmente “É”? Será uma aparência secundária tudo, ou uma realidade fundamental? Será que estamos a sonhar quando estamos acordados, ou acordados quando sonhamos? O que há para lá do sonho? E da vida? Para toda uma tradição filosófica é uma realidade fundamental. Parece que se passa o mesmo quando Moisés pergunta ao “SER” que lhe aparece sob a forma de arbusto ardente: “Mas afinal quem és tu?” E a resposta, tal como é traduzida, é: “Sou aquele que sou” ou “Sou quem sou”. Isto quer dizer que o Deus de Moisés é a sua subjectividade absoluta.

Então e a alma? Onde é que ela está? No cérebro? Junto ao fígado? Ou está pegado ao esófago? Por trás do intestino grosso? Ah!!! Deve estar acumulada ao coração! Ou estará misturada com os nossos neurónios? Sim! É provável que sim! É que os neurónios são muito numerosos. Temos, cerca de trinta biliões e eles estão justapostos. Entre eles não há continuidade, mas sim contiguidade. Chamam-se sinapses a essas zonas de contiguidade entre dois neurónios. Mas também o número de sinapses é extremamente elevado. Perto de um bilião, por milímetro cúbico de tecido nervoso. Portanto, quer isso dizer, que se pretendêssemos procurar, pesquisar, onde está a nossa Alma, implicaria o estudo, a análise, de trinta biliões de neurónios, para cada neurónio, o estudo dos dez milhares de sinapses, de contactos sinápticos possíveis. Como vêm…isso não é possível. Sei que nos tempos que correm quase nada é impossível, mas ……… Dá para meditar

Por essa e outras razões, é que passo os meus dias de HOJE, a pensar na morte da bezerra!!!

2004