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17/09/2015

SANTOINHO


Aberto de Maio a Novembro, por altura do mês de Maio no ano de 1989 o meu grande amigo Eduardo Meira resolve fazer uma excursão com os sócios do clube “ Centro Cultural e Desportivo O sol nasce para todos”, ele é de Viana do Castelo e propos uma ida á Quinta do Santoinho em Darque.

Alugou-se um maximbombo que por sinal foi conduzido pelo nosso amigo Manuel Ferreira e com a lotação esgotada lá seguimos viagem até Viana do Castelo.

Carregaram-se umas grades de cerveja bem geladinhas que foram consumidas durante o trajecto .

Saimos de Mira Sintra ás 07 h 00. A viagem correu bem, no percurso foram-se bebendo as cervejas frescas e nos últimos bancos, do maximbombo foi-se jogando á uma lerpa, uns perderam outros ganharam. Durante a viagem também se fizeram brincadeiras, uma dela foi com o falecido Zé Black que adormeceu com os óculos escuros na cara alguém foi buscar pasta dos dentes e besuntou as lentes com o creme, quando o nosso amigo acordou a primeira reação dele foi dizer: estou cego, estou cego, claro que o pessoal que já estava à espera da reação dele desatou a rir a bom rir.

Chegámos a Viana do Castelo mesmo na hora do almoço. À saída do maximbombo todo o ambiente era festivo. Devido á perda no jogo da lerpa alguns já sabiam que iriam pernoitar depois do arraial dentro do maximbombo.

Almoçamos num restaurante que tinha meia pensão e era onde alguns iriamos pernoitar nessa noite. A ementa do almoço foi composta por bacalhau á minhota e Rojões, saladas, e claro está com vinho verde tinto e branco. 

Depois do almoço foi-nos apresentado o pai do Eduardo Meira e dai passear pela cidade sendo nosso anfitrião o Eduardo Meira que nos levou ao Santuário e Miradouro de Sana Luzia até fazer horas para rumarmos á Quinta do Santoinho.



PROGRAMA DO ARRAIAL


20:00 Abertura: sardinhada, com broa e vinho.

20:40 Malhada: o rancho traz espigas, para ensinar o participante a malhar.

21:00 Jantar regional: febras, frango, batatas fritas, salada e vinho verde.

21:30 Folcore: com os melhores trajes e danças do país.

21:40 Vira geral, carnaval: dançar como os minhotos.

21:45 Champorreão: com o ensino do fabrico desta deliciosa bebida.

22:00 Marchas, gigantones, música: com um arco para o participante dançar.

23:00 Balões e caldo verde: com oferta de um balão.

00:00 Aniversários: música especial e uma surpresa para os aniversariantes.

01:00 Final.


  
Pelas 20H00 recebemos à entrada da quinta o talão correspondente ao bilhete. Seguimos diretamente para o bar, que fica à nossa direita onde trocamos o talão pela louça que utilizamos durante o arraial: prato pequeno para sardinhas, prato grande para as carnes, com os respectivos talheres, caneca e copo para o vinho. Saimos do bar e ocupamos algumas mesas para podermos degustar o repasto que nos era oferecido.


              

                           Entrada da Quinta do Santoinho ( foto net )


Ás 20H15 mais minuto menos minuto dirigimo-nos á eira onde encontramos pão de milho e os guardanapos. Nessa zona ao lado num grande grelhador avistamos, as sardinhas a assar, fomos tirando as sardinhas para nossa degustação, utilizando o prato pequeno que nos foi entregue. Um conselho que nos foi dado que era "proibido" comer sardinhas com talher, coma-se a sardinha em cima de um pedaço de broa com a mão à moda do Minho. 

Junto à eira, ao lado da cozinha e também no segundo piso, há pipos com vinho verde, branco e tinto para nos servirmos.
Tinhamos que conservar o nosso copo e caneca durante todo o Arraial. Foi necessário lavá-los várias vezes, encontramos pequenos lava-loiças com águas corrente. Entretanto um rancho folclórico atuou na eira com cantigas e danças Minhotas.

20H40 Malhada na eira. Alguns de nós aproveitaram a oportunidade de experimentar malhar o milho na eira entre eles o Toninho que até deu um espectáculo na bela arte de malhar o milho na eira.


                           


                                     Milho a ser malhado ( foto net )

 21H00 Tocou o sino para as carnes grelhadas. Fomos à cozinha sem pressa, levando o prato grande. Como são servidas cem pessoas por minuto, rápidamente chegou a nossa vez. Depois de servidos voltamos para as nossas mesas onde degustamos as boas carnes grelhadas. De seguida assistimos a um dos melhores folclores do país. Apreciamos as danças, os costumes e os bonitos trajes Minhotos.



                            


                                 Serviço das Carnes grelhadas ( foto net )


 21H40 Foi dedicado a todos um Vira Geral. Fomos quase todos dançar... entramos no espírito da festa á moda do Minho.


                                 


                                        Vira Minhoto ( foto net ) 

 
21H45 Junto à eira foram tocadas as campainhas para nos servirmos do champarreão, bebida refrescante e deliciosa que foi servida até às 23H00 horas. Entretanto, até cerca das 22H00 horas, a banda contratada tocou música de baile, como preparação para a grande festa.


                         
          
                                  champarreão ( foto net ) 



22H00 Entram na festa os cabeçudos, na eira dançam os gigantones. Porta dentro seguem as marchas com os arcos em riste entoando cânticos populares para animar a festa. Foram-nos dado uns arcos para quem quisesse participar na festa.

             
                         Festa animadissima ( foto net ) 


23H00 Por esta altura foi-nos dado a saborear um belo Caldo Verde. Zé Ideias e Marinha Ribeiro só eles os dois degustaram 11 tigelas de belissimo caldo Verde á minhota.

23H30 Entretanto a banda toca novamente musica de baile para dançar até à uma da manhã para que a nossa noite fosse repleta de alegria.


                     

                          A banda que aninou o baile ( foto net )

 24H00 Alguém que era aniversariante nesse dia foram-lhe cantado os parabéns, foram acessas as velas num bolo de aniversário, dedicaram-lhe uma uma música e ofereceram-lhe uma lembrança.

01H00 Acabado o repasto, e o bailarico, saimos do recinto e uns ainda foram para a discoteca, outros foram para as pensões préviamente reservadas, com a enorme alegria, durante a noite alguns não deixaram dormir os outros pois ainda estavam com enorme boa disposição, mas lá acabaram por adormecerem.

Na manhã seguinte descemos e fomos tomar o pequeno almoço, não sei porque mas foi servido o mata bicho normal e mais uns pastelinhos de bacalhau e canja de galinha, disseram-me que era para curar as maleitas da noite anterior.

Ao final da manhã depois do almoço, cerca das 15 h 00, iniciou-se a viagem de regresso a casa, já com algum cansaço no corpo mas com a alegria por ter vivido um fim de semana animado e diferente com todas as paisagens observadas e com o importante encontro e convívio entre todos principalmente entre os sócios de Mira Sintra.


                         
                                Zé Antunes e Marinha Ribeiro


 
ZÉ ANTUNES

  1989

 
 





 



26/08/2014

CABINE TELEFÓNICA

Bairro Popular nº 2, inicio dos anos 70. Entre as Ruas de Moura e a de Porto Alexandre existia um largo onde estavam instaladas uma cabine de transformação de Energia Eléctrica e ao lado uma cabine telefónica.

No Posto de transformação de Energia Eléctrica tinha uma pequena escada em betão com 5 degraus, onde os kandengues ficavam sentados a conversar e a pouco mais de 3 metros estava a cabine telefónica.


 
Cabine Telefonica em 2005

Este largo situava-se também entre a Rua Machado Saldanha e o Largo do Bairro onde parava o maximbombo 22, também neste mesmo local entre a Rua de Moura e a Rua da Gabela existia uma passagem estreita.

Muitas vezes ficavamos sentados nos degraus da dita escada do Posto de Transformação de Energia Eléctrica á espera que alguém fosse telefonar para depois recolhermos as moedas que estrategicamente não caiam no cofre do telefone, já tinhamos feito a marosca.

Dinheiro esse que depois de dividido dava para comprar gelados de covete, gelado de água cinco tostões, gelados da Mission( laranja ou maçã ) um escudo, íamos comprar á mãe do Carlos Burity ou á mãe do Garção.

Outras das nossas travessuras era assustar as garinas que lá iam telefonar, introduziamos uma pena bem amarrada num arame pela parte da ventilação da cabine que era 3 réguas tipo persiana, com a dita pena de um qualquer galinácio tocavamos nas pernas das garinas asustando-as.

Eramos todos jovens, jovens que alinhavam nessas salutares brincadeiras


ZÉ ANTUNES

1970
 
 
 

25/08/2014

UMA AVENTURA AMOROSA, LÁ DA “BANDA”!


PEQUENO CONTO ANGOLANO

SÓ PARA AMIGOS E AMIGAS DE PEITO

Desculpem-me qualquer coisita, que vos possa "ferir" a sensibilidade!

Esta pequena aventura amorosa, aconteceu por causa de um problema alheio, quando o Zacarias acompanhou uma “garina”, chamada MARIA, muito minha amiga do “Bê-Ó”, à casa de uma “kimbandeira” (bruxa), conhecida lá do bairro. E, diga-se de passagem, nem sempre bem vista pelos “Kalús e "Kotas", seus vizinhos. É que o Povo tanto ama como odeia e, se uns a procuravam quando necessitavam, logo logo depois, fingiam qui não lhi conheciam e até mudavam de passeio quando lhe avistavam na rua. Recebeu-os numa sala, com paredes de “pau-a-pique”, coberta de chapas de zinco e “luando”. Tinha duas galinhas pretas amarradas junto de uma “sanga”, numa mesa toda torta com três pernas. O “cubico” (quarto) estava pouco iluminado (com um candeeiro de petróleo), que até assustava um “gajo”. Parecia qui tinha "Kamzúmbi"! Mandou-os sentar em dois caixotes vazios de sabão azul e branco e esta minha amiga, expôs o que a preocupava. Aqui para nós, creio que existem situações que temos, nós mesmos, di resolver e não contar tudo da vida, a uma “gaja” qui nem sequer lhi conhecia. Não é bem o meu estilo. Quando a Maria já estava esclarecida e aviada de um “patuá” e acompanhada de umas ervas para fazer chá, “milongo” (remédio), com a promessa que lhe iria trazer o "Xulo" (o namorado) dela de volta, a “Kimbandeira” virou-se para o Zacarias, fixou-lhe com olhos de "Liambeira" e lhe disse:


-E você, meu “kamanguista” dum raio, não precisas de nada? É que, desde que entraste aqui, senti que andas a fugir do amor…

Zacarias meio embaraçado respondeu:

-Desculpe? Mas…mas…como é que sabe que….?!!!


-Foi muito simplesmente pelo teu olhar, pois quem ti deseja quer mesmo ti conquistar e você estás com o medo, por causa de outras namoradas qui tivestes na Maianga, no Bairro do Cruzeiro e ti enganaram. Queres levar umas “coisitas”, uns “muloges” para ti dar entusiasmo?
-Não leve a mal, mas dispenso. Mesmo assim obrigada, respondeu Zacarias

 -De nada! Vou rezar à Nª. Srª da Muxima para ti dar “guzo” (força)!


E piscou-lhe o olho. Saíu dali todo baralhado e a pensar: como raio é que ela sabia que o Zacarias já tinha sofrido por amor e que andava “marado”, com a Josefa, uma miúda, preta-fula, cheia de “demengueno”, saia curta, com trança na carapinha, qui lhe pôs a delirar, e que há mais de 6 meses não a via. Oito dias depois (PASME-SE!) cruzou-se com a Josefa junto à loja do “Campino”, perto da Farmácia São Paulo, à entrada do Bairro Operário (Bê-Ó) e, como sempre, ela foi muito gentil. Convidou o Zacarias a sair com ela de noite, a assistir o filme “Aventureiros na Lua”, no Cine-Colonial. Sem perceber como, completamente “Boamado”, a boca dele respondeu-lhe que sim, que podia ser. Foi a correr p’ra casa, vestiu a calça de “Kaqui”, engraxou os “pankes” com as solas meias rotas, encheu os cabelos de brilhantina sólida, e “bazou”, mas…sempre a pensar na bruxa! Acreditem se quiserem, teve uma noite incrível em que a Josefa confirmou tudo o que ele pensava sobre ela e que, embora o negasse, se tivesse apaixonado por ela. Jantou no Cravo, dançáou no Braguez e aceitou ir para casa dela tomar um “Katembe” (vinho branco com pepsi-cola) bem gelada. A gostosura da “gasosa” com o vinho do “Puto”, levou-lhe a partilhar com ela num profuso beijo linguado e, se lhe inundou a boca, só pelo contacto do beijo, ficou “arrasca” com uma vontade grande de fazer amor com ela. E…”chôxo para ali, chôxo práculém”, despojados de roupa e numa histeria de sentimentos “embruxados”, fizeram amor logo ali na esteira, onde deitados nela, lhi arrancou gemidos de prazer. Gritava parecia qui tinha diabo na alma...

Excelente amante, a Josefa! Que conseguiu travar o “tsunami” íntimo dentro do Zacarias. Não satisfeita, lhe arrastou para a cama, com colchão de palha de milho – cheio de caroços – e aí, sim! Amáram-se com fervor enfeitiçado, até dizer basta….! Abraçado a ela e totalmente feliz, pensou com os meus botões, se no meio daquele “trumuno” todo, não houve “dedinho” da “Kimbandeira”….?!
RECORDAÇÕES…que dão sempre Histórias para contar!


BANGA NINITO

2014

17/03/2014

CAIS DO SODRÉ


O Mano e amigo Manel, naquela época de 1975, nos velhos tempos do PREC, vivia num apartamento, num prédio em Lisboa, Uma noite encontrou uns Vádios ( no bom sentido ) do Bairro Popular nº 2, seus amigos de Luanda, que o levaram a um jantar e depois seguiram todos alegres para o Cais do Sodré. 

Já a madrugada se apresentava, e o amigo Manel voltou para casa com uns copitos a mais de tanto festejar com os Amigos do Bairro. Ao chegar ao prédio tocou a campainha do primeiro andar e uma Senhora respondeu pelo intercomunicador:

Sim quem é? 

O Manel perguntou:

Desculpe a Senhora é casada? 

Sou respondeu a Senhora.

E o seu marido está em casa? Está sim, está aqui a dormir comigo.

O Manel pede desculpa á Senhora. 

Toca para o segundo andar atende uma Senhora pelo intercomunicador:

Faz favor de dizer, quem é ?

O Manel faz a mesma pergunta:

A Senhora é casada?

Ela responde:

Sou sim, mas que horas são? já passa das quatro da manhã!!

O Manel insiste:

E o seu marido está em casa? 

Ela responde:

Está aqui a dormir comigo na cama. 

O Manel pede desculpa á Senhora. 

Toca para o terceiro atende uma Senhora, 

Sim, faz favor de dizer:

Desculpe diz o Manel, a senhora é casada?

Sou sim, diz a Senhora

E o seu marido está em casa?

A Senhora toda zangada diz:

Não, esse sem vergonha ainda não chegou a casa.

Fez-se um silêncio.

E diz o Manel baixinho:

Amorzinho anda abrir a porta que sou eu, o teu marido.

( Adaptado de uma história do )

 
ADELINO CARDOSO

2013

05/02/2014

EPISÓDIOS CARICATOS NO DIA DE NATAL!


É durante os dias festivos, que por vezes se registam acontecimentos inéditos, soltos ou isolados, relacionados com uma série de outros factos, nomeadamente daqueles que estão ligados a essa terrível austeridade, a essa crise monumental, onde houve mais de 300 mil reformados com cortes sucessivos nas pensões nos últimos anos.

O episódio que vos vou narrar, ocorreu precisamente o ano passado, a uma semana antes do dia de Natal. Como sabem, há nos Correios uma pessoa especialmente designada para processar a correspondência cujo destino seja ilegível ou fora dos padrões autorizados. Certo dia apareceu uma carta, cujo destinatário aparecia escrito por mão pouco firme, e onde se percebia vagamente a palavra “Deus”. O homem resolveu então abrir e ler a carta. Dizia isso: “Meu querido Deus, tenho 83 anos, sou viúva e vivo com uma pequena pensão mensal que me deixou o meu falecido marido. Ontem, no autocarro, alguém roubou a minha carteira. Tinha lá 100 euros, que era todo o dinheiro que tinha. Para a semana que vem, já é Natal e eu, tinha convidado para jantarem comigo, as duas únicas amigas que me restam. Sem esse dinheiro não me vai ser possível comprar nada para o jantar. Não tenho família e Tu És a minha última esperança...Será que me podes ajudar? Com os melhores cumprimentos, Maria das Dores.

O Funcionário dos Correios, não pôde deixar de se emocionar com o teor da carta e mostrou-a aos restantes colegas. Resolveram então, todos, ajudar a Senhora, tendo cada um oferecido dois ou cinco euros. No final do dia, o homem tinha conseguido juntar 96 euros, que colocou num envelope e os remeteu, de imediato, à pobre Idosa. Após o Natal uma segunda carta chegou, nos mesmos moldes e escrita pela mesma mão. Todos os colaboradores da agência, cheios de curiosidade se juntaram, quando a carta foi aberta. Dizia: “Meu querido Deus, jamais poderei agradecer-Te o que fizeste por mim. Graças à Tua Generosidade pude cozinhar um jantar belíssimo e apreciá-lo na companhia das minhas duas queridas amigas. Tivemos as três, uma maravilhosa ceia de Natal, durante a qual lhes pude contar o teu bonito gesto de amor. Já agora aproveito para Te dizer que apenas recebi 96 euros, ou seja faltavam quatro euros. Devem ter sido aqueles “Sacanas” dos Correios que ficaram com eles...Mas não faz mal!

Bem Hajas e Obrigado Meu Deus!
Cruz dos Santos

2013

10/11/2013

DIA DE SÃO MARTINHO

 
Dia 11 de Novembro, dia de São Martinho. Este dia é comemorado um pouco por todo o Portugal, junto às lareiras ou aquecedores. É o dia em que se vai à adega e se prova o vinho da última colheita.

Vinho Novo 

É um momento de convívio. Chama-se os amigos à adega, para beber um copo de "água-pé", e da bem afamada jeropiga, comer umas castanhas assadas num braseiro de pinhas, pondo muito sal por cima para estalar a casca da castanha e dar-lhe paladar algo salgado. É o popular Magusto. 

O Magusto de São Martinho comemora-se, celebrando-se o Outono, a chegada do tempo frio e a proximidade do Natal.

Castanhas assadas 

Provérbios e Frases de São Martinho 

"No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se vinho." 

"Pelo S. Martinho mata o teu porco e bebe o teu vinho." 

"Pelo S. Martinho semeia favas e vinho." 

"Pelo S. Martinho, nem nado nem cabacinho." 

"Água-pé, castanhas e vinho, faz-se uma boa festa pelo S. Martinho." 

"Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro." 

"No dia de S. Martinho fura o teu pipinho." 

"Do dia de S. Martinho ao Natal, o médico e o boticário enchem o teu bornal." 
"Pelo S. Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho." 

"Se o Inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo S. Martinho." 

"Se queres pasmar teu vizinho lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho." 

"Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho." 

"Dos Santos até ao Natal, é um saltinho de pardal." 

Lenda de São Martinho


"Num dia tempestuoso ia São Martinho, valoroso soldado, montado no seu cavalo, quando viu um mendigo quase nu, tremendo de frio, que lhe estendia a mão suplicante e gelada.

S. Martinho não hesitou: parou o cavalo, poisou a sua mão carinhosamente na do pobre e, em seguida, com a espada cortou ao meio a sua capa de militar, dando metade ao mendigo.

E, apesar de mal agasalhado e de chover torrencialmente, preparava-se para continuar o seu caminho, cheio de felicidade.
Mas, subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido e um sol de Estio inundou a terra de luz e calor.

Diz-se que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o ato de bondade praticado pelo Santo, todos os anos, nessa mesma época, cessa por alguns dias o tempo frio e o céu e a terra sorriem com a bênção dum sol quente e miraculoso, a que chamamos de Verão de São Martinho. 

 
ZÉ ANTUNES
 
2013

26/07/2013

UM PEQUENO CONTO ANGOLANO


Lembras-te João Cambaio, das nossas aventuras, quando brincávamos às escondidas nos quintais do “Bairro Pop“? Quando “pelejamos”, dava-mos “galhetas” e “baçulas à pescador” um ao outro, e no outro dia, já estávamos amigos outra vez? Nesses tempos, eu julgava era pecado a gente se insultar, porque Deus estava, também, a ouvir e se ia zangar. Minha mãe me avisava: “se não fores bonzinho para com os teus amigos, sejam eles negros, mulatos ou brancos, vais parar no Inferno”! Depois explicava-me o que era o Inferno. Ela dizia sempre, que no inferno, havia lá um grande caldeirão cheio de azeite a ferver e que um “gajo” – depois de morrer - se tivesse sido pecador e tivesse sido mau, muito mau, para os outros, passava a “eternidade” ali mergulhado, a sofrer p’rá burro! Mas ela tinha razão! Cada vez era mesmo verdade! Te lembras também da Domingas? Aquela negra fula, cheia de “demengueno”,quando passava no passeio da loja do “Sr. Novo” Casa Confiança, toda a “malta” lhe assobiava? O quê? Não ti estás a lembrar? Porra! Aquela miúda qui andava sempre vestida di mini-saia, e “kimone” de “chita”, qui um dia até lhi dei boleia na minha mota “Honda 350”, e lhe “reboquei” até no bairro da Vila Alice? Aquela…qui toda a gente dizia, qui era minha namorada? Mas não era, nessa altura já namorava, com respeito.

-Não me digas, qui era aquela qui era irmã do Tonico, o rei das cabeçadas? Qui o pai dela, além de ser alfaiate, também fabricava no quintal, “quimbombo”?

-Sim! Era essa mesma!

-Possas “Meu”!! Você é corajoso!!! E o irmão sabia?

-Claro qui sim! Coitada, depois, deixei de lhe ver, quando fui no “Rangel” na casa do Velho Inhana, passou muito tempo, e um dia mi disseram qui ela estava “amigada” (vivia) com um branco, um “H’nguenta”do “Puto”, todo vermelho, qui parecia qui tinha “massa de tomate” na cara. Eh!!…Diziam até, qui ela parecia uma senhora, bem vestida. 

-Foi a sorte dela!
-Estás mas é com Inveja! Inveja é cuêsa má, o senhor padre Luis das barbas (os Capuchinhos), da Igreja de São Paulo, tinha ensinado, que há pessoas tinham sorte e por isso viviam bem. Deus é que sabia, a nossa vez também ia chegar. E se não chegava, depois no céu, Deus tinha mais pena de nós…

-Vai-te lixar Zé Antunes! Afinal a Domingas é que ficou lixada: lhe deixaram com filho na barriga, coitada…!

-Tás a brincar…João Cambaio?

-Juro “Sangue de Cristo”! Mas mantem-te calmo Zé Antunes! A vida é pra ser vivida e no meio de tanta desgraça, ao menos um “coche” de calma. Vamos mas é “varrer uma cabeça de “peixe-pungo”, no Bar do Cravo”! Uma caveira de peixe. Ecologia. Uns comem. Outros são comidos. É assim a Natureza e de outra maneira não havia vida. Errado. Nem sequer havia outra maneira. Porque para haver outra maneira só com vida….Fim de citação”!

-Onde é que tu ouviste isso João? (já a postes para se instalar na cadeira).

-Foi mesmo na TPA (Televisão Pública de Angola)…Ó Banga Zé!!

-ALDRABÃO!! Naquele tempo Televisão? só “Rádio Ecclésias”, “ Voz de Angola” ou “Emissora Oficial”!! 
Zé Antunes

1971

"KANDENGUES VISIONEIROS"


Quando estávamos parados, na frente da minha casa, no muro do "Preventório Infantil de Luanda", os "Madiés" mais velhos, com as suas "motorus" (Zé Tó, Henriques, Minguitos, Paquito, Lili, Jorge, Carlos, Zé Antunes, Banga Ninito, Escaqueirado, Carnapeto , Russo da Garelli, Carlos Magalhães e outros), convertiam as conversas, nas habituais e acostumadas aventuras dos seus "engates", ou seja, nas "garinas namoradas di fingir", misturando toda esta "caldeirada dialogante", em histórias de combates de boxe e marcas famosas e de grande cilindrada de motos, tais como a "Honda", "Yamaha" e "Suzuki", que eram, sem dúvidas alguma, as mais populares e, como é óbvio, as mais procuradas e vendidas em Luanda, naquela época. Nessas alturas, apareciam alguns "kandengues", com sapato "João Domingo", remendo nus calças, qui falavam - entre eles - sobre as potentosas e nossas "máquinas".

-"Xê Mano Zito", a Honda é melhor! Tem mais "banga-fukula", mais bonita, escape cromado e "manda" pineu" mais grosso. Tás a brincar, ou quê?" 

-"Makuto caxe"! Vê-se mesmo, qui não percebes nada di motas. A "Yamaha" é que é a melhor. Lhe "avistaste" aquela corrida, na Fortaleza? Hum!!! Vou te falar".

-"Vocês, são mesmo "Buçais"! Não entendem nada de motos. A melhor mesmo...é a "Suzuki", aquela do Carlos Magalhães"

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Para felicidade de muitos "Miúdos", era ir dar uma volta com estes "malucos" na chamada "pendura", que - cheios de "Cagunfa" - e com a sensação da aventura, se agarravam a um "Gajo" na cintura, com receio de cair. Mas era bom, porque depois de vermos, todos eles, cheios de felicidade, ainda comentavam a favor da volta que tinham dado".

-"Banga Zé", "Banga Ninito", mi deixa ainda dar uma "quicorta" na tua "Motoru"!

-"Chê kafito-Fito"dum raio! Tás a brincar, ou quê? Ti vou "rebocar", com todo esse "ranho" pendurado no nariz? TÁS a Julgar que és Quê? Não vês qui sujas a moto! Porra! Vai lá mas é lavar a tua "xipala", seu "badalhoco" di merda"!!

Então...aí já, punha o "muleke" no banco de trás e ia dar uma volta, com ele no "Bê-Ó", "Bairro Zangado", atravessava alguns musseques em alta velocidade, levantando Poeira. O "Kandengue", ficava todo assustado, mas ao mesmo tempo feliz e falava já para os outro "diambeiros" à toa...

"-Banga Zé" e "Banga Ninito", são verdadeiros Amigos, andei só com ele na torraite, fomos à toa, ultrapassamos uns "Kaíngas" qui estavam só parados, e nós passamos na "Gazuza até cair", qui parecia vento...!"

Os amigos falavam já: Possas “Meu”!! Você é corajoso!!! Andares com esses malucos mais velhos, mete medo. Outras vezes lhe diziam: "-vamos dar uma volta, mas me dás uma quinhenta para a gasolina"!

-"Hi Hi este "Madié" manda "pimpa"! Não tenho quinhenta nenhuma, Juro mesmo - sangue de Cristo - faz lá um "coxito" de boa vontade Banga Zé. Dinheiro acabou. "Kuabo-Kaxe"! "Kitar malé", nem nus bolsos dus documento, nem no "cafukolo".

Zé Antunes
1970

24/05/2013

SUA PEN DRIVE TEM BLUETOOTH


Ontem recebi um e-mail de um amigo aí de Luanda, o Francisco Manuel, que foi intitulada de: "Sua Pen drive tem Bluetooth". É uma história bem contada mostrando como que a rapidez à modernidade é difícil e quase impossível para alguns de nós, os “cotas” e as “cotas”, acompanharem! Começa com o João Luis a se deslocar a uma loja de venda de produtos informáticos, e tirando uma anotação do bolso, foi perguntando ao Empregado como se ele fosse um profundo conhecedor:

- Amigo, bons dias, vocês têm pen drives?

No que ele respondeu:

- Temos sim.

Como ele nem tinha ideia do que estava a falar e não querendo ficar mal visto com futuras indagações, perguntou logo:

- Amigo o que é pen drive? Pode me explicar? Meu filho me pediu para comprar uma.
- Como se chama o Senhor?

Eu??? Sou o João Luis

Senhor João, pen drive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.
- Ah! É como uma disquete...
- Não. No pen drive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. A disquete, que já não existe mais, só salvava texto.
- Ah, “tá” bom. Vou querer uma.
- Quantos gigas?
- O quê?
- De quantos gigas o senhor João quer o seu pen drive? – replicou o empregado da Loja.
- E o que é giga?
- É o tamanho da “pen” - respondeu o empregado.
- Ah “tá” bom!
- Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.
- Todos eles são pequenos senhor João. O tamanho que eu pergunto é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.
- Ah, então de quantos tamanhos tem?
- Temos dois, quatro, oito, dezasseis gigas...
- Bom! Meu filho, não disse quantos gigas queria.
- Neste caso é melhor o senhor João levar o maior.
- Sim! Eu acho que sim. Quanto custa?
- Bom o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada do PC é USB?
- Não entendi...
- Bom, é que para acoplar o “pen” no computador, tem que ter uma entrada compatível.
- USB não é a potencia do ar-condicionado?
- Não, aquilo é BTU - responde o Empregado.
- Ah! É isso mesmo, confundi as iniciais. Bom, sei lá se a entrada do PC é USB.
- Senhor João, USB é assim olhe: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o PS2 mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é PS2.
- O PC do meu filho foi comprado à dois anos. O anterior PC ainda era com disquete. Este não agora não tem disquete.
- Lembra da disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador que meu filho teve, funcionava com aquelas disquetes do tipo bolacha, grandes e quadrados. Era bem mais simples, não acha?
- Senhor João, os de hoje não têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou é pen drive.
- Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.
- Quem sabe o senhor pode ligar para ele?
- Bem que eu gostaria, mas meu telemóvel é novo, tem tanta coisa nele que ainda nem aprendi a discar.
- Senhor João, deixe-me ver – disse o empregado da Loja
- Poxa! Um smartphone! Este é bom mesmo! Tem bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, máquina de filmar, rádio AM/FM, TV digital, dá para mandar e receber e-mail, mensagens direcional, micro-ondas e liconexão wireless...
- Blu... Blu... “Blutufe”? E micro-ondas? Dá para cozinhar com ele?
- Não senhor João. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.
- Para que serve esse tal de “blutufe”? - pergunta o senhor João...
- É para um telemóvel se comunicar com outro sem fio.
- Mas que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os telemóveis não se comunicam com os outros sem usar fio? Nunca precisei de fio para ligar para outro telemóvel. Fio em telemóvel, que eu saiba, é só para carregar a bateria.
- Não, já vi que o senhor João, não entende nada mesmo. Com o bluetooth o senhor passa os dados do seu telemóvel para outro sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.
- Ah, e antes precisava de fio?
- Não, só tinha que trocar o chip.
- Hein? Ah, sim o chip. E hoje não precisa mais de chip...
- Precisa sim, mas o bluetooth é bem melhor.
- Que bom ter chip. O meu telemóvel tem chip?
- Um momento... Deixe-me ver... Sim tem chip.
- E que faço com o chip?
- Bom, se o senhor João, quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe...
- Sei sim portabilidade, não é? Claro que sei. Como não iria saber uma coisa dessas tão simples? Imagino, então, que para ligar tudo isso no meu telemóvel, depois de fazer um curso de dois meses eu só preciso clicar em uns duzentos botões...
- Não! É tudo muito simples, o senhor João logo apreende.
- Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele.
- Isso. Agora e só teclar
- Um momentinho
- E apertar no botão verde... Pronto, já está chamando.

João Luis segura o telemóvel com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta:

- Oi filho, é o pai.
- Sim.
- Diz-me uma coisa filho, o teu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas?
- Quatro gigas está bom?
- Ótimo. E tem outra coisa. O que era mesmo? Nossa ligação é USB? É? Que loucura. Então, “tá” filho, o pai vai comprar uma pen drive. De noite eu levo para casa.
- Que idade tem seu filho? - pergunta o Empregado de Balcão. Vai fazer 12 no mês que vem.
- Então é isso!
- Vou levar um de quatro gigas, com ligação USB.

Mais tarde, na oficina, examinou o pen drive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha com receio para o telemóvel sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa.
Tudo o que ele quer é um telefone para discar e receber chamadas. E tem nas mãos um equipamento sofisticado, tão complexo, que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de 50 saberá compreender.

Já em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um "heavy metal" infernal invade o quarto e os ouvidos de João Luis. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:

- Pronto pai, baixei a música. Agora eu levo o pen drive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu telemóvel por exemplo.
- E teu telemóvel tem entrada de USB?
- Lógico. O teu também.
- É? Isso quer dizer que eu posso gravar músicas em uma pen drive e ouvir pelo meu telemóvel?
- Se o senhor não quiser baixar direto da internet...

Naquela noite, o João Luis, antes de dormir, deu um beijo na esposa e disse:

- Amor, você sabe que eu tenho Blutufe?
- Como é que é? - replicou a mulher.
- Bluetufe. Não vai me dizer que não sabes o que é?
- Não me chateies João , deixa-me dormir.
- Amor! Tu lembras-te como era simples a vida, quando o telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão para as coisas funcionarem?
- Claro que lembro, João. Mas hoje é bem melhor, não é? Várias coisas em uma só, até “Blutufe” você tem.
- E ligação USB também.
- Que ótimo João, meus parabéns.
- Meu amor, vou te contar uma coisa: com tanta tecnologia nós envelhecemos cada vez mais rápido. Eu fico doente só de pensar em quanta coisa existe por aí que nunca vou usar.
- “Ué”? Por quê?
- Porque eu não tinha aprendido a usar computador e telemóvel e tudo que acabei de aprender já está ultrapassado. Aliás, por falar nisso, temos que trocar nossa televisão.
- “Ué”? A nossa avariou?
- Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slow-motion e reset button.
- Tudo isso?
- Tudo...
- Boa noite João, vai dormir que eu não aguento mais...

(O autor deste texto é desconhecido, mas pode ser algum de nós ou alguém que tenha nascido nos anos 40, 50, 60, 70, 80 ou até 90). E uma pequena ressalva: nunca o nosso idioma português esteve tão americanizado. Infelizmente.



ZÉ ANTUNES

 2013

16/05/2013

ZACARIAS E O CHEQUE


Naqueles tempos antes da Dipanda, ai no ano de 1974, Zacarias “ o Bom Moço “ andava bué de contente, lhe tinham arranjado um salo como porteiro de uns escritórios ali na baixa de Luanda, perto do Largo Serpa Pinto.

Zacarias estava mesmo sem fazer nada e esse salo veio em boa altura pois kitar mal é, estava mali mali. Ele falava sem kumbú estou frito.

Nos primeiros quinze dias sempre a bumbar sem faltas todo aprumadinho mesmo na banga, mas os cumbús ainda estavam a faltar, vai na tesouraria do escritório e fala:

Tenho ai uns mambos para saldar, queria então pedir um vale de 500 escudos, porque a situação está péssima, estou na penúria.

Lhe falaram que não podia ser, no fim do mês que lhe iam pagar tudo, mas Zacarias sabe chorar e lhe adiantaram 100 escudos, lhe falaram é o que temos em caixa agora só se trabalha com cheque.

Ainda assim desconsolado porque o kitare não chegava, porque ele queria rústir com a kivita numa funguta do Bairro do Rangel, na dona Amália.

Chega o tão esperado fim do mês, Dona Loudes a secretária do boss lhe chama:

Zacarias está aqui teu cheque, agora vais ai na esquina tem o Banco Comercial de Angola ( gerente era sobrinho do famoso Peyroteu ) assinas só aqui atrás e tens o teu salário, tudo certinho com o teu vale descontado.

Zacarias fica na bicha do banco, quando chega a sua vez entrega o cheque ao funcionário e todo sorrisos, fala para o funcionário: assino aonde mesmo?

O funcionário diz:

Vais assinar aqui, mas tens que me apresentar o teu documento para ver se está válido, para registar aqui no cheque.

Eh nada, me falaram só assina, meu documento não tenho, a camba lá do meu trabalho falou só que eu assino, como agora falas dos documentos.

O funcionário vai falar com o gerente pois a empresa em causa era boa cliente, talvez pudesse facilitar sem a amostragem dos documentos de identificação, só com a assinatura.

Nesse entretanto como a demora era muita, um madié, bem grande e cheio de cabedal que está a trás do Zacarias, já impaciente fala:

Como é “ oh meu “ assinas e dás os documentos, ou então levas aqui um enxerto de porrada que nem sabes donde vieste.

Zacarias todo intimidado grita para o funcionário do Banco:

Trás ai o cheque que eu assino e te dou os documentos, tu não falaste bem, este madié aqui, é que sabe falar.

Zacarias recebe os seus cumbús e sai do Banco todo feliz, nesse fim de semana vai com a barona rústir um pé de dança numa funguta.


ZÉ ANTUNES
1974

17/04/2013

BALÃO DE AR QUENTE


Aqui vai mais uma pequena história dos velhos tempos da banda. Vai fazer anos dentro em breve, que em conjunto com uns vizinhos, resolve-mos fazer um balão de ar quente, para o lançar na noite de S. João. Lá fomos comprar papel, cola, arame, e metemos mãos á obra, cortou-se o papel, colou-se, e com o arame fez-se o suporte para receber a mecha, que ao arder o seu ar quente, faria encher o balão para se elevar.

Ora aqui começam as complicações. Ninguém se lembrou da mecha, pois tem que ser algo que arda devagar. Alguém mais experiente logo disse que o ideal era o que se usa para fazer os enchumaços nos ombros dos casacos dos fatos. E agora? Logo um dos meus vizinhos se lembrou que o cota dele tinha na arrecadação um casaco velho que ele usava por vezes, quando andava a fazer alguns biscates pelo quintal. Foi-se á procura, encontra-se o casaco e zás. Descoseu-se o forro. e já tinha-mos mecha para o balão.

Na noite de S. João, todos presentes para lançar o balão no grandioso céu estrelado. Acendeu-se a mecha, ela começou a arder e a encher-se de ar quente e nós todos contentes a vê-lo subir. Só que foi sol de pouca dura, passado pouco tempo, cerca de três a quatro metros, o nosso bonito balão incendiou-se, e lá foi o nosso trabalho para as cuncuias.

O pior foi algumas semanas depois quando o cota, do nosso avilo se lembrou de ir vestir o casaco, e deparou-se com o mesmo sem ombreiras.

Esta pequena história foi enviada pelo

AUGUSTO RODRIGUES

Bairro Popular nº 2 

2013

22/03/2013

NATUREZA MORTA


Muitas das muitas histórias da nossa infância passavam-se na escola, lembro-me de ouvir o Augusto contar que certa vez nas aulas de desenho do 2º ano das Escolas preparatórias, a professora levou um conjunto de frutas para eles desenharem, uma natureza morta. Entre as frutas estava um mamão que na altura ainda estava verde. Como todos sabemos, para o mamão amadurecer faziam-se uns golpes para sair a seiva e o mamão ia amadurecendo. Um belo dia quando chegámos á sala, já só lá estavam as cascas e os caroços, e desconfiou-se logo quem tinha sido o autor da brincadeira. Deu uma maka danada, pois a professora participou da turma, mas quem ficou com o proveito foi o Carnapeto. Se por acaso alguém se lembrar desta história e souber do paradeiro do Carnapeto que lhe diga, pois ele deve-se lembrar desta aventura, desde já um Kandandu para ele.

O Augusto nosso avilo do Bairro Popular, certa vez nas redes sociais viu que alguém publicou o cartão da Escola, de um colega do mesmo curso de nome Carnapeto. Como era um colega que o Augusto se dava muito bem, enviou um mail privado identificando-se e uma vez que essa pessoa tinha acesso a um documento pessoal, se fosse possível que lhe desse o contacto do Carnapeto, pois gostaria de ficar em contacto com ele. Até hoje o nosso amigo Augusto está a espera da resposta ao seu mail.

ZÉ ANTUNES

1972

18/03/2013

GAMANÇO



Quando eramos kandengues, além de jogarmos à bola também faziamos as nossas patifariazinhas e tinhamos as nossas aventuras.

No Bairro Popular, morava um individuo, julgo que na rua de Vila Viçosa, que tinha uma camioneta, e viajava para as fazendas do norte, e o forte dele era negociar em fruta, ou seja ia comprar fruta ás fazendas, para as vender em Luanda. Quando ele se ausentava e se ia abastecer, no regreso ao Bairro chegava sempre perto da noite, ao entardecer, a malta já sabia e como paráva-mos ali á entrada do bairro, ficava-mos á espera, quando via-mos a camioneta, ía-mos atrás dela, e um de nós saltava lá para dentro, e começava a distribuir fruta para os que vinham a correr atrás. Felizmente não era por necessidade, mas apenas pela brincadeira e a aventura. O individuo é que não gostava nada da nossa brincadeira, e muitas vezes parava a camioneta e vinha atrás de nós com ares ameaçadores de que nos queria bater.

Também haviam kandengues que quando as camionetas dos refrigerantes passavam para ir abastecer o Bar do Matias ( Bar São João ) o Tirol, o Bar Cravo e mesmo o Pisca–Pisca, trepavam para as carrocerias e gamavam umas Quicks e umas Missions, claro que quando os kandengues chegavam a casa, alguns pais já sabiam dos acontecimentos, dávam-nos uns valentes raspanetes, havendo mesmo pais que batiam forte e feio, que alguns kandengues ficam marcados das cinturadas que tinham levado.

ZÉ ANTUNES

1972

13/03/2013

A BOLA DE AREIA


Realmente a memória, já se vai desvanecendo um pouco na poeira do tempo. Houve  muitas cenas, que algumas vão surgindo á medida que se vai falando, mas outras perderam-se nos tempos. Uma que eu me lembro - e não me lembro se o Zé Antunes estava lá - Eu não estava lá mas meus irmãos contaram-me essa história.

Certa vez, no nosso campo do Preventório Infantil de Luanda, agarramos num couro de bola de cautchú, enchemos de areia, e depois dissemos a um kandengue negro, não foi pelo facto de ele ser negro, pois como sabem isso para nós não contava, e dado que ele tinha a mania que era o maior, que jogava bastante bem, reconhecendo passados estes anos todos, até jogava bem melhor que nós todos, que ele não conseguia marcar um golo ao João mais conhecido pelo VAI À LUA, recordo-me bem dele, era um grande guarda-redes, aleijado de uma perna, mas defendia bem.

O certo é que o kandengue arrancou para a bola, e como se recordam a maior parte das vezes jogávamos de pé descalço, para não estragar os kedes da Macambira, vai dai arriou uma valente biqueirada na bola, caiu para a frente, e a bola nem se mexeu. Final da história, era todo o mundo a rebolar de rir, e o desgraçado agarrado ao pé cheio de dores. Podia-mos ter partido o pé ao kandengue.

Já agora, porque alinhavam nos nossos trumunos, para lembrar de três irmãos mestiços que moravam na Rua do Andulo, que eram o Mariano, o Galiano, e o Luiz que era meio irmão do Galiano e fazia de menina, pois ele antes de ir jogar a bola connosco ou alinhar noutras brincadeiras, tinha que arrumar a casa e lavar a loiça, e lavar o quintal. Os pais trabalhavam nas finanças na Mutamba, sei que estão em Luanda e foram viver para a Sagrada Familia. O Galiano pertence ao Exercito Angolano ( FAPLAS ).

Os jogos de rua que fazíamos em frente à minha casa, com a Celina, a Arlete (Chú ) e o Manelito que vivia ao lado delas, cujo pai era bancário e tinha um Ford Escort, e muitos mais kandengues. Bons tempos. Éramos livres e felizes e não sabiamos.

Esta história foi recordada pelo Augusto Rodrigues avilo de infância.


ZÉ ANTUNES

1972

12/03/2013

NEGÓCIO DE ARMAS


António José ( Tó Zé ) para os amigos assim se chama o nosso protogonista desta história, que remonta aos anos de 1976 depois do prec e de muitas armas desaparecidas.

O Tó Zé com uns amigos estão num negócio dessas armas desaparecidas e que não se sabe de onde vieram, guarda uma delas e vai vendendo as outras.

Namora uma garina que vive ali para os lados da Mouraria que também quer parte do  dinheiro da venda das armas, que  seja repartida por ela também, como o nosso Tó Zé e os amigos não satisfazem as suas pretensões, ela sem nada a perder, faz queixa na Esquadra da Policia.

As forças policiais fazem uma busca ás casas indiciadas pela rapariga, e encontram algumas armas e na casa do  nosso Tó Zé também, vão detidos para serem interrogados.

O Pai do nosso António José é meu amigo e pede-me a mim e a um avilo nosso ( o Anibal ) para sermos testemunhas de abonação.

Passados alguns dias sou intimado a ir a Tribunal, eu e o meu amigo, e estivemos na audiencia durante 3 horas e não fomos chamados a depor.

Todos os meses ia a tribunal até ao ano de 1977 ( 2 anos ) e durante esse tempo fui vendo outras pessoas implicadas no desaparecimento dessas armas, muitas tinham sido furtadas nos Quarteis.

No fim do ano de 1977 fui ouvido e disse que como testemunha de abonação, que  estava ali para atestar que conhecia os pais do Tó Zé e que ele até ao regresso de Angola era bom aluno e que não tinha conhecimento sobre tais desaparecimentos de armas.

Lá ilibaram o nosso António José, pois havia pessoas com mais responsabilidades no caso, e lembro-me que algumas delas foram mesmo presas com penas de mais de 5 anos de cadeia efectiva, pessoas bem conceituadas na Cidade de Lisboa.

Foi a minha primeira vez que estive num tribunal a testemunhar.


ZÉ ANTUNES

1977

CINEMA N`GOLA




Mais uma de muitas histórias e aventuras da nossa infãncia
ocorridas na nossa Luanda – Angola, esta pequena história é do José Camilo que morava no Bairro da Terra Nova, e que estudou na Escola Industrial de Luanda.

Um certo dia José Camilo vai ao Cinema N´Gola Cine ver o filme doze Indomáveis Patifes, quando comprou o bilhete, o filme era para maiores de doze anos, mas quando está na hora de começar o filme é mudada a idade de entrada para maiores de dezassete anos, José Camilo, não tinha problemas pois embora não tivesse a idade, entrava sempre, só que naquele dia estava lá o cambúta da nossa turma na Escola Industrial de Luanda e como sabia que o José Camilo não tinha idade, deu com a língua nos dentes e o nosso amigo Camilo foi proibido de entrar.

Vendeu o bilhete e foi com o seu amigo João (que era negro) ver o filme para os eucaliptos como já era seu costume quando não havia guito.

Estavam lá descansados da vida, concentrados a ver o filme, quando apareceu o "macaco cão" da Pide com dois Cipaios a ordenar que eles descessem, José Camilo que estava empoleirado no eucalipto, no ramos mais baixo, foi o primeiro a descer, quando desceu, com toda a velocidade possível, para fugir, foi agarrado, interrogado pelo Pide para saber quem era, e de onde era, levou duas chibatadas do “chibo”, e deu corda aos sapatos, enquanto fugia, insultou de todos os nomes e mais alguns mas o Pide e os Cipaios não foram atrás do José Camilo.

ZÉ ANTUNES

2013

UM CACHORRO CHAMADO PILOTO




Nos tempos áureos da nossa infância, depois de um dia inteiro a jogar à bola entre vizinhos, todos kandengues mais ao menos com a mesma idade ( grandes trumunos ) no descampado do Preventório Infantil de Luanda, para nós era um grande campo de futebol, com o nosso trabalho chegou a ter balizas de madeira enterradas na terra dura, realizavamos ali trumunos a sério que traziam sempre grandes polémicas em alguns lances, que depois eram discutidos, ali no muro do Preventório em frente à minha casa debaixo de uma frondosa mangueira que dava uns belos e saborosos frutos, mangas suculentas.

Essas discussões eram mais os acontecimentos do jogo, pois não se chegava a conclusão alguma, todos queriam ter a sua razão.

Lembro-me de um kandengue, o Augusto que se afastava do cerne dessas polémicas e ficava ali a bater a bola em pequenos toques, de uma das vezes um dos toques que deu a bola com mais foeça, a bola foi parar ao meu quintal.

O Piloto cão pequeno todo preto mas de guarda estava com uma coleira e uma corrente presa a um arame em toda a extenção do quintal, para ele poder se movimentar.

De tanto roçar a corrente com o arame o material foi-se desgastando.

O Augusto entra no quintal, para ir recuperara a bola, o Piloto salta, rebenta com a corrente desgastada e atira-se ao kandengue, com as patas arranha-o na face e no peito, rasgando a bela camisola que ele trajava.

Posto médico do Enfermeiro Carlos que logo lhe fez os primeiros curativos, sei que o nosso amigo Augusto ainda andou um bom par de dias parecendo um Cristo.

Meus pais ainda tiveram alguns problrmas, pois as vacinas do cachorro estavam caducadas e temeu-se o pior que era saber se o cão tinha a raiva.

Sei que em 1970 a quando da nossa vinda a Lisboa deixamos o “Piloto” com o Senhor Raminhos e Dona Ana que moravam no Cazenga, e eram amigos dos meus pais desde os tempos que trabalharam na Barragem de Cambambe.

O Senhor Raminhos tinha uns Capoeiros onde deambulavam vários galinácios, o canideo viu uma brecha na rede e entrou na capoeira e matou duas galinhas à dentada. Sei que depois o Canideo foi oferecido a um casal que morava no Palanca.

Conclusão passados estes anos todos e em conversa com o Augusto, lembramo-nos desta recambolesca história.


ZÉ ANTUNES

1968

26/02/2013

O BALOIÇO




Hoje vou contar uma história vivida pelo JOSÉ CAMILO
em Luanda, mais propriamente no Bairro da Terra Nova,
ele tinha lá um grupo de Amigos que andavam sempre
juntos e faziam aquelas brincadeiras próprias da nossa
juventude.

Nos eucaliptos ao pé do Bairro Indígena tinha um
eucalipto marreco, todo torto, onde eles os Kandengues
costumavam ir fazer umas brincadeiras, resumo da
história, os kandengues penduravam-se no dito eucalipto
marreco, com uma corda puxavam a ponta da mesma
quase até ao chão, depois de devidamente agarrados era
solta a corda e lá estavam eles a balouçar até o dito parar
aquilo até era fixe, mas um dia a coisa complicou-se um
dos intervenientes na festa levantou voou e bateu com as
costelas no chão. Esse Amigo era o Assunção (Sanção).

Ficou bem cambalido com o corpo cheio de dores. Transcrevo esta história esperando que alguém se lembre desta dela e faça o seu comentário.
Tempos da nossa infância

ZÉ ANTUNES ( contada pelo José Camilo )

1975

MASOQUISMO!!!




De todas as Empresas de Projecto onde colaborei como Desenhador  Projectista houve uma Empresa que pelo  volume de trabalho e pela quantidade de Colaboradores, foi contratada uma pessoa que ficaria a controlar  as entradas e  saidas na Portaria do dito Edificio.

Certa vez essa pessoa, já depois de todos sairem deveriam
ser umas cinco horas da manhã, foi abordado por sete
individuos que sabendo que ele se encontrava sózinho o agrediram e foram directamente a sala de desenho e
levaram os oito Computadores, um Scaner e uma
Impressora de papel A1 ( uma plotter ).

Depois de consumado o roubo a dita pessoa toda ensanguentada e com um traumatismo craneano telefonou ao 112 e foi socorrido no Hospital, onde esteve internado três dias.

A Empresa lesada, chamou a Policia Judiciária e depressa
chegaram á conclusão que o funcionário agredido estava
de concluio com os assaltantes.

Interrogatório feito ao funcionário depressa se chegou a
essa conclusão e que o produto do roubo já tinha sido distribuido algum, e vendido outro sendo os lucros distribuidos por todos.

Chamados a tribunal, foram sentenciados a pagar os bens
materiais e as custas do Tribunal, bem assim como os
advogados.

O funcionário foi despedido, e nessa altura todos ficaram
admirados e surpresos, foi como é que ele se deixou agredir violentamente para se apropriar de meia dúzia de euros.

Só por puro masoquismo

Vá lá entender-se a mente humana.

ZÉ ANTUNES

2010

14/02/2013

CAMPO DE REFUGIADOS




Darfur
Ellina Dominic, filha única, nunca foi casada, ela é do Sudão no leste da África, e tem 24 anos.

No começo ela estava residindo no campo de refugiados de Darfur no Chade em Julho de 2006, num certo momento houve uma divisão e foram enviados alguns refugiados, para o Senegal no Oeste Africano em 10 de agosto 2007 onde ela está atualmente residindo em N'dioum campo de refugiados devido à guerra civil no seu país. Ela está sofrendo as dores de todo o povo que está neste acampamento e ela realmente precisa de ter pessoas ao seu lado para a encorajar, ela está disposta a mudar a sua situação e sair do país, para valorizar também a sua vida profissional.

Seu falecido pai Dr, Coronel Dominic Nduto era o diretor industrial Gerente da (DOMINIC NDUTO INDUSTRIAL COMPANY LTD) em Cartum, a capital económica de seu país (Sudão) e ele também foi o assessor pessoal do ex-chefe de Estado antes de os rebeldes atacarem a sua residência numa manhã bastante cedo e ai mataram sua mãe e seu pai a sangue frio, ela escapou da morte porque tinha já saído para a escola, quando os rebelde atacaram a sua casa, ela é única filha dos seus pais, já nascida tardiamente, não tem nenhum irmão.

Este campo de refugiados é chefiado por um Reverendo Padre, e ela vai usando seu computador do escritório para enviar estas histórias, e ela só tem permissão de utilizar o Computador quando Reverendo Padre não está muito ocupado.


Os senhores do Darfur

"A Auatif não regressou. Quatro janjaweed apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjaweed. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios.

«Dizias que me ias mostrar a tua aldeia!?» «É aqui mesmo. Foi! Até há dois anos.» Os meus pés estão a pisar escombros; vêem-se canas no chão, sinal de algo que foi a sebe de um pátio. Aqui e além alguns restos de tijolos «verdes» (assim chamados porque cozidos ao sol). O aldeamento já não existe, mas o nome ficou: Talata Ardeb. «A minha casa era mesmo ali em frente. Consistia num kurnuk, uma guttia (isto é: duas cabanas distintas no seu formato e aplicação) e um pátio; a minha foi uma das poucas das 37 famílias que puderam escapar antes do grande massacre, onde foi morta quase metade da população.» Quanto ao El Nur, agora habita, com a mulher e os três filhos, em Majok, uma aldeia perto do aeroporto de Nyala que os janjauid não destruíram, talvez para fazer boa impressão a quem chega a Nyala por via aérea.» «E aquelas mulheres (bem mais de uma dezena) que andam a rebuscar lenha?» «Não as conheço, mas não podem ter vindo senão no campo de refugiados de Kalma, a três quilómetros daqui.» Não muito longe de nós, um rebanho de umas três centenas de ovelhas e cabras vagueia livremente à procura de pasto que o sol abrasador de 43 graus fez desaparecer, aumentando o deserto que, entretanto, espera a próxima bênção das chuvas. Estendo os olhos na direcção das colinas de Dajo e avisto duas grandes manadas de camelos que imaginei tivessem fugido dos seus donos para agora, com toda a liberdade, tomarem conta dos mangueirais aí à volta. Aquelas mangas não terão tempo de se criar e amadurecer. O El Nur, com uma frase que lhe custou muito pronunciar, assentiu: «Tudo o que vemos à nossa volta pertence agora a um só e mesmo dono (colectivo): os janjauid. Terra, manadas e rebanhos, plantações.» «E as mulheres não têm medo?» «O medo está sempre presente. Mas a distribuição de alimentos pelas organizações humanitárias não dá para tudo. Elas sabem que os janjauid podem aparecer a qualquer momento. Mas arriscam porque a prioridade é sobreviver. Tu e eu também estamos em situação de risco.» Procurei dissimular e não dar importância ao arrepio que me veio por todo o corpo. Mas do meu amigo El Nur ouvi palavras que me aliviaram: «Até agora não houve notícias de ataques a estrangeiros. E quanto a mim, já não tenho nada a perder; a minha verdadeira riqueza (mulher e filhos) vive agora em Majok.» Ele parou a olhar para mim, enquanto eu lhe expressava os meus votos sinceros: «Deus te conserve sempre "rico" e te faça realizar os teus desejos.» E ele concluiu à maneira de bom muçulmano: «Ámen.» Quanto a este e outros grupos de mulheres que fomos encontrando a apanhar lenha, só desejo que possam regressar com os feixes ao campo de Kalma. Todas! Porque, frequentemente, algumas delas não têm regressado. Os janjauid são os donos de tudo. E delas também! Quisera não ouvir mais histórias como aquela do grupo de mulheres que saíram, um dia, a apanhar lenha não muito longe do campo de refugiados de Kalma, onde viviam. Uma delas, a Auatif, não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios. Os donos e senhores do Darfur? Não existiriam, se não lhes fosse dada a luz verde dos senhores do Governo de Cartum!"


Testemunho enviado por voluntário no terreno, 9/2007

recebidos via internet

2009