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09/04/2012

JÚLIO INÁCIO


Júlio nasce em Soutilha, na freguesia de Agueiras, Concelho de Mirandela, Distrito de Bragança, nasce no mais inóspito Trás os Montes, em 12 de Setembro de 1930, filho de José Morgado e Isaura dos Anjos, com 7 anos de idade, vê a mãe falecer ( caiu de uma figueira ) e o pai por ter uma deficiência fisica, numas das pernas, contraida na 1ª Guerra Mundial em La Lyz – França, familia de seis filhos, vê-se a tomar conta dos mais novos, a saber ( Esperança 6 anos, Algiza Branca 4 anos e Delmar 2 anos ) os mais crescidos iam trabalhando no Campo ( Madalena 12 anos, Manuel 9 anos ) devido a esses precalços da vida vê-se a pastorear um rebanho de ovelhas com 7 anos de idade, está uma vez três dias perdido no meio de fragas cobertas de neve lá para os lados de Sonim em Rebordelo, com os animais mais mortos que vivos, quando o encontraram estava com hiportermia, esteve de cama duas semanas, deveria andar na escola a aprender as letras, mas a vida era madrasta e naquele tempo o meio de subsistência, era práticamente o que a terra dava, fazia-se pão para quinze dias e eram esses os poucos recursos na aldeia, que distava 30 kmºs de Mirandela.

Madalena e Manuel vêem para Lisboa em 1945 e conseguem que o meu avô José Morgado viesse para Lisboa e estivesse num lar por ter combatido na 1ª Grande Guerra, onde terminou os seus dias com dignidade. Está sepultado no Canteiro dos Mortos da Grande Guerra Mundial no Alto de São João. Nesses espaço de tempo até 1948, foram buscar a Algiza Branca para servir na casa do Comendador Lopes Alves, veio a Esperança que foi servir para uma casa nas Avenidas Novas veio o Júlio que veio morar no Largo Terreiro do Trigo na casa da Madalena, e começou a trabalhar como carpinteiro de confragens na Sonefe nuns prédios no Largo do Areeiro, mais tarde em 1953, veio o Delmar que veio para uma portaria de uma seguradora Francesa ali na António Augusto de Aguiar. Lisboa que passou a ser na época uma cidade comospolita pois recebeu muitos refugiados judeus da 2ª. Grande Guerra e segundo rezam as crónicas da altura só se ouvia falar estrangeiro na baixa de Lisboa e no chiado, que era onde se concentrava as familias Judias.

Júlio é esperto e trabalhador e aprende depressa, que em 1953 já está a trabalhar na Sonefe como encarregado de obras, mas na nova contrução do Estádio da Luz.
Maria do Carmo, nasce a 29 de Março de 1935, no lugar de Póvoa de Penafirme, freguesia de A dos Cunhados, Concelho de Torres Vedras, Distrito de Lisboa para servir para uma dessas familias judias da Austria, fugidas também ao holocausto da guerra, vai ali para os lados das Janelas Verdes – Santos – e um belo dia entra no eléctrico para o Saldanha para se dirigie à Central de Camionagem, para viajar na empresa dos Claras empresa de transportes de passageiros de longo Curso, que a levaria a Penafirme para passar um fim de semana, quando conhece o Júlio porque o mesmo já tinha pago o bilhete do eléctrico, e oferece-lhe umas flores, Júlio já andava com a Maria do Carmo de baixo de olho, faltava-lhe coragem para tomar a atitude que tomou, conversa daqui, conversa dali, ficam amigos e vão-se encontrando em Lisboa aos fins de semana. E resolvem namorar.

Júlio e Maria do Carmo resolvem oficializar o namoro e decidem ir os dois a Penafirme a casa dos pais, o Vital e a Maria, mas Júlio com o nervoso à flor da pele vai-se aconselhar com a irmã da Maria do Carmo que também estava a servir em Lisboa. A Maria de Lurdes lá lhe disse como era o feitio deles e Júlio decidiu mesmo ir. Naquele tempo os namoros eram autorizados mas com pessoas que se conhecessem ou que vivesem proximas, foi o cabo dos trabalhos a Ti Quitas Pedro era assim que tratavam a Maria de Jesus, não viu com bons olhos o casamento com um Transmontano, mas lá se aprovou o namoro e o casamento foi em Maio de 1954, vindo o novo casalinho viver para Lisboa, mas para Xabregas, Poço do Bispo, mais própriamente no Beato, continuou a trabalhar no Estádio da Luz, o dinheiro era pouco, para as novos compromissos, e é ai que recebe um convite do encarregado geral da Sonefe o Sr. José Macedo Vitorino, para ir para Angola onde já se encontrava o irmão mais velho o Manuel, na altura para ir para Angola era preciso carta de chamada ou um contrato de trabalho.
Inaugura-se o Estadio da Luz em Dezembro de 1954, ainda passa o Natal de 1955 com a Maria do Carmo, mas em 11 de Setembro de 1956 embarca no Paquete Moçambique rumo a Luanda. Com um contrato de trabalho por quatro anos, para ir trabalhar no projecto da Barragem de Cambambe no Alto Dondo em Angola. O Manuel fica em Luanda e o Júlio lá vai sózinho para Cambambe. Entretanto Maria do Carmo que estava gravida do José Antunes, que nasce a 12 de Maio de 1955, só embarca no Paquete Niassa em 15 de Janeiro de 1957, chegando a Luanda, indo diretamente para Cambambe, conduzida pelo Justino Silva empregado do Sr. Figueiredo Melo que mais tarde seria padrinho do filho Fernando, a Maria do Carmo veio para Luanda em Maio de 1957 para o Fernando nascer a 01 de Junho de 1957.
Nasceu o Fernando voltou ao Dondo. A Maria do Carmo engravida de novo e em Maio de 1958, vem para Luanda para nascer o Victor, 22 de Maio de 1958, desta vez só veio a Maria do Carmo, o José Antunes e o Fernando ficam com a Ana Maria ( Dona Aninhas ) esposa do Sr. Raminhos que entretanto ficaram amigos da familia, Maria do Carmo volta ao Dondo com o novo filho, regressamos todos definitivamente para Luanda em Novembro de 1959.

Estivemos primeiro no Bairro São Paulo e depois no Bairro da Cuca numa casa do José Calisto e da Maria que viriam a ser padrinhos do Victor, no Bairro da Cuca Júlio e Maria do Carmo têm a tão desejada filha, nasce a Maria Amélia em 14 de Junho de 1960, nasceram todos na maternidade de Luanda e foram registrados na Missão de São Paulo.
No ano 1961 dá-se os acontecimentos do 4 de Fevereiro em Luanda, e toda a Angola começa a ter um desenvolvimento como nunca se tinha visto e começam a chegar mais europeus a Luanda, mudamo-nos para o Bairro Popular nº2 hoje chamado de Neves Bendinha, ai Júlio mantem-se na Sonefe e anda por Angola quase toda a trabalhar nas infraestruturas das cidades, principalmente o abastecimentos de água potável.
 Foram atacados em 1963 pela União de Povos de Angola (UPA) comandados pelo Holden Roberto nas instalações da Sonefe em Maquela do Zombo, ao qual miraculosamente sobriviveu. Nessa altura e com vários convites veio definitivamente para Luanda e foi trabalhar directamente com o Sr. Figueiredo que tinha montado uma empresa de construções a Projestangola, Lda.
Estando em grandes obras como o Banco Comercial de Angola, a renovação da Fábrica de Cervejas Nocal, nova maternidade de Luanda e muitos mais projectos que estavam a pôr Luanda mais bonita. Em 1968, e como falava com muito pessoal negro que andava nas obras, que tinham reuniões clandestinas, lhe diziam Sr. Júlio a situação do nosso povo está por pouco tempo o M.P.L.A. e o governo de Portugal chegarão a um concenso e ou ficavam com auto determinação ou independência, depois de conversar com Maria do Carmo decidiu vir a Portugal, trazendo o Victor e a Amélia a pretexto de custear os estudos poderia fazer algumas transferências de dinheiro. Regressa a Luanda e em 1970 a quando da nossa vinda a lisboa vai ter com o irmão Manuel a Joanesburg na África do Sul e fica lá a trabalhar em Troyeville, regressa a Luanda e em 1972 volta a Joanesburg e leva a Maria do Carmo para ser operada lá pelo conhecidissimo médico Dr. Bernard, volta a Luanda definitivamente em 1973 e trás um Opel Kadete, que é vendido ao Artur já em Agosto de 1974, o Artur dá 10 mil escudos e diz que em dois meses dá o restante que era outros 10 mil escudos, ora passou-se os meses e o dinheiro nada, em Janeiro de 1975 o Júlio recebe uma contraordenação do tribunal pois ele como dono da viatura teria que pagar a gasolina que estava em divida pois abasteceu-se a viatura na texaco da maianga e o condutor fugiu, foi o amigo Artur que abasteceu e fugiu, fazendo uma manobra que danificou o guarda lamas direito, lá foi o Júlio pagar a multa e pagar o abastecimento de combustivel devido, tratando logo de fazer de bate chapas e pintor, depois de bem arranjado e com bastante betume pedra faltava só a pintura, viu-se qual a cor da tinta e foi pintada ali mesmo no quintal com uma bomba de flit, aquelas de matar os mosquitos, e até ficou bem pintado o guarda lamas, viatura que ficou depois com o José Agostinho que seria fuzilado no golpe do Nito Alves em Maio de 1977 .

Até Outubro de 1975 estava na construção da Futura Imprensa Nacional de Angola ali na Estrada de Catete entre a Escola Comercial Vicente Ferreira e os Maristas. Tendo regressado em Outubro de 1975 para Lisboa com o filho Fernando, o Victor foi o último a regressar, cá já se encontravam a Maria do Carmo, os filhos José Antunes e Maria Amélia.

1975

02/04/2012

MEU AVÔ VITAL

Parece que o estou a ver, o meu avô. Chamava-se Vital Antunes. Movimentava-se pela casa como uma sombra importante, imprescindível. Era respeitado por todos, familiares e amigos. Mostrava autoritarismo, segurança nos seus gestos, mas era doce e terno, camuflando uma imensa simpatia e preocupação nas emoções e nos sentimentos para com todos. Era raro vê-lo rir porque sorria. Evitava situações de grande tumulto ou hilariante, comedido e sério que era.
Relembro-o agora, fugazmente. Prendera-se a sua fugidia imagem a mim, com contornos de perpétua adoração e veneração. Vejo-o sempre depois do almoço a descansar na Adega depois de um árduo dia de trabalho no campo. Tinha dignidade, o meu avô, evidenciada nos actos que tomava, agindo todo o tempo de forma sensata e sóbria. A sua dignidade era respeitada porque respeitava a dignidade dos outros. Vivia preso à família e, ainda hoje, parece-me vê-lo esboçando um ténue sorriso de carinho só para mim e ouvir, pelas mais diversas vozes de outros, louvá-lo e enaltecê-lo pela sua conduta intocável e bela em todos os rostos conhecidos e desconhecidos, na aldeia que era sua e onde eu nasci.
Meu avô conquistara os corações das pessoas e defendera valores relevantes ao seu bem-estar e à sua vida intensa em felicidade que jamais poderei ignorar ou esquecer. O meu avô Vital, para os outros, eternizara a sua obra de amor, dedicação e solidariedade que jamais poderão ser ignorados, imortalizados que serão pelo tempo fora, sem desgaste pela inércia avassaladora de ideologias de vanguarda das novas gerações. Disso, eu tenho a certeza inequívoca, sentida e verdadeira. Meu avô Vital tinha sempre crianças por perto, mas nunca ria, sorria, amava-as com a sua sinceridade, seriedade, com o seu carácter de figura de bem.
Amava-as tão intensamente que se esquecia de si próprio ou do riso que guardava e transparecia dentro de si, só para elas. O meu avô abraçava uma capa transparente e pura, dotada de um fulgor amistoso e afável que todos admiravam, mas eu não sei se compreendiam. Eu compreendia. Eu vivia.
Eu vivia nessa capa como todas as crianças que o rodeavam, viviam. Era só para elas e, isso, bastava. As pessoas, as outras pessoas perguntavam e intrigavam-se, quando perguntavam onde estava o riso do meu avô. Ele que só sorria. Eu sorria e ele mostrava-se sério, parecendo indiferente e esboçando um sorriso terno e agradecido pela minha cumplicidade. Um sorriso mais sentido no seu interior, no meu interior.
Mas, o sorriso estava ali e eu via-o com uma nitidez e uma alegria imensas. É assim que o revejo. É assim que sinto o meu avô. Guardarei sempre com respeito e amor a imagem do meu avô Vital. Não esqueci as suas sestas, numa esteira a porta da Adega. Dava-me cinco tostões e as suas sestas eram as minhas sestas. Só conseguia adormecer com os netos no seu coração.
Quando me parecia que ele adormecia saia furtivamente sem fazer ruído, agarrando com muita força os cinco tostões na minha mão, pequena ainda, ao mesmo tempo que escondia a minha recompensa e o meu tesouro, amplamente merecidos. Ele sentia-me abandoná-lo e, então, sorria e adormecia feliz, enternecido pela companhia valiosa que lhe fizera.
O meu avô intrigava-me porque nunca entrava na cozinha. Compreendi só mais tarde a razão: Não queria atrapalhar! Sentiam, então, uma ligeira tremura que passava rapidamente. Conheciam-lhe o bom coração oculto e tinham-no em consideração. Ele parecia ignorá-las, o que não correspondia à realidade. Ao jantar, quando se sentava à mesa no lugar do topo, mandava acender todas as luzes, exclamando com convicção: - Acendam todas as luzes, enquanto eu for vivo!
Quando morrer, para mim, já não fazem falta! Enquanto estiver aqui quero tudo aceso! E a claridade das luzes propagava-se por todos os cantos da mesa e ele parecia satisfeito, feliz. Já quando dormia no quarto ou descansava nele a obscuridade total enchia-o plenamente. Queria a penumbra completa, se calhar para lhe facilitar o descanso ou para ter paz absoluta para consigo próprio naquele recanto íntimo, só dele. Estive pouco tempo com ele mas deu para o conhecer e gostar dele, mesmo quando quase nos obrigava aos netos a retalhar melâncias para dar aos animais.
Quando o meu avô faleceu, já me encontrava em Luanda, apagou-se uma chama no meu olhar e no meu coração. Não compreendi bem, mas senti que uma parte dele encarnou em mim. Alguma coisa ficou dele em mim. Não tive um desgosto, mas senti um orgulho desmedido em tê-lo conhecido e ter partilhado do seu afecto, do seu amor e do seu forte carácter que impunha em tudo o que fazia. Amá-lo-ei sempre, nem que seja em sonhos, o meu avô Vital! A sua sombra baila-me cá dentro, no pensamento mais escondido do meu ser, com pena de ele não ser eterno, pois, há certas pessoas que deviam ser eternas, sempre presentes em nós pelos actos nobres, pelo temperamento, pela entrega aos outros.
 E ele era uma delas! Se ao menos lá no alto Deus ouvisse e concedesse essa dádiva. Só me apetece dizer ternamente: - Até sempre, querido Avô!

1970

30/03/2012

MEMÓRIAS - ACERCA DE MIM





Zé Antunes e meu
irmão Fernando



                Zé Antunes,  Fernando  e meus pais                  


     Meu pai e nós os quatro Bº. Pop  


               Meus pais na Sonefe em Luanda                  



PRELÚDIO - Vou tentar sintetizar os meus passos em Angola, mas acho que não consigo. Contudo começo por dizer que sou retornado, e também refugiado. Sou europeu porque o meus antepassados o eram, mas sinto-me africano pelos 20 anos mais importantes da minha vida vividos em Angola, a maior parte deles em Luanda.

José Antunes Gonçalves, também conhecido por Zé Antunes ( Russo ), nascido na Póvoa de Penafirme - Santa Cruz – Torres Vedras, em Maio de 1955, no seio de uma família normal – somos 4 irmãos ( Zé Antunes, Fernando, Victor e Amélia) - lá está a história de não haver televisão, ou se calhar, a minha mãe levava a religiosidade muito a sério - cada gravidez, cada parto.

O meu pai, per si, também pertencia a uma prôle normal - 6 irmãos (Manuel, Madalena, Branca, meu pai Júlio, Delmar e Esperança).
Minha mãe também com família dita normal - 5 irmãos (minha mãe Carmitas, Alice. Lourdes, Zé Martins e Victória).

Não nasci rico, pois o meu pai quando nasci já se preparava para emigrar para Angola, a vida em Portugal era muito difícil na época, embarcou no navio Niassa em Setembro de 1956 tendo passado esse natal já em Cambambe, com o seu trabalho conseguiu ter uma vida estável e educar os filhos dando-nos ferramentas para termos melhores condições de vida, a quando da independência de Angola, lá ficou a moradia da família, no Bairro Popular nº 2 e mais os dois automóveis ( um Opel Kadete e uma carrinha Datsun) lá ficaram em Angola, com o José Agostinho o “bom moço”, que foi fuzilado a quando do Golpe do Nito Alves em 27 de Maio de 1977.

A MENINICE - Fui para Luanda em Janeiro de 1957 . Vivi a minha meninice na Barragem de Cambambe (Alto Dondo), para onde fui com 20 meses de idade e nesse tempo o meu pai trabalhava na Barragem de Cambambe, e tenho poucas recordações desse tempo por ser ainda criança. Sei de algumas passagens por ouvir minha mãe contar.

TEMPO DA GUERRA - Em Maio de 1960, fomos residir para o Bairro São Paulo, indo depois para o Bairro da Cuca em Luanda, e lá vivemos o inicio do "tempo da guerra". O meu pai sempre ligado há Empresa Sonefe. Moravamos numa casa que era do Calisto e da Maria, que foram mais tarde padrinhos de batizado do Victor. Lembro-me dos militares, pois andei muito nos jipes Willy's e Jipões da tropa portuguesa e, albergámos na nossa casa muitos militares de patente alta e suas esposas pois a casa tinha imensos quartos - parecia uma pensão!!! O Bairro da Cuca era um Bairro bem grande, já tinha naquele tempo um Clube Social, um Posto de Combustivel, Escola Primária, Colégio “João de Deus”, a fábrica de cervejas “CUCA” tinha uma piscina (Cacimba de águas paradas ) onde morreu um amigo meu com 7 anos ( ficou preso no lodo )!!! Quando o meu pai dizia - vou sair - nós nunca sabíamos se ia na carrinha Austin para a cidade de Luanda ou se ia para alguma povoação do Norte de Angola!

ESCOLA PRIMÁRIA - Em 1962 fomos residir para O Bairro Popular nº2 Luanda. Ai fiz a instrução primária. Estivemos lá até 1975. O meu pai trabalhava como encarregado de obras na “Sonefe” minha mãe tinha uma banca de legumes no Kinaxixe, Frequentei a Escola Primária nº 176, no Bairro Câncio Martins, vulgarmente conhecido por Bairro Popular nº, 2, hoje chamado de Neves Bendinha ( páraco de Luanda que foi o estratega da revolta do dia 4 de Fevereiro de 1961) é como se fosse hoje, recorda-me da escola e da minha primeira professora Srª. Professora Fernanda, pessoa respeitável 1ª e 2ª classes depois Srª. Professora Amélia 3ª e 4ª classe. Escola nova moderna com características arquitectónicas do Estado Novo, mandada construir pelo governo de Salazar. Toda a estrutura principal era de alvenaria, amplas salas de aula e sanitários num recinto coberto para nos intervalos das aulas nos abrigarmos quando chovia. Tenho bem presente na memória que nas salas de aula na parede por detrás da mesa da professora, havia dois quadros: um com o retrato do Presidente da República na altura Américo Tomáz e do Primeiro Ministro Dr. Oliveira Salazar. No centro um crucifixo. Nas paredes laterais da sala de aulas havia quadros, não me lembra quantos, os chamados quadros de Salazar. Recorda-me apenas de dois que ficaram, não sei porquê, gravados na minha memória. Num deles do lado esquerdo via-se uma velha escola e o professor bêbado. Os alunos insubordinados saltavam pelas janelas para a rua. Do lado direito viam-se as escolas tal como aquela que eu frequentei. O outro era um quadro onde, do lado esquerdo, se via um automóvel da época talvez um Ford circulando numa estrada toda cheia de buracos. Do lado direito as estradas novas mandadas construir pelo Governo de Salazar. Recordo, também, que num recital feito na escola se exaltavam os quadros de Salazar. A mim coube-me dizer a introdução: "Os quadros de Salazar são a mais alta lição que ao Mundo se pode dar à Grei e a toda a Nação". E, naquele tempo, assim foi. Em Luanda havia pelo menos quatro dessas escolas, com classes mistas .

ESCOLA SECUNDÁRIA - Terminado o estudo primário (4ª classe) fui matriculado na Escola Preparatória “JOÃO CRISÓSTOMO” que, naquele tempo, foi inaugurada nesse ano, ano de 1967/1968 ainda tinha turmas masculinas e femininas, depois transitei para a Escola Indústrial António Oliveira Salazar de 1968 a 1973. terminando o meu curso de Formação de Serralheiro, ( Desenhador de Máquinas, Desenho de Construção de Estruturas Metálicas e Desenho de Construção Civil ), para no futuro ter mais algumas possibilidades de emprego, tendo ainda frequentado à noite a secção preparatória.

ADOLESCÊNCIA INTERROMPIDA - De 1973 até 1975 empreguei-me na “Represental “ Empreendimentos Turísticos e Imobiliários, Lda, Lembro-me das Farras, do Moto-cross, do primeiro namoro … lembro-me bem dos gelados do Baleizão, dos pregos do Pólo Norte, dos pirolitos das "quitandeiras", da Luta Livre no Circo na D. João II, do Estádio dos Coqueiros, dos "karts" do Lobo da Costa, das corridas de carros na Fortaleza, do "conjunto" musical Os Rúbis. Nas tardes quentes de Verão fazíamos gazeta ás aulas e íamos tomar banho ás praias na Ilha de Luanda ou à Piscina de Alvalade, as jovens costumavam tomar banho vestindo apenas as camisas interiores de Verão que, com a água, ficavam transparentes e pegadas aos corpos e nós, já rapazotes, aproveitávamos para dar uma espreitadela e apreciar com volúpia a intimidade dos seus esbeltos corpos.

FUGA PARA A "SELVA" EUROPEIA – Junho de 1975, já quase não haviam amigos no Bairro, a maior parte veio para a Baixa de Luanda e outros tinham ido embora, de carro, de barco ou de avião. As ruas de alguns bairros de Luanda, pejadas de mortos. O meu pai tinha que ziguezaguear para não os pisar. Era a caça ao homem. Nós que sempre acreditámos que ficaríamos. Um amigo de meu pai o “Belito” que mais tarde foi assassinado no golpe do Nito Alves, dizia Sr. Júlio, fique porque aqueles que saírem vão ter dificuldades em regressar. Infelizmente o Belito não tinha razão. Hoje vai mais depressa para Angola um tuga que "não gosta de pretos", tal como os russos (e lá faz o sorriso amarelo para os explorar) do que um (genuíno) angolano como meus irmãos que nasceram lá. E eu que lá vivi desde menino.
Ficam por contar os episódios inimagináveis desta "Selva" e as catanas que tive de afiar para desbravar mato e sobreviver aqui no Puto, como se fosse um dos exploradores Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo ou Robert Ivens quando se aventuraram no mato verdadeiro e das savanas de Angola. Morando em Lisboa , onde vivo com a minha esposa Marinha Ribeiro (São Ribeiro), ela Angolana oriunda de Sanza Pombo distrito do Uije, terra dos grandes cafezais residente desde menina também no Bairro Popular nº 2.


1956

28/03/2012

VIAGEM PARA O DONDO




Este texto foi-me deixado em herança, narrando a viagem que minha mãe fez descrevendo os seus sentimentos e experiências!

Para quem viveu em Luanda, reconhece sem muita dificuldade todos os pontos descritos e até vividos que aqui transcrevo...

Minha mãe saiu de Lisboa numa tarde de uma Terça feira de Janeiro de 1957. Com ela viajava eu com 20 meses de idade.

No cais, repleto não só de passageiros, como também de pessoas amigas e familiares, despediam-se dos que seguiam viagem. A figura maravilhosa do "Niassa" que, acostado e com as bocas dos porões abertas engolia toda a carga que as gruas teimosamente lhes oferecia, parecia enorme, há muito para carregar, a partida estava marcada para as 16 horas.

O grande navio "Niassa" que fez uma viagem extraordinária, tem a lotação esgotada. Passageiros que tinham acabado de gozar umas merecidas férias, outros que tinham vindo em serviço e ainda muitos colonos que iam tentar nova vida para as provincias ultramarinas. Fez-se noite está mais fresco, as gruas continuam a transportar carga do cais para o paquete.

Pelas 20 h 30 m o belo "Niassa" começou a largar, depois de já terem servido o jantar. No dia 13, ao levantar-se pelas 07 horas, avista as Ilhas Canárias. O navio atracou em Puerto de La Luz em Las Palmas da Gran Canária ás 08 horas. Depois de um passeio pela ilha admirando maravilhosas paisagens e belas praias, fez como é hábito de todos os passageiros algumas comprae e voltou para bordo. Por volta das 15 horas o barco largou do porto para prosseguir viagem.

No dia 20 pela manhã alguns passageiros pensavam ver já Luanda. Pairava uma incerteza sobre a hora da chegada, mas de Luanda nada se via. Só por volta das 11 horas se descortinou terra, mas não era a cidade mais 30 minutos e lhe dissertam:

-Lá está Luanda !




É impossivel descrever aqui a péssima impressão que minha mãe ficou da capital da provincia. Da amurada do paquete, onde se encontrava desde manhã muito cedo, como que querendo ser a primeira a avistar terras de Angola, ficou com uma impressão desagradável daquelas barrocas com mais de 50 metros de altura, de terra barrenta e avermelhada sobre o casario, conferindo asim um aspecto desolador à cidade. Pensou para com os seus botões:

-Onde me vim meter?!!

Mas esses morros vermelhos escondiam a verdadeira e bela cidade de Luanda!!!!!

á passava 30 minutos do meio dia quando o navio atracou num local do porto demasiado pequeno para a capital desta tão grande provincia portuguesa. Podem atracar apenas seis barco de longo curso. À chegada muito aperto, o espaço é pequeno e há muita gente esperando no cais pessoas de familia, amigos, etc, etc.

Depois das formalidades legais, começou o reboliço a bordo, procurando moços para que as bagagens pudessem sem demoras serem desembarcadas. Aqueles corpos negros, brilhantes de suor e mal cheirosos de "catinga" eram poucos para , de um momento para o outro, satisfazerem os muitos passageiros que ficariam em Luanda.

Minha mãe não foi das últimas e só se despachou ás 14 horas.

Esperavam por ela e pelo Eng. José Manuel Lopes ( que também fez a viagem ) o sr. Eng. José Macedo Vitorino da Empresa SONEFE, a quem minha mãe ia dirigida e que a informou o mais possivel para que as dificuldades do momento fossem contornadas sem prejuizos. No seio da multidão encontrava-se ainda a esposa e os filhos do seu futuro compadre e muito amigo Sr. Figueredo de Mello que mais tarde seria padrinho do meu irmão Fernando.

Depois já fora do cais, pressentiu que mofavam dela pela desambientação e do traje europeu envergado em pleno calor tropical.

A cidade de Luanda que se esconde por detrás das barrocas, é realmente uma grande cidade.

Após a saida do porto, o Largo Diogo Cão mostra a Avª. Paulo Dias de Novais ou Marginal, abraçando a baia, a linda baia de Luanda, com um azul limpo e vistoso, onde baloiçavam barcos de recreio, navegavam pirogas de pescadores e apareciam alguns praticantes de vela. Em toda a marginal rodeada de bonitas palmeiras, erguiam-se os principais arranha-céus, produto de forte aplicações de capitais de ricos comerciantes e fazendeiros. Depois a sucessão de majestosas vivendas de linhas ousadas e, por todo o lado modernos blocos de apartamentos.

Ao fim desta larga marginal a fortaleza de São Miguel e, para quem a visita, uma visão incomparável da cidade e da ilha do Cabo que, por ser ligada por uma pequena ponte, tornava-se numa peninsula com as suas caracteristicas vivendas, a velhissima igreja Nossa Senhora do Cabo e, mais afastada, a mancha do Parque Florestal.

No carro do seu amigo Sr. Figueiredo de Mello deram um passeio pela cidade, atendendo sorridente e sempre com muita simpatia a sua curiosidade sôfrega. Subiram ao Forte de São Miguel, onde pôde então regalar a sua curiosidade com a bela, a maravilhosa e apaixonante paisagem da cidade.

Percorreu com a vista todas as elegantes moradias com os seus bonitos jardins.

Seguiram para a Avª Mouzinho de Albuquerque, perto do Cemitério do Alto das Cruzes ( Ingleses ). nunca pôde esquecer o que este amigo fez para que ela tirasse a má impressão que ficou em principio da cidade.

Sairam de Luanda por volta das 09 horas do dia 21 de Janeiro. Minha mãe, eu e o motorista o Justino Silva. O Sr. José Macedo Vitorino deslocava-se mais a esposa numa carripana da Empresa que ia carregada com diversos mantimentos.

O  calor já se fazia sentir, por volta das 10 horas passaram em Catete que dista de Luanda 60 kmºs. sempre por uma boa estrada.

Depois de duas horas de marcha ao meio dia, para que o estomago não os atormentasse mais, e por que eu também choramingava por ter fome, almoçaram no Zenza do Itombe que dista de Luanda 126 kmºs.Quarenta e cinco minutos foi o tempo suficiente para degustação de tão apetecivel almoço.

Novamente em viagem pois o Justino ainda tinha 75 kmºs para percorrer e a maior parte do percurso por péssima "picada" pois que não se pode chamar a um caminho de carro de bois, como se diz no puto.

Depois de Cassoalala, chegam à vila do Dondo, que é banhada pelo rio Quanza, onde fizeram uma paragem de pouca demora, o tempo suficiente para o Justino beber uma Cuca fresca, pois que a garganta e o organismo já algum tempo lhe pedia uma bebida gelada que lhe matasse a sede.

~Havia seis horas de viagem... ás 15 horas, novamente em marcha directos à Barragem de Cambambe. chegaram as 15 h 30 m .

O  sol que até ali os atormentava com os seus raios quentes, cobre as grandes ramadas das árvores, como que querendo descansar naquele "colchão" verde e abundante. Ao longo vê-se umas queimadas naquele capim alto. Mais para além, uma fita vermelha indicando a estrada que seguiriam e que parecia tocar o céu, perdendo-se para lá....

Escuta-se o lindo cantos das aves, que parecem querer saudar-nos. Para lá daquele mato, quantos animais selvagens? Não se sabe.

O Camião seguiu em marcha reduzida, devido aos buracos da estrada. É este, apesar do calor o melhor trmpo para se viajar em Angola. No entanto a natureza reveste-se de maior esplendor, proporcinando paisagens deslumbrantes no tempo das "chuvas".

O pôr do sol começa, banhando tudo com uma cor avermelhada. Os grandes imbondeiros lançavam sombras que mais pareciam teias de aranha de grande tamanho. Ao volante do grande e pesado camião, o amigo Justino, sempre bem disposto.

A ele minha mãe agradeceu, pela primeira vez, ter visto um pôr de sol no mato de Angola. Chegam à Barragem de Cambambe, onde se encontrava já meu pai, o Sr. Raminhos e a Dona Aninhas que viriam a ser grandes amigos. Minha mãe fez uma viagem de Luanda a Cambambe de 200 kmºs .onde já passou a noite na casa junto ao Rio Quanza comigo e com meu pai.

1957

VIAGEM PARA ANGOLA DE MEU PAI




Esta é a história resumida contada por meu pai quando viajou para Luanda e para a Barragem de Cambambe no Alto Dondo

Lisboa 11 de Setembro de 1956 do cais de Alcântara parte o navio Moçambique rumo a Angola com carga e passageiros numa viagem prevista de 11 dias, com paragem na Madeira. Como passageiros uma centena de pessoas com rumos diferentes no interior de Angola, e moçambique, mulheres casadas por procuração iam ao encontro de um homem sem o ter conhecido antes, a não ser por fotografia, outras casadas por procuração, essas tinham namorado no Continente e só agora poderiam finalmente juntar à pessoa com quem tinham casado visto ele não se poder ou não querer deslocar ao Continente. Mulheres casadas com ou sem filhos que finalmente se iam juntar aos seus maridos que tinham partido muito antes na tentativa de conseguir uma vida melhor do a que tinham no Continente. Homens que partiam também à procura de melhor vida alguns numa completa aventura outros já com carta de chamada de amigos ou familiares que já lá se encontravam e lhe arranjavam a tal carta de chamada que implicava uma grande responsabilidade para quem a arranjava que o tornava responsável por essa pessoa, a maior parte era gente humilde do interior do Território que nunca tinham visto um navio ou mesmo o mar.

De entre todos esses passageiros meu pai ia para a Barragem de Cambambe. A bordo era tudo muito estranho e diferente de tudo a que estava habituado, a começar nas refeições e acabar nos porões onde dormia um salão enorme cheio de beliches uns em cima dos outros, atravancados de cestos, garrafões de vinho, de azeite, chouriços, salpicões, presuntos, fruta e outras coisa que as pessoas queriam levar consigo que impregnava o ambiente insuportável de cheiros e odores, a par dos cheiros das suas roupas e corpos por lavar, misturado com cheiro de urina de putos que nunca tinham utilizado uma casa de banho na vida deles, e por isso urinavam para o primeiro canto que encontrassem. Na primeira refeição a bordo foi um autentico desastre com as pessoas a tentar comer o que vinha para a mesa, misturando tudo numa gula desenfreada, resultado, aliado ao balanço do navio passado um bocado era o pessoal todo a vomitar por todos os cantos do barco, dia e meio depois de ter partido de Lisboa chegou à Madeira, o navio ficou ao largo, e alguns passageiros foram a terra a bordo de uma lancha, os outros ficaram abordo, pequenas embarcações acercaram-se do navio com lembranças da Madeira, trabalho artesanal que vendiam, os passageiros atiravam o dinheiro para as embarcações e através de uma corda as lembranças eram então içadas para bordo, outros pequenos miúdos, pediam que lhe atirassem moedas para a água, que eles logo mergulhavam e iam em busca delas a caminho do fundo do mar em grandes mergulhos para delírio de todos debruçados na murada do navio, assim se passaram as horas de paragem na Madeira.

O resto da viagem à excepção da passagem do Equador, no qual fizeram um exercício de por colete de salvação e ir para a uma baleeira de salvação como se o navio estivesse a ir ao fundo com banho de água à mistura o que resultou numa grande confusão pois muitos pensaram que era a sério, tudo acabou em bem, o resto dos dias foram sempre iguais até à chegada a Luanda em 1 de Outubro de 1956, numa manhã muito cedo, a sua ansiedade era muito grande, para saber como iria ser a tal falada África dos pretos como se dizia em Portugal.

Muito lentamente o navio lá se ia aproximando do cais as pessoas iam-se tornando cada vez mais visíveis. Tudo com muita lentidão à mistura com empurrões todos a quererem ser os primeiros, finalmente chegou a hora de sair e pela primeira vez pisou solo africano, sentiu uma sensação muito estranha de sons, cheiros e vozes e à mistura uma embriaguez em que se sentiu tonto e sem reacção.

Os Europeus num tom de pele muito tisnado, mesmo amarelo torrado num contraste de vestimentas brancas e muito suados, em contra partida os negros calmos pachorrentos transpirando muito e com os olhos muito abertos olhando as cenas de chegada dos abraços, dos beijos, eram os bagageiros que transportavam as malas para os carros que os levariam, enfim para os locais que cada um iria habitar.

Postas as malas na carripana que o foi buscar, e com os olhos muito abertos olhando numa ânsia desmedida de querer mirar tudo numa só vez, marginal fora que encanto de Avenida ladeada do lado direito por Palmeiras junto ao mar formando então a tal famosa Baía de Luanda, um dos muitos locais que muito o marcaria para o resto da sua vida. Deixou para trás a avenida e seguiram directos para Cambambe.

Algumas picadas eram somente os sulcos que os carros deixavam ao passar, um pequeno desvio e lá ficava um enterrado isto sem contar com os grandes buracos que quando chovia formavam grandes lagos que eram a alegria de muitos negros miúdos que chafurdavam nesses lagos de uma cor avermelhada com tons de castanho, e que serviam como Piscinas. Água canalizada era um luxo para alguns, essas lagoas serviam também para nascer e criar milhões de mosquitos que eram uma das maiores pragas que cedo teve de começar a enfrentar, começando logo por tomar comprimidos contra o paludismo, camoquine todos os dias e resoquine todas as semanas, águas fervidas e passadas pelo filtro um bonito aparelho de louça com uma vela também em louça por onde a água teria de passar e ser então filtrada saindo através de uma torneira metálica era uma água fresca e saborosa, depois de muitas peripécias lá chegou ao seu destino.

Chegado à casa que viría a habitar até 1959, a sua excitação era enorme, descarregadas as malas começou logo por atacar bananas num cacho dependurado á porta de casa, um grande cacho de grandes e maduras bananas, percorridas as duas divisões da casa e um grande anexo que ficava na parte de trás da casa. De referir que a casa era feita de aduelas dos Barris de vinho e forrada a papel. Foi apresentado ao casal que tinha providenciado a habitação o Sr. Raminhos e a Dona Aninhas. O casal tinha dois filhos, que teriam 3 e 4 anos de idade, foi então apresentado ao casal. Viveu ai sozinho pela primeira vez depois de casado por 3 meses, pois sua esposa só haveria de chegar em Janeiro de 1957.


1956

27/03/2012

PORTUGAL NA 2ª GUERRA MUNDIAL



ESCASSEZ DE ALIMENTOS Entre os anos 1942/1945 tempo da 2º guerra mundial em Portugal na base das lajes nos Açores foram abastecidos os aviões militares e comerciais dessa época.
Quando tocavam as sirenes (sinal indicativo de provável bombardeamento) previamente a população colocava uma fita em cruz para evitar que se partissem os vidros.
Em Portugal devido à guerra não havia produtos alimentares para consumo, pois os nossos produtos portugueses iam para as “tropas aliadas” como sobejos de Portugal, logo os portugueses tinham que comer aquilo que vinha de outros países que por norma não gostavam dos alimentos, pois lá fica a nobre frase do Salazar:

“Livro-vos da guerra mas não da fome”.


Carta de racionamento de Géneros

Racionamento em Portugal

Pela altura da segunda guerra Mundial, Portugal sofreu com a falta de muitos bens essenciais, o governo de Salazar decidiu racionalizar alguns bens alimentares tais como: Açúcar, azeite, leite, pão entre outros, existiam por essa altura umas senhas que eram distribuídas pela população para comprarem esses mesmos bens.
Uma boa parte da população era muito pobre e as famílias muito numerosas, pelo que se viam na necessidade de dividir uma sardinha para três pessoas o que por vezes provocava alguns conflitos pois todos queriam a parte do rabo da sardinha (foi-me relatado este facto pelo meu pai) que viveu nesta época, e muitos tiveram que emigrar para as colónias ultramarinas ou para o Brasil e nos anos 60 para França.
Portugal não foi atingido pela guerra directamente mas indirectamente foi afectado por causa da falta de alimentos pois Salazar disse: “Livro-vos da guerra, mas não da fome"

Portugal não participou no conflito que ensanguentou a Europa. Todavia, isso não impediu que os efeitos da guerra se fizessem sentir duramente no nosso país. O aumento desenfreado da inflação; a escassez e o racionamento dos géneros de primeira necessidade; o mercado negro e a especulação; o congelamento dos salários e o aumento da jornada de trabalho de 8 para 10 horas diárias, seis dias por semana, tais são os efeitos da guerra em Portugal. Entretanto, Lisboa torna-se o paraíso dos espiões.


Comercialmente, Portugal exportava produtos para os países em conflito, como açúcar, tabaco, e volfrâmio. O volfrâmio cujo preço subiu em flecha desde o início das exportações, sendo que para a Alemanha, a exportação foi interrompida em 1944 por imposição dos Aliados. Até ao final da guerra as exportações para a Alemanha foram pagas com ouro canalizado via Suíça.

No entanto há problemas de escassez de géneros (Portugal era deficitário quanto a alimentos) e a inflação dispara. O Governo recorre, embora tardiamente, a racionamento de géneros e fixação de preços e aumenta a corrupção do aparelho corporativo. Estalam várias greves que são reprimidas pela polícia política e pelo Exército, estando a situação controlada em 1944. Estou-me a referir ao Racionamento derivado da Guerra Civil Espanhola, e depois, da 2ª Guerra:

Muitos portugueses sofreram na pele e no estômago as consequenciais da guerra civil de Espanha nos anos 30 e nos anos 40 com a II Guerra Mundial, passando fome e privações. Os anos 30 e 40 foram marcados pelo “racionamento alimentar”.

Muitos idosos recordam uma afirmação de Salazar: “Livro-vos da guerra, mas não vos livro da fome”. E assim foi… grande parte dos produtos alimentares produzidos em Portugal eram exportados para os países envolvidos no conflito. Muitos portugueses viveram um cenário de escassez de produtos e fome

A Sopa do Sidónio


Muitos idosos recordam-se de irem em miúdos de madrugada para as filas com as senhas de racionamento e, por vezes, voltavam de mãos a abanar para casa porque os produtos não chegavam para todos. Como as pessoas tinham muitos filhos e não tinham o que lhes dar de comer, recorriam à Sopa dos Pobres, que forneciam sopa e pão às famílias mais necessitadas de acordo com o n.º do agregado familiar (comprovado mediante a apresentação de um cartão).

Muitas vezes eram as próprias crianças que a mando dos pais iam buscar a sopa ao meio-dia, carregando uma lata (antigas latas de 5 kg de atum das mercearias que eram reutilizadas) que servia de panela. A sopa era feita com massa, feijão ou grão e com “peles” ou apenas “cheiro de carne” como nos relataram alguns idosos. Mas “como a fome é o melhor tempero”, foi um auxílio importante à sobrevivência dos mais pobres, que Salazar era o Demónio.

Com o final da guerra, o governo de Salazar decretou luto oficial de três dias pela morte de Hitler aquando da sua morte, em 1945.

Quando a guerra acabou tinha meu pai 15 anos e passados poucos anos veio para Lisboa tendo emigrado para Angola no ano de 1956.


1956