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17/04/2012

COBRAS



Devido à frescura da vegetação que existia na casa do Bairro da Cuca e da horta da Carmitas, coabitavam ali muitas cobras. Certo dia, até uma surucucu foi vista e morta.

As cobras normalmente eram finas e tinham um metro de comprimento, mas a surucucu era curtinha mais ou menos com 25 ou 30 centímetros e era grossa, como o braço de um homem. Elas também gostavam de fazer os ninhos, nas folhagens dos BAMBÚS que existiam ao lado da nossa casa.

Uma vez, estávamos a almoçar no alpendre da casa no Bairro da Cuca quando vimos uma cobra de um metro de comprimento, entrou pelo lado do Quintal onde existiam as capoeiras das galinhas , se calhar estava com fome e preparava-se para atacar uma galinha (ah ah ah ah)... Brrrrrrrrrrrr... Que grande grito e que grande corrida eu dei, saindo dali a "7 pés"... meu pai com as calmas todas pegou na enxada e matou o bicharoco

Outra vez, eu estava a apanhar maças da India, numa grande macieira que existia a entrafa do quintal, e fiquei admirado por estar ali um cinto verde... Que grande grito eu dei, quando topei que aquilo não era um cinto, mas sim uma COBRA pendurada.

Quando um dia mataram uma surucucu, o irmão mais velho do Domingos o Ângelo (ele na altura com 11 ou 12 anos e eu com 7), andou com ela, embrulhada num saco de plástico, atrás de mim... Eu fui fechar-me à chave no meu quarto, onde estive horas e horas... Mas o malandro do Ângelo ia lá chamar-me, dizendo que já tinha deitado a cobra fora, mas eu não acreditava nele.  Só quando o meu Pai deu pela minha falta, e soube do que se estava a passar, obrigou o Ângelo a ir enterrar a bichinha e depois foi chamar-me ao quarto, onde estive enclausurada mais de 4 horas

Certo dia, na Estrada que vai para o Cazenga, iam trabalhadores a pé pela estrada, um deles foi picado na canela da perna por uma surucucu. Como sabem, a picada desta cobra é fatal, pois o veneno da picada espalha-se logo pela veia acima, e é com certeza "a morte do artista"... Um dos trabalhadores descalçou de imediato o que tinha sido picado que já se lamentava que ia morrer, e com um pequeno canivete que sacou do bolso, fez um golpe no local da picada, e foi chupando o sangue, cuspindo-o para o chão, fazendo isto várias vezes, para retirar o sangue envenenado. Depois fez um garrote com o lenço, um pouco acima do ferimento. Levou-o para o hospital de Maria Pia, onde foi concluído o tratamento. O trabalhador foi muito elogiado, pois se não tivesse feito aquela operação, o colega teria morrido.

Normalmente naquele tempo iamos caçar para os lados do Vilela, eu era pequeno ma acompanhava os mais crescidos e ia caçar com eles com a minha fisga e o meu visgo. Certo dia um amigo meu, o João foi pelo carreiro, à procura de encontrar uma peça de caça para matar e ir comer uns bifinhos com a família. Pisou um tronco que estava atravessado no carreiro, mas o "tronco" mexeu-se...Conforme o "tronco" se mexeu, o pé dele escorregou... Afinal aquilo não era um tronco, mas sim uma JIBÓIA que estava ali, enrolada em forma de "e"... A JIBÓIA começou a apertar o laço, para prender o pé ao João. Este topou a jogada da bichinha e desferiu-lhe um tiro na barriga, com a 22-longo que levava.. A JIBOIA logo afrouxou o laço e o jovem retirou o pé e procurando a cabeça da BICHA, deu-lhe outro tiro, desta vez na cabeça.

O João não ganhou para o susto! Diziam que a JIBÓIA depois de ter a pessoa dominada, lhe desfechava na cabeça, o pico-venenoso que tinha na cauda.

Estava eu certa ocasião a passar umas férias em casa de uns familiares, numa povoação a cerca de 25 kms de Vila Teixeira da Silva (Bailundo), no Monte Belo onde o pai do Gama tinha a xitaca (pequena quinta), gerou-se um grande alarido, porque alguém veio dizer que junto ao rio (a cerca de 500 mts) estava uma JIBÓIA morta, mas com um cabritinho na barriga.

Fomos todos a correr... e lá encontramos a JIBÓIA empanturrada, naturalmente com uma grande congestão, depois de ter sugado o cabritinho

TIJOLOS




Fui morar para o Bairro Popular nº2 , em Março de 1962 , e lembro-me de uma vez em que ainda faltavam construir os muros e a garagem para conclusão da nossa moradia, era preciso ir comprar mais uns tijolos, e outros materiais para conclusão da obra.

Fui então com meu pai à “Cerâmica do Cazenga” era assim que se chamava, mas era no fim do Bairro da Cuca e no começo da Lixeira, nessa altura o meu pai ainda tinha uma AUSTIN MINI MIRROR carrinha que era fechada tipo furgão, mas que meu pai já a tinha transformado em carrinha de caixa aberta. Carregados os tijolos, há que empreender o regresso ao Bairro Popular nº2, e a carrinha bem carregada, lá vinha devagar pois penso eu que trazia carga a mais, e pensaria também meu pai, pois não queria esforçar a velhinha MORRIS, e vinha devagar, o certo é que ao atravessar a linha de comboio na Francisco Newton na passagem de nivel sem guarda que há perto da Fábrica de Cervejas “ CUCA”, a carrinha foi abaixo mesmo em cima dos carris e não havia maneira de pô-la a trabalhar, nem mesmo à manivela, ela com aquela carga toda quis ali ficar, para desespero de meu pai, pois sabia que haveria de passar ali o comboio que vinha do Bungo e ia para Viana. Sem ninguém para ajudar eu via o desespero de meu pai, é que com aquela carga toda nem de empurrão se movia, e a mais eu era um candengue com 7 ou 8 anos.

Quem conhece a passagem de nivel sabe que quem vem do Bairro de São Paulo é a descer e quem vai para o Bairro da Cuca é a subir, mesmo no meio de um Vale. De repente ouve-se o silvo do comboio e o mesmo já à vista no lado da cerâmica, meu pai desesperado engrena uma mudança ( 1ª ) e dá ao arranque, com a carrinha engatada, foi vê-la aos solavancos a deixar os carris livres para o comboio passar, consequências um pneu do lado esquerdo traseiro rebentado.




AUSTIN MINI MIRROR


Lá se teve que levantar a carrinha com o elevador, vulgo ( macaco) mas teve que se calçar com uns quantos tijolos, não fosse o macaco ceder com o peso da carga. Tirou-se o pneu danificado e meu pai foi com uma boleia que apareceu ao Bairro de São Paulo a uma oficina remendar o pneu. Foi uma sensação primeiro de medo e depois de alivio e satisfação, quando vimos que estava tudo bem e empreendemos o resto da viagem com cuidados e sempre devagar.

TROPA PORTUGUESA




Possivelmente estou vivo graças à tropa portuguesa e às milícias civis que defenderam o Bairro da Cuca em Luanda, quando este foi atacado, em 1961. ( o celebre boato que os turras estavam no Vilela ) foi quase todo o Bairro para os Armazéns de Café que existiam perto do Colégio João de Deus. Nessa noite não dormi e foi a primeira vez que vi o meu pai com uma metralhadora, mais o sr. Raminhos que o acompanhava também com uma metralhadora. A minha mãe, escondia uma FN de 9mm e acalmava-me a mim (6 anos) Nando (4 anos), Victor (3 anos) e Amélia (1 ano) dizendo que as morteiradas e tiros eram foguetes porque havia festa ali perto. Havia de facto "festa" mas era doutra. O pseudo ataque foi supostamente repelido e fiquei assim com a oportunidade para contar esta história. De outro modo, não estaria aqui...se o ataque se tivesse concretizado.

O meu pai era um homem de sensibilidade extrema e desconfio que se se visse cara a cara com um guerrilheiro dos movimentos de libertação, morreria, não de medo, mas por não conseguir premir o gatilho. Enfim...

Mas o meu pai prestou muitos serviços ao Exercito Português, sentiu-se nessa obrigação pois mal seria ver outros anónimos a defender-nos as costas e não estar solidário com eles. Esses serviços foram prestados através das instalações e de viaturas que pertenciam à SONEFE. Em Maquela do Zombo, quando da sua deslocação para uma obra de Saneamento naquela Cidade no ano de (1964 ).

Quando o reforço de tropas chegaram finalmente a Angola (1961) Ainda deu para eu passear, e muito, nos Willys e nos Jipões da tropa...ah, já me esquecia...adorava as rações de combate de tropa...sobretudo aquelas grandes bolachas de água e sal "Capitão" e os tubos verde tropa sem palavras (pareciam de pasta dentífrica) com marmelada ou doce .








MORDOMIAS

Em quase todos os aquartelamentos entre Ambriz-Maquela do Zombo e também no Nóqui. São Salvador, de entre outras coisas, tinham cinema, café-restaurante, comércio, pista de aviões, biblioteca do Movimento Nacional Feminino e instrumentos musicais do mesmo MNF disponíveis para militares.
Em resumo, as comissões em S.Salvador eram um pic-nic. Saíam para cacar durante a noite e conservávam os bifes de pacaça em tempero vinha-de-alhos. Cuidávam da saúde evitando o vinho servido nos aquartelamentos e as rações de combate. Mesmo durante as operacões conseguíam passar bem sem as racões de combate. Conseguíam peixe fresco, bastando para isso jogar uma granada num riacho e pegar os peixes meio zonzos. Os guias produziam vinho de palmeira, o marufo; quem não experimentou não sabe o que perdeu.

Num bairro suburbano de Maquela do Zombo havia botecos com cerveja gelada e presença feminina. Alguns tropas preferiam trazer suas próprias esposas e namoradas, algumas estiveram escondidas em aquartelamentos por vários meses.

Em toda a região do norte havia Grupos Especiais. Eles atravessavam a fronteira com o Congo e no retorno traziam informacões e também uma erva muito disputada pelos entendidos. Pensava-se que só os norte-americanos no Vietnam usavam essa erva, mas não..

De um modo geral, os militares do contingente metropolitano tinham mais dificuldade de acesso a algumas mordomias era mais para os que conheciam o terreno ou seja angolanos.

10/04/2012

HISTÓRIA DA VINDA DO DONDO




Dedico estas recordações e vivências de Luanda - Angola à memória de minha Mãe, Maria do Carmo, que desde tenra idade despertou em mim a curiosidade pela leitura e o gosto pelo estudo. Dedico-a também à saudosa memória do meu pai Júlio Inácio pela lição de amor a Angola, que me deu. Cumpre-me ainda registar aqui a minha gratidão a minha esposa Marinha Ribeiro (Princesa do Uije) e ao nosso filho Bruno Miguel por todo o suporte, paciência e resignação que ao longo dos anos sempre mostraram pelas minhas ausências devidas ao meu percurso laboral.
José Antunes Gonçalves, também conhecido por Zé Antunes ( Russo ) nos seus anos de juventude em Luanda-Angola, nasceu em Póvoa de Penafirme – Torres Vedras, em 1955. Viveu a sua meninice na Barragem de Cambambe e na Vila do Dondo, e a sua juventude em Luanda. Frequentou a Escola primária nº 176 no Bairro Popular nº 2 ( Câncio Martins ) a Escola Preparatória de João Crisóstomo e a Escola Indústrial de Luanda e frequentou a secção Preparatória do Instituto Indústrial. Deixou Angola em Junho de 1975 , vindo para a Grande Lisboa, onde vive com a sua esposa Marinha Ribeiro (Princesa do Uige) e filho Bruno Miguel. É desenhador, gosta da leitura, e de desporto motorizado, além do chamado desporto rei o futebol.
Em 1960, transportado pela AUSTIN MINI MIRROR com as bicuatas todas e desde o Dondo, chegados ao Bº de São Paulo, fomos habitar para a Rua dos Pombeiros, junto aos meus tios, ao lado do Endireita, em frente aos Correios de S. Paulo, depois do nascimento da minha irmã fomos viver para o Bº. da Cuca deu-se o ataque às cadeias, aos policias em 04-02-1961, refugiamo-nos nos armazéns de café, nessa noite ficou tudo de vigilia, corria um boato que os brancos iam ser todos mortos.
Na madrugada de 3 para 4 de Fevereiro de 1961 ouvi tiros. Pareceu-me estranho mas não liguei., ainda era muito miúdo e não me apercebi, como minha mãe dizia eram foguetes. No dia seguinte soubemos que sete agentes da autoridade foram cobardemente assassinados, traiçoeiramente, sem poderem esboçar um gesto de defesa, quando cumpriam o seu serviço de rotina. Caíram numa cilada, acorrendo a um chamamento de socorro, a uma fictícia desordem, em plena madrugada. Mortos com requinte de selvajaria, cortados à catanada, foram estes os primeiros mártires da causa portuguesa, as primeiras vítimas da horda assassina a soldo de potências estranhas de intenções conhecidas. Na manhã do dia 4 a notícia espalhou-se por toda a cidade como um relâmpago. A surpresa foi tão grande que, a princípio, era difícil acreditar que fosse verdade. Mas lá estavam os cadáveres, sete corpos que horas antes ainda fervilhavam de vida, a atestar a notícia, tão cruel como revoltante. Começavam-se então a conhecer-se pormenores.
Houvera ainda uma tentativa de assalto à Casa de Reclusão militar, onde fora morto um cabo do exército. Havia ainda alguns agentes da autoridade hospitalizados gravemente feridos. Houvera um soldado negro que fora um verdadeiro herói. Debaixo do fogo e das catanas dos invasores, conseguira meter-se no jeep e chegar, embora ferido, ao quartel onde dera o alarme. De manhã, toda a zona das barrocas estava a ser motivo de aturada rusga por parte da Polícia. Luanda inteira já sabia dos acontecimentos e assistia excitada e revoltada ao desenrolar das coisas. Mas ainda não passava pela cabeça de ninguém, naquela altura, que aquilo seria o prenúncio de dias terríveis, dias que ficariam para sempre marcados na história de um país, dias que deixariam a terra de Angola regada com sangue dos seus habitantes, colhidos de surpresa por um bando de assassinos narcotizados e completamente enlouquecidos por promessas enganosas e impossíveis.







Rua dos Pombeiros (Bairro de São Paulo)

Em 1962 mudei-me para o Bairro Popular nº 2. Já no Bairro Popular nº2, Lembro-me das "famosíssimas" inundações, que arrastaram a "terra vermelha", até à baixa, pois tinha 7 anos, comecei a adquirir os hábitos de brincar com os amigos, pedindo a meu pai para me fazer as trotinetes e carrinhos de rolamentos, fazendo com os meus irmãos os papagaios de papel, e fazendo corridas de "caricas" recheadas de casca de laranja, para ficarem pesadas, ou fazer com as caricas jogos de futebol daí sermos os três irmãos de clubes diferentes ou ainda fazendo corridas com os magníficos "DIK TOYS".
 O tempo passava, tinha nove anos e ia muitas vezes a casa do meu tio onde vivia, e ai convivia com os kandengues, tocando batuque ,"puíta" ou Guitarra, (feita de Lata de Azeite), grandes amigos, que depois formaram , um grande grupo musical, A vida continuou, até fazer a 4ª Classe e o exame de admissão fui para a “João Crisóstomo”, as amizades eram grandes mas as lembranças dos nomes são vagas. Lembro de uma menina linda chamada Nelita, tenho uma vaga ideia da Laura que era surda muda, ou dos filhos do Sr.Pizarro, muitos outros e o Fernandes que seguiu a vida Militar na FAP. Lembro as imagens das poucas fotos que trouxe e comecei a agarrar-me a pessoas mais velhas que eu, lembro-me dos motoqueiros que iam para Belas , fazer corridas com as motas e a Policia vinha atrás deles. Policia Barbosa mais conhecido em Luanda e arredores. Lembro-me do Simão ,"cozinheiro" da Pastelaria Vouzelense, lembro-me das mariscadas no Cacuaco, das visitas à "CUCA", de ir a Viana comer um franguinho assado, do 24 Horas na Estrada de Catete, do Bar Cravo com a dobradinha, do Bar América, do Bacalhau no Vilela, dos jantares da Floresta das praias do Mussulo, de Belas, da Ilha dos passeios na Marginal, da Vila Alice e Vila Clotilde, da Maianga , dos gelados no Baleizão , da "ginguba", dos pratos saborosos, da Moamba, do Colonial , do Tropical, do Miramar, do Aviz , do R.I.L.20 (onde acompanhava amigos mais velhos que andavam na Tropa e iam ao cinema que era mais barato ). Em 1969 comecei a estudar na “Escola Industrial de Luanda” aos 14/16 anos, liguei-me á amizade dos mais velhos"grandes amigos" no Bar do Matias no Bairro Popular nº2, onde já residia.
 A vida é assim. mas como disse no ínicio começam a aflorar lembranças lindas das noites em S.Paulo, altas farras no “ DESPORTIVO UNIÃO DE SÃO PAULO “ ia lá já com a minha Honda primeiro a SS50Z e depois com a 350 Scrambler. Regressei ,em 1975, deixando para trás , fotos, nomes, a minha vida de adolescente.

MORTE DE JÚLIO INÁCIO

Todos nós já perdemos um parente próximo, ou alguém que amamos muito. É uma experiência pessoal e única. Como é triste a perda! Como sofremos com ela! Não há explicação! E toda e qualquer argumentação é vazia e não nos convence.
Quando perdi o meu pai, Deus me permitiu suportar os limites da dor, me aproximando Dele. é inesplicável e foge a nossa capacidade racional, compreender tamanho mistério. Mas a longo ou a curto prazo, aprendemos a superar o sentimento de dor, de ausência. O tempo cura tudo, é um "santo remédio", dado por Deus, para cicatrizar as feridas. Mas a morte não pode ficar encerrada nela mesma. Tirei uma lição de todo o sofrimento...me levou a uma consciência de valorização das pessoas, amar mais, aceitar, compreender...Pois muitas vezes, não damos atenção, tempo, carinho e amor ao nosso próximo, então vem a morte e agente ver que é tarde demais. Por isso como diz o poeta: "É preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã".
Decorria o dia 21 de Março do ano de 1978 e o meu pai tinha feito um negócio com o Sr. Jaime Morgado, proprietário da Ginginha Avenida, já lá estava a trabalhar desde 1976 e naquele dia teve que se ausentar até ao Poço do Bispo, Xabregas, pegou na sua “torraite” ele trouxe-a encaixotada de Luanda, era uma Honda SS 50 Z das novas. Meu pai sempre gostou de dar umas kicortas de mota. No regresso na passadeira de peões que até estava verde para os motociclistas e condutores, atropelou um velhote de 63 anos em frente á Pastelaria Suissa eram 15H00, o dito velhote não teve nem um arranhão, foi para casa no seu próprio pé.
Quanto ao meu pai perfurou o Baço e fracturou três costelas. Chegou a ambulância, que até chegou bem depressinha, foi para o Hospital São José onde esteve lá até 25 de Maio, tendo alta mas a ter que ficar em casa mais uns tempos para consolidação das fracturas, nesse entretanto ele enervava-se muito, pois muitas vezes queria sair e não podia, assim como ele querer ajudar a neta a “Sandrinha” que era bébe e ninguém lhe mudava a fralda, e por estar inactivo e com imensas dificuldades, enervava-se muito..
A recuperação das fracturas não se estavam a efectuar com deve ser, e agravando-se mesmo ele teve que ir para o Curry Cabral no dia 08 de Junho , Meu pai não comia nada que fosse confeccionado no hospital, ficando nós de todos os dias lhe levar a alimentação, no dia 29 de Junho, minha irmã Melita foi levar-lhe o pequeno almoço e pelas 09h00 da manhã vejo chegar a Mélita com uma cara triste e a chorar e disse-me “ Zé o nosso pai faleceu”.
Segundo relatos dos doentes que estavam no quarto, ele falou para um doente que estava ao lado da cama dele, que estava na hora dele partir para a outra vida e que quando o soro deixa-se de trabalhar para chamar uma das enfermeiras pois já tinha ido para outro mundo.
Faleceu com 47 anos. Causa da morte foi paragem cardíaca, que poderá ser de quando ele tinha 7 anos ter tido uma hiportermia, pois naquele tempo ele andava a guardar gado e perdeu-se durante três dias nas pastagens de Sonim e Aguieiras no Concelho de Mirandela em pleno inverno. O corpo veio para a igreja de São José e esteve em câmara ardente tendo sido sepultado no Cemitério do alto de São João, posteriormente as ossadas foram depositadas no túmulo dos Combatentes da Grande Guerra.

1978

09/04/2012

JÚLIO INÁCIO


Júlio nasce em Soutilha, na freguesia de Agueiras, Concelho de Mirandela, Distrito de Bragança, nasce no mais inóspito Trás os Montes, em 12 de Setembro de 1930, filho de José Morgado e Isaura dos Anjos, com 7 anos de idade, vê a mãe falecer ( caiu de uma figueira ) e o pai por ter uma deficiência fisica, numas das pernas, contraida na 1ª Guerra Mundial em La Lyz – França, familia de seis filhos, vê-se a tomar conta dos mais novos, a saber ( Esperança 6 anos, Algiza Branca 4 anos e Delmar 2 anos ) os mais crescidos iam trabalhando no Campo ( Madalena 12 anos, Manuel 9 anos ) devido a esses precalços da vida vê-se a pastorear um rebanho de ovelhas com 7 anos de idade, está uma vez três dias perdido no meio de fragas cobertas de neve lá para os lados de Sonim em Rebordelo, com os animais mais mortos que vivos, quando o encontraram estava com hiportermia, esteve de cama duas semanas, deveria andar na escola a aprender as letras, mas a vida era madrasta e naquele tempo o meio de subsistência, era práticamente o que a terra dava, fazia-se pão para quinze dias e eram esses os poucos recursos na aldeia, que distava 30 kmºs de Mirandela.

Madalena e Manuel vêem para Lisboa em 1945 e conseguem que o meu avô José Morgado viesse para Lisboa e estivesse num lar por ter combatido na 1ª Grande Guerra, onde terminou os seus dias com dignidade. Está sepultado no Canteiro dos Mortos da Grande Guerra Mundial no Alto de São João. Nesses espaço de tempo até 1948, foram buscar a Algiza Branca para servir na casa do Comendador Lopes Alves, veio a Esperança que foi servir para uma casa nas Avenidas Novas veio o Júlio que veio morar no Largo Terreiro do Trigo na casa da Madalena, e começou a trabalhar como carpinteiro de confragens na Sonefe nuns prédios no Largo do Areeiro, mais tarde em 1953, veio o Delmar que veio para uma portaria de uma seguradora Francesa ali na António Augusto de Aguiar. Lisboa que passou a ser na época uma cidade comospolita pois recebeu muitos refugiados judeus da 2ª. Grande Guerra e segundo rezam as crónicas da altura só se ouvia falar estrangeiro na baixa de Lisboa e no chiado, que era onde se concentrava as familias Judias.

Júlio é esperto e trabalhador e aprende depressa, que em 1953 já está a trabalhar na Sonefe como encarregado de obras, mas na nova contrução do Estádio da Luz.
Maria do Carmo, nasce a 29 de Março de 1935, no lugar de Póvoa de Penafirme, freguesia de A dos Cunhados, Concelho de Torres Vedras, Distrito de Lisboa para servir para uma dessas familias judias da Austria, fugidas também ao holocausto da guerra, vai ali para os lados das Janelas Verdes – Santos – e um belo dia entra no eléctrico para o Saldanha para se dirigie à Central de Camionagem, para viajar na empresa dos Claras empresa de transportes de passageiros de longo Curso, que a levaria a Penafirme para passar um fim de semana, quando conhece o Júlio porque o mesmo já tinha pago o bilhete do eléctrico, e oferece-lhe umas flores, Júlio já andava com a Maria do Carmo de baixo de olho, faltava-lhe coragem para tomar a atitude que tomou, conversa daqui, conversa dali, ficam amigos e vão-se encontrando em Lisboa aos fins de semana. E resolvem namorar.

Júlio e Maria do Carmo resolvem oficializar o namoro e decidem ir os dois a Penafirme a casa dos pais, o Vital e a Maria, mas Júlio com o nervoso à flor da pele vai-se aconselhar com a irmã da Maria do Carmo que também estava a servir em Lisboa. A Maria de Lurdes lá lhe disse como era o feitio deles e Júlio decidiu mesmo ir. Naquele tempo os namoros eram autorizados mas com pessoas que se conhecessem ou que vivesem proximas, foi o cabo dos trabalhos a Ti Quitas Pedro era assim que tratavam a Maria de Jesus, não viu com bons olhos o casamento com um Transmontano, mas lá se aprovou o namoro e o casamento foi em Maio de 1954, vindo o novo casalinho viver para Lisboa, mas para Xabregas, Poço do Bispo, mais própriamente no Beato, continuou a trabalhar no Estádio da Luz, o dinheiro era pouco, para as novos compromissos, e é ai que recebe um convite do encarregado geral da Sonefe o Sr. José Macedo Vitorino, para ir para Angola onde já se encontrava o irmão mais velho o Manuel, na altura para ir para Angola era preciso carta de chamada ou um contrato de trabalho.
Inaugura-se o Estadio da Luz em Dezembro de 1954, ainda passa o Natal de 1955 com a Maria do Carmo, mas em 11 de Setembro de 1956 embarca no Paquete Moçambique rumo a Luanda. Com um contrato de trabalho por quatro anos, para ir trabalhar no projecto da Barragem de Cambambe no Alto Dondo em Angola. O Manuel fica em Luanda e o Júlio lá vai sózinho para Cambambe. Entretanto Maria do Carmo que estava gravida do José Antunes, que nasce a 12 de Maio de 1955, só embarca no Paquete Niassa em 15 de Janeiro de 1957, chegando a Luanda, indo diretamente para Cambambe, conduzida pelo Justino Silva empregado do Sr. Figueiredo Melo que mais tarde seria padrinho do filho Fernando, a Maria do Carmo veio para Luanda em Maio de 1957 para o Fernando nascer a 01 de Junho de 1957.
Nasceu o Fernando voltou ao Dondo. A Maria do Carmo engravida de novo e em Maio de 1958, vem para Luanda para nascer o Victor, 22 de Maio de 1958, desta vez só veio a Maria do Carmo, o José Antunes e o Fernando ficam com a Ana Maria ( Dona Aninhas ) esposa do Sr. Raminhos que entretanto ficaram amigos da familia, Maria do Carmo volta ao Dondo com o novo filho, regressamos todos definitivamente para Luanda em Novembro de 1959.

Estivemos primeiro no Bairro São Paulo e depois no Bairro da Cuca numa casa do José Calisto e da Maria que viriam a ser padrinhos do Victor, no Bairro da Cuca Júlio e Maria do Carmo têm a tão desejada filha, nasce a Maria Amélia em 14 de Junho de 1960, nasceram todos na maternidade de Luanda e foram registrados na Missão de São Paulo.
No ano 1961 dá-se os acontecimentos do 4 de Fevereiro em Luanda, e toda a Angola começa a ter um desenvolvimento como nunca se tinha visto e começam a chegar mais europeus a Luanda, mudamo-nos para o Bairro Popular nº2 hoje chamado de Neves Bendinha, ai Júlio mantem-se na Sonefe e anda por Angola quase toda a trabalhar nas infraestruturas das cidades, principalmente o abastecimentos de água potável.
 Foram atacados em 1963 pela União de Povos de Angola (UPA) comandados pelo Holden Roberto nas instalações da Sonefe em Maquela do Zombo, ao qual miraculosamente sobriviveu. Nessa altura e com vários convites veio definitivamente para Luanda e foi trabalhar directamente com o Sr. Figueiredo que tinha montado uma empresa de construções a Projestangola, Lda.
Estando em grandes obras como o Banco Comercial de Angola, a renovação da Fábrica de Cervejas Nocal, nova maternidade de Luanda e muitos mais projectos que estavam a pôr Luanda mais bonita. Em 1968, e como falava com muito pessoal negro que andava nas obras, que tinham reuniões clandestinas, lhe diziam Sr. Júlio a situação do nosso povo está por pouco tempo o M.P.L.A. e o governo de Portugal chegarão a um concenso e ou ficavam com auto determinação ou independência, depois de conversar com Maria do Carmo decidiu vir a Portugal, trazendo o Victor e a Amélia a pretexto de custear os estudos poderia fazer algumas transferências de dinheiro. Regressa a Luanda e em 1970 a quando da nossa vinda a lisboa vai ter com o irmão Manuel a Joanesburg na África do Sul e fica lá a trabalhar em Troyeville, regressa a Luanda e em 1972 volta a Joanesburg e leva a Maria do Carmo para ser operada lá pelo conhecidissimo médico Dr. Bernard, volta a Luanda definitivamente em 1973 e trás um Opel Kadete, que é vendido ao Artur já em Agosto de 1974, o Artur dá 10 mil escudos e diz que em dois meses dá o restante que era outros 10 mil escudos, ora passou-se os meses e o dinheiro nada, em Janeiro de 1975 o Júlio recebe uma contraordenação do tribunal pois ele como dono da viatura teria que pagar a gasolina que estava em divida pois abasteceu-se a viatura na texaco da maianga e o condutor fugiu, foi o amigo Artur que abasteceu e fugiu, fazendo uma manobra que danificou o guarda lamas direito, lá foi o Júlio pagar a multa e pagar o abastecimento de combustivel devido, tratando logo de fazer de bate chapas e pintor, depois de bem arranjado e com bastante betume pedra faltava só a pintura, viu-se qual a cor da tinta e foi pintada ali mesmo no quintal com uma bomba de flit, aquelas de matar os mosquitos, e até ficou bem pintado o guarda lamas, viatura que ficou depois com o José Agostinho que seria fuzilado no golpe do Nito Alves em Maio de 1977 .

Até Outubro de 1975 estava na construção da Futura Imprensa Nacional de Angola ali na Estrada de Catete entre a Escola Comercial Vicente Ferreira e os Maristas. Tendo regressado em Outubro de 1975 para Lisboa com o filho Fernando, o Victor foi o último a regressar, cá já se encontravam a Maria do Carmo, os filhos José Antunes e Maria Amélia.

1975

02/04/2012

MEU AVÔ VITAL

Parece que o estou a ver, o meu avô. Chamava-se Vital Antunes. Movimentava-se pela casa como uma sombra importante, imprescindível. Era respeitado por todos, familiares e amigos. Mostrava autoritarismo, segurança nos seus gestos, mas era doce e terno, camuflando uma imensa simpatia e preocupação nas emoções e nos sentimentos para com todos. Era raro vê-lo rir porque sorria. Evitava situações de grande tumulto ou hilariante, comedido e sério que era.
Relembro-o agora, fugazmente. Prendera-se a sua fugidia imagem a mim, com contornos de perpétua adoração e veneração. Vejo-o sempre depois do almoço a descansar na Adega depois de um árduo dia de trabalho no campo. Tinha dignidade, o meu avô, evidenciada nos actos que tomava, agindo todo o tempo de forma sensata e sóbria. A sua dignidade era respeitada porque respeitava a dignidade dos outros. Vivia preso à família e, ainda hoje, parece-me vê-lo esboçando um ténue sorriso de carinho só para mim e ouvir, pelas mais diversas vozes de outros, louvá-lo e enaltecê-lo pela sua conduta intocável e bela em todos os rostos conhecidos e desconhecidos, na aldeia que era sua e onde eu nasci.
Meu avô conquistara os corações das pessoas e defendera valores relevantes ao seu bem-estar e à sua vida intensa em felicidade que jamais poderei ignorar ou esquecer. O meu avô Vital, para os outros, eternizara a sua obra de amor, dedicação e solidariedade que jamais poderão ser ignorados, imortalizados que serão pelo tempo fora, sem desgaste pela inércia avassaladora de ideologias de vanguarda das novas gerações. Disso, eu tenho a certeza inequívoca, sentida e verdadeira. Meu avô Vital tinha sempre crianças por perto, mas nunca ria, sorria, amava-as com a sua sinceridade, seriedade, com o seu carácter de figura de bem.
Amava-as tão intensamente que se esquecia de si próprio ou do riso que guardava e transparecia dentro de si, só para elas. O meu avô abraçava uma capa transparente e pura, dotada de um fulgor amistoso e afável que todos admiravam, mas eu não sei se compreendiam. Eu compreendia. Eu vivia.
Eu vivia nessa capa como todas as crianças que o rodeavam, viviam. Era só para elas e, isso, bastava. As pessoas, as outras pessoas perguntavam e intrigavam-se, quando perguntavam onde estava o riso do meu avô. Ele que só sorria. Eu sorria e ele mostrava-se sério, parecendo indiferente e esboçando um sorriso terno e agradecido pela minha cumplicidade. Um sorriso mais sentido no seu interior, no meu interior.
Mas, o sorriso estava ali e eu via-o com uma nitidez e uma alegria imensas. É assim que o revejo. É assim que sinto o meu avô. Guardarei sempre com respeito e amor a imagem do meu avô Vital. Não esqueci as suas sestas, numa esteira a porta da Adega. Dava-me cinco tostões e as suas sestas eram as minhas sestas. Só conseguia adormecer com os netos no seu coração.
Quando me parecia que ele adormecia saia furtivamente sem fazer ruído, agarrando com muita força os cinco tostões na minha mão, pequena ainda, ao mesmo tempo que escondia a minha recompensa e o meu tesouro, amplamente merecidos. Ele sentia-me abandoná-lo e, então, sorria e adormecia feliz, enternecido pela companhia valiosa que lhe fizera.
O meu avô intrigava-me porque nunca entrava na cozinha. Compreendi só mais tarde a razão: Não queria atrapalhar! Sentiam, então, uma ligeira tremura que passava rapidamente. Conheciam-lhe o bom coração oculto e tinham-no em consideração. Ele parecia ignorá-las, o que não correspondia à realidade. Ao jantar, quando se sentava à mesa no lugar do topo, mandava acender todas as luzes, exclamando com convicção: - Acendam todas as luzes, enquanto eu for vivo!
Quando morrer, para mim, já não fazem falta! Enquanto estiver aqui quero tudo aceso! E a claridade das luzes propagava-se por todos os cantos da mesa e ele parecia satisfeito, feliz. Já quando dormia no quarto ou descansava nele a obscuridade total enchia-o plenamente. Queria a penumbra completa, se calhar para lhe facilitar o descanso ou para ter paz absoluta para consigo próprio naquele recanto íntimo, só dele. Estive pouco tempo com ele mas deu para o conhecer e gostar dele, mesmo quando quase nos obrigava aos netos a retalhar melâncias para dar aos animais.
Quando o meu avô faleceu, já me encontrava em Luanda, apagou-se uma chama no meu olhar e no meu coração. Não compreendi bem, mas senti que uma parte dele encarnou em mim. Alguma coisa ficou dele em mim. Não tive um desgosto, mas senti um orgulho desmedido em tê-lo conhecido e ter partilhado do seu afecto, do seu amor e do seu forte carácter que impunha em tudo o que fazia. Amá-lo-ei sempre, nem que seja em sonhos, o meu avô Vital! A sua sombra baila-me cá dentro, no pensamento mais escondido do meu ser, com pena de ele não ser eterno, pois, há certas pessoas que deviam ser eternas, sempre presentes em nós pelos actos nobres, pelo temperamento, pela entrega aos outros.
 E ele era uma delas! Se ao menos lá no alto Deus ouvisse e concedesse essa dádiva. Só me apetece dizer ternamente: - Até sempre, querido Avô!

1970