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19/04/2012

MONOPÓLIO





Outro dia entrei numa loja de brinquedos como há muitos anos não fazia e algo me chamou a atenção. Logo na entrada da loja deparei-me com um jogo da Majora o Monopólio. Tá certo que com esta idade não tenho, há bastante tempo, o costume de jogar ao meu jogo preferido, mas fiquei contente com este fato. Ao ver a caixa do jogo, passou pela minha cabeça algumas lembranças de minha infância; do Monopólio da Celina e da Chú, onde passávamos horas e horas a jogar e a tentar ficar rico,lembranças muito boas de uns 40 anos atrás.


Eram tempos em que valorizava-se muito mais estes brinquedos do que os jogos de computador e video-games que fazem parte da infância de qualquer criança dos anos 90 e 2000. Qualquer criança nascida no final dos anos 70 e início dos anos 80 com certeza já ouviu falar de muitas destas lembranças que me vêm à memória neste momento.


Felizmente a minha infância foi marcada por alguns brinquedos, jogos e desenhos animados que creio faltam nos dias de hoje.





A minha primeira directa foi passada a jogar monopólio com os meus irmãos e com o Domingos... Não me lembro quantos anos teria... Talvez entre os 8 ou 9 ...
Fã incondicional era o meu mano mais novo, andava sempre a trás de nós a pedir para jogarmos com ele!


Mas o que mais jogávamos em miúdos era o jogo da Glória. Também, acho que era o único que tínhamos.


O jogo mais popular do Mundo, de compra e venda de propriedades. Vá para a Cadeia, Receba 2.000$00 sem passar pela casa de Partida. Casa da Sorte, casa da Comunidade, Rua Augusta, Rossio.


Ao longo das gerações e ao redor do globo, que outro jogo remete a tantas memórias de diversão familiar em pechinchas e negócios? Nenhum outro jogo fez com que tantos momentos jogados se tornassem memórias. Não importa se, se está a descobrir a diversão pela primeira vez ou se, se está a reviver os dias despreocupados da infância. Lança-se os dados e vamos em frente, compra-se vende-se e hipoteca-se.


1967

18/04/2012

ESCOLA

Entrei para o ciclo preparatório, na Escola João Crisóstomo, hoje Ngola Kanini..
no ano de 1967 até ao ano de 1969, a quando da sua inauguração e nessa altura comecei a reparar nos professores e a decorar os nomes deles. 

Na Industrial Entrei para o primeiro ano do Curso de Aperfeiçoamento de Serralheiro, e integrei a turma 1º J Nº 527, no 2º ano fui para a turma 2º U Nº 218. 


Foto muito antiga da Escola.
No meu tempo já tinha gradeamento a toda a volta.

Andei na Industrial desde 1969 a 1973 concluindo o curso de Serralheiro, depois transitei para a noite uma vez que comecei a trabalhar indo para o 1º ano de secção preparatória. Do Bairro Popular, onde morava, até à Escola ainda era uma caminhada e que tínhamos na altura 12/13 anos, ia com o Guimas, Zé Pinguiço e outros a pé, para poupar o dinheiro do maximbombo e a pensar nas Coca – Colas.

Mas no ano lectivo de 1973/74 estava a estudar a noite o 1º ano da Secção Preparatória, esse ano escolar não chegou ao fim. A «invasão» pelos alunos apanhou-nos em plena aula de Tecnologia. Enquanto a professora Lígia ficava branca de medo, nós espreitávamos pelas janelas. Quando voltámos a olhar para a secretária, ela havia «bazado», deixando-nos ali, uma turma de rapazes com 17 / 18 anos, sózinhos.

Um dia ouvi uma história do Muralha e pu-la em prática.

Uma bela tarde, numa daquelas famosas aulas de "Oficinas", entrada às 13.30h, saída às 17.30h, (só 4 horas de aula), com o Mestre Dias, vulgo "Escaporro" e o Mestre João Diogo Paixão, vulgo "Suta" e sendo chefe de turma este vosso amigo, os mestres tiveram que se ausentar da sala deixando a mesma à minha responsabilidade (maior erro).

Como não era grande aficionado por estas aulas, entendi por bem desafiar a "escumalha" para um "rodeo" à boa maneira do velho oeste. Para servir de montada nada melhor do que o maior limador existente na sala. O esquema implementado era simples, dava-se o maior curso ao cabeçote da máquina, o primeiro cavaleiro sentava-se em cima do mesmo, agarrava-se à porca que fixa o curso do cabeçote, ligava-se a máquina na primeira velocidade e tentava-se manter em cima da máquina até ser engrenada a 5ª velocidade.

Escusado será dizer que foram várias as tentativas, maioria delas frustadas pois não se conseguiam aguentar em cima da montada.

Claro que tinha que chegar a vez do mentor do invento, e quando eu passeava a minha categoria de cavaleiro, eis que vejo a malta a pirar-se toda para os lugares, ficando eu sozinho em cima da máquina sem a poder desligar.
Da porta de entrada ouvi a voz severa do Mestre Dias que disse: Cavaleiro apeia-te!!!!
Prontamente um colega se prestou a desligar a máquina para que eu descesse.
Em seguida levei uma valente "Cachaporrada", uma falta disciplinar e um convite para me deslocar ao gabinete do famoso Beirão...João Carlos Raposo Beirão, Dignissimo Director da Escola Industrial Oliveira Salazar.

Como podem verificar, já naquele tempo a vida era difícil.

Os jovens de hoje já não estão para andar tanto. Ia pela Estrada de Catete, podia ser que algum vizinho nos desse uma boleia e íamos sempre na reinação até à Escola. Quando não havia aulas, ia-se jogar aos “matraquilhos” na loja do Sr. Inácio que ficava por detrás da Escola ou jogava-se à bola nos campos que já lá havia, ou íamos a Praia de Alvalade ( como dizia o mestre Paixão das oficinas ) que era a Piscina

O Director Beirão era terrível, quando alguém se portava mal era certo e sabido que lá levávamos uma suspensão e um bofetão. Claro que o nosso Professor de "Desenho “Sr. CRUZ” mais conhecido pelo três pelos, era uma vítima das nossas patifarias, mas curiosamente tive sempre boas notas a essa disciplina. Eu, como tantos outros, tivemos o “raspanete” do Director e dois dias de suspensão por algo que o Celestino ( Tino da Cola) e o Camilo fizeram, não me lembro o que foi, mas penso que meteram pioneses na cadeira, coitado do professor quando se sentou!

Sempre gostei de desenhar. Não tinha, nem tenho, muito jeito para o desenho imaginário, o desenho livre. Excepto quando fui desenhador na Empresa Represental – Empreendimentos Turisticos e Imobiliários, onde tinha como função o desenho técnico de arquitectura e especialidades. Saí-me sempre bem dessa função e tenho muito orgulho pelo que fiz nessa empresa que me ficou no coração. Mais tarde na Refer foi o desenho de estruturas metálicas, obras de arte ( Pontes ) assistido por computador ( ACAD )

Na escola tinha sempre que ver algo onde pudesse basear-me para desenhar. Na Escola João Crisóstomo tinha muitos bons desenhos no ciclo preparatório com o professor Carlitos, mas, como os mesmos ficavam guardados em armários, no fim do ano lectivo os alunos abriram-nos e eram só folhas de desenho pelo ar.  Aos meus nunca mais os vi.

Na Escola Industrial era mais desenho Metalo-Mecânica, o desenho de Maquinas, professores Cruz e Vagueiro, e foram esses desenhos que me abriram a porta para a empresa referida. No entanto, durante anos lá fui desenhando o que os miúdos costumam desenhar; o «Patinhas», «Pato Donald», «Garra de Aço» (livro muito em voga na altura), o “Mandrake”, e tantos outros. São desenhos do tempo dos meus doces anos da inocência.

No 1º ano de secção preparatória matriculei-me como trabalhador/estudante. Trabalhava na “Represental” na Rua Conselheiro Júlio de Vilhena, perto do Largo Serpa Pinto , ia para a Escola, na altura tinha já uma Honda SS50z.

Daquelas janelas vi a conclusão do “Cinema Império hoje (Atlântico), e via um pouco dos filmes que lá corriam já que era um Cinema com umas aberturas laterais e sem que alguém visse entrava-mos por ali.

Foto do cinema Império hoje Atlântico


Fiz na Escola o curso. Depois transitei para a Secção Preparatória para poder seguir para o Instituto Industrial que era nos barracões todos feitos de madeira. Não acabei pois entretanto já estava a trabalhar e deu-se o 25 de Abril.

De tudo isso, a última imagem que retive foi a do professor João Freitas e da Fátima Fernandes a segurarem os portões. Depois... não me lembro de mais nada. Começaram os confrontos em Luanda e a Escola transformou-se em acampamento de desalojados e feridos que vinham dos bairros.

Enquanto alguns colegas partiam de Angola com as suas famílias, os que ficavam iam ajudando no que fosse preciso. Lá íamos todos os dias, apesar dos tiros.

Eu tinha 18 anos, já trabalhava na Represental e eram mais as vezes que ia ao cinema Império ( hoje Atlântico ) do que às aulas. Tendo mesmo no ano de 1974/1975 desistido de estudar devido ao movimento que se gerou sobre os partidos políticos de Angola e pela sua independência.

Hoje passados estes anos todos a Escola virou Instituto e no largo em frente, onde paravam os carros dos papás e as motos dos “ avilos ” à hora da saída, kitandeiras vendem mangas, abacaxi, abacates, mikates e chinelas havaianas em grandes bacias; vendedores ambulantes apregoam cigarros, roupa interior, acessórios para carros, sofás, fatos de banho, espelhos, cassetes de filmes pornográficos e ferragens; os ardinas também passam para vender os jornais (mais caros que o preço neles impresso) e a revista Caras edição Angola, onde um jet set de novos ricos não se envergonha de afrontar, em poses estereotipadas e sorrisos idiotas, os que pouco ou nada possuem.

Escola Indústrial nos anos 1970.



Na João Crisóstomo 

1º Ano Turma A – 518
Professores



MATEMÁTICA – Saratoga



PORTUGUÊS - Maria Jesus Costa ( Fui selecionado para recitar poesia numa festa realizada no Ginásio )



CIÊNCIAS - Maria de Lourdes Couto Pires



DESENHO - rof. Carlitos ( jogador do Sporting de Luanda )



Trabalhos Manuais - Mestre Braga



Canto Coral - Prof. Leitão



2º ANO Turma U -  216



Professores



MATEMÁTICA - Gabriela ( por ser muito alta ) eu sou da famosa turma que teve um dia de suspensão por a senhora ter caído da cadeira ( alguém mexeu na cadeira que era rotativa )



DESENHO - Professor Carlitos



Lembro-me do aluno que morreu com a mina junto aos Maristas era o Ernesto nessa altura começamos a ter aulas de granadas minas e outros acessórios balísticos
lembro-me da professora Sandi Show, não me lembro que disciplina me deu no 2º ano. Também jogava a bola e pertencia à grande equipa de futebol de 11
Amilcar ( G.R.) Rodrigues ( Barrabas ) defesa Carvalho ( Médio) Zé Antunes ( Russo ) Médio Gomes ( Avançado ) Camilo ( Avançado ) pouco mais me lembro, no meu tempo de 1967 a 1969 as turmas não eram mistas.



Lembro-me de um professor já em 1971 que veio de Torres Vedras para dar aulas de Trabalhos Manuais.



Lembro-me também do 1º de Dezembro (se não me engano) nos festivais de ginástica no Estádio dos Coqueiros, o desfile das escolas participantes.

ESCOLA PRIMÁRIA



Fiz a instrução primário na Escola 176 do Bairro Popular nº 2 em Luanda e tive como professoras a Dona Fernanda (1ª e 2ª classe ) e a Dona Amélia ( 3ª e 4ª classe ).

Tanto eu como os meus irmãos só podíamos calçar sapatos ou sandálias quando saíamos de casa para algum evento ou nas nossas deslocações para a escola. Durante o dia, para poupar as solas, jogávamos à bola descalços. Os meus pés estavam tão calejados que por vezes caminhava em cima de arbustos espinhosos sem me causar qualquer mau estar.

Na escola era obrigatório o uso de bata branca, sapatos também brancos, quedes da Macambira ou sandálias da mesma cor. Na parede posterior às mesas dos professores havia obrigatoriamente pendurado um retrato de Salazar. A entrada na sala era feita de um modo ordeiro e com a chegada da professorora a turma de pé entoava o hino nacional.

Feita a chamada dava-se início às aulas acompanhadas, quando necessário, por reguadas nas palmas das mãos com “a menina de cinco olhos”, puxão de orelhas ou com pancadas na nuca ou orelhas com a vara comprida. A palmatória era confeccionada em madeira com uma peça circular provida de cabo que agarrado pelo algoz direcionava o golpe para a palma das mãos dos alunos.

Os orifícios, normalmente 5, na parte circular atenuavam a resistência do ar e com isso o golpe era mais contundente. Os pais dos alunos orientavam os professores a praticarem essa espécie de castigo para aqueles que tirassem más notas ou tivessem alguma conduta reprovável.

Alguns alunos levavam de casa um farnel para ser comido no recreio, aqueles que ainda tinham esse privilégio o faziam mas outros infelizmente, ficavam olhando os colegas comerem mas de vez em quando havia alguém que sorrateiramente se aproximava de quem tinha o lanche e dava uma palmada nas costas da mão sendo o lanche projetado para o ar e logo em seguida era agarrado pelo contendor e comido. Faço um pequeno esforço para recordar estes factos.

Enquanto as meninas brincavam de cabra cega, jogavam pedrinhas, pular a corda, etc., os rapazes jogavam futebol, as bilhas , pião, etc.. As makas entre alunos eram resolvidas fora do recinto da escola e automáticamente formava-se um ajuntamento em volta dos contendores.
Aprendi a ler pela Cartilha Maternal de João de Deus. Minha mãe tinha uma escrita bonita em uma folha de papel escrevia com o lápis o abecedário e frases soltas obrigando-nos a decalcar o que tinha escrito. A minha letra era inclinada e regular devido a esse processo de aprendizado, depois ficou mais técnica devido ao curso de desenho.



Escola Primária nº 176 - Bº. Popular nº 2
Quando regressávamos da escola para casa ou vice versa, normalmente passávamos no lado lateral esquerdo do Proventório Infantil de Luanda após descermos a rua até ao fim, desembocávamos em uma área onde havia árvores de frutos ( mangas, bananeiras, tambarinos e cajus ) que comíamos de vez em quando, frutas de sabores ácidos. No local apareciam lagartos grandes de tonalidade verde. Eles ficam ao sol para regular a temperatura do corpo e após levantarem a cabeça com a chegada de algum intruso deslocavam-se com velocidade para o tronco da árvore subindo-a.

À tarde o lanche servido era de pão com manteiga, ou marmelada, outras vezes farinha de pau misturada com açúcar, mas esta mistura servida num copo se fosse adicionada um pouco de água ela engrossava e depois de digerida tínhamos a sensação de estomago cheio. Outras vezes comíamos ginguba misturada com farinha de mandioca e açúcar batida no pilão mistura chamada de quiquerra.

O matete também fazia parte do lanche e era um composto de papas de massa de farinha cozida adoçicada com açúcar. Havia também a paracuca.


1966

FAMILIA

A Família Antunes Gonçalves é uma das tantas que existem por aí vivendo na normalidade. É formada de tipos comuns, encontrados em todos os cantos da cidade, feiras-livres, praças, saídas de fábricas, escritórios, paragens dos maximbombos... Famílias feitas de vidas ocultas que não buscam figurar em capas de revistas, coluna social de jornais – não vale a pena –, mas que não passam despercebidas ao espectador divino, que as tem em alta conta. Transmontano, Júlio, o marido, não foi o único do bairro a ter o sobrenome de Gonçalves, do avô paterno, Carmitas, a esposa, de Torres Vedras, manteve incólume o sobrenome: Antunes. Júlio é um homem simples, sem estudos, trabalhador, metódico.

Como a maioria dos habitantes do Bairro Popular nº 2, Aprecia um bom bacalhau e torce pelo Benfica, sem fanatismos. Veste-se com roupas simples, sempre limpas e combinando as cores, e por isso é tido como alguém de bom gosto. Em casa, jamais andou de calção ou sem camisa. Cuida da aparência porque sabe que assim agrada à esposa. Seu carácter sociável não é de mera fachada, não. Goza de respeito e prestígio graças ao profissionalismo com que encara o trabalho. Pontual no horário de entrar e sair da empresa, diz aos chefes – quando insistem nas horas extras –, que tem outro negócio a cuidar, a família.
Ninguém discute porque já se sabe que não abre mão disso, e que para evitar as tais horas a mais, trabalha com intensidade – sem molenga –, e nunca contesta as suas responsabilidades das tarefas que lhe são direccionadas.

Como encarregado de Obras tem que impor a sua sabedoria e personalidade. O temperamento do Júlio é sereno e sociável, fecundamente utilizado para conquistar a amizade e a confiança dos filhos, com os quais gasta prodigamente o tempo. Sua figura cresce contínua e aprumadamente diante de seus filhos, porque o exemplo da pessoa amada sempre exerce um suave e misterioso império naqueles que a amam. Júlio é do tipo que sabe sofrer em silêncio e rezar com insistência.

Nas situações em que todos perdem a cabeça, não se desespera e pensa o lado positivo das coisas, o que lhe aumenta a autoridade. Os traços de pai vão se desenhando nos filhos sem que estes o percebam – notarão quando, homens formados, não tiverem mais o pai, pois o amor reflete sempre a feição moral de quem o inspira. Júlio tem muitos amigos e sabe conservá-los, sacrificando-se por eles sem nada esperar em troca.

No trato com os demais, tem a palavra oportuna que estimula e orienta. Maria do Carmo ( Carmitas) é mãe, só mãe – o que é divino. Ainda é jovem, - tem cinco anos menos do que Júlio – e a juventude lhe é ressaltada pela beleza. Seu temperamento é alegre, bem-humorado, onde se combinam maravilhosamente uma requintada feminilidade com suave energia e sólido sentido prático. É serena, mas quando fica brava, fica mesmo. Entretanto, tal estado de alma lhe é raro e, por conhecê-lo, os filhos evitam despertá-lo, propósito nem sempre alcançado... Carmitas, não é o tipo de mulher que necessita de elogios.

Possui o instinto de mulher simples, que a leva a furtar-se de ostentações ou chamar a atenção. Foi criada para rodear de afeição aos que ama e dar-lhes um lar onde possam expandir-se em singela felicidade. Percebeu que o salário do marido nem sempre chega dedica-se a trabalhar numa banca de verduras no kinaxixe. Bem-humorada, mostrou às amigas, que a fustigaram pela opção tomada, ter lucrado mais ao se tornar dona do seu próprio tempo, que passou a organizar criativamente, de modo a poder dispor de algumas horas diárias para ler, estudar, foi umas das primeiras mulheres a tirar a carta de condução em Luanda sem sacrificar a família. Em casa, ao ler e estudar os assuntos da sua profissão, as chamadas contas de merceeiro.

Carmitas se mantém actualizada. Ao unir seu gosto profissional ao sentimento materno, que penetra na alma dos filhos e faz descobrir o espírito humano com sabedoria, avalia profundamente os acertos e desacertos da sua ciência. E assim, cada vez que olha para um filho e o vai descobrindo, vê nele um potencial maior que em si própria, porque é a continuidade, que deve desvendar e preparar. Vislumbrou que a tarefa formativa dos pais lhes amplia as realizações pessoais. A casa dos Antunes Gonçalves é sem luxo, mas de muito bom gosto. É casa própria e do tipo vivenda, comum nos velhos bairros da cidade: pequeno jardim fronteiriço, sala de estar de onde parte um corredor de acesso a três quartos à esquerda, banheiro à esquerda , cozinha no final e um quintal grande.

A estreiteza económica da família é disfarçada na casa pela limpeza e bom gosto na decoração, feita de objectos simples que, ajeitados pelas mãos de Carmitas, ganham beleza incomum. E isso faz todos sentirem vontade de logo retornar ao lar. Júlio e Carmitas casaram-se cedo e, sendo jovens ainda, têm 4 filhos: Zé Antunes, com 12 anos; Fernando, 10 anos; Victor, 9 anos; e Amélia, 7 anos;

O salário do Júlio dá para manter a família, sem extravagâncias, caprichos ou descuidos orçamentais. Várias despesas são reduzidas com a produção caseira de ovos, galinhas e patos. No quintal – como já foi dito, esses espaços ainda sobrevivem em bairros antigos e populares, Um pé de goiaba, outro de mamoeiro e ainda um sape sapeiro formam o pomar e concluem o círculo da casa. Valeu a pena insistir; foi vitória granjeada pela constância. Agora, cada filho sabe que a roupa de uso, ao ficar curta, deve ser passada ao irmão seguinte; o mesmo ocorre com livros e outros materiais escolares: “É preciso cuidar bem das coisas”, é ladainha que todos já sabem de cor e salteado e estão carecas de ouvir, como se diz. A situação financeira não permite ter empregada, e obriga cada filho a se encarregar de uma parte dos afazeres domésticos.
Tirar o pó dos móveis, lavar o chão, lavar a roupa, ajudar na cozinha, pôr ordem na sala de estar, quartos e quintal, são tarefas distribuídas entre todos. Além disso, os pais estabeleceram que ninguém é empregado de ninguém. Cada um que zele pelas coisas pessoais. Nada de sapatos, roupas, toalhas e brinquedos espalhados pela casa. Os infractores serão penalizados na forma da lei. Ai de quem não obedecer... E tem mais: o interessado arrume a própria cama e ordene a parte que lhe cabe no guarda-roupa.

Cama bem arrumada, não à moda francesa, mas à espanhola: lençóis duplos e sacudidos, colchão espalmado, cobertores alisados e colcha sem amarrotar. Terminam por aí os encargos? Nem por sonho. Somam-se às tarefas diárias – e isso cabe aos rapazes – os serviços mais pesados: pintura da casa, conserto das calhas e telhado. Júlio encarrega-se da parte eléctrica, hidráulica e alvenaria, com a ajuda dos filhos... Júlio não aceita o falacioso argumento dos preguiçosos e mesquinhos de que para casa não vale a pena tanto zelo. “Vale – diz Júlio –, porque é o meu lar; o lugar onde vivem os meus, e onde recebo parentes e amigos, que julgo dignos da ordem e limpeza: uma casa com portas emperradas, mato no jardim, pintura encardida, vidros quebradas, ferrugem no portão, vidros riscados, fios electricos salientes, espelhos de luz partidos, reboco caído, bem reflecte a corroída alma de quem ali mora”. Ê lá, Júlio...

O sonho da casa própria aos poucos vai-se concretizando. Sobre a Mélita recai os cuidados menores, o preparo das refeições e costuras mais elaboradas. Aniversário! Quando há algum, o que por ali não é raridade, prontamente se põe a mesa de festa. O segredo de tanta eficiência – outra batalha vencida pela constância de Carmitas reside nos seus dotes culinários, e há sempre bolo e apagar as velas.

Quando Júlio e Carmitas souberam há algum tempo que em certo país europeu um casal que dava tarefas aos filhos foi processado criminalmente por escravidão de menores, ou besteira desse teor, comentaram tristemente entre si que não estão ensinando as crianças a perceberem que elas não têm somente direitos diante dos pais, mas também deveres filiais-paternais, além dos fraternais; e que tão cheios de satisfações, facilidades e benesses, esses molengões papa-direitos trarão muitas dores aos pais e às famílias que constituírem, que certamente não durarão muito, e trarão grandes despesas à sociedade.

Ao partir Júlio para o trabalho, Carmita prende os cabelos com uma bandolete para não atrapalhar na lida da casa e, à noite, antes da chegada do marido, solta-os penteando-os sobre os ombros e põe uma roupa simpática para recebê-lo. Está sempre bonita, vestida com sobriedade e bom gosto. Para a filha, ela diz que mulher desmazelada e cheirando mal não pode chorar marido que chegue tarde ou bata em outra porta. Carmitas é a primeira a levantar e a antepenúltima a deitar, cedendo ao Júlio o cuidado de aguardar o retorno dos filhos da escola; e o marido cumpre o encargo aproveitando o sono da casa para preparar o que levará para o trabalho no dia seguinte.

O dia-a-dia de Carmitas não é fácil e ela diz o mesmo que todas as mães de famílias numerosas dizem, seja a mãe dos Sabinos ou a dos da Silva, variando apenas nos nomes dos filhos: “Melita, é hora de te aprontares para ires para a escola; acorda”. “Oh, não, Zé, põe esse cachorro para fora de casa”. “Ôôô Fernando, eu falei para olhares o leite...”. “Victor, arruma a tua cama, menino”. “Júlio, não esqueças o remédio do Fernando”. “Bandido...”. “Meu Deus, não aguento mais; me leva embora, vai!”. “A mãe não tem dinheiro”. “Depois, depois filho”. “Ai, desaparece com esses patins daqui, que riscas o quintal todo!”. “Por que estás a chorar?”. “Não fales com a boca cheia”. “Vai lavar a cara”. “Deus te abençoe, seu diabinho”. “Menina, onde você aprendeu a responder assim?”. “Nada de palavrão, menino!”. “Melita, o arroz está no fogão?”. “Está doendo? Deixa de se queixar”. “Um beijo”. “Tchau...”. “Como foi o dia, Júlio?”. “Foste bem no exame Zé?”. “Puxa, que bom, tu compraste o remédio”. “puxa, a que ponto chegamos!”. “Olha para mim e responde: foste tu que partistes isso? Que inferno de vida”. “ meninos vão estudar e deixem a bola”. “Já vais levar com o cinto, meu maroto “

Carmitas integra a sociedade médica da rua. Como é bem sabido, pois é de fácil observação, e já foi afirmado por muita gente, até por membros de famílias numerosas de outros países, em bairros humildes se desenvolve uma medicina chamada familiar, que reúne todas as mães da rua. De tradição oral, as técnicas, avalizadas por farta base empírica, são passadas de geração a geração, constituindo sólida cultura científica que, de verdade, poupa não poucos gastos com a concorrência médica de diploma e canudo, só chamada como recurso extremo, e depois de esgotadas todas as aplicações de emplastros, emulsões, chás de ervas comuns ou das inacreditáveis e raras, efusões, e consultas a todas as mulheres da vizinhança no anseio de desenterrar alquimia olvidada em alguma cachola. Acrescente-se o que avó alguma deixou de frisar – elo jamais quebrado no correr dos séculos: “O suadouro é medicina base de todas as demais.

De preparado que não faz transpirar ou suar em bicas é para desconfiar”. “ tantas gemadas com cerveja preta eu tomei para me fortalecer”. Como bem lembrou um filho de família numerosa e pobre, do norte de Portugal, se os laboratórios conhecessem tal ciência, rica em receitas, certamente colocariam em suas embalagens: “só para uso externo”. E o resultado é que criança nunca morre... Remédio eficaz e concorrente do suadouro – quem dele não padeceu lance a primeira pedra – é o óleo de rícino, dotado de grande prestígio entre as mães para acabar com a manha de filho que se faz de doente para iludir o banho ou não ir à escola.

Basta citar o milagroso medicamento que o kandengue já vai dizendo: “Já estou bom, mãe; já estou bom!” De verdade, é tido em alta conta pelas mães esse santo remédio.

1978

ADOLESCÊNCIA




Minhas memórias




Recordar factos ocorridos na nossa adolescência - infãncia é o lembrar de situações vividas por nós e que vão sendo lembradas com a nostalgia da nossa vivência passada, com mais ou menos saudade, histórias da nossa vida..


Nasci na Póvoa de Penafirme no dia 12 de Maio de 1955 . Consta na minha Certidão de Nascimento que fui baptizado pelo Padre Abílio da Costa Reis Lima no dia 23 de Junho de 1955, nasci às 23 horas e 20 minutos, filho legítimo de Júlio Inácio Gonçalves, Encarregado de Obras, natural da Freguesia de Aguieiras, Concelho de Mirandela, Distrito e arquidiocese de Bragança e de sua esposa Dona Maria do Carmo Antunes Gonçalves, doméstica, natural de Povoa de Penafirme, Freguesia de À-Dos-Cunhados, Concelho de Torres Vedras, Distrito e arquidiocese de Lisboa, etc, etc..


Fiz questão de transcrever parte da minha Certidão de Nascimento porque as minhas origens refletiram-se ao longo da trajetória das fases da minha vida.
Vi a luz do dia em que a parteira chamada e contratada pelo meu avô Vital, ajudou o parto da minha mãe, em casa. Comum na época esse tipo de procedimento.


Meus pais criaram-nos com muitas dificuldades pois éramos 4 filhos e para melhorarem um pouco o orçamento familiar tinham sempre nalgum canto do quintal quando morávamos no Bairro da Cuca uma área onde cultivavam vários tipos de verduras e legumes que com o produto da venda no mercado de kinaxixe, davam um pouco mais de desafogo no pagamento das despesas.


Enquanto as meninas brincavam de cabra cega, jogavam pedrinhas, pular a corda, etc., os rapazes jogavam futebol, ao berlinde , pião, etc.. As makas entre alunos eram resolvidas fora do recinto da escola e automáticamente formava-se um ajuntamento em volta dos contendores.

A fim de ficarmos protegidos do paludismo, todos os dias antes do matabicho tínhamos que tomar 1 comprimido de quinino e durante alguns anos assim fizemos.


Eu já um jovem com 20 anos em 1975 de regresso de Luanda para Portugal.
vivi no Bairro Popular ao pé da igreja de Santa Ana.


Estudei na escola primaria ali bem perto e mais tarde fui frequentar a escola João Crisóstomo o 1º ciclo. Frequentando depois a Escola Indústrial de Luanda


Com alguma frequência eu, meus pais e meus irmãos, apanhava-mos o maxibombo 22 rumo ao centro da cidade, nessas deslocações também se impunha uma visita à Portugália e ao Baleizão.


As idas á praia do mussulo no Kitoco ou no Kapossoca enfim tantos e tantos locais que me ficaram gravados na memoria e recordo por vezes com uma lágrima no canto do olho enfim recordações que se não apagam, e que as guardo na minha memória. Que saudades eu tenho de Luanda desses tempos.




1966

MARABUNTA

Histórias de Luanda

Marabunta é o nome de uma espécie de formiga, que devora tudo, mas eu vou falar de outra “Marabunta”, uma personagem famosa da Luanda dos anos sessenta e setenta e que já só conheci numa fase em que a sua áurea se teria já desvanecido. Era uma madeirense que terá emigrado para Luanda, na busca de uma vida que dificilmente encontrava na sua ilha da Madeira, mulher que desembarcara em Luanda com a finalidade de exercer a mais velha profissão do Mundo e, graças a ela e a outras manigâncias, enriquecera.

Segundo as vozes a “Marabunta” era uma mulher que desafiava a calma quotidiana da provinciana Luanda da época. Mulher vistosa, loura, sem preconceitos, ambiciosa, deslocava-se sempre num Chevrolet Corvette vermelho garrido descapotável, insinuando-se numa cidade que parava literalmente para a ver.

Constava-se que esse Corvette era do Ferreira do Negage, que tinha umas fazendas de café, abriu o Bowling ao pé do Hospital Militar, uma fábrica de massas num edifício onde funciona a representação consular da África do Sul, ali para os Coqueiros.

A “Marabunta”, apenas se sabe que se chamava Gracinda, alimentou muitas histórias e muita galga na Luanda dos anos sessenta e setenta, e só vê-la passar em frente ao Salvador Correia, era para os que se empoleiravam no muro um verdadeiro troféu, imaginando pelos joelhos da senhora o torneamento do resto das pernas.

A “Marabunta” era muito ciosa nas suas relações, e conta-se que um daqueles fazendeiros do café enriquecido, quis gozar com ela; Depois dos “preliminares”, passou-lhe um cheque de 20 contos (atenção estamos no fim dos anos 40 e era muita massa) sabendo que aquela conta só tinha 18, ela foi ao Banco de Angola, e como era sobejamente conhecida o banco depositou os dois contos e ela levantou o cheque. O fazendeiro acabou gozado quando pensou que estava a lidar com alguma “amadora”.

Em determinada altura na hoje Avenida Valódia, estabeleceu-se na “Vidraria dos Combatentes”, paredes meias com o ” Punta del Pazo”, tendo comprado todo o material da “vidraria Leiriense”, ao lado da Saratoga ao pé do edifício na Mutamba que hoje alberga o Ministério das Finanças. Na cidade faziam-se conjecturas diversas, como é que ela teria conseguido o dinheiro para montar um estabelecimento, que era passagem obrigatória de miudagem e graúdagem, por razões que pouco tinham a ver com vidros ou espelhos. Constava-se que tinha sido novo-rico do café do Golungo-Alto, que estava com ela amiúde no “Sporting” na 1ª rotunda da ilha, e que dizia em voz alta: “Tenho dinheiro que nunca mais acaba”. Parece que a “Marabunta” sem muito esforço, provou o contrário em pouco tempo, tendo-o deixado falido.

A realidade é que a senhora juntou-se entretanto com um furriel do exército colonial, que as más línguas da cidade chamavam de “furriel consorte” , mudou de carro, tendo comprado um Chevrolet Camaro amarelo, aí por volta de 1970. Nessa altura já envelhecia e vendeu por muito bom preço o único Corvette descapotável que havia em Angola,

Duas décadas de ouro, para o carro e para a Marabunta, afinal uma mulher que toda a cidade conhecia e se contava histórias, muitas inventadas, mas que ainda hoje é recordada nas conversas de um cada vez maior número de pessoas, que cada vez mais se lembram do que se passou há muitos anos, e não se conseguem recordar o que fizeram uns dias antes.

MAKAS




Logo a seguir à Sé no prédio de esquina, mesmo ao lado do Hotel Turismo!! No ano de 1965! Que começou a bronca com os paraquedistas que andaram aos tiros com os Comandos, entre o Amazonas e a Portugália, depois de umas CUCAS e umas NOCAIS, e na Versailles se refugiaram muitos civis!! Eu estava com os meus pais e quando vimos os Unimogs cheio de soldados a disparar para o ar fomos-nos esconder na Pastelaria Ateneia, lá ao fundo nas casas de banho!! Foi um susto de todo o tamanho!! Sei que iamos em direcção ao baleizão e ai voltamos para o Bairro Popular nº2 já não houve gelados para ninguém. Foi bem comentado esse incidente e a rivalidade entre Paraquedistas , Fuzileiros e Comandos perduraram sempre pelos tempos, muitos deles vinham stressados da campanha no mato e claro chegavam a Luanda e o álcool é que os desatinava mais. O castigo que esses soldados tiveram foi que foram todos transferidos para o Negage!

Mais tarde houve outro incidente com luta corpo a corpo entre Paraquedistas e os Fuzileiros no largo da Mutamba, em que também o pessoal civil teve que se refugiar e esconder nas casas de comercio ali na baixa de Luanda.

Estes acidentes e estas guerrinhas aconteciam porque cada um se julgava melhor que o outro nos tres ramos das Forças Armadas .