TuneList - Make your site Live

21/05/2012

ALMOÇOS CONVIVIOS

Almoço-convívio da malta do Bairro Popular nº 2,  Sarmento  Rodrigues e Palanca

dia 07-05-2011

Não se trata de um comício, ou de uma manifestação política e muito menos de uma luta sindical! Este nosso ajuntamento aqui, representa apenas e só, um Convívio de uma forte, longa e sã CAMARADAGEM e de uma Amizade desmedida, inexplicável, ornamentada de muitas saudades sentidas, ao longo
de todos estes anos de separação!

Estamos, uma vez mais reunidos, a viver em pleno absurdo, a escrever gatafunhos das nossas memórias BAIRRISTAS, no livro da História que nenhuma inteligência poderá decifrar no futuro. Todas as conjecturas têm a mesma probabilidade de acerto ou desacerto. Andamos caídos em lugares que nada nos dizem. Trocaram-nos os destinos. Separaram-nos, julgando, naturalmente, que conseguiam quebrar estas correntes que nos Unem. Enganaram-se! Partimos de lá sem nada. Desolados, trazendo connosco uma mala cheia de saudades, de mágoa, de revolta, cheia de nada, mas de AMIZADE! Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos dele em traineiras. A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a irresponsabilidade de todos, deu este resultado,  o fim sem grandeza de uma aventura. Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.
E por aqui ficámos! Desprezados e às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um Povo que nela sempre os teve! É o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la? Somos irmãos, independentemente de raças, religião e ideologias políticas. Temos a mesma riqueza, que é a de nos auxiliarmos uns aos outros. Que foi e é um Tesouro, que todos chamamos: AMIZADE! Estamos mais velhos, a nossa voz mudou, a idoneidade afogou-nos a criança, que dentro de nós habitava, porque o horizonte é maior, a nossa família cresceu e nós estamos a ser olhados de soslaio e classificados pelos mais novos de Kotas, velhos chatos sem sentido, senis e saudosistas! Procurávamos, em tempos idos, um caminho de liberdade assumida, onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado! Uma arte rebelde enraizada no circunstancial...Procurávamos ser Amigos uns dos outros, defendendo-nos em horas de maior aflição; preocupávamos com a situação amarga, que muitos de nós, sofreu ao deixarmos aquelas Terras Africanas, onde construímos à nossa volta, um mundo diferente, um mundo criado à nossa medida, original e único, povoado de seres reais, constituído de criaturas puras, transparentes, Amigos do seu Amigo, parentes, unidos (negros, brancos e mestiços), que o tempo foi transformando em fantasmas!

Termino com uma pequena quadra de MIGUEL TORGA:

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de Natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido de corpo
E tolhido de Alma!

Obrigado aos Borges, Delmar, Manuel Alves, Filipe Santarém, Esteves,  Amilcar  (mica) Miguel, Fernanda Ribeiro, São Costa Pereira, Zé Antunes e Carlos Abreu ( passarinho ) ( e aos avozinhos do condado ou afro samba de estarem sempre presentes com a musica que todos nós gostamos ) e a todos que durante 22 anos puseram de pé a realização deste magnifico convívio, e por terem, uma vez mais, seleccionado, reunido e a colher o fruto desta Jóia, desta nossa Camaradagem, chamada AMIZADE, que foi e continuará a ser,  oriunda dos

Bairros Popular, Sarmento e Palanca!

Obrigado a todos, por me terem dado este pequeno prazer, de vos confessar esta pequena recordação!

Viva Angola! Viva Portugal! Viva a Malta de LUANDA

ABRAÇÃO A TODOS

  2011

17/05/2012

LARGO DA PORTUGÁLIA

Esplanada da Portugália no Largo D. João IV onde a malta amiga se reunia aos fins da tarde para comer uns petiscos e beber uns finos ( cerveja em copo ) e onde os cauteleiros se juntavam para vender o jogo da Casa da Sorte e da Casa Campião, e trocarem as cautelas premiadas onde também clandestinamente se trocavam moeda, dólares e escudos de Portugal por escudos angolanos, e onde também se vendia ouro, e se faziam até variadíssimos negócios.
Tardes quentes, mas com cerveja fresquinha na sombra das já muito velhas árvores, trocávamos ali as nossas ideias e íamos convivendo. A rapaziada que estava na tropa, nas suas folgas reuniam-se ali para saberem noticias de Portugal e de amigos.
Lembro-me que a esplanada encerrava as 23 horas, e que depois às tantas da madrugada nos reunia-mos ali depois de virmos das farras no Sindicato dos Motoristas, Casa Transmontana, casa Americana e tantas outras farras para saborearmos o pão quente que alguém ia buscar à padaria na General Carmona e com um bom chouriço e manteiga ali se degustava o tão saboroso pitéu e terminávamos a noite em amena cavaqueira.
Numa dessas tertúlias o nosso amigo Américo Barroso tira os pancos e puxa de uma cadeira e se estica todo batendo ali uma soneca pois o seu estado de sonolência a isso pedia. quando acordou e se levantou da cadeira os "pancos" já lá não moravam. Pediu a um taxista para o levar a casa ali bem pertinho, no Bº dos Coqueiros, ele espantou e disse: como é! Moras ali e tás a pedir pra te levar a casa?Aí ele explicou que lhe tinham "cangado os pancos". O madié começou a rir e disse: monta lá e prá próxima não te descalces! Aiué Zambi!

ENGRAXADOR DE SAPATOS


Era na Portugália que logo pela manhã apareciam os kandengues com as caixas de graxa para começarem a ganhar algum kumbu. Vai uma graxa? põe o pé aqui mó cota… é só uma quinhenta ( 2$50 ), vou te dar um bom brilho nos “pisos” kota, vem só, pisa aqui só… – diz o engraxador sentado debaixo de um prédio com a caixa entre as pernas encardidas de pó e com as costas apoiadas num dos pilares do prédio, batendo com a escova segura por dedos pretos de graxa. Uma T shirt, com as cores do glorioso Benfica esconde a magreza do corpo, na cabeça um encardido e descolorido boné encobre a carapinha dura de cabelos encaracolados, olhos vivos negros como o continente da terra que o viu nascer buscam irrequietos o cliente que lhe trará os primeiros vinte e cinco tostões para o matabicho que em estomâgo vazio de ontem, espera hoje a “Chandula”(Sandes) de pão com chouriço vendido pelas zungueiras (quitandeiras) nas ruas da cidade, molhada que será com uma mission de laranja (sumo), muito do agrado destas pessoas do meu Povo…

Era por ali que passavam também as quitandeiras com as cestas do peixe á cabeça para irem até aos bairros longinquos vender o peixe fresquinho que tinham ido buscar ali a marginal ao porto de pesca. Acordou hoje, esta nossa cidade, cinzenta, fresca sem sol, nem calor. O pregão da peixeira zungueira… é carape, é carapé, ué….é cachuchu ué…ecoa nos meus ouvidos, misturado com os barulhos dos motores e das estridentes buzinas dos veículos que cruzam a rua e seguem em direcção ao Quinaxixe. No ar paira o cheiro a maresia arrastado pelo vento que vem do mar, do lado da Ilha e do Miramar, cruzando o velho cemitério do Alto das Cruzes e a mistura o pó das ruas levantado pela borracha dos pneus dos veiculos que marcham sobre este asfalto, num frenético passa e repassa. No rosto dos transeuntes as mais variadas expressões, rosto franzidos espelham as precupações do dia que agora começa, sorrisos e um bom dia dirigido a algum conhecido, mistura-se nesta amálgama de sons diversos, apertos de mãos são tocados entre os conhecidos que, apressadamente, cruzam os irregulares passeios, e por vezes um apressado dá licença, dirigido ao que parou para uma conversa rápida com o camba que apressado e de passo estugado que segue em direcção ao local de trabalho.
Para mim o Largo D. João IV era a Baixa da cidade, para outros era a Mutamba, mas era ali que todos se concentravam ou antes ou depois de irem ou virem dos seus empregos. E ali ao redor se concentrava quase tudo, Correios, Bancos, Jornal a Provincia de Angola, Policia, Livraria Lello e a Biker, Versalhes e o Polo Norte. Atravesso a rua em direcção à Pastelaria Versailhes e imbuido nos meus pensamentos logo o ardina interrompe os meus pensamentos pondo-me a frente dos olhos as edições matudinas de alguns jornais da capital de onde destaco o Jornal “ A Provincia de Angola”…. è só 10 paus ( 10$00) nó kota, tem boas notícias, vai? – diz o puto separando o jornal do grupo de outros que pesadamente carrega no seu braço esquerdo, olho o ombro roto da velha t shirt que um dia fora branca mostrava o ombro negro que despudoramente espreitava, pelo buraco da camisola. Aceito o jornal, pago-o e o ardina com um sorriso simpático de dentes brancos diz-me – vai te curar mó kota, tem boas notícias !… e lá se foi arrastando os velhos e gastos chinelos de enfiar o dedo, made in Macambira…

JORNAL A "PROVINCIA DE ANGOLA "

E com o ardina também, meus pensamentos se deixam destes cogitos e obrigam-me a centrar as atenções no denso transito da rua, que fervilha de gente que caminha nas mais diferentes direcções. Meus pensamentos ainda voam vertiginosos e sigo em direcção ao meu local de trabalho ali na Rua Conselheiro Júlio de Vilhena. E fui…

Zé Antunes - Adaptado de uma ideia do Fernando Transmontano
1973





LASSIÉ

Sempre tivemos animais em casa e neste tempo o cachorro que tinhamos em casa era o Lassié, depois tivemos o Piloto e o Chucunino ambos de raça Banseji que é um cão pequeno, de pelos curtos, originário da África. É um grande caçador. É muito conhecido por ser o único cão que não late, embora não seja mudo. O Basenji emite sons naturalmente, apenas não late. “É um cão de personalidade forte, muito instintivo e independente, apesar de carinhoso e protetor”. Não é exatamente uma raça obediente, e definitivamente não é fácil de se treinar, apesar de ser um cão muito inteligente.


Certa vez um policia “Cipaio” perguntou pelo nome do animal e foi dizendo os nomes mais usuais que se punham nos cães, eu meio atrevido a todos os nomes que o “cipaio” dizia eu dizia “sei lá se é”, a certa altura ele zangou-se e com cara de poucos amigos perguntou com uma voz de trovão “ como se chama o cão” e eu todo cheio de medo e com a voz muito pouco firm e a balbuciar disse: LASSIÉ que era o nome do cão.
Uma outra vez andava na rua com o Lassié sem trela e os funcionários da câmara Municipal de Luanda ( a trabalhar para o canil ) andavam com uma camioneta o chamado “o carro do cão” com gaiolas a recolher todos os cães vadios e abandonados, pegaram no pobre animal que foi engaiolado numas das ditas gaiolas, e nessa manhã sempre atrás da camioneta para ver se conseguia libertar o cão e para o meu pai não ter que pagar a multa.
Hora do almoço pararam no Bar N`Gola na estrada de Catete na esquina que vai para o Bairro da Terra Nova, pé ante pé subi para a camioneta, enquanto os três funcionários almoçavam, e eu cheio de medo de ser apanhado em flagrante, tirei todas as trancas que fechavam as portas das gaiolas e desatei a fugir numa correria até casa, e os cães todos atrás de mim, só pensava se teria aberto a tranca da gaiola do Lassié, pois não o via. Ofegante cheguei a casa, todo suado, e vi o “Lassié” ao pé de mim, dei uma chuveirada com a mangueira de regar as flores em mim e no cão, e nesse dia já não sai à rua para ir ter com os meus amigos para as habituais brincadeiras com medo de ser reconhecido, a partir dessa ocasião tivemos mais atenção quando vínhamos à rua com o cão.
A quando da nossa vinda a Portugal em 1970, o Lassié foi dado a um amigo de meu pai que trabalhou em Cambambe, ao Sr. Raminhos que morava no Cazenga, Logo ai no primeiro dia o Lassié viu duas galinhas lá no quintal e matou-as à dentada.
Da mesma raça tivemos o Piloto em 1971, que uma certa vez o Augusto, filho do taxista da Rua Vila Viçosa, jogava à bola na rua, e a bola foi cair dentro do nosso quintal, portão fechado o kandengue Guto não vai de modas e sem pensar salta o muro para ir buscar a bola, o Piloto quebra a coleira salta em direcção ao Guto e arranhou-o de alto a baixo, com as unhas das patas dianteiras. Lá fomos ao médico para tratar daqueles ferimentos todos. Mais tarde o cão aparece com sinais de envenenamento acabando por falecer.
Tempos depois tivemos o Chucunino todo castanho que era o mais brincalhão de todos, ficou em Luanda foi entregue ao Pacavira. História dos nossos três cachorros
Basenji significa sertanejo ou nativo, essa é a origem da palavra na língua banto (falada por diversos povos africanos). Na África é usado como farejador e cão de guarda. O Basenji é muito lembrado por ter o hábito de se lamber como forma de banho e não latir como os outros cães, mas sim por emitir um latido agudo e contínuo.É uma das raças que mais preservaram as características de seus antepassados selvagens. Os ancestrais desta raça viveram na época dos antigos egípcios, pois gravuras semelhantes ao Basenji foram encontradas em diversas tumbas de Faraós. Só foram descobertos pelos ocidentais há pouco mais de cem anos na Africa central, onde ainda eram usados como cães de caça em matilha. No início do séc XX chegaram a Europa, onde foram devastados pela cinomose, doença a qual não tinham imunidade natural. Depois foram criados na Grã-Bretanha e em 1941 chegaram aos Eua.
Os Bassenji são alegres, espertos e brincalhões, mas não aceitam com facilidade pessoas estranhas. Não é aconselhável colocá-los com outros cães no mesmo ambiente, pois seu instinto de cão de matilha prevalecerá e o Basenji só ficará satisfeito quando sua liderança for estabelecida.

Altura: Macho: 43cm Fêmea: 40cm

Peso: Macho: 11kg Fêmea: 9,5kg

Funções: Companhia e caça

Grau de atividade: Moderado a alto

Pêlo: Curto, fino e denso

Cor: Preto e branco, vermelho e branco, preto fogo e branco

Nome de origem: Basenji

País de origem: Congo


1969

16/05/2012

JOANA “ MALUCA”

Em homenagem à Nixa e Leão verde




Anos 1960/1970 no Sambizanga, uma mulher como tantas outras, vestida de trapos e acompanhada de sacos de plásticos, restos de jornais e missangas de galundo no pescoço, diambulava pelo bairro dia e noite. Figura carismática e emblemática de Luanda é a Joana “Maluca”. Irei retratar o melhor possível, o que dela tenho na minha memória da minha infância, uma das personagens mais populares a Joana “Maluca” era vista a percorrer quase toda a cidade, mas sabia-se que percorria com mais incidência o Bairro de São Paulo, o Bairro Operário, o Marçal e o Sambizanga (Sambila) ela morava (tinha uma cubata) algures até aos anos 68/69 no descampado da Travessa da Rua Missão de São Paulo depois foi viver para a Lixeira ou Casa Branca, faleceu em 1975.
Quando a miúdagem a avistava era uma gritaria infernal…. “Joana Maluca” “Joana Maluca”…e começavam a atiçá-la correndo de um lado para o outro fazendo com que ela fugisse ou se lançasse em correria desordenada sobre a miúdagem e com um pau tão seboso afim de os afugentar. E não se detinha em dar com o pau nalgum miúdo(a) que não fosse mais lesto(a) na fuga. Quando para eles corria lançava pragas terríveis e a dado momento parava, fazia com o pau uma cruz no chão e de seguida cuspia sobre ela. Nunca soube a razão de tal gesto/acto, nem nunca os mais velhos me souberam explicar “Coisas“ da mente perturbada da Joana, talvez com o significado que só ela poderia saber.

Mas o que a maioria das vezes a miudagem aguardava era quando, depois de muito “xingada”, a Joana “Maluca” levantava as suas pobres e sujas saias e sem cuecas, mostrava as suas intimidades, as suas partes baixas, enquanto dizia…. “querem ver cinema à borla, querem”…, sendo este gesto a sua “imagem de marca”. Este gesto fazia com que a miudagem ficasse mais atrevida, começando de novo a troçar e a rir dela, e lá tinha a Joana “Maluca” que deles fugir. Depois invertia-se o filme. Era a canalhada a fugir quando ela, já desesperada e não sabendo como se livrar deles, parava, olhava-os de cima a baixo e partia para cima deles com a ameaça do seboso pau. Poder-se-á dizer-se que cada uma das partes sabia qual o seu papel a desempenhar naquele acto/situação.

Por vezes os adultos intervinham em socorro dela, já que a miúdagem ficava chata e não sabia quando parar. Cabe-me aqui dizer que nunca me meti com ela, assim como meus irmãos. Não por medo ou receio, mas pura e simplesmente porque a nossa forma de ser e de estar, não era virada para esse tipo de comportamento e sabíamos da história dela.

Mas verdadeiramente nunca soube a razão dela ser “maluca”. Lembro-me sempre ter ouvido dizer que era uma rapariga atinada, com juízo, e que se falava em três versões para que o deixasse de ser, e ficasse assim.

A primeira versão é que teria sido uma boa, inteligente e esforçada aluna, com grau académico já avançado, mas que de tanto estudar teria tido um esgotamento que a levou àquele estado de demência.

A segunda versão foi a de que lhe teria subido um parto à cabeça. Sobre esta versão ouvi ainda dizer que teria tido uma filha e que estava entregue aos cuidados dos Missionários da Missão de São Paulo.

A terceira versão, dizem que a Joana era uma rapariga linda que se apaixonou por um branco e que no dia do seu casamento teve um desgosto que a fez enlouquecer de dor, nesse dia, o homem que tanto amava morreu de acidente. Não sei qual das versões será a verdadeira, ou se não terá havido outra que todos nós desconhecíamos. O certo é que a Joana “Maluca” existiu nas condições de vida e miséria que teve e envolta nesse mistério.

Lembro-me que andava sempre descalça, suja, piolhosa, com roupa estragada e rota enrolada ao seu magro corpo, e o rosto sulcado por rugas bem vincada que atestavam a sua vida degradante e errante, enquanto os pequenos olhos inquietos faiscavam face ao terror que a miudagem e a gritaria lhe infundiam. Via-a a apanhar as beatas caídas nos passeios, nas ruas e vi-a algumas vezes alcoólizada. Também é certo raramente a vi estender a mão à caridade, mas quando lhe davam alguma peça de roupa rasgava-a pois era assim que queria ver a roupa no seu magro corpo.

Não havendo miúdos e nalguns casos outros mais graúdos a meterem-se com ela, era uma paz de alma. Passava, recebia ou não o que lhe dessem e seguia o seu caminho.História de um momento com a Joana “Maluca”Teria uns 12/13 anos quando esse momento aconteceu, estava na Rua dos Pombeiros na casa do Endireita de São Paulo, tinha ido acompanhar o meu irmão Fernando, pois ao atirar-se da camioneta do Sr. Acácio deslocou o braço esquerdo, ainda hoje tem o braço com essa mazela, sem poder endireitar. Estava no portão com a Manuela ( Nelinha ) filha do Endireita, estávamos na conversa quando vimos a Joana “Maluca” aparecer ao pé dos correios e a dirigir-se para o passeio do lado onde estávamos. Viu-nos, parou no meio da rua admirada de não aparecerem miúdos a meter-se com ela, como seria habitual. No outro lada da rua estava uma rapariga e um rapaz da nossa idade, Nós observámo-la e estava ela a olhar para nós quando a rapariga teve uma “ideia luminosa”. Chamou-a, ela foi, e quando estava mais ao menos a um passo de deles diz a atrevida rapariga “ Oh Joana! Tás a ver o meu amigo que é tão bonito e loirinho, não lhe dás um beijo?!

Ficou tão surpreso com o que ouviu, que nem sequer teve tempo de reagir. A Joana “Maluca” chamou um “figo à proposta e num ápice debruçou-se sobre o rapaz, que continuava surpreso, segurou-lhe o rosto entre as mãos e deu-lhe um valente e sonoro beijo na sua face esquerda, enquanto a rapariga desatava a rir que nem uma perdida. Terá ficado também tão surpreendida com o facto, que a única reacção que teve foi rir, rir, até perder o fôlego, pois por certo que nunca contou que a Joana “Maluca” aceitasse o seu convite.
Bom quem saltou e saiu a correr que nem um maluco foi o rapaz, pois ao receber o “inesperado” beijo da Joana “ Maluca” também levou em cheio com todos os hálitos e odores que sua boca e corpo exalavam. Andou durante uns dias a lavar a face esquerda quase de hora a hora. Só agora 40 anos passados vim a saber que o tal rapaz é irmão do meu amigo Mário.

O que sei, foi que a partir daquele dia, sempre que a via a Joana “ Maluca” aparecer, resguardava-me o suficiente para não me deixar surpreender. E diziam que Ela era “Maluca” maluca uma treta, naquele dia e naquele momento não foi, ou não o quis ser.


Pintura de Joana ( net )


Canção para Joana Maluca.
Para eles
eras unicamente a suja
a piolhosa
colhendo beatas
á porta do Nacional

E lestos
enquanto o sol brincava
no ombro alcantilado
das encostas
seus rafeiros te lançavam
de dentro dos quintais.

Joana
eles sabiam tua mão
e a temiam
(tua mão espinho-de-piteira
tua mão ngana-acusadora-mesmo
ah! kikata kikata muene)
até quando
estendida tua mão
pedia.

Na escudela da noite
entre cassuneiras e muxixis
uma pobre escura flor
adormecia...
João Maria Vilanova ( poeta angolano )

INFÂNCIA...

Com um grande agradecimento ao Mário Lima


Todos nós, durante um período da nossa infância ou mesmo na nossa juventude, fizemos sempre uma pequena colecção; de selos, de soldadinhos, de cromos (não desses que se vêem muito hoje em dia na televisão), de moedas, de caixas de fósforos e outras que fizeram a delícia da nossa meninice. As trocas que fazíamos com o parceiro: - «Toma lá o 10 Eusébio e troca-me pelo 24 Humberto Coelho», apontando no quadriculado os nºs que tínhamos e aqueles que nos faltavam, e assim pouco a pouco mais uma colecção ficava pronta. E era isto durante anos. Hoje ainda continuo a fazer colecções,  de cromos,  de selos e moedas de todo o mundo. Mas há colecções que ficaram gravadas na nossa memória, as de Banda Desenhada.

Que saudades do Mandrake e o seu companheiro Lotário, do Mascarilha e do seu cavalo Silver, do Tarzan, do Batman, do Roy Rogers, do Zorro, do Kit Karson, do Buffalo Bill, Sir Lancelot, do Cisco Kid e do seu Corisco e tantos outros Heróis da BD. Eram o «Mundo de Aventuras», o «Falcão», o «Condor», as «Selecções», o «Príncipe Valente», o «Mosquito». Era o ir ao quiosque na 4ª Rua ( Porto Alexandre ), ao lado do Talho  (eu, os meus irmãos, o amigo Domingos, o Litó,  o amigo Zé Avelino  e outros ” éramos clientes assíduos) e, entre uma compra levava-se dois dentro da camisa. E “devorávamos” aquilo. No dia seguinte íamos lá trocar por outros e claro que pagávamos uma quantia (que não preciso agora) e era assim que esse mundo de fantasia que a BD nos dava, que fazia de nós os heróis de muitas aventuras, ora brincando de polícias, aí éramos o Dick Daring, ou lançávamos de cipós (cordas) como o Tarzan (tanto nas barrocas como no embondeiro que existia nos baldios quem ia para o Palanca).

Não sei se hoje a juventude ainda lê e vibra com as aventuras da BD. O que vejo são crianças sentadas em frente ao televisor, não exercitando o corpo todo numa luta contra os maus, mas  somente exercitando os dedos num jogo de playstation qualquer.


20/04/2012

A QUEDA




A melhor que tenho é que o meu pai (Júlio Inácio, Encarregado de Obras na Sonefe ) andava de mota, teve primeiro uma N.S.U e depois uma Zundapp e, quando soube que ia para uma nova Obra no Bairro da Cuca, foi vê-la e levou a minha mãe (Carmitas) "à pendura". Ela detestava andar na mota!


Pois bem, a dada altura a mota começou a patinar na areia e, como devem estar a ver a cena, com os zig-zags que dava, a pobre da minha mãe saltou da mota e foi parar com o traseiro no capim! Quando a cena nos foi contada, eu e os meus irmãos, achámos um piadão à cena e quanto mais nos riamos mais a nossa mãe se enfurecia com o meu pai que, que dizia ela, meu pai conduzia a mota como se andasse em permanentes corridas... Sempre foi acelera e nós, filhos, herdámos o vício...Nessa altura minha mãe resolveu tirar a carta de condução, pois na época começou a trabalhar no Kinaxixe.



Motorizada N.S.U.
Esta é a mais triste, tempos mais tarde na Estrada de Catete, junto à F.T.U. meu pai teve um acidente, estando, a passar uma coluna militar em direcção ao Grafanil, depois de passar o último carro avançou, e do lado contrário veio uma carrinha chevrolet que ainda travou mas bateu na motorizada zundapp, tendo o meu pai caído para o seu lado esquerdo e batendo com a cabeça no alcatrão, transportado ao Hospital, estávamos já preocupadíssimos e só a noitinha viemos a saber o que se tinha passado, pois faltou ao almoço e estava a faltar ao jantar lá nos dirigimos ao Hospital e tivemos conhecimento dos factos, esteve oito dias de coma, valendo segundo os médicos o rebentamento de um tímpano e o sangue ter escorrido para o exterior, e depois esteve internado dois meses no Hospital Maria Pia, até ficar completamente restabelecido.


1967

19/04/2012

PIC - NIC




Um piquenique é uma atividade de entretenimento que consiste na realização de uma refeição ao ar livre, como um lanche ou almoço.


Geralmente os lugares escolhidos são campos, praias, florestas e relvados, para usufruir do contacto com a natureza e a vida selvagem, o sentido moderno da palavra: passeios ao ar livre, nos quais as pessoas levam alimentos para serem desfrutados por todos, é costume fazerem-se piqueniques durante a época festival, nas e junto das praias. Sendo o domingo um dia tradicionalmente de descanso, é normal verem-se várias famílias nos imensos parques de merendas.


Este será um piquenique em família descontraído, com música, com alimentos, bebidas, Então, podemos sentar e desfrutar de um dia relaxante e famíliar.


Aos Domingos logo pela manhã a estrada da Corimba ficava congestionada de trânsito, pois era hábito as familias, sairem nessa direcção para fazerem os PIC-NIC de Domingo, ou só para irem em direcção as praias da Corimba, Quinta Rosa Linda ou para o Morro dos Veados ou ainda para o Futungo de Bela. Muitas vezes também frequentavamos “ a praia da Floresta “ na Ilha de Luanda, ai havia mesmo banquinhos e mesas de madeira onde as familias colocavam as suas imbambas.


Aos Sábados minha mãe dava inicio à preparação do vasto farnel, composto por tudo aquilo que se pode levar para um Pic-Nic. Já nós tínhamos carregado o congelador com cuvetes e pequenos recipientes com água para termos bastante gelo para as bebidas. É que o único sitio que sabíamos onde obter gelo moído ficava fora de mão, para os lados do Estádio dos Coqueiros, na fábrica da Mission e da Coca-Cola, e este procedimento de “fazer” gelo em casa era normal, como bem o sabem e ficava mais barato, a minha mãe, era ajudada pela caçula da família a Mélita.









Domingo de manhã era só cozer o arroz e acrescentar o frango guisado na véspera, o tacho bem embrulhado em papel de jornal para se manter quentinho até a hora da degustação, e ai lá íamos até ao sitio combinado com outras pessoas para se passar um bom Domingo na cavaqueira e gozando as delicias do sitio pois era um misto de mata de coqueiros, palmeiras e de praia, o que sempre dava para se descansar, debaixo daquelas magnificas sombras.


Escolhido o local ideal e numa sombra para montar a logística, mantas estendidas, mesas abertas, garrafões ainda com o “Giz Branco” chamado capacete branco (o capacete indicava que era vinho do bom, vinho da “metrópole”), alguma comida à vista, (Rissóis, Croquetes, Pão, Queijo e Fiambre) Gira-Discos portáteis e de rádios. Música era basicamente própria para o momento “ conjuntos típicos”. Também se ouvia música brasileira e alguma Angolana ( merengues e rebitas) estavamos ali já instalados, e prontos para passar o Domingo.


Estes pic-nic`s familiares serviam também para se conviver com outras familias, onde se partilhavam histórias e vivências. Depois de se comer qualquer coisa para matar o bicho era ir para a água pois a praia era convidativa e ai ficavamos até nos chamarem para almoçar.


Hora do almoço, cada um no seu canto com o arroz de frango quentinho saboreavamos tão bela iguaria e a mais a proximidade de campo e praia, o apetite até era outro, findo a degustação ficavamos ali na sombra os mais velhos a jogar ás cartas, os mais novos a ler, ou o tio Patinhas ou qualquer livro de quadradinhos. Os mais bébes ficavam a dormir uma repousada sesta até meio da tarde.


Seguiamos depois ai pelas 04 horas da tarde para os últimos banhos que duravam a tarde toda, e depois de carregar tudo na Carrinha regressávamos a casa pela noitinha, felizes por ter passado um domingo num pic nic maravilhoso.

Zé Antunes - net


1973