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28/05/2012

FOFOCAS DA TELEVISÃO PORTUGUESA!

Opinião de Cruz dos Santos ( Ninito )

As Televisões tantas vezes armadas em árbitros da moral pública, dão-nos cada “ bailarico” com a venda de produtos e aparelhos em publicidade, que nos deixam a todos “ embasbacados” !
Nem as televisões piores em Itália, Brasil e Estados Unidos, fornecem, como neste nosso pais, tanta publicidade no meio de qualquer programa, seguido de Telejornais  transformados  em folhetins de “faca e alguidar”, de manipulações e de violência exercida sobre quem sofre e quem vê sofrerem. As televisões  portuguesas  mentem mais  do que os políticos, são mais arrogantes do que os treinadores de futebol, mais depravadas do que os patrões de bordel, mais cúpidas do que os proxenetas e mais imorais do que os traficantes. As Televisões portuguesas representam o mais violento atentado contra a cultura.  Denunciam dramas e tragédias, como quem vende lotes de sardinhas; exploram os humildes, a caridade pública, com um único fim, obter lucros ou donativos, abusando da boa fé, da ignorância, bondade ou posição de alguém.
A  Televisão portuguesa, exibe um total desprezo pelas elites. Só ultrapassado pelo que nutre pelas classes populares, que considera  gananciosas, estúpidas e taradas. A Televisão portuguesa podia combinar cultura de massas com cultura simplesmente. Sexo com decência. Pensamento com emoções. Seriedade com trivialidade! E informação com publicidade. Mas não! Nem sequer procura um equilíbrio sensato. Apenas se preocupam com a “concorrência “, ou seja , se o canal “A” tràs a público um homicida que degolou a mulher; o canal “ B “, procura, de imediato, apresentar um criminoso mais bárbaro, mais sanguinário, mais cruel. Se o canal “ C “ exibe um tumor: o canal “ D “ mostra, de imediato, um cancro maligno. Se o canal “ E”  expõe em concurso um “ Seat Leon”: o canal “ F “ põe em vista um “  BMW” . Todas elas empenham-se numa exibição desenfreada de quem “ vende mais”! Querem nivelar por baixo. Querem fazer o pleno da mediocridade, produzindo “Lixo “! Lixo nacional e comprando todo o lixo internacional disponível. Os diferentes canais, nas suas programações, podiam competir entre eles com seriedade  e pela pontualidade. Em vez disso, dá-lhes para competir com a desgraça, com a miséria, com a baixeza, com a indignidade….comercialmente.
A sociedade democrática é assim. A cultura de massas é a que temos. As vicissitudes da economia e da sociedade portuguesa confirmam um estilo: adiar o que faz falta para fazer o que dá nas vistas.

Envio deste texto para o Blogue LUANDA TROPICAL sob o titulo “ As Fofocas da Televisão Portuguesa “, para ser publicada  em data oportuna.

 

cruz dos santos ( Banga Ninito )


 


25/05/2012

AS FARRAS

 


  



                                                    Os Emblemas dos dois Clubes dos Bairros  


Cidade de Luanda, Bairro Popular nº2, e Sarmento Rodrigues, genuinos bairros de vivendas amplas e acolhedoras, varandas com alpendres amplos, onde à noite as familias se concentravam para as cavaqueiras com os vizinhos, com o seus quintais, bairros bem urbanizados, todos gostavam de lá morar. Longe vão os tempos em que nos Sábados à noite e aos Domingos nas matinés se ia dançar. As farras da Associação Recreio e Desporto de Luanda ( Bairro Popular) ou ao Grupo Cultutal e Recreativo do Bairro Sarmento Rodrigues (Bairro do Sarmento Rodrigues), do Clube do Bairro Popular situado no Largo que confinavam as ruas do Andulo, Vila Viçosa e Crato, era um Clube pequeno que foi tendo obras durante as várias direcções tendo até uma equipa de futebol de onze amadora e mais tarde de futebol de salão. Para obter outros rendimentos que não só das cotas dos associados, promovia-se as noites dançantes de Sábado e as tardes dançantes de Domingo, com vários sorteios de rifas e de mais expedientes para se angariar algum “kumbu”para a tesouraria do Clube.


                                                            OS RUBIS ( foto Claudino )


Com uma entrada de portão de ferro grande, entrava-se para um quintal todo cimentado, onde se jogava futebol de salão, esse acrescento que foi feito mais tarde, era descoberto e era ai que se fazia as farras, dai entrava-se à direita no edificio principal e à esquerda era o bar (Jorge Lâmina) sempre com o Bar bem organizado, umas 5 /6 mesas lado direito os gabinetes da direcção em frente o palco genuino, onde vi muitas vezes os irmãos “Bondosos” “Chico Leite” “Claudino” com o conjunto “OS RUBIS” abrilhantarem grandes farras. Ponto obrigatório de encontro para os que procuravam divertir-se através da música e do convívio e para estar com as garinas.


                                                        OS RUBIS ( foto Claudino )


Ao som de música da época que estava na moda: Nelson Ned, Niltom César, Roberto Carlos e
outros românticos, ou ao ritmo dos Kiezos, Prado Paim, Ouro Negro e outros, as farras eram
bastante animadas por parte da juventude. As garinas ( brancas, negras e mestiças ) eram
 Lindas, vinham madiés de outros bairros cobiçar as Garinas do Bairro Popular e
do Sarmento Rodrigues

Clube do Bairro Popular, um dos clubes onde a minha presença era uma constante, onde, com os meus amigos e amigas, e ao som dos cantores e conjuntos da época, Lindomar Castilho, Roberto Carlos, Nelson Ned, Nilton César, dos Credence, The Archies, Otis Redding, Percy Sledge, do “Tango dos Barbudos”, dos Pasodobles, era no Clube do Bairro que passava, quase sempre os Sabados à noite.

Encostados, de cigarro na boca só para o estilo, de longe mirávamos a rapariga que se pretendia para dançar e fazíamos sinal quase impercetível, para não dar muito nas vistas, que a procura era muita e a oferta pouca.

Acontecia muitas vezes, haver mais que um rapaz a fazer sinal à mesma rapariga e depois era o bom e o bonito quando ela se levantava e pensando que era para nós, passava ao lado e ia dançar com outro. Disfarçava-se o melhor que se podia o caricato da situação e lá íamos de novo para o canto.

As miúdas casadoiras iam com os pais ou com amigas e o cochichar delas era para nós incómodo pois não sabíamos do que falavam e podia ser um ‘bota-abaixo’ à nossa forma de dançar ou elogios. Só elas é que sabiam do que falavam. Felizmente fui sempre bom dançarino e embora tivesse passado algumas situações acima descritas, raramente não dançava.

O ‘travão’ que elas colocavam (braço em frente ao peito), impediam qualquer ‘avanço’ mais malicioso da nossa parte mas, aos poucos, iam cedendo, pois de tanto rodopio as ‘defesas’ iam abaixo e quando davam conta já estávamos encostados.

Mas também haviam mulheres mais maduras que iam lá sozinhas para ‘encontrarem’ um parceiro ocasional. Esta história foi verídica e passou-se com um amigo meu.

Ele fez sinal a uma mulher trintona e eis que quando ela se levanta verificámos que coxeava. Como ela veio ao encontro dele que remédio teve ele senão dançar o ‘slow’ que nesse momento tocava. Era uma música do Percy Sledge (nunca me esqueci desse pormenor).


                                                                  Farra de Quintal


E lá foram eles enlaçados, muito juntinhos, e ela para cima e para baixo consoante o pé que poisava. Quase a música acabada, ele lança-nos um pedido de socorro. Pediu-nos para o rodearmos e para irmos para a casa de banho. Assim fizemos e tinha acontecido o inevitável. Com tanto ‘roço’ o nosso amigo não aguentou!!!! e calças e cuecas lavadas. Secou-se o mais possível e a camisa ‘cintada’ (muito utilizada na época) por fora, serviu de resguardo ao molhado que se notava.

Foi um riso pegado entre nós. Depois da farra acabada, vi-a indo pelo Largo do Bairro, no seu coxear, perdendo-se no escuro da noite.

                                                                    Os Kiezos 1972

O Clube do Sarmento Rodrigues era na 2ª rua do lado direito quem ia para o Golf e ai a meio da a rua á esquerda, Edificio moderno de 2 andares e atrás um grande quintal, com um bar e uma grande pista para de poder farrar, e um palco para os conjuntos e para variedades. As cervejas, os refrigerantes, as batatas fritas, sandes e outros géneros, era fornecidos pelo bar, e ao som dos discos ou de um ou outro “ Conjunto“ músical, convivia-se, conversava-se e dançava-se, e cada um fazia pela vida. Muitas garinas que frequentavam os Clubes dos Bairros estabeleceram grandes amizades, namoros e até casamentos.

Como é comum nessas andanças, alguns rapazes procuravam obter as boas graças de determinada garina “arrastavam-na“ para a pista de dança e faziam os possiveis para a “cativar” para o resto da noite ou tarde e para outros encontros futuros, ai era ela que decidia. Se ele soubesse que era do “agrado” dela, tudo bem, grandes namoricos que se fizeram nas farras, senão teria que procurar outra garina.

                                               Malta no Clube do Bº. Sarmento Rodrigues

Era interessante ver como algumas eram “disputadas” com “marcação” em cima por parte de alguns rapazes. Era uma luta de galos e, regra geral o mais batido e sabido na lábia era o ganhador. Mas o madié que perdia partia logo para outra batalha e se não fosse naquele sábado ou domingo que obtivesse o troféu, seria nas semanas seguintes. Era assim a mentalidade da juventude naquele tempo, dos meus convivios nunca me apercebi da existencia de problemas entre eles, ficavam todos na mesma amigos.



                                             Matinee dançante no Sarmento Rodrigues


Face à fama que os Clubes tanto do Bairro Popular como o do Sarmento Rodrigues, das farras. começou a constar em Luanda que as garinas eram bué (muitas) e ai começaram a aparecer avilos de outros bairros. E, assim sendo, algumas das “nossas” garinas pensavam em nos provocar “ciúmes” Às vezes havia alguma maka (discussão) quando um de nós ia buscar uma delas para dançar, e se a garina desse “tampa”(não, não danço) e na mesma música fosse dançar com um Madié (rapaz) de outro bairro, ai era quase certo que poderia haver mesmo maka, muitas delas faziam de propósito para nos provocar. Umas discussões mais acaloradas, mas ficava-se por ali, na outra semana estavam lá de novo e já como amigos
Assim se passavam fins de semana nas Farras



                                                               Conjuntos


Zé Antunes

1973







PALUDISMO

Na manhã do dia 28 de Dezembro de 1973, uma sexta-feira, levantei-me e fui tomar o pequeno-almoço ao  Bar São João ( Bar do  Matias ).  Encontrava-me por esta altura em férias natalicias. Tinha dois rolos de fotografias das festas natalicias que precisavam de ser revelados. Para não ir sozinho à baixa de  Luanda, procurei  amigos e desafiei-os para irem comigo,  o Artur, o Reis, e o Guerra.
– Vamos, mas com uma condição. – disse o Reis.
– Qual? – Perguntei, um tanto intrigado.
 Vamos ao Quintas e Irmão,  pois preciso de tratar de um assunto pessoal, era para ver a namorada…..
–Está bem.
Chegámos à baixa de  Luanda. Fomos ao Quintas e Irmão, e enquanto o Reis  tratava do seu assunto, eu, o Artur e o Guerra, fomos à Paris comer um rissol de Lagosta,  e de seguida  fui entregar os rolos para revelar na “FOTO RESTAURADORES”, na Avenida dos Restauradores, perto do Restaurante AMAZONAS. Conversa puxa conversa, o tempo foi passando e a barriga começou a dar-nos sinal:
– E se fôssemos almoçar ao ESCONDIDINHO?
Todos concordámos e abancámos, melhor dizendo, dispensámos o balcão e fomo-nos sentar numa mesa disponível. Inspecionámos a ementa. Decidi escolher um prato que nunca experimentara: chocos com tinta. Uma maravilha! Uma tinta que escorria bem, auxiliado por uma Casal Garcia  fresca não menos saborosa.
– E se fôssemos até ao Mussulo? – alvitrou um dos meus amigos.
Todos em sintonia, como os três mosqueteiros, deixámos o restaurante, e rumamos ao cais de embarque na Corimba e apanhámos o Kitoco, o barco para  a ilha, o barco que faz a travessia e eis-nos num local quase paradisíaco.
Passeámos, brincámos, beberam-se mais uns copos acompanhados com algum marisco. Durante a sessão gastronomica, duas moças que andavam à beira-mar meteram conversa por causa dos meus calções:
– Tens uns calções muito giros. É moda nova?
Não sei se estavam no gozo ou a falar com sinceridade. Mas pouco importa. A verdade é que a conversa pegou, mais uns finos,  agora com outros motivos mais atraentes do que nós próprios e, quase sem darmos por isso, começávamos a ficar com uma noite programada sem programa prévio. Mas... E os  escudos necessários para cada um de nós poder passar a noite no apartamento delas, lá para os lados do Largo dos Lusiadas? Onde é que os íamos buscar? O dinheiro era pouco! Por muito que ele ficasse teso, tesos já nós estávamos, porque o metal sonante não nos nasce nos bolsos. Para não ficarmos mal vistos, a solução foi arranjar uma boa desculpa:
– Bem que gostaríamos de passar um serão agradável convosco. Eu até estou de férias. Mas estes meus dois amigos têm que entrar ao serviço ao fim da tarde, são militares. O melhor é combinarmos um encontro para um destes dias em que tenhamos um fim de semana. Quando é que nos podemos encontrar novamente?
– Andamos por aqui todos dias. – Disseram elas. Apareçam quando quiserem. Estamos sempre por aqui, a menos que nos surja algum compromisso.
Regressámos a Luanda. Durante a viagem, não falávamos noutra coisa: um serão gorado por tesura na carteira. Para compensar, resolvemos ir até ao Kinaxixe, e  jantar no restaurante Floresta, junto ao mercado da Maria da Fonte, e depois uma ida ao B.O. ( Bairro Operário )
– Não vamos pela Avenida dos Combatentes. – Disse o Artur. O melhor é seguirmos por trás. É uma rua paralela à Avenida, e é mais fácil de estacionar.
Durante o percurso, fizemos uma paragem para beber um canhangulo. Entrámos num bar ali para os lados da Brito Godins, nas Ingombotas,  e ficámos na conversa. O dono era simpático, sociável. De modo que a conversa foi esticando cada vez mais. Bebido um canhangulo, outros se lhe foram seguindo. O dono do bar colocou mais aperitivos na mesa, oferta da casa. No final, quase na hora de regressar ao bairro, pedimos a conta:
– Já se vão embora? Deixem-se estar mais um pouco. A minha Senhora está a fazer uma dobradinha à moda do Porto. De certeza que vocês vão gostar.
Como resistir a semelhante convite?
A confraternização prolongou-se de tal maneira, que já não havia sede, nem vontade de ir ao B. O.  O Guerra  que alvitrara a ida até ao Bairro Operário, de olhos vermelhos e já sob o efeito da bebida, depois de bem comidos e melhor bebidos, lembrou-se subitamente do destino que tínhamos traçado.
– O quê? Ir agora para o Bairro Operário? Com os estômagos cheios de feijoada e bebida? O que é que lá vamos fazer? Tu já estas é com uma valente pedrada! O melhor é irmos para casa. Amanhã voltamos a dar outra volta.
Todos concordaram comigo. Todavia, o pior é que também eu comecei a ficar mal disposto e com suores, com vontade de chegar a casa o mais depressa possível. Deixámos o bar e agradecemos a gentileza dos donos do bar, que nos ofereceram uns momentos agradáveis e nada nos cobraram.
Na ida para  o Opel Kadett que meu pai tinha vendido ao Artur, comecei a ficar seriamente preocupado comigo, não só  por causa da má disposição e suores, mas sobretudo porque me sentia mesmo mal.  Felizmente, chegamos à viatura. Embarcámos com alguma dificuldade, e rumamos ao  Bairro Popular nº 2.
Fui tomar banho, e  continuava a não me sentir bem. Os chocos com tinta, certamente, andavam-me ainda no estômago a escrever algum desarranjo intestinal. No outro dia a custo, mal podendo andar, fui ao Posto Médico,   Contei ao enfermeiro Carlos  o que se passava.
– Qual chocos, qual carapuça! Tu estás é com paludismo. Tens 39,8 de febre.  Lá fui para casa curar esta maleita e sei que a passagem desse  ano, foi em casa doente.

Zé Antunes
1973

24/05/2012

MODA HIPPIE

A moda nos anos 70 foi marcada pelo movimento Hippie, pelo festival de Woodstok e pela variedade étnica.
O festival Woodstok (Agosto de 1969) foi um festival de música que reuniu cerca de 500 mil pessoas em 3 dias de amor, música, sexo e drogas. Os espectadores vestiam-se e despiam-se, proclamando a liberdade individual. O estilo hippie caracterizava-se por cabelos longos com risco ao meio (tanto para homens, como para mulheres), ornamentados com fitas e flores, calças de ganga, estampados florais, calças à boca de sino, vestidos e saias compridas com uma forte influência étnica. Como acessórios, usavam-se colares de missangas, bijutarias étnicas, malas a tiracolo, com franjas ou em croché.
Manifestação hippie


                                 Carrinha pão de forma colorida a moda hippie


Por volta de 1970, muito do estilo hippie se tornou parte da cultura principal, disseminando a sua essência por todas as áreas das sociedades atuais. A liberdade sexual, a não-discriminação das minorias, o ambientalismo e o misticismo atual são, em larga medida, produto da contestação hippie.
No entanto, a grande imprensa perdeu seu interesse na subcultura hippie como tal, apesar de muitos hippies terem continuado a manter uma profunda ligação com a mesma. Como os hippies tenderam a evitar publicidade após a era do Verão do Amor e de Woodstock, surgiu um mito popular de que o movimento hippie não mais existia. De fato, ele continuou a existir em comunidades mundo afora, como andarilhos que acompanhavam suas bandas preferidas, ou às vezes nos interstícios da economia global. Ainda hoje, muitos se encontram em festivais e encontros para celebrar a vida e o amor,
Os "hippies" (no singular, hippie) eram parte do que se convencionou chamar movimento de contracultura dos anos 1960 tendo relativa queda de popularidade nos anos 1970 nos EUA, embora o movimento tenha tido muita força em países como o Brasil, e em Angola somente na década de 1970.
Uma das frases idiomáticas associada a este movimento foi a célebre máxima "Paz e Amor" (em inglês "Peace and Love") que precedeu a expressão "Ban the Bomb", a qual criticava o uso de armas nucleares.
As questões ambientais, a prática de nudismo, e a emancipação sexual eram ideias respeitadas recorrentemente por estas comunidades.
Adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a uma espécie de socialismo-anarquista ou estilo de vida nômade e à vida em comunhão com a natureza, negavam o nacionalismo e a Guerra do Vietnã, bem como todas as guerras, abraçavam aspectos de religiões como o budismo, hinduísmo, e/ou as religiões das culturas nativas norte-americanas e estavam em desacordo com valores tradicionais da classe média americana e das economias capitalistas e totalitárias. Eles enxergavam o patriarcalismo, o militarismo, o poder governamental, as corporações industriais, a massificação, o capitalismo, o autoritarismo e os valores sociais tradicionais como parte de uma "instituição" única, e que não tinha legitimidade.
Roupas velhas e naturalmente rasgadas, para ir em oposição ao consumismo, ou então roupas com cores berrantes para fazer apologia a psicodelia, além de diversos outros estilos incomuns (tais como calças boca-de-sino, camisas tingidas, roupas de inspiração indiana).



   
Predileção por certos estilos de música, como rock psicodélico The Beatles, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Quicksilver Messenger Service, The Doors, Pink Floyd, The Kinks, Bob Dylan, Raul Seixas, Neil Young, Mutantes, Zé Ramalho, Secos e Molhados, os tropicalistas (Caetano, Gil, etc), Novos Baianos, A Barca do Sol , soft rock como Sonny & Cher ,Hard Rock como The Who. Também apreciavam o Goa Trance, isto, quando hippies viajantes, buscadores espirituais e um sem-número de pessoas ligadas a manifestações de contracultura, munidos de conhecimento técnico de produção de música electrónica e de um puro desejo de curtir e experimentar, desenvolveram, de forma intuitiva, um novo estilo sonoro. Um dos  principais  fundadores  deste  movimento  foi  Goa Gil.
Às vezes tocar músicas nas casas de amigos ou em festas ao ar livre como na famosa "Human Be-In" de San Francisco, ou no Festival de Woodstock em 1969. Atualmente, há o chamado Burning Man Festival.
Amor livre e sem distinções. Ideais anarquistas de comunidades igualitárias e total liberdade não violenta.
Rejeição à produtos de beleza, giletes de barbear, shampoos ou outros instrumentos artificiais.
Vida em comunidades onde todos os ditames do capitalismo são deixados de lado. Por exemplo, todos os moradores exercem uma função dentro da comunidade, as decisões são tomadas em conjunto, normalmente é praticada a agricultura de subsistência e o comércio entre os moradores é realizado através da troca. Existem comunidades hippies espalhadas no mundo inteiro; vivem para a subsistência.
O incenso e meditação são parte integrante da cultura hippie pelo seu caráter simbólico e quase religiosos;
Uso de drogas como marijuana (maconha, liamba), haxixe, e alucinógenos como o LSD e psilocibina (alcalóide extraído de um cogumelo), visando a "liberação da mente", seguindo as ideias dos beats e de Timothy Leary, um psicólogo proponente dos benefícios terapêuticos e espirituais do LSD. Porém muitos consideravam o cigarro feito de tabaco como prejudicial à saúde. O uso da maconha era exaltado também por sua natureza iconoclasta e ilícita, mais do que por seus efeitos psico-farmacêuticos;
Culto pelo prazer livre, seja ele físico, sexual ou intelectual.
Repúdio à ganância e à falsidade.
Quanto à participação política, mostravam algum interesse, mas nunca de maneira tradicional. Eram adeptos do pacifismo e, contrários à guerra do Vietnã, participaram de algumas manifestações anti-guerra dos anos 60, não todas, como se acredita. Nos EUA, pregaram o "poder para o povo". Muitos não se envolvem em qualquer tipo de manifestação política por privilegiarem muito mais o bem estar da alma e do indivíduo, mas assumem uma postura tendente à esquerda, geralmente elevando ideais anarquistas ou socialistas. São contra qualquer tipo de autoritarismo e preocupados com as questões sociais como a discriminação racial, sexual, etc.
Fome intelectual insaciável. Raramente são adeptos à muitas inovações tecnológicas, preferindo uma vida distante de prazeres materiais. Misticismo.

Em Luanda este movimento também teve os seus adeptos, mas a maioria era mais de viver na casa dos pais e depois iam muitos deles  acampar  no fundo da Ilha no Barracuda e ai dedicavam-se ao artesanato com a feitura de colares de missangas, sandálias de pneus e couro, pequenos objectos de arame, também aqui eram adeptos do pacifismo e estavam contra a guerrilha em Angola. Nas drogas consumiam muita liamba. No seu estilo de vida nomada era vê-los pelas estradas a pedir boleia nas suas deslocações para outras cidades.
Zé Antunes  - net


1973

PRIMEIRO DIA DE TRABALHO

Ao jantar do dia 31 de Julho de 1973, fiquei a saber que  iria trabalhar no  gabinete de projectos da Represental, Lda. onde trabalhava um Eng. amigo de meu pai, que tinha acertado tudo com o patrão, começaria no dia 1 de Agosto. Ao que parece, havia uma espécie de protecção para as pessoas que quisessem trabalhar eram logo colocadas, não havia falta de emprego em Luanda nessa altura. Foi um pouco violento para mim, pois não cheguei a ambientar-me a nada, foi chegar e começar a trabalhar. Eu não estava preparado. No dia seguinte, comecei a ambientar-me. Confesso que fiquei bastante assustado, pois não era como andar na escola, era mais profissional. Era tudo tão diferente, tão belo, mas tão assustador. Percebi que, desse eu um passo em falso, e poderia perder o emprego.
Os dias lá começavam mais cedo e acabavam também mais cedo. Às 5 horas da manhã amanhecia e às 18 horas começava a anoitecer. Os serviços começavam a laborar às 8 da manhã.
Não é fácil descrever o que senti quando via a baixa de Luanda. Era uma cidade linda e moderna, com prédios altíssimos. Um deles, com 22 andares, tinha no cimo um anúncio ao Banco Comercial de Angola. O prédio para onde fui trabalhar, e onde funcionava também uma Repartição da Fazenda ou seja das Finanças, tinha 10 andares, ficava em frente ás Obras Públicas na Rua Conselheiro Júlio de Vilhena nº 32 (no largo Serpa Pinto).
A empresa em que eu comecei a trabalhar era uma empresa vocacionada para Empreendimentos Turisticos e Imobiliários. Tinha 12 empregados, dos quais apenas 6 europeus, os dois patrões, eu, a Maria Angelina e  a secretária Maria de Lurdes, e o Luis Filipe que tinha chegado de Lisboa. A relação entre todos era muito boa, todos eram afáveis e educados comigo, com a excepção do gerente, o senhor Manuel Cartaxo Martins, que era um homem rude e grosseiro. Todos me tratavam muito bem, até o Simões, o estafeta do escritório, bom rapaz, muito atencioso, sempre pronto para nos ir buscar aqueles maravilhosos gelados na hora do lanche. Apreciava, em particular, os gelados de manga e de maracujá, macios, deliciosos. Recordo ainda quando alternávamos o lanche e pediamos para nos trazer pregos no pão, feitos de bifes pequeninos, que não se viam fora do pão, mas tão deliciosos e tenros, acompanhados de uma coca cola gelada! Quantas vezes já tentei comer aqui esses pregos, mas é pura ilusão, não consigo, de todo em nenhum bar preguinhos iguais.
E eis que eu, um rapaz, que tinha saído da escola, sem outros hábitos de trabalho, fui desempenhar a tarefa de tirocinante de desenhador. Não minto se vos disser que me custou muito adaptar-me à minha nova vida. Foi bastante violento para mim, em todos os aspectos, pois nem mentalmente fui preparado para essa função, foi chegar e começar. E era bastante rigoroso. Levantar às 7,15, almoçar às 12 horas, lanchar às 15, jantar às 19,30, ir ao cine são João ver um filme ficar com os amigos no Bar do Matias e ir para a cama às 24 horas!
Não tinha por hábito tomar café, nem pela manhã nem depois do almoço.  Não será difícil, por isso, imaginar que muitas vezes me dava uma moleza sentado ao estirador devido ao hábito que tinha desde sempre (dormir a sesta), e depois do almoço era fatal. Era um sono incontrolável, nem lavar a cara o atenuava. Tomar um café começou a ser um dos meus vicios. Que saudades senti, Deus meu, da liberdade que até então tinha tido, das aulas e principalmente das  idas a praia e a piscina. Sentia-me como um pássaro dentro de uma gaiola. Mas o meu lema é desistir nunca e, sózinho, sem ajuda, tentei arranjar forma de me adaptar. Claro que foi muito duro, meus primeiros dias como trabalhador, posso dizer-vos que achei mesmos aterrador, psicologicamente, para mim. Mas depois com o passar do tempo e ganhando rotinas fui-me ambientando e já me sentia como peixe na água, ia convivêndo com os colegas da Empresa e com muitos outros de outras Empresas com o qual criei boas e sólidas amizades.

Zé Antunes
1973

( J.O.C. )

A JOC nasceu na Bélgica em 1925 pela iniciativa dum jovem padre, Joseph Cardijn e de um grupo de jovens trabalhadores e trabalhadoras. Nasceu para dar resposta à situação de sofrimento e exploração vivida pelos jovens operários e à necessidade da Igreja os entender e organizar.   A JOC é uma oportunidade, uma proposta que ajuda os jovens a descobrir o valor, sentido e motivos de esperança para a sua vida.
Entrei para a J.O.C. Júnior teria talvez uns 16/17 anos, portanto em 1972.  Não me recordo como é que fui parar à J.O.C. ( mas penso por se organizarem festas e acampamentos ), e  que funcionava num espaço ao lado da Capela que mais tarde se transformou em Casa Mortuária. Lembro-me que era um movimento de jovens que incutidos no ideal católico procuravam saber junto da comunidade envolvente os vários aspectos na vertente social,  laboral, académica e outras, e assim obter testemunhos reais das desigualdades encontradas, fazendo denúncia dessas situações através da elaboração de relatórios que eram dados a conhecer nas reuniões coordenadas pelo Páraco Costa Pereira.
Para além das denúncias apresentadas nos relatórios, obtidas através de inquéritos, junto das familias visitadas, os grupos de acção dos jovens procuravam nas reuniões realçar o factor humano como sendo o mais imperioso na busca de uma solução, a fim de ser obtida uma decisão mais premente no apoio a determinada familia que apresentasse uma estrutura familiar de condições mais prementes, e havia muitas, infelizmente.
Entre os nossos mentores os mais populares eram o Padre Costa Pereira e o Padre Luis com as suas longas barbas, e a “Vespa “ da moda como transporte. Também havia o Padre Vergilio, a irmã Celeste, a única que me lembro, talvez por  andar a “dar” catequese às meninas, pois a igreja também tinha uma área destinada às freiras ( mais tarde fez-se um Prédio para apoio às Freiras). O Padre Costa Pereira era tido como sendo “malandreco” por procurar obter, através da confissão, o conhecimento de situações mais intimistas das garinas que se confessavam. E também por tirar a batina sempre que necessário  e ir no seu B.M.W passear para a Ilha de Luanda, pois segundo dizia, também era homem e como homem tinha que se fazer à vida.
A grande dificuldade da J.O.C. era não ter recursos financeiros suficientes que ajudassem, nalguns dos casos encontrados, a solucionar algumas situações que só através dessa via poderiam ser minimizadas. Eram assim feitos peditórios “especiais” nas missas e os “Jocistas” vendiam à saida das missas um jornal de cariz católico.
Na “J.O.C.” faziam-se projecções de filmes, num cineminha com bancos de madeira, mais para projectar filmes de animação e desenhos animados para os mais kandengues. Esse cineminha foi feito pelos mais crescidos os Seniores, serões músicais e outros arteficios a fim de se obter alguma receita, com a única finalidade de ajudar a comunidade. Realizavam-se campeonatos entre Jocistas de futebol 11 nos Maristas. Nos Santos Populares fazia-se uma grande Quermesse, e era mais um dinheiro extra que entrava. Um dos aspectos que me marcou de forma positiva e que contribuiu para a minha formação de vida, foi procurar-se incentivar a entreajuda na coisa comum às familias, vizinhos e amigos, fazendo com que através  do conhecimento e na discussão do assunto eles próprios encontrassem também as suas próprias soluções para os problemas envolventes.
Era um movimento de jovens bastante interessante, dinâmico e apelativo, fazendo com que os envolvidos no projecto se tornassem adultos, que para o terreno levavam e procuravam ajudar a resolver. Também os meus irmãos , assim como amigos do Bairro, andaram na “J.O.C.” de certa forma a juventude alinhava na causa. Ainda hoje e passados estees anos todos o Manuel Alves é conhrcido prlo Manel da JOC. Pertenciamos a grupos diferentes pois havia os Seniores e os Júniores.
Sai da “J.O.C.” porque se formou um grupo mais lato e de convivio entre as várias dioceses de Luanda  os “Encontristas”, donde saliento os passeios temáticos e os acampamentos que se faziam. Deste grupo sai por um qualquer motivo pois comecei-me a dedicar mais a outros interesses, e a disponibilidade de tempo era mais restrita.
                         Igreja de Santa Ana
                             1972

RECORDAÇÕES E MÚSICA

De repente  vi-me  num passado em que, sempre que ia á baixa de Luanda, impunha-se uma ida aos Supermercados  Angola para espreitar as novidades, era para mim como ir a Roma e não ver o Papa. Escusado será dizer que saía de lá com algo debaixo do braço,  e esse algo era um disco. Dos negros. Aqueles em vinil que faziam um barulhinho típico quando a agulha do gira-discos era poisada suavemente na primeira faixa, lembram-se?
Aprendi a gostar de música nessa discográfica, cresci a espreitar as vitrinas, aprendi a manusear os vinis alinhados nas estantes com as pontas dos dedos, era como se dedilhasse as cordas de uma guitarra de caixa, uma "Fender" preciosa ou um "Stradivarius" melodioso e envolvente. Quando escolhia, pegava neles com cuidado como quem pega numa relíquia, e mal sabia eu que naquela altura estava mesmo a comprar algo que um dia iria - quase, felizmente! - ser obsoleto, o mundo não iria parar, o Homem não iria deixar de evoluir, e com essa evolução vieram os CD's, o som quase impecável, as misturas digitalizadas fizeram milagres. E os vinis, aqueles discos pretos, quase ficaram esquecidos nas estantes da minha casa. O meu velho gira-discos ficou de lado, parado e triste, em silêncio.
Também cresci, e amante como sou dos sons, fui na leva e adoptei os CD's.  Mas hoje, quando voltei a esse passado, de repente vi-me na sala de estar de casa, a colocar no gira-discos, um disco , senti os meus dedos novamente a passar os álbuns e a pegar o escolhido, voltei a colocar um disco no prato, e a pegar na pontinha da asa da agulha, puxando-a para trás até ouvir o estalido, o prato começar a girar nas 33 rotações, e pousá-la com cuidado na primeira faixa, enquanto me afastava durante aqueles segundos de "barulhinho" para o sofá da sala. Era assim que passava as minhas tardes de fins-de-semana, a ouvir o som dos meus ídolos que comprava nos supermercados Angola. Mais tarde o José Maria e mais uns sócios abriram na D. João II a discoteca “BONZÃO”. Lembro-me das filas que enfrentei quando saiam os êxitos dos bee gees,  beatles ou  outro qualquer disco da moda,  relembro-me quando consegui chegar à frente e pegar finalmente no disco que eu pensava que me escapava, que aflição!, depois mais feliz que nunca enfrentar novamente a fila para pagar a dinheiro, aquele dinheiro que eu poupava durante o mês.




1972