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03/06/2012

BAILUNDO

Minhas Férias no Bailundo
Em Março de 1975 e estando à espera de ser chamado para a vida militar e como demorava essa incorporação, meti férias e fui com o José Gama até ao Huambo, numa viagem atribulada, pois no Morro do Luçusso saltou a roda de trás da Carrinha, carregada de sacos de café, sorte nossa, a carrinha não ter tombado, mas mesmo assim ainda tivemos que arranjar uns troncos de árvores para calçar a carrinha pois o macaquinho podia não aguentar o peso, e ai perdemos imenso tempo pois tivemos que andar mais ao menos um kilómetro para encontrar os pernos da roda , só se encontraram três. Nessa altura vi o meu irmão Fernando no Alto Hama a acompanhar os carrósseis do pai da namorada do Gaspar na altura, que vivia no Bairro PopularNº 2, na Rua do Crato, fiquei surpreso pois não sabíamos dele à mais ao menos um mês e em Luanda estava tudo preocupado, cheguei ao Bailundo e de lá telefonei para a “Represental” que era onde trabalhava e lá deram a noticia à minha mãe, que estava preocupada com a ausência dele.  


Chegados à casa do pai do José Gama e à chitaca (pequena quinta) logo ali comecei a ver como viviam os nativos daquela região bem bonita. Dia após  dia fui--me integrando na vivência e nos seus hábitos, conheci bem quase toda a região nas duas semanas que lá estive. Várias curiosidades me chamaram a atenção entre elas os hábitos dos nativos da região. A alimentação era pirão feito com farinha de mandioca acompanhado com peixe seco (tukeia) com óleo de palma e por vezes folhas de mandioca (a tukeia era um peixe que se criava nas cacimbas, grande extensão de terras planas e alagadas na época das chuvas. Na época seca os ovos desses peixes de pequeno porte ficavam enterrados na terra lodosa e quando chovia nasciam e criavam-se de micro algas e outros alimentos depositados no fundo. Na época da seca, esses peixes ficavam sem água e por isso eram facilmente apanhados aos milhares e depois secos ao Sol.  Pegavam na mutopa  espécie de cachimbo feito com uma cabaça na qual colocavam no interior um pouco de água e, por cima na pança, um pequeno queimador feito de argila cozida. Enchiam o queimador com folhas de makanha (tabaco) e de makonha (liamba) colhidos na ocasião, que tinham semeado junto das cubatas. Secavam-nas rapidamente numa pedra que estava muito quente junto ao fogo e colocavam a mistura no queimador. Punham uma brasa por cima da mistura no queimador e davam umas chupadelas pelo bico da cabaça que causava um borbulhar da água no interior. Passavam a mutopa de mão em mão e depois ficavam a relaxar durante o tempo que tinham para descanso. Faziam isso diáriamente e nunca vi nenhum deles em estado anormal que não lhe permitisse cumprir as suas obrigações no trabalho.

                                       Panfleto para a contratação de Bailundos


Certa vez um Soba  de uma sanzala de  Monte Belo a 25 kilómetros de Bailundo (antiga Vila Teixeira da Silva), contou-me que um dia quando num acampamento de pessoal um dos trabalhadores apanhou uma pneumonia. O pobre tossia e mal podia respirar ardendo em febre. Médico não havia por perto só a algumas centenas de quilómetros de distância e as estradas eram picadas. Não aguentaria a viagem e, por isso, tinha o fim à vista. Então ele resolveu embeber uns panos em gasóleo e colocá-los no peito e nas costas do pobre coitado tapando-o com mantas. Já tinha feito isso antes mas por vezes não tinha resultado. O homem gemeu toda a noite com dores por causa do mal agravado ainda pelo ardor causado pelo gasóleo e transpirando tanto que molhou a roupa toda. No dia seguinte a febre foi baixando lentamente e passados alguns dias estava melhor. Morreria certamente.
Bailundo (Vila Teixeira da Silva) ficava num planalto e, por isso, as ruas eram planas e como em todas as cidades de Angola nas mesmas condições o transporte usado era a bicicleta. Em 1975 algumas ruas não eram asfaltadas mas sim cobertas com uma camada de terra retirada dos morros de salalé (formiga branca) que no Verão depois de seca era semelhante ao asfalto. Como a casa do pai do José Gama e a chitaca (pequena quinta) ficava a cerca de 20 km da vila fazia todos os dias esse trajecto de mota que era do irmão do Gama. Muitas vezes cruzava-me com cafecos (raparigas jovens) cuja vestimenta era apenas um pequeno pano atado com um nó tapando o sexo e parte das pernas mas expondo completamente os belos seios. Essas jovens teriam entre os 14 e 16 anos de idade. Para quem estava habituado em Luanda ver as mulheres com vestido comprido cobrindo praticamente tudo, fiquei muito surpreendido de ver aquelas jovens quase nuas expondo os seios rijos com toda a naturalidade. Acabei por me habituar e gostar de ver como é óbvio. Quando lhes dirigia algum piropo..... diziam: aka minino ou aka chinder (branco). Eu era um jovem de 19 anos com boa figura!

Paralelo ao caminho e a cerca de uma centenas de metros, ficava uma sanzala e, por vezes, passava lá por curiosidade para ver como era a vida entre eles. No início, principalmente os homens, não gostavam muito da minha presença por causa dos cafecos mas depois acabaram por se habituar à minha curiosidade. Naquela região e ao tempo, o homem tinha tantas mulheres quantas pudesse sustentar e a sua actividade era praticamente limitada à caça a não ser que conseguissem um emprego na Vila.
As mulheres trabalhavam nas lavras (hortas) plantando mandioca, batata doce, feijão, milho, etc. muita vezes carregando os filhos às costas.  A fuba bem como o feijão provenientes das lavras e outros produtos hortícolas eram vendidos em parte a um comerciante local perto da sanzala ou trocados por peixe seco, carne seca, óleo de palma e panos. O pai do José Gama um desses comerciantes de musseque como nós lhe chamávamos em Luanda que era conhecido lá no sítio por sachingongo (bexigoso). que por sua vez  os  revendia ao Armazenista Laranjeira que os transportava para várias cidades de Angola.

Por isso, vi como as mulheres preparavam a fuba bombó (farinha) da raiz de mandioca semelhante à que se compra aqui em Lisboa nas lojas da especialidade a bom preço. As raízes da mandioca eram colocadas a fermentar num charco de água parada. Quando estavam devidamente fermentadas a casca exterior saía facilmente. Depois era partida em pequenos pedaços e colocados a secar ao Sol em kindas (açafates grandes) no cimo da cubata. Depois era moída num pilão e peneirada. Esta fuba é completamente diferente daquela que é feita no Brasil (fubá) que não é fermentada. Vi mães amamentando os seus filhos e depois de eles mamarem, davam-lhes a comer uma pequena porção de papa de fuba depois de ser mastigada por ela. Os seus filhos estavam bem nutridos.
" A fuba bombó é uma substância alimentar proveniente da mandioca pisada depois de ter sido submetida a um periodo de vários dias de fermenação. Contém, além de outros ingredients, vitaminas, proteinas e sais minerais, em percentagens naturalmente doseadas, que garantem o número de calorias para equilibrar os suprimentos que motivam a energia da vivência humana. Em circunstâncias similares, há também a fuba de milho, preparada em moldes rudimentares ou pelos processos industriais”.
Havia um pormenor que me chamou a atenção: nos miúdos o umbigo estava saliente demais talvez por o cordão umbilical não ter sido devidamente cortado. Naquele tempo os partos eram feitos nas sanzalas pelas mulheres mais velhas e experientes.
Perto da chitaca (pequena quinta) do Sr. Gama  uma mata de várias árvores e, junto à mata, um acampamento de homens e mulheres que nos fins de semana faziam uma barulheira danada cantando cadenciado acompanhados do som de um tambor até quase de madrugada. Ia frequentemente tomar banho ao rio que ficava próximo da vila. No rio,  normalmente era onde iam as lavadeiras a lavar roupa e eu tomava banho logo um pouco acima. Depois deitava-me na toalha a secar ao Sol. No sítio onde tinha tomado banho juntavam-se vários cafecos tomando banho também mas completamente nuas. A água dava-lhe pela cintura mas de vez em quando saltavam mostrando o sexo e riam em sinal de provocação falando entre si em kioko que eu não entendia ainda muito bem.
Uma lavadeira mais velha que estava perto de mim, olhou para os meus pés e disse: - Ué chinder (branco) tem tacanha (matacanha ou bitacaia) nos pé". Não percebi mas quando cheguei a casa perguntei ao cozinheiro o que ela queria dizer. 
 "Minino mostra lá os teu pé".  Mostrei-lhe os pés e ele verificou que eu tinha um ninho de matacanha (espécie de pulga) quase do tamanho de uma ervilha entre os dedos dos pés. Foi buscar um canivete bem afiado e com muito jeito sacou o ninho de ovos de matacanha sem o romper. Seguidamente deitou-lhe por cima cinza do cachimbo. A ferida sarou em pouco tempo mas ainda hoje tenho a marca no dedo grande do pé esquerdo. A matacanha ou bitacaia é muito vulgar por toda a África e é um autêntica praga. No início, quando a pulga entra na pele dá comichão e, então, é a altura adequada para a tirar com uma agulha caso contrário forma-se m ninho por baixo da pele com centenas de ovos.
Nas cidades ou vilas mais importantes os correios tinham instalados emissores para telegrafia e telefonia com 1kW de potência trabalhando em onda curta. O chefe da estação dos correios de Bailundo ( Vila Teixeira da Silva ) o Sr. Amilcar de  Carvalho. Deslocava-se duas vezes por dia numa bicicleta Riley à estação telegráfica (a Robert Hudson que estava presente em todas as vilas e cidades importantes de Angola era o representante exclusivo dessas bicicletas) para registar a leitura dos aparelhos de metereologia que depois eram transmitidos pelo Sr. Horácio para Luanda.
Vendo a minha presença quase diária na estação telegráfica perguntou ao Sr. Horácio que era o chefe daquela secção quem eu era e o que estava ali a fazer. O Horácio explicou-lhe quem eu era, que tinha vindo há pouco tempo de Luanda e que estava ali de Férias na casa do Sr. Gama de Monte Belo.
Amilcar de Carvalho era um homem simpátido de meia idade. Tinha um porte respeitável quando andava de bicicleta com  uma postura erecta com o seu capacete colonial muito branco. Simpatizou logo comigo não só pela minha disponibilidade e ajuda desinteressada, bem como querer conhecer a região, ao qual como conhecedor da região se prontificou, a mostrar-me e fui algumas vezes  ao Huambo ( antiga Nova Lisboa) no seu Land Rover bem velhinho.
                                                                 Huambo ( Nova Lisboa )
Na cidade de Nova Lisboa à tarde era frequente algumas jovens da cidade que estudavam no Liceu, frequentarem o jardim que ficava em frente ao Palácio do Governador, também o  frequentávamos o dito jardim pois era de praxe o visitar e aproveitávamos para conversar com algumas dessas jóvens pois eram pessoas educadas e simpáticas que proporcionavam momentos de conversa muito interessantes. O José Gama, foi lá que conheceu uma jovem que namorou e mais tarde se casou em Aveiro.
1975

A VOZ DE JOÃO KAJIPIPA.... 1





"Angola Paz...Angola Faz"! Sim! Maji faje o quê? Faje tubos e mangéras di burracha, cus mão di obra especiarizada; faje programas "A Bombar", cabos eléctricos e "Conversas nus Quintal", faje músicas clássicas com "Maria Calas" do Bê-Ó...!
Ah, porqui..."Quando a esmola é demais...o Santo disconfia"!
"Angola Paz...Angola Faz"! Faje Quê então? Faje us porcarias nas sanzalas, nus bécos, nus ruas, xujam o chão com us paperis, vendem "kimbombo", médalhinhas, us pilha dê rádio, us rádios da China, cajú com gimguba, manga du Ambriz, mamão, fruta-pinha, maboque, balaios, arguidaris di plásticos, relógios di purso, candeeiro di luz eléctrica, mas...sem lâmpada, pinico, "camisinhas", remédius fora di prazo, vacinas prá febre amarela, azul e raiva, monitor di Internet e "bué" de telemóveis sem cartão...
"Angola Paz...Angola Faz"!
Maje, faje o quê então? Makuto kiá! Não faje nada...é Pimba!!


Colaboração de Banga ninito


 

SERVIÇO MILITAR ( INSPECÇÃO )

Quatro  meses depois de fazer 18 anos apresentei-me  no  D.R.M. de Luanda,  em Setembro  de 1973, para fazer a inspecção militar e ao qual me concederam um número  113609113 /73  e o nome pomposo de mancebo apurado para todo o serviço militar, enquanto esperava a incorporação, fazia a minha vida normal,  era para ir para Nova Lisboa  fazer a Recruta no  “R I 21” em Janeiro de 1974, por ser residente em Luanda fiquei à espera de incorporação,  e fui de férias nesse Julho de 1974

                                  Malta que esteve na inspecção militar Setembro de 1973
DEBAIXO DE FOGO
Estava há cerca de quinze dias na casa da Dona Clotilde  alugada  (  penso que seria do Administrador de osto Sr, Tiago Verissimo )  que rodeava o quartel da Mamarrosa. Tínha regressado a casa e após algumas horas de sono despertei com o barulho que, posteriormente, soube  ser das balas que choviam na chapa de zinco do telhado por cima da minha cabeça. Bêbado de sono, ( na farra até altas horas ) até pensei que se fritavam ovos na cozinha ao lado do quarto onde dormia. O barulho das morteiradas empurrou-me para a realidade: ‘Estamos a ser atacados!’
Durante quase uma hora estivemos debaixo de fogo. Valeram-nos os obuses de 12 e 16 mm e o 1º cabo da BTR que fez disparos certeiros para o morro de onde provinha o ataque. Só o clarear do dia trouxe a aviação.
O 4º  grupo da Companhia de Cavalaria 8453 estava destacado para uma operação nesse 24 de Julho. Por isso receberam ordens para levantarem ração de combate e fazerem  o reconhecimento ao local donde provinham as balas. A ousadia da nossa juventude e os aviões portugueses que nos sobrevoavam deram-nos a coragem. No cimo do morro encontrámos munições, armas e buracos das granadas dos obuses, bem como elementos do inimigo mortos.
Ainda não refeitos, no dia 29, confirmou-se que as informações da então D.G.S. (PIDE) de que continuava iminente um ataque eram bem verdade.
No Luvo ao anoitecer um comboio parou no lado de lá da fronteira e só retomou a marcha meia hora depois. Por volta da uma da manhã, do outro lado da fronteira, foi disparado um very-light que iluminou todo o destacamento. Seguiu-se uma orquestra de estrondos acompanhada por clarões de granadas de morteiro e canhão que caíam a quatro quilómetros.
Estávamos a ser atacados. Continuávamos a ter a ajuda dos obuses. A artilharia informara-nos que o inimigo  tinha já um grupo de assalto muito próximo, atrasado apenas pelos disparos de uma metralhadora. À informação donde provinha o ataque, os obuses varreram a zona. O bombardeamento foi constante e o inimigo  entrou em retirada, carregando grande parte dos seus mortos e feridos – muito armamento ficou para trás.
Esperámos que o dia amanhecesse e, mal a aurora se anunciou, avançámos com a coluna em direcção ao Luvo, carros atrás e os “Felinos”  à frente picando a estrada para detectar minas anti-carro ou anti-pessoal. Foram precisas duas horas para fazer quatro quilómetros. Chegámos. A zona estava armadilhada; os corpos dos homens – nossos e deles também – denunciavam a guerra.
Em Angola nem tudo foi terrível. Conheci pessoas por quem tenho uma enorme gratidão, fiz amizades cimentados pela circunstância da guerra mas também pelo convívio em Luanda, São Salvador ( MBANZA ) e Mamarrosa, e outros locais.

LOCAL

Algumas terras em Angola no tempo da colonização eram baptizadas com nomes de terras da Metrópole, nomes de origem dos fazendeiros que ali assentaram “arraiais”. Este nome é assim derivado da freguesia de Mamarrosa, concelho de Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro, donde era natural o patrão da fazenda de café e de outros negócios em S.Salvador, de nome Salvador Beltrão. Nesta cidade, agora chamada de M´Banza Congo, existe ainda um prédio que era conhecido por “Prédio Salvador Beltrão”, onde havia um restaurante e uma drogaria. Certamente não haverá militar que não tenha entrado lá das muitas vezes que ia à capital para reabastecimento ou nas colunas do MVL.
                                      Aqui está a foto do Local (Prédio de Salvador Beltrão)


Mamarrosa fica situada 58 Km a norte de S.Salvador do Congo, 6 km a sul do Luvo (fronteira com a República Democrática do Congo), a Oeste temos Canga a 23 Km e Magina fica a 42 Km para Este. Está uma placa à saída do aquartelamento que indicava estes percursos.
As instalações militares da Mamarrosa ficavam numa colina onde no ponto mais alto estava situada a messe dos oficiais (edifício com o nome “MAMARROSA” gravado no telhado). Esta era a vista do local, vendo-se à direita o comando e a secretaria e à esquerda o posto médico e a enfermaria. A população civil (trabalhadores da fazenda do café) situava-se no lado oposto, na parte mais baixa da colina.


                                  Tropa de intervenção no Bairro Popular 1974

Nome:  Desconhecido

  TESTEMUNHO
‘FELINOS’ ESTIVERAM NA MAMARROSA E NO LUVO
Parti para Angola em Agosto de 1973 na Companhia de Cavalaria 8453, ‘Os Felinos’. Era furriel miliciano, formado na EPC de Santarém, tendo formado companhia no RC4 em Santa Margarida. Fomos para Mamarrosa/ Luvo, no Norte de Angola, na fronteira com a República Democrática do Congo (Zaire). no total éramos 30.
Com o tempo a passar sobre o 25 de Abril de 1974 e devido à indecisão de Portugal sobre o futuro de Angola, a FNLA atacava em força. Na noite de 24 de Julho de 1974 o nosso aquartelamento da Mamarrosa, onde se encontrava a minha companhia ‘Os Felinos’, foi atacado com armas automáticas, morteiros e canhões sem recuo. Devido a actos de bravura e coragem, ao clarear do dia o inimigo pôs-se em fuga. Em 29 de Julho de 1974,  a FNLA cercou o nosso pequeno destacamento do Luvo, junto à fronteira, e desencadeou um brutal ataque com a intenção de o tomar de assalto. Mas ‘Os Felinos’ reagiram com arrojo e audácia e o inimigo foi heróica e corajosamente rechaçado.
Nome: Amílcar Fontes
  Angola, Julho de 1974

TESTEMUNHO 
Nunca me poderei esquecer desse ataque, eu estava em minha casa jogando às cartas com O Alferes e 2 Furriéis  ( Quim Varela os  outros já não me lembra) e o  meu cão chamado Banza ladrava  imenso e eu mandava-o calar e não me obedecia e houve um dos presente que disse: “olhe que ele deve estar a pressentir alguma coisa” na verdade era isso, o inimigo já lá estava instalado.
O ataque sucedeu, a descrição aqui feita é correctissima. Eu durante o meu serviço militar nunca ouvi um tiro e foi preciso na vida civil, como Administrador de Posto do Luvo, ter que pegar na Mauser e refugiar-me na vala.
Depois do ataque, como se deve lembrar, vocês colocaram minas junto do arame e o meu cão “Banza” um dia quando jogavamos futebol naquele pequeno campo junto da Administração, tropeçou no arame e despoletou uma mina morrendo de imediato.
Recordar é viver.
Nome:  Tiago Veríssimo
       Angola, Julho de 1974



Tiveram de fazer patrulhamentos de segurança no Bairro Popular, hoje chamado de (Neves Bendinha) é um dos nove municípios que constituem a área urbana cidade de Luanda,  na província do mesmo nome  em Angola,  Kilamba Kiaxi tem 64,1 km² e cerca de 234 mil habitantes. Limita a Oeste com o município da Maianga, a Norte com os municípios do Rangel e Cazenga, a Este o município de Viana e a Sul com o município da Samba. É constituído pelas comunas do Neves Bendinha, Golfe, Palanca, Havemos de Voltar, Vila Estoril e Camama.A designação do município significa, em Kimbundo , Terra (Kiaxi) de Agostinho Neto  (chamado pelo povo de Kilamba cujo significado em kimbundo é "condutor de homens").  Coincidência ou não, vim encontrar no Bairro Popular nº 2 nas chamadas tropas de Intervenção alguns soldados que estiveram em Mamarrosa, patrulhamento também no Aeroporto de Luanda. A Companhia de Cavalaria 8453 regressou a Lisboa a 30 de Janeiro de 1975. Estiveram em Angola 17 meses .

                            Aquartelamento da Companhia de Cavalaria 8453“OS FELINOS”

Lembro-me que nessas instalações militares estavam muitos açorianos recrutados no BII 17 em Angra do Heroísmo e que por aqui passaram, pois num monumento que lá deixaram prova isso mesmo. “Antes morrer livres que em Paz sujeitos” era o lema daquele batalhão da ilha Terceira. Na foto, vê-se ao fundo o edifício da messe dos oficiais.
Foi aqui que cheguei em 09/07/1974, depois de percorrer cerca de 550 Km desde Luanda. A Carrinha DATSUN 1200 do Gama já estava cansadita e as estradas não eram muito boas a primeira etapa terminou em Ambrizete onde pernoitamos, tendo passado por Ambriz e Mussera. No segundo dia passámos em Tomboco, Xamindele, Cumbi, Luanica, S.Salvador. A 8 de Agosto de 1974 fizemos o mesmo caminho de regresso para Luanda, onde estive até ao dia 21/06/1975. Estes 10 meses foram apesar dos sobressaltos e dos tiros que havia em Luanda foram vividos intensamente, trabalho, praia na ilha, cucas e nocais na Portugália e no Bar do Matias,  (pedíamos bitoques para poder beber 2 cervejas)  ainda fui a Nova Lisboa, mais propriamente a Monte Belo em Vila Teixeira da Silva ( hoje Bailundo ), tendo embarcado para o  “Puto”  a 21 /06/1975, fazendo  9 horas de viagem num Jumbo da TAP com minha mãe e irmã!


ZÉ ANTUNES




TESTEMUNHO
Do segundo ataque ao Luvo em 24 e 29 de Julho de 1974, aquando dos ataques ao quartel de Mamarrosa e ao destacamento do Luvo,  recordo-me que tinha acabado de anoitecer e que estava sentado numa das mesas do refeitório, a ver o padeiro tirar o pão do forno, juntamente com o alferes Igrejas (o comandante), o enfermeiro que era o Pedro Pereira ou o Toni Araújo, e mais alguém, quando ouvimos um tiro vindo de perto do arame farpado, a que se seguiu intenso tiroteio e rebentamentos vindos dos morros de cá e de lá da fronteira.
Corri para o posto de transmissões e ao atravessar a parada fui projectado por um rebentamento, o que me deixou desfalecido e a sangrar, apesar de não saber onde estava ferido.
Levantei-me e consegui chegar ao meu posto (era o único operador) e entrei em contacto com o alferes Igrejas que estava na cova do morteiro 81 e tinha o “banana” (o AVP-1 para os aviões) e também com a Mamarrosa e o subsector de Cuimba que não paravam de perguntar o que se passava. Das peripécias por que passei lembro-me do alferes me ter pedido para ir à procura do enfermeiro atrás do posto de rádio e da enfermaria, para socorrer alguém ferido e de alguém me ter tomado por um turra e ter disparado sobre mim, o que me fez pensar que era    mais útil vivo do que morto e pirei-me.
Da Mamarrosa tive que travar os obuses, pois os companheiros da artilharia tinham-se baralhado nas coordenadas e os projécteis estavam a cair quase em cima de nós.
Depois do ataque reparei que inconscientemente tinha posto o rádio debaixo da mesa de tampo grosso e me tinha colocado debaixo dela, além do facto de ter enfiado os carregadores da G3 dentro das calças, talvez para estarem mais à mão.
Pelo meu lado, os ferimentos saldaram-se em profundas esfoladelas nas pernas, um ferimento dorsal de estilhaço ou bala de raspão e ainda um ferimento superficial nas costas.
Portanto,  os  ferimentos  não  foram  de  grande  importância,  apesar de me terem ligado as pernas como a uma múmia.
Com o nascer do dia e a chegada das colunas de socorro fui tomado por um herói e quiseram-me evacuar para Luanda.
Um abraço para todos
Nome:  José Sampaio                        Angola, Julho de 1974



TESTEMUNHO
A Companhia de Cavalaria 8453,  chegou a Luanda em Agosto de 1973, com destino a norte. Na Mamarrosa ficaram três grupos de combate, reforçados com um pelotão de artilharia de Ambrizete e ainda uma secção de morteiros pesados. No Luvo, posto fronteiriço com a República do Zaire a cerca de 10 km de Mamarrosa, ficou outro grupo. Mamarrosa e Luvo, situados num vale e ladeados pelas serras da Canga e da Danda e Pedra Verde, eram um ponto de infiltração de guerrilheiros da FNLA, com destino a acções e combates no Dembos. A nossa missão consistia em defender a Mamarrosa de ataques da FNLA e proteger a sanzala e a roça de café aí existentes.
Sofremos um forte ataque em 24 de Julho, mas sem baixas. A FNLA, que não estava em negociações de paz, tinha intensificado a luta armada nas zonas fronteiriças, para aí instalar as bases para a guerra civil.
Em 28 de Julho, quando estava com um grupo em operação de reconhecimento próximo do destacamento de Luvo, detectámos movimentos estranhos na zona, estando nós a cerca de 50 metros de distância do inimigo e sem comunicações. Foram cinco horas de sofrimento e ansiedade mas acabámos por saber, via rádio, que naquela noite estava a ser preparado pela FNLA um ataque ao Luvo, com a finalidade de expulsar os militares portugueses. Era uma hora da madrugada quando demos entrada no destacamento. Mas o ataque não foi naquela noite mas na seguinte, a 29 de Julho de 74. Foi um ataque feroz – de 300 homens da FNLA  a 70 portugueses que ripostaram e o repeliram de forma heróica. Não tivemos qualquer baixa, mas causámos muitas. Em Dezembro A Companhia de Cavalaria 8453 regressou a Luanda durante um mês e uma semana. Não foram férias. Já estava instalada a guerra civil entre o MPLA e a UNITA.

VIAGEM NO VERA CRUZ” ATÉ LUANDA

Viagem relatada por um soldado meu amigo que comigo viajou quando regressei a Angola em 1970, foi mobilizado para a zona de Cabinda, ainda hoje somos amigos pois ele só regressou a Portugal em 1975, e vive em Sintra, meu amigo Amilcar Neves Castro.
De 19 de Novembro a 29 de Novembro, concederam-lhes 10 dias de licença que, as normas (do tal artigo 20.º das NNCCMU), lhes concediam antes de embarcarem para o Ultramar. Durante este período íam-se despedir da família e preparar tudo para aquela longa ausência e, gozados que foram, reuniram-se  de novo no CIM, onde seguiram de comboio para Lisboa para embarcarem no navio “Vera Cruz”, um belo transatlântico de 21.000 toneladas, outrora utilizado nas carreiras de África e para o Brasil. Chegados à doca da Rocha do Conde Óbidos, ali desfilaram no cais de embarque em continência ao representante de Sua Ex.ª o Ministro do Exército. Cada um dos seus passos tinha de ser ritualizado nestas cerimónias repetitivas, fastidiosas, mas inevitáveis.
Embarcáram em Lisboa em 30 de Novembro de 1970, pelas 16 da tarde, uma hora bem escolhida, pois com os atrasos fez-se 19 horas  e, estando já pronta a refeição no navio, tiveram que ir Jantar – alguém os chamou, – diminuindo com isso o número de militares no convés e o clamor das despedidas junto do cais, a evitar, embora nesta altura ele já tivesse perdido grande parte do seu dramatismo: a visão apavorante dos primeiros tempos da guerra. Mesmo assim, alguns militares ainda tiveram ali os seus familiares num último adeus. O navio fez soar a sirene, grave e autoritária, ia partir. Alguns choros se apossaram das mães, esposas e noivas que ali se deslocaram, vindo dos mais diversos pontos do país. Houve acenos de lenços, brados de últimas despedidas. E o navio lá seguiu, indiferente àquele clamor e mesmo à beleza luminosa das colinas da cidade de Lisboa. Passou por debaixo da ponte, reduzindo a um minúsculo pináculo a igreja de Santa Engrácia, depois apequenou a Torre de Belém, saindo à barra do Tejo, nesse dia transformado, para muitos, num vale de lágrimas. Pouco depois só se erguia cá atrás a bruma, que era a Serra de Sintra, o último testemunho do Portugal metropolitano e, por fim, mergulhámos no oceano infinito, rumo ao desconhecido.
No “Vera Cruz” foram tratados com a dignidade de passageiros civis, fazendo uso dos luxos e requintes de que o navio desfrutava, que incluía entre outros: piscina, cinema e sala de jogos. Os oficiais ocuparam a 1.ª classe, os sargentos a 2.ª e as praças a 3.ª ou arremedos disso, pois grande parte dos soldados dormia nos porões, em beliches improvisados para aquelas viagens, escuros, sem as mais elementares condições de conforto. Além disso, tinham que gramar com o ruído incomodativo da casa das máquinas. Valia-lhes que podiam vir até ao convés apanhar ar fresco e observar o mar, que era igual para todos, e às vezes proporcionava surpresas agradáveis, com peixes voadores a perseguirem o navio, e outros maiores a virem à superfície da água fazer um giro ao horizonte. Alguns militares enjoaram e passaram por maus momentos, mesmo indo na 1.ª classe, contudo, em geral, todos apreciaram a viagem.
A oficialidade ocupava belas suites, sendo-lhe destinado um restaurante de luxo, onde eram servidas refeições opíparas, com pratos cheios de enfeites rebuscados, ao gosto da burguesia. Lembro-me de um que vinha com um artístico moinho à vela, ostentando desfraldadas velas brancas, que servia só de adorno, não era para comer, claro. Os sargentos também não tinham razão de queixa, e neste aspecto, nem sequer as praças, embora tivessem de comer por mesas: saíam uns e entravam outros. À noite éram frequentemente atormentados com o espectro da zona militar que iríam ocupar, dos perigos que os espreitariam.
Vendiam-se a bordo máquinas fotográficas, de filmar e projectar, canetas de marcas prestigiadas, rádios, relógios e outros objectos importados, fugidos aos impostos alfandegários, naquele tempo, muito elevados, que alguns aproveitaram para comprar a baixos preços.
O navio aportou em Las Palmas e fomos a terra para visitar a cidade no pouco tempo que tinhamos.
O elemento feminino rareava, mas ainda havia umas tantas mulheres integradas na tripulação a humanizar o paquete e, é curioso, que à passagem pelo equador foi dito, e até nos pareceu que se tinham tornado mais atraentes: os nossos olhos se vidravam nelas.
O “Vera Cruz” atracou no porto de Luanda em 9 de Dezembro de 1970, pelas 09:30, mas só começaram a desembarcar pelas 11:30 da manhã. Seguiram de viatura até ao Campo Militar do Grafanil, no Norte da cidade, e ali mesmo, voltáram a desfilar em continência, perante Sua Ex.ª o general Oliveira e Sousa, comandante da Região Militar de Angola. Ainda passeáram os  camuflados pela cidade de Luanda, onde ficáram até dia 13 desse mesmo mês de Dezembro, data a partir da qual iniciaram a viagem para Cabinda, que se estendeu por mais duas “levas”, a 18 e 23 desse mesmo mês, na lancha Aríete da Marinha Portuguesa. A emoção que então os percorria era um tanto estranha, cruzam-se nela o medo, a aventura, a curiosidade e o espanto.
Amilcar um bem haja e obrigado pela narração da tua viagem para a guerra como costuMas dizer.

1970

REGRESSO A ANGOLA

Depois de pedir as transferências das Escolas de Portugal para Luanda, assinalar o facto de nesta viagem irem muitos militares para Angola e Moçambique. O navio tinha hora prevista de navegar as 16h00 e como era apanágio da Companhia Colonial de Navegação (C.C. N.) à hora estabelecida com a buzinadela da praxe, começamos a ser rebocados para empreender-mos a nossa viagem. Foi uma viagem fantástica, como nunca tinha feito, até então. Passados todos estes anos, ainda continuo a dizer que foi a viagem mais maravilhosa da minha vida.  Entrámos no navio e fizeram-se, a bordo, as despedidas dos familiares que lá se deslocaram com esse propósito. Éramos 5 viajantes.
Lisboa 30 de Novembro de 1970  do cais de Rocha do Conde de Óbidos em Alcântara parte o navio Vera Cruz que rumo a Angola com carga e passageiros numa viagem prevista de 9 dias, com paragem nas Ilhas Canárias. Como passageiros uma centena de pessoas com rumos diferentes no interior de Angola, e Moçambique, mulheres casadas por procuração iam ao encontro de um homem sem o ter conhecido antes, a não ser por fotografia, outras casadas por procuração, essas tinham namorado no Continente e só agora poderiam finalmente juntar à pessoa com quem tinham casado visto ele não se poder ou não querer deslocar ao Continente. Mulheres casadas com ou sem filhos que finalmente se  iam juntar aos seus maridos que tinham partido muito antes na tentativa de conseguir uma vida melhor do a que tinham no Continente. Homens que partiam também à procura de melhor vida alguns numa completa aventura outros já com carta de chamada de  amigos  ou familiares que já lá se encontravam e lhe arranjavam a tal carta de chamada que implicava uma grande responsabilidade para quem a arranjava que o tornava responsável por essa pessoa,  a maior parte era gente humilde do interior do Território que nunca tinham visto um navio ou mesmo o mar.
                   O navio "Vera Cruz" em frente ao cais da colunas em Lisboa


Assisti a todo o processo de partida do navio, não quis falhar nada. Aquele toque típico que os navios dão quando largam foi uma coisa marcante, na minha cabeça. Foi como se o navio estivesse a dizer aos que ficaram no cais, "eu vou levá-los".
A sensação de passar por baixo da ponte, à altura, Salazar e depois a saída para o mar, tudo isso foi excitante para mim. Apreciei cada segundo, cada metro de avanço do navio, rumo a Angola.
Algum tempo depois da partida, a minha mãe disse que era altura de se ir para dentro. Lá fomos. Aproveitei para visitar então todos os cantos do navio acessíveis aos passageiros: a primeira classe, que luxo(!), com as paredes todas forradas a veludo, o chão com alcatifa vermelha, aposentos mais pareciam de reis e rainhas; a turística "A", onde eu viajava e a turística "B", que era a classe mais económica. A partir do primeiro dia de viagem, o acesso estaria limitado às duas classes turísticas.


A vida a bordo era magnífica, eu pelo menos assim a vi, à altura. Tinhamos 2 camarotes, cada um com 3 beliches. Como éramos 5,  num dos camarotes ficou a minha mãe e a Melita, no outro os rapazes para podermos ficar juntos. A minha mãe inscreveu-nos a todos para fazermos as refeições no primeiro horário, dos 3 existentes. Recordo a comida a bordo como sendo deliciosa, com um cheiro fantástico. O pão era sempre quente e saboroso. os nove dias que a viagem demorou, eram vividos da seguinte forma:

Pela manhã tomávamos o pequeno-almoço ás 7,30. Ao fim íamos mais um pouco até ao nosso camarote para dar tempo que todas as pessoas se alimentassem. Depois por volta das 9,30 vínhamos para cima, ora passeávamos pelo convés, ou iamos jogar uma partida de cartas para a sala de fumo (assim era chamada). Depois ás 11,30 íamos almoçar, no fim do almoço dormiamos uma sesta  e por volta das 15 horas voltávamos a subir. Depois dividíamos o tempo ora em banhos na piscina, banhos de sol, e sempre os fantásticos passeios no convés, a olhar o mar alto vi golfinhos no alto mar . Ao fim da tarde admirar o pôr do sol sobre o oceano é algo indescritível! Eu adorava estar debruçado na proa do navio e ver a frente do barco a cortar a água.
Ás 15,30 íamos lanchar e depois voltava a diversão: jogos, passeios, piscina. Às 18 horas era o jantar. Depois o serão era passado a ver cinema, ou em bailes, ou ainda a jogar “Loto”, ou às cartas.
De entre todos esses passageiros minha Mãe eu e os meus  irmãos também nos íamos juntar ao meu Pai que se encontrava em Luanda trabalhando como encarregado Geral de Obras na Empresa Sonefe. A bordo era tudo muito estranho e diferente de tudo a que estava habituado a começar nas refeições e acabar nos camarotes  onde dormíamos,  um porão  atravancado de cestos, garrafões de vinho, de azeite, chouriços, salpicões, presuntos, fruta e outras coisa que as pessoas queriam levar consigo que impregnava o ambiente insuportável de cheiros e odores, a par dos cheiros das suas roupas e corpos por lavar, misturado com cheiro de urina de putos que nunca tinham utilizado uma casa de banho na vida deles, e por isso urinavam para o primeiro canto que encontrassem. Na primeira refeição a bordo foi um autentico desastre com as pessoas a tentar comer o que vinha para a mesa, misturando tudo numa gula desenfreada, resultado, aliado ao balanço do navio passado um bocado era o pessoal todo a vomitar por todos os cantos do barco, dia e meio depois de termos partido de Lisboa chegamos às Canárias,  alguns passageiros foram a terra , os outros ficaram abordo, Logo a saída do Porto de Las Palmas apareciam os vendedores ,  com lembranças das Ilhas Canárias, trabalho artesanal.
Dessa paragem resultou a primeira amizade feita a bordo dois irmãos, os irmãos Adrianos , que vinham bem do interior de Portugal e da minha idade um deles o mais velho comprou um pequeno cavaquinho com cordas e umas fitas amarradas muito garridas, resultado todos queriam tocar a pequena viola, tanto o aborrecemos com a insistência que ele atirou o cavaquinho pela borda fora e lá se foi a música, ouve um termo que eu aprendi com ele que nunca mais o esqueci e quando já em Portugal num encontro de pessoas retornadas de Angola em Lisboa no  restaurante PIC- NIC nos encontramos de novo ele e eu exclamamos ao mesmo tempo " Olha o madié  banga Zé"
 
1º Serviço de Refeições

Ao  chegar á chamada linha do Equador, fizemos o treino dos coletes salva-vidas. Não achei grande piada e incentivado por malta nova desobedeci ás ordens dadas pela tripulação. Fomos repreendidos. Eu era novo naquelas andanças. O comissário acabou por dizer, num tom inconfundível de reprovação: "vou escrever no livro que estes jovens,  eramos para ai uns 5 ou 6 ) desobedeceram aos treinos de salvamento e que se alguma coisa acontecer durante a viagem vocês serão responsáveis pela vossa segurança". Exigiu, depois, que voltássemos para o camarote. Ao deslocarmo-nos para o camarote as portas do navio foram-se fechando e as lampadas apagadas, como parte do exercício, o que aumentou o estado de ansiedade em que me encontrava

                                                            O navio "Vera Cruz"

O resto da viagem à excepção da passagem do Equador, no qual fizemos um exercício de por colete de salvação e ir para a nossa baleeira de salvação como se o navio estivesse a ir ao fundo com banho de água à mistura o que resultou numa grande confusão pois muitos pensaram que era a sério, eu e alguns rapazes desobedecemos e fomos repreendidos, tudo acabou em bem, o resto dos dias foram sempre  iguais até à nossa chegada a Luanda em 9 de Dezembro de 1970, manhã muito cedo, a nossa ansiedade era muito grande, com aproximação do navio ao cais de Luanda a cidade ia tomando forma, primeiro à nossa esquerda um morro enorme e bem em cima um majestoso Forte da Barra, que defendeu no tempo dos conquistadores, a entrada da barra com os seus grandes canhões virados para nós, hoje sem qualquer actividade. Em frente a cidade com os seus lindos e altos edifícios de lindas cores e uma marginal que ainda hoje é a coqueluche da cidade, à nossa direita bem dentro da cidade plantado em cima de um brutal monte de terra a Fortaleza de São Miguel local que dava para ver a cidade e as praias da Ilha quer de dia quer de noite como miradouro e com uma beleza nunca vistas.
Finalmente a 9 de Dezembro de 1970 o Paquete Vera Cruz chega a Luanda, numa manhã cinzenta e calma, motores desligados o navio entra calmamente nas águas da Baía, uma cortina cinzenta de cacimbo não deixa ver nada à nossa frente, somente se ouvem motores de outras embarcações e apitos, vozes que avisam da sua aproximação, dentro do navio a excitação é grande, correrias de um lado para o outro, o debruçar na amurada para ver se consegue descortinar algo à nossa frente, o monte de malas  nos corredores do convés, enquanto o navio desliza calmamente rumo ao Porto de Luanda, já com o Piloto da Barra a bordo que veio buscar o navio à entrada da Barra, à nossa esquerda começa-se a desenhar altos Morros de terra, entre o amarelo, vermelho e castanho, Gaivotas cruzam o navio de um lado para o outro, com os seus pios agudos e estridentes, à nossa direita uma língua de terra comprida com Palmeiras e Coqueiros à mistura com outra vegetação que dão à paisagem um tom radicalmente diferente daquilo a que vínhamos habituados do Continente de onde saímos faz hoje 9 dias.
Muito lentamente o navio lá se ia aproximando do cais as pessoas iam-se tornando cada vez mais visíveis e nós na ânsia de vermos as pessoas que procurávamos íamos gritando estão ali, não ali, não está de camisa branca, até que sim lá conseguíamos ver quem queríamos e aí eram os gritos os acenos as perguntas, feitas as manobras de atracagem do navio, começaram as formalidades de desembarque já com as autoridades a bordo.
Tudo com muita lentidão à mistura com empurrões todos a quererem ser os primeiros, finalmente chegou a nossa vez de sair e  pisando  solo africano, da nossa Luanda que  eu tinha deixado em Abril desse ano e é  uma sensação muito estranha de sons, cheiros e vozes e à mistura uma embriaguez que nos põe tonto e sem reacção.
Os veteranos em viagens de navio praxaram os iniciados com o "Baptismo de bordo" a que eram sujeitos os iniciados. que consistia em colocarem uma capa vermelha e verde nos iniciados e depois dizerem umas palavras enquanto outros deitavam quantas mistelas podiam na cabeça deles, desde farinha a ovos. No fim atiravam com
os iniciados para a piscina, perante as palmas e gargalhada geral.
Seguimos viagem e foram mais 7 dias a ver só  céu e mar e a ver alguns golfinhos que de vez em quando apareciam na proa do navio.
Os Europeus num tom de pele muito tisnado, mesmo amarelo torrado num contraste de vestimentas brancas e muito suados, em contra partida os negros calmos pachorrentos transpirando muito e com os olhos muito abertos olhando as cenas de chegada dos abraços, dos beijos, eram os bagageiros que transportavam as nossas malas para os carros que nos levariam enfim para os locais que cada um iria habitar.
Postas as malas na carripana que nos veio buscar, conduzida pelo Sr. Mota,   que nos transportaria à nossa casa  no Bairro Popular nº 2,  a minha Mãe na cabine, e nós os quatro  na carroçeria que era aberta e junto com as malas, com os olhos muito abertos olhando numa ânsia desmedida de querer mirar tudo numa só vez, tal era a saudade,   marginal fora que encanto de Avenida ladeada do lado direito por Palmeiras junto ao mar formando então a tal famosa Baía de Luanda, um dos muitos locais que muito me marcaria para o resto da minha vida.
Deixamos para trás a avenida e seguimos  pela estrada de catete até ao Bairro Popular,  levantando uma poeira que à mistura com o suor que nos começava a escorrer pelo corpo sujando a roupa e o corpo, e nos tornava indolentes.
O navio "Vera Cruz" chegou ao Porto de Luanda um pouco antes da hora do pequeno - almoço, dia 9 de Dezembro de 1970, Já o Sr. Mário Mota, família e meu pai,  estavam à nossa espera para nos levarem para a nossa casa no Bairro Popular nº2.
Algumas ruas em terra batida avermelhada, marcada  sómente pelos sulcos que os carros  deixavam ao passar, um pequeno desvio e lá ficava um enterrado isto sem contar com os grandes buracos que quando chovia formavam grandes lagos que eram a alegria de muitos negros miúdos que chafurdavam nesses lagos de uma cor avermelhada com tons de castanho, e que serviam como Piscinas. Água canalizada era um luxo para alguns, essas lagoas serviam também para nascer e criar milhões de mosquitos que eram uma das maiores pragas que cedo tivemos de começar a enfrentar, começando logo por tomar comprimidos contra o paludismo, camoquine todos os dias e resoquine todas as semanas, águas fervidas e passadas pelo filtro um bonito aparelho de louça com uma vela também em louça por onde a água teria de passar e ser então filtrada saindo através de uma torneira metálica era uma água fresca e saborosa, depois de muitas peripécias lá chegamos ao Bairro Popular.
Chegados à casa que viríamos a habitar até 1975,  a nossa excitação era enorme, começamos a correr, para dentro de casa,  descarregadas as malas começamos logo por atacar bananas que o meu Pai tinha na dispensa da casa, um grande cacho de grandes e maduras bananas, percorridas as divisões da casa e um grande anexo que ficava na parte de trás da casa, ou seja queríamos ver se se tinha modificado alguma coisa desde a nossa ida até ao Puto.
Esses amigos que conheci no barco, eram a primeira vez que iam para Angola, O casal Adriano.  O casal tinha dois filhos o José Adriano e o João Adriano e duas filhas, a Maria João  e a Maria José.
Em 1975 regressei a Portugal devido à descolonização, e para minha grande alegria, casualmente  encontro a Maria João em 1995,  que me diz que a Maria José  também estava em Portugal, e que os irmãos estavam ambos no Canadá com isto tinham passados  vinte  anos sem nos ver-mos pedi através da irmã que ela me recebe-se o que veio a acontecer, foi um encontro por demais emocionante, mas muita coisa tinha acontecido nas nossas vidas, nada era como antigamente, ela tinha a vida e o casamento destroçados, pois também casou, mas  não deu certo, teve que criar três filhos sózinha,  quando nos encontramos ela estava com os três filhos sozinha em Portugal.

1970


SÃO TOMÉ E PRINCIPE

No dia 17 de Abril de  1970 próxima aportagem: Ilha de S. Tomé. Ilha de S. Tomé? Mas não sabíamos! Que bom!. Passados uns dias e S. Tomé à vista. «.../Na altura, como hoje, a São Tomé o batel não aportava; e nas cálidas águas equatorianas o navio vogou, vogou, vogou...» O navio fundeou ao largo, num mar agitado (para nós foi agitado!). Informaram-nos a bordo que viria um barco a motor buscar-nos para terra. Esperámos. Uma casquinha de noz aproximava-se do navio ancorado, não atracado. Vamos? vamos! insistíamos. Minha mãe olhava debruçada no convés aquele barquinho que as ondas empurravam e afastavam da escada por onde devíamos descer. E navegar naquilo, até porto seguro que estava tão distante.  O mar está tão picado! Não sei se por ver alguns passageiros a descer ou pela nossa insistência, Minha mãe anuiu e lá fomos. Os três, eu, Nando e minha mãe, em fila indiana, descendo atrás de outros como nós, encostados à amurada do navio. Degrau após degrau, já no patamar das escadas, com ajuda dos marinheiros, um ao pé de nós, outros no barquinho, esperámos oportunidade para saltar para o «vaporzinho»* e não cair à água. A casquinha de noz a motor não era um batel mas as águas também não eram cálidas. Antes apaixonadas, vigorosas. Foi difícil. Alguns gritos de aflição, alguns salpicos. Muitos risos de nervoso-miudinho. Uma aventura para nós, inesquecível para mim. Minha mãe, não gostou lá muito, na altura. Para trás foi ficando aquele imenso navio, belo, imponente e seguro. À nossa espera, uma mancha muito verde. Onda acima, onda abaixo, os nossos enjôos foram vencidos mas outros gritaram pelo gregório. Incluindo minha mãe, lá foi o ( mata bicho ) pequeno almoço

Atracámos no cais na cidade de S. Tomé que continua a ser uma bela Ilha tropical, com o Equador a passar-lhe em cima (está desenhado no chão a linha equatorial), de clima quente e húmido (muito mais que em Luanda) com vastas florestas tropicais, muitos rios e praias de sonho. Dos naturais lembro-os de grandes olhos e sorrisos, principalmente putos, idênticos aos de Luanda que pediam a quinhenta.
Os nossos amigos São Tomenses tiveram a simpatia de nos mostrar uma parte da cidade e um pouco à volta da mesma. Tinhamos poucas horas. Fomos visitar a casa do Governador Geral perto de uma Fazenda de Cacau a Fazenda “Boavista” onde almoçamos, passeou-se pela cidade onde vi as lavadeiras de São Tomé a lavar a roupa nos Riachos de água cristalina, vi  as lojas e edifícios de construção colonial, pelo tudo que vi e que visitei,  gostei e fiquei encantado pela paisagem deslumbrante e tropical. Recordo um areal com imensas palmeiras inclinadas numa baía linda, de águas límpidas e azuis. Seria a praia das 7 ondas, se a memória não me atraiçoa, nesse tempo vedada a banhistas, por causa de tubarões. Uau! do que eu me lembrei agora. «Esperem e contem a ver as 7 ondas seguidas. Depois o mar faz intervalo.» Será? Ou o meu cérebro está a pregar uma partida?
Não deu tempo para mais. Na memória ficou o ar que respirei, o sol, a chuva, tudo ao mesmo tempo. O mar. A simpatia dos locais. Obrigada e até Lisboa. O regresso ao navio Pátria, onda acima onda abaixo, fez-se sem receios. Rumo ao puto. Foi esta a minha estada nesta belíssima ilha.
1970

VIAGEM A PORTUGAL

Da minha primeira viagem que fiz a Portugal continental a chamada metrópole ou como nós dizíamos “o Puto“ guardo boas recordações pois foram nove dias maravilhosos a bordo do navio “ PÁTRIA” e para um garoto com 15 anos, está-se sempre à espera de surpresas. Nesse dia 14 de Abril de 1970, pelas 14 horas, Zé Antunes,  Fernando e sua mãe  Carmitas  apresentam-se no Cais do Porto de Luanda, para embarcar no navio "Pátria" com destino ao porto de Lisboa  cais da Rocha Conde de Óbidos, pois nessa ocasião já se encontravam em Lisboa o Victor e a Mélita que tinham ido com meu pai em 1968. O Victor para estudar no Seminário de Penafirme  e a Mélita para estudar a 2ª clase na Escola Primária de Penafirme,  ficando a viver com os meus  Avós maternos. O  navio "Pátria" tinha a saída prevista para as 16 horas, e saiu na hora,  pontualidade. 
  Navio Pátria ao largo de São Tomé e Principe
O navio "Pátria" chegou ao largo de São Tomé e Principe ás 22 horas do dia 16 de Abril de  1970. Só saímos para terra no dia seguinte às 09H00 da manhã.
O navio ficou ao largo e aconselharam os passageiros a  irem a terra, numas lanchas rápidas e Zé Antunes, Nando e minha mãe Carmitas fomos a terra, mesmo antes se chegar ao porto de desembarque já minha mãe tinha deitado ao mar o pequeno almoço. Fomos visitar a casa do Governador Geral perto de uma Fazenda de Cacau a Fazenda “Boavista” onde almoçamos, passeou-se pela cidade onde vi as lavadeiras de São Tomé a lavar a roupa nos Riachos de água cristalina, vi  as lojas e edifícios de contrução colonial, pelo tudo que vi e que visitei,  gostei e fiquei encantado pela paisagem deslumbrante e tropical, pelas 17H00 foi o regresso ao navio “Pátria” que sairia pelas 20 horas do dia 17 de Abril de 1970.
O navio esteve ao largo de São Tomé e Principe  22 horas sempre a carregar sacos   de cacau e a descarregar sacos de viveres para abastecer a ilha. A  meio da viagem não sei precisar o dia faz-se uma grande festa a bordo que era para comemorar a passagem do Equador, pois os dias estavam a ser muito iguais lá se via de vez em quando uns golfinhos a acompanhar o navio ou um outro navio que se cruzava connosco e se fazia uma festa com as buzinas dos navios, davam-se  umas valentes  apitadelas, porque  de resto era sempre azul tanto o céu como o mar. Chegamos  à cidade do Funchal na muito bela ilha da Madeira. O navio "Pátria" chegou ao Funchal dia 22 de Abril as 09h30 e esteve atracado no porto  do   Funchal cerca de 8 horas:
                                                     Desembarque no Funchal
Ai fomos a terra e deu para passear, almoçar as tradicionais espetadas  e conhecer a baixa do Funchal. Comprou-se algumas recordações e estava na hora de embarcar de novo rumo a Lisboa.
O navio "Patria " chegou a Lisboa no dia 24 de Avril de 1970 às 07 h 00 da manhã, nesse dia já não fomos tomar o pequeno almoço ao Restaurante do navio, tal era a ansiedade de desembarcar, imbambas arrunadas e sacos de mão a tiracolo prontinhos para desembarcar, ficando só à erspera que que o navio acostasse para  pegarmos as malas que vinham no porão e rumarmos ao nosso destino que era Santa Cruz - Póvoa de Penafirme . Torres Vedras.Assim fizemos com a ajuda dos meus tios que estavam a nossa espera, e lá fomos conhecer os meis avós maternos e restante familia. Passeia s férias grandes entre praia e campo. e foi nesse verão de 1970 que fui a Vilar de Mouros a um frande festival de música.
O Festival de Vilar de Mouros, no seu inicio foi a 03 e 04 de Agosto de 1968, que se realizou no Campo do Casal que se realizou o primeiro Festival de Vilar de Mouros eclético, com a Banda da Guarda Nacional Repúblicana. Zeca Afonso, Luis Goes, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes, Quinteto Académico+2,  Shegundo Galarza e ops habituais grupos de Folclore.

Elton Jonh e Manfred Mann no "Woodstock português

O que se escreveu na altura
Três anos para preparar o primeiro grande festival do país
Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd entre as primeiras escolhas
O programa do Festival
A história de D. Garcia
A fraca afluência da abertura clássica
Militares com freiras
A " peregrinação a Vilar de Mouros
Júlio Isidro dá boleia a Elton Jonh
O arranque de Festival de Música Moderna
O estranho apqrelho de Manfred Mann
A apatia do Público
Elton Jonh " showmen"
Música tropical e fado a fechar
O festival recordado por quem o viveu

Pena não ter assistido a este festival, pois só se realizaria no ano de 1971 e ai nessa data já me encontrava de novo em Luanda - Angola

Começo das aulas em Setembro na Escola Indústrial e Comercial de Torres Vedras, levantava-me todos os dias ás 06h00 da manhã para apanhar um maximbombo que aqui se chama de Carreira dos Claras e ia da Póvoa de Penafirme a Torres Vedras ( 10 kmºs ) +ara ter aulas ás 07h30, muito frio, muita chuva, uma altura disse a meu pai que queria ir para Luanda pois não me adaptava ao clima e os meus amigos estavam todos em Luanda.
Nesse entretanto aos fins de semana vinha a Lisboa muitas vezes, para ver o pulsar das noites alfacinhas.
Meu pai deve ter atendido ao meu pedido e depois porque se gastava algum dinheiro com as 5 pessoas que aqui estavam regressamos todos a Luanda no dia 30 de Novembro de 1970
Eu, minha mãe , Melita, fernando e Victor.

1970