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05/06/2012

25 de ABRIL EM LISBOA

O golpe militar do 25 de Abril levado a cabo pelo MFA (Movimento das Forças Armadas) foi uma surpresa para todos em Angola; contudo, não era completamente inesperado. Era do conhecimento geral as dificuldades que o governo português enfrentava em continuar uma guerra muito cara em três frentes distantes e sem apoio popular; sendo assim mais uma questão de "quando" em vez de "se" havia de acontecer. Embora numa boa posição militar em Angola, Portugal enfrentava uma derrota eminente na Guiné, e uma guerra cada mais difícil na forma de uma derrota possível em Moçambique, o que rendia a presença portuguesa em África como não sustentável no longo curso.
Assim, quando a Revolução dos Cravos desabrochou, obteve imediatamente o suporte da grande maioria do Povo Português, apesar de ter sido recebida com certa apreensão nas colónias. Como sabemos, a Revolução de Abril foi uma revolução genuína, pois substituiu em Portugal a ditadura fascista do Estado Novo pela democracia parlamentar multi-partidária. Em pouco mais de um ano,
Portugal desfez-se do seu dispositivo militar extenso, de instituições políticas antiquadas, e desfez-se do seu imenso império ultramarino, voltando-se, pequeno e pobre, para a Europa, depois de mais de cinco séculos de vocação ultramarina. económica e social deixada pelos Portugueses, deixando cicatrizes profundas na sua memória nacional. No que respeita a Angola, a Revolução de Abril abriu o caminho para a sua
independência. Não preparada que estava para assumir a independência política imediatamente, o povo angolano acabou por pagar um preço alto pelo "presente" que se lhe tinha sido oferecido pelo Movimento das Forças Armadas (MFA). A sua posição estratégica e as suas riquezas minerais levaram Angola a transformar-se num peão no xadrez global da Guerra Fria, e como tal, num gigante teatro de uma guerra fraticida que havia de durar quase trinta anos, e destruir toda a sua infra-estrutura
Relembro aquela manhã de vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro  que nas escolas, nas ruas, nos mercados, nas esplanadas correu de boca em boca a notícia de uma revolução em Lisboa. A revolução dos cravos lhe chamavam. Nos dias seguintes apareceu nos jornais ( não havia televisão ) a célebre imagem dum soldado empunhando uma espingarda com um cravo vermelho enfiado no cano, tendo nos braços uma criança.
A alegria contagiou tudo e todos e logo se começou a falar em independência. Como tudo iria ser melhor! Ar­quitectavam-se sonhos de liberdade e progresso. Uma nova era se vislumbrava no amanhecer dum novo dia. Gente de todas as cores parece que bebia o ar da vitória. A Grande Angola iria ser ainda maior. Quanto não iria valer a moeda angolana!… Até já se faziam câmbios. Repórteres de jornais e revistas vieram para a rua fazer inquéritos.
Quem pretendia a independência? perguntavam. Todos, era a resposta de brancos, negros ou mestiços. Quem queria continuar, em Angola? Todos é claro. Todos estavam empenhados no futuro desta terra; os que cá nasceram e os que a tinham adoptado como sua. Apenas uma minoria de militares, alguns quadros e poucos mais tinham intenção de regressar à Metrópole. Na população em geral uma maior onda de fraternidade mais nos irmanava. A independência tornou-se o tema geral das conversas, falava-se dela apaixonadamente.
A grande Angola iria ser ainda maior depois que a guerra acabasse e a energia de todos fosse canalizada para o progresso daquela grande Terra.
Aqui e além porém encontrava-se alguém que fugia ao tema deixando intrigados os restantes.
O primeiro de Maio ainda foi festejado em plena harmonia. Ouviam-se na rádio canções revolucionárias e uma delas falava em emalar a trouxa e zarpar. Esta foi comentada num grupo de amigos e os comentários cheiraram-nos a esturro deixando-nos apreensivos. Passados dias começaram a correr rumores de desordens, de levantamentos. Mais tarde Luanda foi visitada por um oficial general das forças armadas, que foi
recebido em festa, mas que deixou todos ainda mais apreensivos do que estavam.
As medidas que a partir daí começaram a ser tomadas pelo governo central suscitaram a instabilidade, a anarquia no seio das forças armadas e o medo e o mau estar na popu­lação em geral.
Negras nuvens começaram a adensar-se. As notícias da Metrópole eram controversas. Passámos a estar suspensos da rádio e dos jornais. Foi nomeado um novo governador de Angola. Não tardou muito para que os brancos fossem intimados a entregar todas as armas que possuíam. Bandos de negros de aspecto pouco cordial, surgidos não se sabe de onde, começaram a invadir a cidade gritando slogans revolucionários com ar ameaçador. Principalmente os chamados Pioneiros  miúdos de 12 a 15 anos
Soubemos do desembarque de colunas e colunas de soldados e do mais diverso e sofisticado material de guerra, tudo proveniente da Rússia e de Cuba que atravessavam a cidade e desapareciam num abrir e fechar de olhos não se sabe para onde. Os governantes, tendo conhecimento de tudo o que se passava, procediam como se nada de anormal estivesse a acontecer.
A alegria dos primeiros tempos após o vinte e cinco de Abril, cedo começou a desvanecer-se. Afinal muito poucos estavam informados do que se estava a passar. Apenas aqueles que de início fugiam ao tema da independência e os grupos que iam invadindo a cidade tinham uma vaga ideia do que se congeminava nas costas de todos os angolanos. Os militares falavam em segredo. Alguém ouvira aqui ou ali coisas um tanto ou quanto escabrosas sobre o futuro de Angola mas de nada havia certezas. Talvez não fosse verdade pois era demasiado arrepiante para o ser. O boato passou a ser o pão nosso de cada dia. A instabilidade instalou-se definitivamente. Slogans marxistas, tentando expandir ideias comunistas começaram a surgir criando focos de revolução e guerrilha por toda a cidade os quais começaram a alastrar­-se progressivamente a todo o território angolano. Luanda que desde mil novecentos e sessenta e um até então havia sido poupada à guerrilha, via a violência aumentar agora a cada momento. Casos dos taxistas e merceeiros que foram os primeiros a fugir pois muitos deles viviam nos muceques e sofreram as represálias do chamado poder popular. Em Agosto do ano de 1975, o MPLA já era senhor absoluto da capital, de onde havia expulsado os representantes da UNITA e da FNLA.
........( cronologia do ano de 1974 ).......
NOVEMBRO - 28 -- MÁRIO SOARES declara ter proposto aos três "Movimentos de Libertação" uma "Mesa Redonda" para decidir sobre a concessão da independência de Angola.
NOVEMBRO - 29 -- ROSA COUTINHO regressa de LISBOA e confirma as declarações de MÁRIO SOARES, referindo-se apenas ..."aos movimentos de libertação como legítimos representantes do povo angolano"... , esquecendo o Plano da Junta de Salvação Nacional.
DEZEMBRO -- Ainda sobre as consequências da Revolução de 25 de Abril e dos constantes fracassos das conversações e dos "desacordos" com os "Movimentos de Libertação", afirma ORLANDO RIBEIRO na sua obra "A Colonização de Angola e o seu Fracasso" - fls. 47 - "...Na literatura que conspurcou paredes e monumentos, o abandono do Ultramar apareceu em evidência sem que a ninguém preocupasse o destino de meio milhão de portugueses que lá viviam, trabalhando duro, embora muitas vezes traficando sem escrúpulos. O governo não negociou - abdicou -, e nesta..."apagada e vil tristeza"...se afundou o mais antigo e o último império colonial"... - e, ainda, a fls. 378 e sobre o caso de ANGOLA, afirma : -..."o governo português não fez nada para lhes garantir, perante os novos senhores, pessoas e bens; mestiços e a clientela preta engrossaram a debandada"...
------------------ 1975 -------------------

JANEIRO -15- Assinatura do Acordo de Alvor entre as  entidades tendo saído fixada a data de 11/11/1975 para a proclamação da independência de ANGOLA e aos considerados então como "...únicos e legítimos representantes do povo angolano"... (portanto o destino de 6,5 milhões de habitantes, sendo cerca de 600 mil brancos e sem qualquer representante político)!...
MAIO -2- MÁRIO SOARES encontra-se "acidentalmente" com AGOSTINHO NETO em BRUXELAS. NETO estava então "abandonado" pelos soviéticos e sem grande representação política entre os ditos revolucionários nacionalistas. SOARES inicia o..."seu projecto de descolonização".
 MAIO -3- NETO declara então "...A luta não cessaria em Angola enquanto não fosse reconhecido o direito à autodeterminação e independência". Libertação em ANGOLA de 1.200 presos "políticos".
MAIO -6-- Alguns "revolucionários" de Abril reconheceram que a classe política portuguesa não estava preparada para dar sequência à nova situação e que lhes surgira como uma autêntica surpresa. O segredo estivera só entre militares, mas certa imprensa (nacional e estrangeira)soubera de alguma coisa !
MAIO -- MÁRIO SOARES considera os três principais "Movimentos de Libertação" de ANGOLA como..."únicos e legítimos representantes dos povos dos territórios colonizados"...
JUNHO - 4/6 -- A FNLA e a UNITA passam a controlar na zona norte a designada "estrada do café", enquanto boa parte da sua população era evacuada para LUANDA pelos aviões da FAP e outras, com as suas própria viaturas, numa última tentativa de salvarem alguns bens e as suas vidas!
JUNHO - 7 -- A FAP continuava a evacuação dos residentes das zonas mais arriscadas e dando preferência às mulheres, crianças e idosos ou doentes, até porque muitos dos homens válidos estavam ainda dispostos a manterem-se nas suas posições., defendendo-se, mesmo com o risco de suas vidas..."Mas nada disto importava à nova classe dirigente do País no pós 25 de Abril, quando defendiam a imediata e total independência para as colónias, quando sabiam ou deviam saber que estavam colaborando num projecto de entrega da tutela daqueles territórios a um dos jogadores que tinha perdido no terreno, com confronto armado com os seus opositores.
JUNHO - 9 -- Em face da instável situação que se verificava, PALMA CARLOS dizia a COSTA GOMES :..."Isto vai acabar já! Esses homens recolhem imediatamente a quartéis,pois não foi para isso que fizemos o 25 de Abril".
JUNHO –10-- Com o agravamento dos conflitos entre os "Movimentos de Libertação" angolanos (MPLA - FNLA e UNITA) e o da situação dos seus residentes, avoluma-se o êxodo geral das populações não confiantes na questão que ali se desenrolava . tendo-se iniciado a sua evacuação para as principais cidades e o seu transporte para PORTUGAL, BRASIL e ÁFRICA DO SUL, especialmente a partir da entrada em funcionamento da "Ponte Aérea", com saídas de LUANDA (e ligações de NOVA LISBOA com a colaboração da TAP e "SUISSE AIR").
JUNHO – 21 – Embarque de Zé Antunes, Amélia e Carmitas  no Jumbo da Tap destino Lisboa.
JULHO - 7 -- MÁRIO SOARES declarava : ..."Angola é grande, há grandes interesses em jogo"... - "O governo português jamais abandonará portugueses; negociará com os Movimentos, em ordem a chegar à paz"...
JULHO –10 - O ministro de Economia de Angola declara que os membros do Governo de Transição eram incompetentes ! Por sua vez o Alto Comissário LEONEL CARDOSO revela uma declaração feita pelos "Movimentos de Libertação" durante uma reunião em NAKURU de que ..." o insucesso dos cinco primeiros meses da descolonização tinha sido exclusivamente das suas responsabilidades"... Mas, muitas outras coisas eram ainda de sua culpa, embora acusassem o MFA, o Acordo de Alvor e o Alto-Comissário !

 JULHO - 12 --... O Ten.Cor.ALMEIDA BRUNO, Chefe da Casa Militar da Presidência, considera o 25 de Abril..." um levantamento precipitado"... e que tinha aderido..."na esperança de avançar, ainda, com o sonho de uma descolonização, que não destruísse os nossos 500 anos de História"... Quanto à situação de ANGOLA antes do 25 de Abril, declarava : ..."Estava completamente nas nossas mãos... Nós podiamos ter feito uma descolonização exemplar"..." -- "...a descolonização foi a entrega de todos os territórios à zona de influência da União Soviética. Esta é que é a verdade"...
JULHO - 19 -- Num comício do PS, em CASCAIS,MÁRIO SOARES (Ministro do Governo Provisório), afirmou : ... "O processo de descolonização está a ser desencadeado com a celeridade que é possível e de molde a garantir o património daqueles portugueses que ajudaram a desenvolver os territórios africanos"...
JULHO -- 22 - Assembleia Geral do MFA em LUANDA, utiliza a referida Comissão de Inquérito como "capa" para decidir sobre a substituição do governador SILVÉRIO MARQUES, já exonerado desde o dia 16..."Afinal tudo havia sido "cozinhado" mesmo antes da chegada de Rosa Coutinho e logo que foram conhecidas as razões da sua vinda"... de : "ANGOLA -Anatomia de uma Tragédia" 
JULHO - 27 -- O Presidente SPÍNOLA, no seu discurso, declara que..."O processo de descolonização significava o direito à independência política com transferência de poderes para as populações dos territórios ultramarinos"... Desistia assim do seu "ideal federalista" e desperta a formação de partidos da direita("Liberal" e o "Progresso"). Publicação da Lei nº 7/74.
JULHO - 29 - Foi raptada a médica FERNANDA SÁ PEREIRA, moradora na Avenida Sá da Bandeira, em LUANDA, após ter estado algumas hora de serviço na Maternidade, ali próxima. Era casada com JOÃO MANUEL SANTOS RAMALHO.

 AGOSTO - 4 -- Em vários locais de ANGOLA a bandeira nacional já havia sido substituída pela do MPLA !

AGOSTO - 05 - "Acresce que o abandono dos Angolanos ao seu destino em 1975, sem a realização de eleições livres e justas como estipulado e calendarizado nos Acordos de Alvor (artº 40) e de Nakuru (artº 6º) tornou-se um prego no caixão da diplomacia preventiva e da prevenção do conflito de Angola. O resultado foi descolonização "à la portugaise" que C. Crocker qualificou de o mais irresponsável acto de descolonização em toda a história do pós-segunda guerra mundial "... - ..." Em segundo lugar, pelas próprias Nações Unidas. Nas suas memórias, Waldhein admitiu ter recusado a proposta do governo português para que a ONU o sucedesse na autoridade executiva de Angola até à data da independência"...
AGOSTO - 7 - Do "DOCUMENTO DOS NOVE", encabeçado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros de PORTUGAL, MELO ANTUNES, constava que : ..."A fase mais aguda da descolonização chega sem que se tenha tomado em consideração que não era possível "descolonizar", garantindo uma efectiva transição pacífica para uma verdadeira independência, sem uma sólida coesão interna do poder político, e sem,sobretudo, se ter deixado de considerar que a "descolonização" devia continuar a ser, até se completar,o principal objectivo nacional. Vemo-nos agora a braços com um problema em Angola, que excederá provavelmente a nossa capacidade de resposta,gerando-se um conflito de proporções nacionais que poderá, a curto prazo, ter catastróficas e trágicas consequências para Portugal e para Angola. O futuro duma autêntica revolução em Portugal está,em todo o caso, comprometido, em função do curso dos acontecimentos em Angola, à qual nos ligam responsabilidades históricas inegáveis, para além das responsabilidades sociais e humanas imediatas para com os portugueses que lá trabalham e vivem", escreveu o grupo de oficiais, quando entendeu ter chegado "o momento de tomar uma posição".
AGOSTO - 8 -- COSTA GOMES afirma..."A descolonização acelera-se com vantagens e inconvenientes em relação ao planeamento inicial"...(?)..
AGOSTO - 9 -- SPÍNOLA, vendo o mau caminho para a Descolonização, decide-se e a Junta de Salvação Nacional comunica :..."A Junta de Salvação Nacional reitera  solenemente, perante toda a população de Angola, que o Governo Provisório tomará todas as medidas necessárias a salvaguardar a vida e os haveres dos residentes de Angola de qualquer cor ou credos de acordo com o Programa das Forças Armadas"... !  ... Em muitas povoações e mesmo cidades a população evitava sair de casa por falta de segurança nas ruas; podia acontecer não regressar para junto da sua família !
AGOSTO - 16 – Vinda de Augusto Jesus Ribeiro Pai da São e esposo da Tercilia ao chegar afirma..."Estava  farto de comer bananas foram só 15 dias……..
AGOSTO - 21 - Foi declarado o "estado de sítio" em ANGOLA e suspenso o Acordo de ALVOR.
AGOSTO -- SILVA CARDOSO desloca-se ao Luso para um encontro com SAVIMBI...De regresso a LUANDA deu conhecimento à Junta Governativa das diligências efectuadas e das suas apreensões sobre a dificuldade que constatara existir para um futuro desarmamento dos "Movimentos" em litígio, ao que ROSA COUTINHO ripostara..."Isto é selva e na selva só sobrevive a lei do mais forte e, por isso, não vale a pena estarmos para aqui com fantasias e cada um procurará armar-se o mais possível; até no campo político, o sucesso depende muito do factor força"... (de : "ANGOLA, ANATOMIA DE UMA TRAJECTÓRIA", do general SILVA CARDOSO, pgs. 399 - 4ª edição - 2001 - --
SETEMBRO - 23 -- ROSA COUTINHO regressa de LISBOA e anuncia que o Presidente da República passará a liderar o processo da descolonização nas relações internacionais e de nelas tomarão parte os representantes angolanos. Já antes SPÍNOLA afirmara :..."tomava em suas mãos o processo de descolonização de ANGOLA"... !

SETEMBRO - 1 -- Os "retornados" das colónias ocupam o BANCO DE ANGOLA, em LISBOA, exigindo a troca dos seus escudos pelos escudos metropolitanos. Zé Antunes e mais uns quantos amigos partecipam  nessa ocupação.
SETEMBRO - 29 -- Nova manifestação de apoio ao MFA contra SPÍNOLA.O general COSTA GOMES afirmava categórico :..."No processo de descolonização, tudo faremos para respeitar os legítimos interesses das populações locais"...
 SETEMBRO - 30 -- Termina "oficialmente" a operação "PONTE AÉREA" em ANGOLA, por intermédio da qual foram evacuados para PORTUGAL (com partidas de NOVA LISBOA e de LUANDA), cerca de 600 mil dos seus residentes (metropolitanos e angolanos, sem distinção de raças). Durante este mês (?) e em face da presença cada vez maior e concentrada dos deslocados nas cidades de NOVA LISBOA e de LUANDA, foi necessário proceder ao reforço desses meios; assim entraram ao serviço os grandes aviões da ALEMANHA, dos EUA, da FRANÇA, da INGLATERRA, de MOÇAMBIQUE e mesmo da RÚSSIA. As povoações e outras cidades do interior ficavam "desertas", porque, pelo mínimo descuido, corriam um risco máximo, por vezes mesmo o da própria vida! Essa concentração de muitos milhares de pessoas, registava-se em especial nos seus Aeroportos transformados em verdadeiros e quase únicos refúgios que ofereciam uma relativa segurança, onde ainda se podiam ver alguns militares portugueses (às vezes misturados com os outros), em longas horas de espera e angústia, mesmo de dias, sem o mínimo de condições higiénicas nem de outros apoios sempre necessários. Crianças, mulheres, idosos e doentes nem sequer tinham um simples colchão para se sentarem ou deitarem ! Mesmo aí verificaram-se ainda alguns abusos de certas "pseudo autoridades", bem armadas e ameaçadoras !  Tudo faltava; reinava o oportunismo, a especulação, a exploração desenfreada. Era necessário obter os principais meios de sobrevivência e abandonar todos os restantes bem materiais (casa, carros, móveis...) e até empregos; só alguns amigos e familiares mais próximos se iam mantendo unidos. O objectivo principal e final era "apanhar um lugar" num dos aviões da Ponte  Aérea, mesmo abandonando as últimas bagagens ! Bastava a roupa do corpo e a carteira com os documentos, porque os "desgraçados" escudos angolanos, emitidos pelo Banco Português, já de nada valeriam ao chegarem ao Continente (como os tempos mudam !). Os oportunistas lá estariam à espera dos "colonialistas", dos "exploradores" para então sim, os explorarem, para os espremerem até deitarem sangue ! A cada viajante ou pessoa de família ("retornados") só era permitido transferir uns magros dez mil escudos, contrariando promessas assumidas !
OUTUBRO - 20 -- SILVA CARDOSO regressa a ANGOLA com todo o apoio de COSTA GOMES. Do seu regresso de MOÇAMBIQUE, MELO ANTUNES teria afirmado em LUANDA, admitir a hipótese da intervenção de forças políticas no processo da descolonização :..." estou optimista relativamente a uma solução política para o problema de Angola a curto prazo"... Portanto, prevejo um futuro para Angola em que as forças políticas mais significativas, tanto dos movimentos de libertação, como de residentes angolanos sejam eles de qualquer etnia que se considere terão a sua representação política e acabarão por encontrar os esquemas políticos adequados que levem até à independência .

 OUTUBRO -- 21..."Do ultramar, milhares e milhares de refugiados vieram reintegrar-se na grei. Vinda de meu pai  ( Júlio Inácio ) e do meu irmão ( Fernando.) Alguns apenas com uma camisa debaixo do braço. Abria-se-lhes via dolorosa, para além das amarguras que haviam passado. Na Junqueira, nesses dias sinistros, a massa humana era tratada com o mesmo desprezo com que os negreiros haviam tratado os escravos. Os escravos ao menos eram riqueza, impunha-se cuidar deles com zelo. Os retornados, esses surgiam como fardo para a economia nacional, exangue ao cabo de tantos anos de guerra".
OUTUBRO – 25 – Vinda do meu irmão Victor, depois de uma semana a trabalhar no Banco , conseguiu o último voo da Ponte Aérea

"DESCOLONIZAÇÃO E POLÍTICA EXTERNA"
..."Para ser libertadora, e coerente, e honrosa, a descolonização teria de fazer-se de maneira ideologicamente descomprometida; balizada pelo interesse real das populações coloniais, servindo a democracia e a liberdade. ..."Que se fez em vez disso ? O CDS, partido personalista, que pondera, sobretudo, os valores e a situação da pessoa humana, não pode deixar de afirmar que a descolonização foi, sem dúvida, o sector da prática governamental- militar e civil - em que maiores e mais trágicos erros se cometeram !
..."Por incompetência, sem dúvida. Por ambição pessoal e carreirismo político de alguns militares, certamente. Mas sobretudo porque à descolonização presidiu um claro empenhamento ideológico que se traduziu no privilégio despudorado concedido a certas forças ou movimentos e,ao nível interno,na criação de um clima de intoxicação demagógica destinada a empolar, no Povo Português, um sentimento exagerado de culpa relativamente ao fenómeno da colonização, que veio a desmobilizar as Forças Armadas, incapacitar as forças políticas responsáveis,calar a voz indignada do povo, o clima, enfim,propício ao abandono puro e simples dos deveres e das responsabilidades e à recusa dos sacrifícios que importaria ainda fazer, durante o período da descolonização, para assegurar a expressão livre da vontade do país chamado à independência.
..."Os resultados deste processo estão à vista : duas guerras civis de trágicas dimensões, centenas de milhares de refugiados, forçados a abandonar as suas terras de origem ou de fixação e a desfazer as suas vidas.Os mortos. A destruição e a miséria. E sobretudo, a liberdade falhada, as novas e mais duras servidões.
..."Por isso a descolonização portuguesa nada tem de exemplar, pelo contrário, foi uma descolonização escandalosa. Porque errada e anti-democrática, porque historicamente falhada!"


 "OS DIAS DA VERGONHA"
..." Um dia, que esperamos a justiça dos homens não faça esperar muito, será classificado o que se passou no Ultramar Português, e especialmente em Angola, no que se refere à chamada "Descolonização". Nessa altura haverá revelações que muito surpreenderão o nosso povo.
"Entretanto, a verdade dos acontecimentos está sendo, aos poucos, descoberta por testemunhas isentas e sensíveis que, numa tassitura, aqui e além romanceada, vão contanto o que efectivamente presenciaram, ainda sem grande preocupação, ou possibilidade, de aprofundar as respectivas causas"

"INDEMNIZAÇÕES POR BENS" ------ ---

..." O governo português mandou publicar,em 1976,nos principais jornais, um anúncio nos seguintes termos :

..."Informa-se todos os interessados que tenham deixado bens e dinheiros nos antigos territórios portugueses que deverão enviar uma relação dos mesmos directamente ao Instituto da Cooperação Económica e Direcção Geral da Economia, organismos dependentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros,Largo Rivas, Lisboa. Essas relações, que terão de ser acompanhadas de fotocópias dos documentos comprovativos da propriedade desses bens e dinheiros destinam-se apenas a obter uma tipificação e quantificação de casos concretos para apresentar em eventuais negociações"...

..."O recurso aos tribunais portugueses tem sido impedido pela Lei º 80/77, cujo Artº 40º estipula que ..."as reclamações por bens sitos em territórios de ex-colónias, que se prove terem sido aí expropriados, nacionalizados ou de outra forma objecto de privação duradoura de posse ou fruição, bem como os respectivos títulos representativos de direitos, estão sujeitos a regime de indemnizações fixado segundo a lei do Estado que procedeu à respectiva nacionalização, expropriação ou privação da posse ou fruição"...
"O EXEMPLO DE OUTROS PAÍSES COLONIZADORES"
..."Aquilo que pode afirmar-se constituir um novo princípio geral de direito -- o de o Estado indemnizar os seus cidadãos vítimas da descolonização -- tem sido respeitado pela generalidade dos países cuja soberania se estendia a territórios ultramarinos. Assim aconteceu nos casos da Grã-Bretanha, da Bélgica, da Itália, da França, da Holanda ou da Alemanha. Portugal constitui a este respeito uma lamentável excepção : vinte anos decorridos, o nosso país não só não elaborou qualquer legislação nesse sentido como nem sequer admitiu uma responsabilidade que, em casos idênticos, as demais potências colonizadoras assumiram de pronto.
 Mais ainda numa atitude que qualificaríamos de menos séria, procura transferir as suas obrigações para países terceiros que nem para tal estão vocacionados nem possuem meios materiais para proceder a quaisquer indemnizações (Artº 40 da lei das Indemnizações nº 80/77, de 26 de Outubro."...
 "Dos fracos também reza a história"
..."Nesta semana foi publicada uma entrevista com Almeida Santos(AS) sobre o tema da descolonização. Mais uma vez AS descarta-se de responsabilidades no processo, pela tragédia que este implicou para os povos nos novos países. Se esta desresponsabilização não é nova, ficamos agora a saber que afinal os responsáveis são Salazar e quem lhe bateu as palmas. Mais umas entrevistas de AS e ficaremos a saber que afinal o responsável pelo processo da descolonização foi o D.Afonso Henriques que se revoltou contra a própria Mãe.
 Com uma argumentação deste tipo, não há muito mais a dizer.
..."Foi o testa de ferro do processo, dum trágico processo de descolonização (trágico em todos os sentidos -- humanos, económicos, sociais, civilizacionais -), do qual Mário Soares foi um dos principais responsáveis, actualmente encapotados, e nunca deixou qualquer marca positiva no nosso país" ...
"Apesar do ditado popular rezar que a história não recorda os fracos, este não é completamente verdade"...
"RETORNADOS"
"Quando em 1974/75 Portugal começou a"descolonização exempar"das antigas colónias ultramarinas, os portugueses aí residentes foram obrigados a optar entre a "morte ou a fuga"! Foi assim que muitos vieram para a "sede da Pátria Lusa", e foram apelidados de "retornados"!  "Esse termo tinha na altura uma forte carga "descriminatória e humilhante"!
 "Mas, note-se que este termo foi "arranjado" pelo próprio governo, com a criação do IARN ! E se é verdade que muitos desses portugueses retornaram a Portugal, muitos outros não retornaram! Retornar é voltar a..., regressar a ... e esses portugueses que tinham nascido e crescido nas colónias, acabaram por vir parar a Portugal e não retornar ! "Os "retornados" sofreram privações de toda a espécie !
 Foram apelidados de quase tudo, "morreram e foram obrigados a ressuscitar" e agora "olham para trás com uma paixão pelas suas terras, usos e costumes, que as palavras não conseguem, descrever" ! "A grande maioria dos retornados "deu a volta por cima" e são hoje fonte produtiva de Portugal ! Nos últimos tempos, cerca de 200 mil portugueses foram para Angola! Há já quem defenda a teoria de que o futuro de Portugal passa pela emigração para aquele país. Provávelmente, muitos desses portugueses são agora "retornados" naquela terra que ajudam a renascer ao mesmo tempo que ajudam Portugal, por razões óbvias!
 "E assim, muitos "retornados", depois de espoliados, ainda vão ajudar Portugal... " Obrigado aos "retornados" pelo que têm feito por este país !..."

 Abril de 1974
Memórias de Angpla

MINI-HONDA ROUBADA

Numa  determinada semana de um mês que  não posso precisar do ano de 1973 , fiquei com a Mini-Honda do João Silva “ João Mulato”, para a pintar e como o João  ia ausentar-se por motivos profissionais,  salvo erro ia para o Huambo (Nova Lisboa) ia montar uns balcões de frio, penso que  ele trabalhava na “Prestcold” com o Luis Manuel ( Lili) e então preparei a Mini – Honda, toda desmontada, lixada e pintei-a com uma cor castanha e com púrpurina  parecia mesmo castanho metalizado estava linda, Toda montada, levou pistão e segmentos novos, vamos fazer a rodagem.
Assim  naquele dia levo a Mini-Honda para o meu emprego, na “Represental” estacionada em frente à portaria e digo ao nosso porteiro que na altura era o Agostinho um negro fixe   (fui o único branco convidado para o casamento dele já em 1974). Agostinho pelo sim pelo não vai vendo ai a Mini-Honda,  de dentro dos vidros das montras via-se tudo, de fora para dentro não se via nada pois os vidros eram espelhados.
De repente ai a meio da tarde num  pequeno descuido só já lá estava o lugar da motinha, a Mini-Honda tinha desaparecido. Fui á policia na Mutamba ao pé da Casa de Trás os Montes e partecipei  o desaparecimento da Mini-Honda. Nessa tarde fui para o Bairro Popular nº 2 no maximbombo 22, todo chatiado e bem aborrecido pois se a Mini-Honda não aparecesse teria que ressarcir  o meu amigo João. Cheguei ao Bairro e desabafei com vários avilos lá no nosso poleiro ou seja no muro do Bar do Matias.
Eis que o Luis Manuel Van-Dúnen diz: é pá eu vi no Liceu Salvador Correia um puto com essa Mini-Honda dessa cor que estás a descrever e o candengue até falou com  a garina Milita, que lhe perguntou de quem era a Mini-Honda, e a garina sabe onde o candengue mora, fiquei logo animado e lá fomos no Opel Kadete do meu pai para o Bairro do Prenda, fui eu a Milita e o Luis Van-Dúnem e o meu pai. Deveriam ser para ai umas 20 horas quando chegamos ao Prenda, subimos ao 6º piso. Batemos à porta e veio a mãe do candengue, lá explicamos ao que iamos e o candengue já estava na cama o que até a mãe estranhou. Veio ter connosco e ia dizendo que não tinha estado no Liceu Salvador Correia, e ai o Luis Van-Dúnen  perguntou se ele conhecia a Milita ele disse que sim,  vim cá abaixo e levei a Milita para o confrontar, logo que o candengue viu a garina pôs-se a chorar e sentindo-se encurralado,  disse onde estava a Mini-Honda e que estava guardada na casa da Tia dele na Rua de Serpa Pinto, perto do Largo da Maianga. Lá fomos a tal direcção e resgatamos a Mini-Honda que estava impecável sem nenhum arranhão, fiquei mais tranquilo e nos dias a seguir já tinha cadeado e fechava a Mini-Honda no poste da electricidade em frente à “Represental”. Fui a policia retirar a queixa do desaparecimento.
O João quando chegou da sua deslocação nesse fim de semana,  lá lhe contei o que se tinha passado e ele só se ria da minha possivel desgraça, pois se a Mini-Honda não aparecesse, lá teria que o ressarcir pelo dano causado.
HISTÓRIAS DE VIVÊNCIA QUE FICAM SEMPRE NA NOSSA MEMÓRIA


                            João Mulato na sua Mini-Honda
              ZÉ ANTUNES

 
                     1973

DÁRIO E A QUEDA

Esta cena passou-se quem ia para o Palanca junto à casa do Sr. Morais  no topo da rua.  A casa era a única  e tinha um monte de terra apetitosa para uns saltos, a uns 10 m de largura. Vai daí, embalagem tomada sai salto. Um, dois, três, foi-se juntando malta,  das redondezas, cada vez mais velocidade e era diversão para todos. Até que...Em vez de 1 eram 2 na mota (o Dário a conduzir  e o Luis  atrás).Em rigor da verdade não me lembro como as coisas se passaram, ao pormenor mas juntando o que eles  me contaram , as deduções pós-situação, terão sido assim: Ao fazer um dos saltos, ele ter-se-á levantado (ou não), houve um  desiquilíbrio e quando a mota bateu no chão, fê-lo meio de lado, e foram bater de frente num poste (naqueles cinzentos, gordos, feios e com mania de se mudarem quando a mini-honda passa).Foi grave, o Dário ficou  inconsciente muito tempo, só se  lembra de acordar na casa de banho no 1º andar da casa do Sr. Morais, com ele a perguntar-me "Como te chamas?" averiguando o seu estado de (in)consciência. Não se lembrava de nada, desci e  vi a mota (a suspensão empenou de tal forma que a roda quase tocava na cabeça do motor). Subi  de novo,  não acreditando no que tinha acontecido. Conta o Luis  que ao sentir que iam bater colocou a mão dele na  testa do Dário e a puxou para trás.  Bateu  com o peito e (segundo ele) foi um estrondo. Creio que aquele gesto do Luis salvou a vida do Dário , pois à velocidade que iam, se batesse de cabeça, não havia escapatória. O medo do Dário  era  a reacção que o pai poderia ter, nem ao hospital foi. Um primo que tinha vindo de Cabo Verde e estava a viver com ele tratou de arranjar a mota, levou-a (não me lembro a quem) cortaram a suspensão e acrescentaram uns 10 cm, soldaram a coisa e assim passou  a ter uma mini  easy ryder como eu a chamava. Os quilómetros nunca mais aumentaram porque a bicha não tinha comprimento suficiente.  Após a vinda para Lisboa,  o Dário  levou-a  para Cabo Verde , vendeu-a  anos mais tarde (através do meu amigo  Moreira) e com o combu recebido (20.000$00) abriu  a sua 1ª conta no banco, que serviu para pagar  a carta de condução, perpetuando dessa forma a existência da sua  mini-honda na sua mente.


                       Mini Honda

Zé Antunes

1973

04/06/2012

TRUMUNO


Quando nós eramos  kandengues,  punhamos  os livros no chão, ali mesmo naquele largo do Preventório Infantil de Luanda, de areia batida pelos pés dos  mais velhos que passavam ali sempre que iam para as  bumbas ( trabalho ).
Naquele largo, descalçávamos os kedes (para não estragar, senão a  mãe nos ia ralhar) para fazer de baliza e com uma bola de meia bem forrada. Enquanto uns faziam as balizas e marcavam a área com os pés descalços, outros iam jogando a caçumbula.


Aí o Barata e  o  Beto mandavam a gente parar com a brincadeira e diziam:
Vamos fazer escolha, vamos fazer escolha...Eles saltavam e faziam medição.  Um escolhia o Nando, o Zé Antunes, o Tó Barata, o Tino, o Antoninho e o Kubota…..
O outro escolhia o Gila, o Dário, o Beto,  o Tonito, o Perninhas, o Rui  e o Victor…. e aí iamos começar nosso trumuno.


Os trumunos de bairro, em alguns casos, não têm duração certa. Podem ir aos 90 minutos ou mais, as vezes era noitinha já e ainda se jogava. Mas também podem ter menos tempo. As substituições são à vontade dos atletas e craque que é substituído pode entrar outra vez. Às vezes os adversários são apanhados distraídos e uma equipa, na dança das substituições, fica a jogar com mais um atleta do que a outra. Cuidado! O tempo de jogo depende do cabedal dos integrantes da equipa.


Nem é futebol de campo nem de salão. Cada equipa pode alinhar com sete, oito ou mais jogadores. Joga quem aparece e se aparecerem mais do 11, há lugar para todos. Nos trumunos só marca golos quem tem o pé afinado. Muda aos cinco e acaba aos dez. Ali o golo é uma festa.


O Beto virou doutor, passa nem cumprimenta - doutor não conhece amigo da pelota. Ah, mas eu não esqueço quando aquele madié  pegava na pelota ninguém lhe agarrava, dava cada vírgula e adiós que os outros caíam com o mataco no chão, diziam até que ele ia ir em Lisboa jogar.


O Mukuna guarda-redes,  (pópilas, era cada mergulho! A garotada aplaudia).
Tinha também o Kubota...- Coitado do Kubota! Nós lhe chamávamos assim porque ele quando corria batia com os calcanhares no mataco.


É verdade, e o Rui?  Que é feito, que é feito dele? Aquele rapaz tinha uma berrida! Quando ele pegava com a bola ninguém lhe agarrava até na baliza.
E o Gila? O miúdo pequeno que pulava os quintais para roubar mangas e cajús e depois batia uma fuga das velhas que queriam lhe agarrar.  Fraquito , mas tinha uma berrida!  Nunca mais! Nunca mais! Tempo da minha descuidada meninice, nunca mais!...


Era bom aquele tempo, era boa a vida a fugir da escola, a trepar aos cajueiros a roubar os doceiros e as quitandeiras  às caçumbulas...


No tempo dos trumunos rijos, no campo do Preventório Infantil de Luanda,   éramos os campeões do mundo. Nas férias, as partidas duravam todo o dia e não nos restava tempo para pensar em coisas más. Apesar de amigáveis, os jogos entre bairros eram, também, a oportunidade para manifestarmos o orgulho pelo nosso bairro, pela nossa rua, pela nossa gente. Dávamos o litro para não perder. Muitos partiram pernas e tiveram outras lesões graves para evitarem a derrota.
Na hora de perder, a humilhação não era apenas nossa, dos atletas. Era da claque que nos acompanhava para nos ver jogar, era dos moradores todos lá do bairro.
Os miúdos do meu tempo, hoje quase todos acima dos 50, mostraram isto mesmo, sem pedir nada em troca. Era um tempo em que nós, os meninos, cientes dos nossos deveres, nos esquecemos dos nossos direitos.
E a gente fazia o nosso trumuno... Oh, como eu gostava!
Eu gostava qualquer dia de voltar a fazer medição com o Mukuna... escolhia o Beto, o Victor, o Tonito, o Nando,  o Dário e o Rui e íamos fazer um trumuno  como antigamente!
Ah, como eu gostava... Mas talvez um dia quando a sombra das mulembeiras for melhor,  quando todos os que isoladamente padecemos  nos encontrarmos iguais como antigamente talvez a gente ponha as dores, os medos desesperadamente no chão do largo de areia batida pelos mais velhos que iam bumbar.
Vamos então fazer o nosso trumuno...
Zé Antunes -adaptado de um mail de Vergilio Morais


1973



BANQUETE

Banquete  é uma grande refeição, festiva e pomposa. A pessoa que organiza e cobre os gastos de um banquete é chamada anfitrião. Normalmente, tem como propósito uma celebração, como, por exemplo, um casamento.Quanto maior o império, maiores as festas que a nobreza e os aristocratas ofereciam. O que dizer sobre o Império Romano, um dos maiores de todos os tempos? Tamanho era o gosto deles por jantares luxuosos e festas, que costumavam evoluir para orgias, que alguns políticos resolveram a baixar leis para moderar a farra. Uma delas, a Antia Lex, do século 1, limitava os gastos com essas comemorações e instituía que os magistrados só poderiam jantar fora se fosse na casa de determinadas pessoas.


Claro, ninguém obedeceu. Acabou sobrando para o autor, Antius Resto. Segundo o filósofo Macrobius, como todos continuavam com suas orgias, para não contrariar a própria lei ele nunca mais foi visto jantando fora.Outro bom exemplo da paixão romana pelos banquetes é personificado por Marcus Gavius Apicius. Amante da boa vida, gastava verdadeiras fortunas em seus jantares. Entre suas extravagâncias, adorava língua de flamingo e nunca servia couve – chegou a dizer ao filho do imperador Tibério que era “comida de pobre”.Banquetes são festas pomposas às quais comparece grande número de convidados. No Oriente, em tempos passados, dava-se a elas o nome de simpósios, cujo significado era o de reuniões onde os convidados bebiam em comum.
Já entre os hebreus tais confraternizações recebiam o nome de michtê, que são citadas na Bíblia como reuniões realizadas durante festas religiosas ou destinadas a comemorar acontecimentos públicos. Os egípcios celebravam com banquetes o nascimento de um faraó, ao passo que gregos, romanos e etruscos os realizavam por ocasião de sacrifícios religiosos ou como evocação da memória de alguém.Primitivamente, os que participavam de um banquete sentavam-se juntos para desfrutá-lo. Mais tarde, os convidados passaram a se acomodar em leitos próprios, onde escravos primeiramente lhes tiravam as sandálias, lavavam seus pés e untavam seus cabelos e barba com perfumes oleosos. Só depois eles saboreavam as refeições. Os banquetes romanos, inicialmente revestidos de certa simplicidade, copiaram aos poucos o luxo asiático e assumiram a forma faustosa das festividades orientais. 
Isto para contar que nos anos 1973 fui a um banquete na Quinta da Rosa Linda perto do Futungo de Belas, e ai vi o que era composta aquela mesa com tantas iguarias e tanta quantidade de comida. Foi o casamento de um familiar de uma alta patente na altura no Governo Geral de Angola e eu fui convidado pelo filho de um
administrador do Banco de Angola, meu amigo das lides escolares. Claro depois de tamanho banquete houve funguta até altas horas da madrugada.


1973

SELO DE POVOAMENTO



Todos nos lembramos do selo de Povoamentos. Ele perseguia-nos a toda a hora e em qualquer local. E não havia documento ou acto que não estivesse a ele subjugado. Havia selos de diversos valores.

Confesso que ao contrário do que hoje se passa comigo, naquele tempo eu via com bons olhos o pagamento daquele selo porque "sentia-se" que Angola estava em crescimento e os nossos impostos eram bem aplicados (pelo menos aparentemente).

Associado a isto veio-me à memória o célebre “selo de povoamento”, criado ao abrigo do diploma legislativo nº 3230 de 21/3/1962, um imposto “para o progresso das populações de Angola”.

Havia vários a preços diferentes, mas o mais emblemático era mesmo um rectangular com um fundo azul berrante onde sobressaiam três caras jovens de cor diferentes, que pretendiam simbolizar a multirracialidade da então “província de um vasto império”.

Esse selo tinha que ser comprado e colocado em todo e qualquer acto ou requerimento. Penso que em determinada altura nas cartas para o interior de Angola também era obrigado a partilhar o canto superior esquerdo do envelope com as estampilhas do correio. Nos anos setenta ainda se fez na Angola independente um selo com as mesmas características para a “Reconstrução Nacional”.




Zé Antunes

1973







RUCA

Decorria o ano de 1974 e ainda hoje me lembro sempre de um garotinho bem canuco,  o RUCA deveria ter 4 anos irmão do Carlos Santos (Bia) sobrinho do Chico Leite que era todo espevitado e inteligente e quando eu chegava  pelas 18H00 ao bairro e á rua da Gabela  depois de mais um dia de trabalho e como era usual ir dar um alô as Garinas ele queria ir sempre comigo para dar uma voltinha na torraite, e ainda me lembro de ele me pedir Banga Zé vamos dar uma kicorta na tua mota e lá ia com ele dar a voltinha e dar uns piropos às Garinas.
Nesse dia não sei precisar a data chego ao bairro e à Rua da Gabela e não vejo o candengue, pergunto e dizem-me que tinha ido para o Hospital pois tinha sido electrocutado na tomada eléctrica da sala quando procurava um berlinde que teria ido para debaixo de um candeeiro de Sala ( Pé ). Lá fui direito ao Hospital de São Paulo e recebo a triste noticia, que ele não se tinha salvo, No funeral foi quase toda a malta do Bairro, pois todos tinham um carinho muito especial por ele. RUCA meu amigo descansa eternamente em Paz que eu sempre me lembro de ti, com muito amor e amizade.





                  Ruca no portão da casa da Inês
Zé Antunes
1974