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22/06/2012

HISTORIA DO BERNARDO




É voz corrente que a integração dos chamados Retornados/Refugiados” das ex-colónias portuguesas foi pacífica, e que Portugal até conseguiu superar a poderosa França nessa matéria! Há alguma verdade nessa afirmação, mas terá sido assim tão linear? O autor, na qualidade de funcionário - retornado, expulso de Angola, vai tentar pôr o leitor em contacto com pessoas, famílias e funcionários públicos que tiveram de recomeçar a vida em Portugal, debaixo de dificuldades, privações várias, após terem deixado para trás – TUDO - [quiçá, a própria alma), em nome de uma Descolonização a que chamaram, imagine-se, de “Exemplar”, e que, ainda hoje, no ano de 2000, exibe as suas feridas crónicas - casos de Timor, Guiné, Moçambique e Angola - como é do conhecimento de todos. Pretendo, assim, com este modesto trabalho, prestar a minha justa homenagem a todos os “Retornados/Refugiados” que souberam engrandecer este Portugal, (nas artes, letras, ciências, ensino, funcionalismo público, construção civil, comércio, etc. ) na altura mais crítica das suas vidas e da sobrevivência deste país, recém saído do 25 de Abril de 1974.

I- A FUGA

Fujam, fujam... era a voz que se ouvia no cais de Lobito, naquela manhã de sol de 1975...
Ao longe, o matraquear das metralhadoras e o estoiro dos morteiros de sessenta milímetros. Era a guerra que chegara do mato e invadia a cidade. Bernardo tinha saído de casa para o seu emprego de contínuo no porto e só teve tempo para saltar para o bojo de uma traineira, ainda agarrada ao molhe por um cabo de aço, rangendo e pingando ferrugem amarelada. O motor foi ligado a todo o gás e a embarcação desprendera-se do cais, deixando um pedaço do cabo de aço ainda agarrado ao molhe. Malaquias, só com a roupa que levara no corpo para o serviço, um fato azul, gravata vermelha e camisa branca, foi atirado para o convés da traineira, ficando quase a lamber as tábuas cheirando a peixe seco e que forravam o castelo da proa. O mar estava grosso; as nuvens de fumo das morteiradas ainda toldavam a bela cidade de Lobito, com a restinga ao fundo, ladeada de coqueiros e de belas vivendas.

Bernardo teve medo de levantar a cabeça e olhar a sua cidade, através do buraco da âncora da traineira, por onde a água do mar entrava aos jorros...Adeus Lobito, adeus
minha terra de Angola!

Já recomposto do susto, o seu amigo Pacavira agarrado a uma boia com o nome da embarcação, o Bengo, ainda nem queria acreditar que estava a caminho de um porto mais seguro. A máquina fazia trepidar a estrutura da traineira, com a sua proa altaneira, cortando o oceano em direcção ao porto de Luanda, um pouco mais a Norte. O destino final seria Lisboa ou outro porto, depois de atestarem os depósitos para a longa viagem... A noite caíra e o Sol-posto manchava o mar com pinceladas alaranjadas e de um encarnado intenso. Algumas gaivotas seguiam a marcha do Bengo, à cata de restos da comida que não faltava a bordo. O rumo era Walwis Bay, na Namíbia, onde poderiam efectuar algumas reparações urgentes de que a traineira carecia. O Bernardo, ainda estupefacto, contemplava a costa angolana, pensando na família que ficara escondida no mato, esperando que a guerra acabasse, para se juntar a ele na cidade de Lobito. Relembrava-se de uma Angola em paz, com o porto cheio de barcos carregando ou descarregando mercadorias e traineiras despejando caixas de peixes apanhados ao largo de Moçâmedes e Baía dos Tigres. A traineira, já com a noite sobre o mar, após uma estadia breve em Walwis Bay, voltou a rumar para o Norte de Angola, passando por Novo Redondo e Porto Amboim...
Após alguns dias de mar, enfim, a cidade de São Paulo de Luanda, onde o Bengo iria fazer escala, para se reabastecer de combustível e víveres para uma longa viagem. Na memória do Malaquias, a saída inesperada da cidade de Lobito e o futuro incerto para a sua família. Deitando contas à vida com o seu amigo Pacavira, natural da bela cidade de Benguela, assim falava, perturbado pelo tantan do motor da traineira:
Espero chegar a Portugal e ver como vão as coisas por lá, após o 25 de Abril, e só depois mando ir a mulher e os meus dois filhos, ainda escondidos na mata em casa do meu sogro...

Pacavira, muito pensativo, limpando as unhas com um canivete e sentado sobre uma caixa de madeira ainda com as marcas da empresa de pesca (N & Silva), deitava contas à vida. Falou em voz alta:

É a guerra, amigo Bernardo? Enquanto Angola tiver esses malditos diamantes e o negro petróleo não vamos ter sossego...

A traineira branca de nome Bengo, após alguns dias de viagem, aportara Luanda para se reabastecer, não obstante o clima de guerra civil já aí reinante.
Numa tarde cinzenta, a traineira rumou mar alto, a caminho de S.Tomé a próxima escala - tendo na sua rota as ilhas de Cabo Verde, as Canárias, a Costa de Marrocos e, por fim, Portugal desejado. Bengo, donde vinham o Bernardo e o Pacavira, chegou à costa portuguesa, mais precisamente ao porto de Lagos, no Algarve, após uma escala forçada em Las Palmas e em EL Jadida, em Marrocos. Pensavam ter encontrado a Terra Prometida Portugal - o país donde partiram os navegadores, séculos antes, à descoberta do Mundo.

(Não vou narrar a viagem, que só ela daria para mais cinco capítulos) mas, adiante:

-II- A CHEGADA

Foi num 10 de Junho do ano de 1975 (Dia da Raça ou de Camões, como queiram), data em que pisaram, pela primeira vez, a terra portuguesa, ficando a traineira Bengo abandonada e triste, apodrecendo num cais de Lagos. A Capitania recolheu os refugiados. Foi então que ouviram a nova palavra Retornado, escrita numa guia, passada pelas autoridades, para se apresentarem em Lisboa no IARN [Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais] recém-criado pelo governo português de então, para Apoio aos refugiados que chegavam, diariamente, das Ex-colónias portuguesas de África.
Pacavira chamaram-nos de Retornados?

Quem?
Aquele marinheiro da Capitania, o de boné sebento, barba por fazer e cravo encarnado no peito da farda!

Esse mesmo!

Sou refugiado e não Retornado dizia-lhe o Bernardo, bastante aborrecido! Nem sou de cá! Não nasci em Portugal! Sou de Angola, de Lobito! Refugiado e funcionário de

Portugal, SIM...

Um velho maximbombo, estacionado debaixo de uma frondosa árvore, ia partir para Lisboa. Entraram. A viatura ainda tinha lugares vagos e iria parar, sucessivamente, na Vila do Bispo, Aljezur, Sines e Alcácer do Sal, antes de rumar para o IARN. Pacavira observava a cidade através da janela do velho maximbombo, que largava para o ar uma densa fumarada negra. Todos os passageiros estavam calados e espantados com o que viam.

Passaram por uma das ruas de Lagos, onde decorria uma manifestação do PC, no

meio de bandeiras encarnadas e cartazes:

Mais nenhum soldado para África,

Portugal para os portugueses,

África para os africanos

O Bernardo assim falou ao companheiro:

Isto está mau, caro amigo, penso que pior que Angola donde saímos, há já algumas semanas...
O motorista da fumegante e velho maximbombo, rangendo os dentes, abrandou a marcha e viu-se engolido e forçado a parar junto a uma esplanada, para deixar avançar o desfile, cujos manifestantes entoavam, cadenciadamente, as tais palavras de ordem.: o povo unido jamais será vencido... Ao verem o maximbombo com as letras do IARN, os manifestantes e os circunstantes tomaram mais ânimo e desataram aos berros:

Seus colonialistas vão mas é para as vossas terras! Correram connosco de lá e agora vêm tirar os poucos empregos que temos para os nossos filhos...
O motorista, de barba de vários dias, camisa bem suada nos sovacos e boné descaído sobre a testa, animado pelo ruído da rua, foi comentando, enquanto palitava os dentes ainda com bocados do pastel de bacalhau comido na tasca do tio Zé:
Pois é verdade! Já éramos poucos aqui e agora passo os dias a levar esses malandros dos retornados para o IARN, em Lisboa. Para os nossos filhos, os desta terra, nem uma camioneta para irem para as escolas, aqui a dois passos...

Bernardo, mesmo sem querer, entrou na conversa:

Olha, senhor motorista, se vocês tivessem feito uma descolonização “exemplar” e não um simples abandono das colónias ao bicho-homem, nós não estaríamos aqui, agora, entende!
O motorista desviou-se de um caixote de tomates, caído no pavimento, e não deu resposta ao seu interlocutor com a face queimada pelo mar, para bem de todos os

passageiros já inquietos com o tom da conversa...

Entretanto, a manifestação política deixara a rua livre e concentrava-se, agora, na Praceta da Revolução, previamente preparada com altifalantes, tribuna de tábuas pregadas e bidons. O Maximbombo conseguiu seguir viagem pela marginal, com o mar à esquerda e as praias cheias de veraneantes, pois decorria o mês de Junho do ano de 1975.

 autor desconhecido )

 1975

21/06/2012

AIUÉ LUANDA!!!



Domingo em Angola


Para mim, domingo de Angola é paraíso. É um Céu. Colorido. É moamba de peixe ou caril de galinha de Quilengues. Domingo de Angola não tem rival no mundo. Começa na praia e acaba na sesta. Não tem Sporting-Benfica, nem linha de Sintra, não tem passeio a Vila Franca. Não tem touros, nem Cacilhas, nem caracóis no Ginjal. Domingo de Angola, para mim, é o melhor domingo do mundo que eu conheço – e que já não é nada pequeno, benza-o Deus.

Moamba para mim é um ritual. Tem pirão de fuba de mandioca – que eu sou do Sul, usa-se de milho, mas eu prefiro de mandioca à moda do Norte, à moda de Malanje, tal qual no Uíje – mete farinha de pau e obrigado velha que está uma delícia. Tem de ser comido à sombra de um palmeira ou coqueiro, debaixo de uma mandioqueira ou mangueira quando é no interior. Porque coqueiro só no litoral. É por estas e por outras que eu gosto do domingo em Angola. Domingo de Branco. Domingo de Preto. Domingo de todos, domingo de missa, de padre, de domingo.

A verdadeira moambada, aquela que é feita de galinha tenra, tão tenra que sabe a peito de virgem, a moamba verdadeira, tem de ser do cacho primeiro da palmeira do quintal. O molho será apurado pelo velho cozinheiro, que foi mestre dos pais, dos filhos e dos filhos dos filhos. Tem molho que é de “come e arrebenta e o que sobra vai no mar” como dizia o poeta patrício e mulato Viriato da Cruz, no “Sô Santo”. Moamba verdadeira, repito, só se come duas ou três vezes na vida. É preciso estar-se em estado de graça. Estar-se com Nosso Senhor e com os anjos.

Moamba para mim, é saudade, hoje que estou longe, hoje que estou perto. Estou perto de estar tão longe. Não compreendem leitores? A gente está longe e tem saudades. Antes de adormecer, pela noite, vem a lembrança, da pitangueira do quintal, da Rosa Lavadeira, do amo-seco Canivete que falava “axim” à moda de Viseu, e tudo isso aparece nítido, cada vez mais claro e puro como certas horas da madrugada da Serra do Lépi. A primeira vez que comi moamba, dela me lembro como da primeira vez que beijei mulher, do primeiro desafio de futebol, do primeiro amor nocturno na areia da praia, com mulher de verdade. A primeira moamba, lembra-se como se lembra a primeira ida à escola.

O travo nativo do cacho de déndém, que leva meses a fazer-se, até os frutos terem a tonalidade da queimada. Metade o clarão no céu da noite, a outra metade, escuro, um escuro de breu. Tudo isso o sabor tropical junta naquele fruto, que tem brisa do mar, sol de praia, frescura de casuarina, amor de mulata. O coconote e as influências indianas nadando no molho. Tem jindungo, a moamba genuína, aquela que cheira a sândalo, que escorre do canto da boca, do patrício apaixonado, de olho rútilo e lábio trémulo. Mas a galinha, essa tem de ser de Quilengues, magra e criada no mato, quase sem penas, galinha de sanzala, galinha de preto, que é como quem diz, de pobre. Isto está divinal, velha, eu um dia volto. Se entra a erva-doce, zumba que zumba e farinha de pau, oh, céus, oh, Mãe, isto não é moamba, isto é poesia. Literatura.

Mas tem de ser comida no terreiro da casa de adobe do bairro velho. Tem de ser comida em ritual, na casa de adobe com telhado de zinco da estrada da escola da Liga, ou num dos Muceques de Luanda, por sobre as areias avermelhadas do Prenda ou do Burity.

Depois a altura do peito de mulher na moleza da carne ou do peixe. Se é “roncador”, aka, é peixe da costa e sabe que sabe tão bem. Mas de galinha é melhor. Galinha de Quilengues escanifrada, repito. Galinha de pobre.

Fico por momentos em êxtase, as mãos sobre o estômago, lembrando o terreiro da família Gamboa lá de Luanda onde comi uma coisa dessas uma vez há muitos anos. Num bairro velho de Benguela, eu estarei ainda um dia com meus companheiros dos tempos de eu menino, comendo moamba e bebendo quissângua à sombra do bambu do Edelfride – na casa do Edelfride.

Moamba é riqueza de pobre e fraqueza de rico. Entra em palácios sem pedir licença, com o mesmo à vontade com que se senta nos quintais com sombra de mangueira e entra em terrina de esmalte, prato de esmalte, caneca de esmalte, garfo de alumínio. Velho sonho de poeta, lembrança de castimbala, moambada para mim é saudade e sonho, recordação e batuque, história de amor.

Um dia, quando eu voltar, hei-de comer uma moambada de peixe ou de carne, à sombra de um cajueiro, num Muceque de Luanda, moamba do cacho primeiro da palmeira do quintal, não é velha? Depois de muito beber dormirei a sesta. E hei-de gostar de ouvir um desses rapazes do meu tempo, feito velho de cabelos brancos, recitar baixinho enquanto adormeço, a balada do Viriato:

“… Kitoto e batuque pró povo lá fora champanha, ngaieta tocando lá dentro…

Garganta cantando:

“Come e arrebenta

E o que sobra vai no mar…”

Para mim, domingo de Angola é isso tudo. Um Céu colorido. Uma moamba de peixe. Uma noite de luar.

… não tem Sporting-Benfica, não tem touros, nem caracóis no Ginjal…



Ernesto Lara Filho, in Jornal de Notícias, 1957

Banga Ninito

MULHERES



Um homem Inteligente Falando das Mulheres

O desrespeito à natureza tem afectado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana.

Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'

Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat

Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correcta

Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo’ no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.

Flores

Também fazem parte de seu cardápio – mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza

Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação? Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.


Não tolha a sua vaidade

É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, coleccionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Entenda tudo isso e apoie.

Cérebro feminino não é um mito

Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objecto de decoração. Se você se cansou de coleccionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

Não faça sombra sobre ela

Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.

É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.

Só tem mulher quem pode!

De: Luiz Fernando Veríssimo





2010

RAINHA / ZUNGUEIRA / GINGA





Rainha Ginga. Rainha preta. Senhora das guerras e das demandas. Mulher, angolana, guerreira. Nzinga Mbandi Ngola. Filha de Ngola Kiluanji, rei de São Paulo de Assumpção de Loanda no tempo da colonia e do tribalismo, no tempo de lágrimas.
Zungueira (kitandeira ) é a negociante do mercado das ruas informais que percorrem toda a Luanda. Seja o pão por 25 kwanzas ou o tomate por 100 kwanzas a dúzia, elas são filhas de pais e mães sem nomes, guerreiros como elas e como

muitas outras ao longo de muitos sóis.


A Rainha Ginga foi Rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI e XVII (1578 a 1663). Considerada uma das primeiras líderes nacionalistas, lutou ferozmente contra a Metrópole. Símbolo da resistência angolana ao colonialismo português. Conterrânea de Zumbi dos Palmares, senhor das guerras e senhor das demandas.
As irmãs desta zungueira também são inominadas(véis?) mas podem atender pelo nome de Ana, Maria, Sila, Elsa, Glória, Bárbara, Engrácia, Rosa, Filomena, amém, seja feita a vontade de quem puder mais. São tantas as tranças destas guerreiras, são todas as cores estampadas nos panos, é quase nada o que recebem debaixo de

tantos sóis.


Para reaver o seu território em poder dos portugueses precisou negociar a sua fé, sendo batizada então como Dona Anna de Sousa e suas irmãs Cambi e Fungi como Dona Bárbara e Dona Engrácia. Antes da capitulação refugiou-se numa ilha do rio Kwanza, mas a história que segue é que morreu de causas naturais segundo

informações colhidas.


A zungueira vai de lá para cá com a bacia na cabeça e a criança no dorso oferecendo os seus produtos e é chegada a hora de revelar que a ladainha interminável e por vezes onírica que envolve o viajante todas as manhãs na Rainha Ginga nada mais é do que o pregão de uma distinta senhora que oferece a dúzia de carapinhas [peixe de água salgada servido grelhado] por 1000 kwanzas ao longo de toda a rua. O seu território é a Maianga, o Prenda, a Mutamba, a Baixa, o Mártires, os Palancas o comércio informal é combatido a chutes e pontapés (uma lágrima) pelos babas sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.




Kitandeiras



A senhora imortalizada na estátua de bronze, um dia Angola foi o reino Kongo, Cassange, Planalto Central, Huíla-Humbe, Matamba e Ndongo, a senhora vestal impõe-se soberbamente e empoeirada e de uma só vez no meio dos prédios incrédulos e sórdidos do Kinaxixi e próximos à rotunda do Zé Pirão.



2010


Ó POBRE PORTUGAL ! QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ!



É verdade! Quem te viu e quem te vê. Desfalcado, indefeso, traído, transformado numa sucata de valentões reformados, cabisbaixos, poderosos nas injúrias, calúnias e nas mentiras que os seus órgãos de informação propalam, diariamente. Pobre Portugal, que outrora esteve amordaçado, hoje, está alagado pela onda da corrupção, fraudes, pelos crimes de peculato, desvios de verbas transferidas dos nossos impostos, para serem depositadas em bancos falidos, para o sustento de alguns gestores, que auferem chorudos vencimentos. Que comédia e comedoria! Os ricos cada vez mais ricos, a pavonearem-se e a derreterem-se em luxuosas bebedeiras, sublimes no jogatório verbalista e nos clichés lustrosos das aparências, lá vão acompanhando, no seu dia-a-dia, alguns líderes políticos, estremunhados por noitadas de mulherio e copos, fazendo-se transportar pelo topo da gama, “pelo espalhafato da carroçaria, pelo aparato da cilindrada, em locais de grande exposição, como seja, em cima dos passeios ou das passadeiras”. É vê-los nas Docas, na 24 de Julho e agora mais recentemente na zona da Expo. Os pobres, esses, aguardam em filas, pelos restos de comida destes “vilões” anafados, assoberbados pelos ideólogos penduras, seus incensadores, que neste literato da política acharam ouvidos assaz atentos para recitarem a sua revolução livresca.

É um tripúdio toda essa “palhaçada”! Uma orgia, onde o mais pequeno, é amordaçado, constantemente, pelos tentáculos dos poderosos comediantes. “Os carrões do Estado, em frotas permanentemente renovadas e de custos invariavelmente agravados - haja crise ou, o que não há memória, não haja – revestem e disfarçam muitas vezes a mediocridade e banalidade dos ocupantes. Qualquer funcionário de meia-tigela tem direito a carro e esse é um direito adquirido com direitos colaterais: o carro pressupõe a sua própria renovação, por troca de um carro melhor”! Que bailar de ébrios é este em volta deste Portugal moribundo, com milhares de jovens, homens e mulheres desempregados?

Não espremais mais as tetas das vacas famintas, que ordenhareis sangue!

ESTAMOS JUNTOS

2010

M E D I T A N D O



Esta coisa abstracta, de passarmos tantas horas sentados defronte do monitor do computador, leva-nos, por vezes, a pensar, a pensar…sei lá em quê!!! Em tanta coisa, que vocês não imaginam. É um turbilhão, este meu cérebro. Mas…penso muito na vida. Nesta passagem veloz, onde passa tudo tão rápido, tão enigmático, tão sem nada…?!! Já lá dizia a minha falecida mãe: “A vida é uma passagem do berço para o túmulo”! Sentia muito medo de morrer a minha Mãe! Um dia, sentindo-se doente, já sem forças e com alguma dificuldade em falar, perguntou-me muito baixinho: -“Ó Filho…Haverá vida, depois da morte”? Disse-lhe que sim!

Cada um deve estar completamente consciente que a sua própria vida é uma aventura, mesmo quando a crê fechada numa segurança funcional, todo o destino humano, penso eu, contém uma incerteza irredutível, incluindo a certeza absoluta, que é a da sua morte, mesmo que ignore a data. Cada um deve estar plenamente consciente de participar na aventura da humanidade que é, doravante, com uma rapidez acelerada, lançada no desconhecido.

Que confusão que isso me faz tudo! Descartes dizia:

“Não posso duvidar que duvido, então penso. Se penso, então eu sou, quer dizer existo na primeira pessoa como sujeito”.

E é aqui que me surge o mistério: o que é o “EU” e o “SOU” que não é simplesmente “É”? Será uma aparência secundária tudo, ou uma realidade fundamental? Será que estamos a sonhar quando estamos acordados, ou acordados quando sonhamos? O que há para lá do sonho? E da vida? Para toda uma tradição filosófica é uma realidade fundamental. Parece que se passa o mesmo quando Moisés pergunta ao “SER” que lhe aparece sob a forma de arbusto ardente: “Mas afinal quem és tu?” E a resposta, tal como é traduzida, é: “Sou aquele que sou” ou “Sou quem sou”. Isto quer dizer que o Deus de Moisés é a sua subjectividade absoluta.

Então e a alma? Onde é que ela está? No cérebro? Junto ao fígado? Ou está pegado ao esófago? Por trás do intestino grosso? Ah!!! Deve estar acumulada ao coração! Ou estará misturada com os nossos neurónios? Sim! É provável que sim! É que os neurónios são muito numerosos. Temos, cerca de trinta biliões e eles estão justapostos. Entre eles não há continuidade, mas sim contiguidade. Chamam-se sinapses a essas zonas de contiguidade entre dois neurónios. Mas também o número de sinapses é extremamente elevado. Perto de um bilião, por milímetro cúbico de tecido nervoso. Portanto, quer isso dizer, que se pretendêssemos procurar, pesquisar, onde está a nossa Alma, implicaria o estudo, a análise, de trinta biliões de neurónios, para cada neurónio, o estudo dos dez milhares de sinapses, de contactos sinápticos possíveis. Como vêm…isso não é possível. Sei que nos tempos que correm quase nada é impossível, mas ……… Dá para meditar

Por essa e outras razões, é que passo os meus dias de HOJE, a pensar na morte da bezerra!!!

2004

FERNANDO PESSOA




Fernando António Nogueira Pessoa, ( Fernando Pessoa) nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1888 e faleceu a 30 de Novembro de 1935. Poeta e ensaísta, que expressa de três maneiras diferentes, as várias sensibilidades da sua personalidade, fragmentando-se em heterónimos, cuja vida e percurso descreve, dando-lhes a consistência do real. São eles: Ricardo Reis (médico, que nasceu no Porto em 1887, fixando-se no Brasil); Alberto Caeiro (sem educação ou formação, nasceu em Lisboa, vivendo quase toda a sua vida no campo e desaparece em 1915) e Álvaro de Campos ( que nasce em Tavira em Outubro de 1890 e é engenheiro naval). Associado a cada um destes heterónimos surgem os seus textos: diferentes não só nas ideias como nas técnicas de composição e nos estilos. Alberto Caeiro foi aquele que mais se distinguiu. Em vida, Fernando Pessoa, publicou um único de poemas portugueses, «A Mensagem», editada em 1934. A estátua que no Largo do Chiado recorda Pessoa, é da autoria de Lagoa Henriques, recorda-o à mesa do Café Brasileira, onde se sentava para escrever e falar com os amigos.

Fernando Pessoa escreveu "Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar num autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo..."


1980