27/06/2012
VAMOS APOSTAR NO TURISMO RELIGIOSO?
Se não existisse o desemprego, o regime ultraliberal inventá-lo-ia. Ele é-lhe indispensável. É ele que permite à economia privada manter, sob a opressão e o medo, a nossa população, mantendo a união e a harmonia social, através da subordinação…a dependência. E como o desemprego, infelizmente, já regista um número elevadíssimo de Cidadãos, temos que apostar e defender, áreas relacionadas com a comercialização de: vinhos, turismo, automóvel, calçado, têxteis, cortiça e madeiras, por serem atividades prestigiosas, elevadas em honra e dignidade, na criação de empregos e postos de trabalho, para o nosso País.
Há que reconhecer que sectores como a nossa Indústria de calçado, mais até pela força empreendedora do associativismo empresarial do que pela acção concertada deste ou daquele Governo, são demonstrativos de uma evolução das nossas empresas, no sentido inverso ao da competição pelo baixo custo. A qualidade da marca de Portugal nesse sector do calçado é hoje, internacional e mundialmente reconhecida, permitindo cobrar um “Prémio” por essa diferenciação.
No que concerne ao Turismo, deveríamos ser mais competitivos, mais arrojados, por se tratar de um espaço, em que temos condições naturais, para afirmar com certa convicção…que vale a pena Investir! Lembrem-se que, a umas décadas atrás, este sector correspondia a 5 por cento da riqueza gerada. Atualmente, movimenta, cerca de 14,7 por cento do PIB. É pouco? Claro que sim! Então, porque não tentar aumentar essas percentagens, se temos “potencialidade” para isso? Porque parte desses investimentos, encontra-se ainda por explorar. Reparem no “Turismo Religioso”, nomeadamente com o “Santuário de Fátima”. Todos os anos, recebe milhares e milhares de Peregrinos, que ali vão, para depositarem as suas esmolas. Mas também, se nota o efeito positivo de outro centro religioso peninsular, que é o de “Santiago de Compostela”, que regista mais de 30 mil Peregrinos anuais. Só em 2010, foram contabilizados neste Caminho, Peregrinos de cerca de 52 nacionalidades (desde o Brasil à Nova Zelândia, Austrália, Japão e Coreia do Sul), tendo como principais paragens: Lisboa, Coimbra, Porto, Barcelos, Ponde de Lima e Valença. E perguntamos: “-E o que tem feito a Igreja e o Vaticano para a Segurança rodoviária e criminal, a todos estes Peregrinos, que, anualmente, para ali se deslocam, oriundos de Terras distantes, a pé?” Nada! Simplesmente NADA! Não fossem as centenas de Voluntários e as diversas Instituições Religiosas, a prestarem auxílio a toda essa Gente, e os cofres destes mesmos Templos, destas Basílicas, Catedrais, Mosteiros e Conventos, não acumulariam tanta riqueza. Consequentemente, aproveitar estes recursos é fundamental, não apenas na ótica da geração de riqueza, mas também para assegurar a preservação desses patrimónios, cuja manutenção não pode ser posta em causa pela crise que atravessamos. Portanto, era de grande utilidade, que todos juntos (Igreja e Políticos), soubessem compreender e “explorar” melhor o Turismo Religioso, criando percursos de proteção a todos estes Portugueses e Estrangeiros, não só da circulação rodoviária, como de outras anomalias e divergências, que, enfim, possam ocorrer.
Banga Ninito
2012
26/06/2012
A CHAMADA
Carlos Clara chega ao Rossio, mais precisamente, junto ao conhecido Café Piquenique, ao lado da Caixa Geral de Depósitos ( antigo BNU), local onde os Retornados outrora se reuniam, para alguns dedos de conversa sobre vidas passadas e dificuldades presentes, contando cada um o seu drama que daria para vários romances.
Quase todos os regressados das ex-colónias singraram neste país, ou no caso de Carlos Clara no Canadá para onde foi em 1980, começando pelos degraus mais baixos das carreiras profissionais, casos da Fernanda, professora eventual habilitada com o antigo sétimo ano dos liceus que foi integrada como dactilógrafa da letra”U” [a última letra do alfabeto dos funcionários a dos contínuos, sem desprimor para a classe, para a qual era apenas exigida a quarta classe]. Outros mesmo com novas profissões!
Um administrador foi reclassificado como chefe de secção e, para atingir o lugar de chefe de repartição, a que já teria direito aquando da Revolução de Abril, teve de concorrer treze vezes, e, finalmente, venceu os vinte e muitos candidatos para uma vaga posta a concurso.
Mas como vos ia contando, encontrei o Carlos Clara, anos depois, na zona do Rossio, transfigurada com as obras do Metro e com a população dos Retornados transferida para a Praça da Figueira, local onde se viam mais africanos que naturais da metrópole.
A minha pergunta, depois de lhe dar um forte kandandu (abraço) de amizade, foi no sentido de saber da sua saúde, e dos seus familiares. Carlos Clara, olhando a esplanada do Piquenique, de lágrimas nos olhos, estava em Lisboa porque seu pai tinha falecido, foi fazendo uma surda chamada:
O Fernando Transmontano? Aquele funcionário dos Seguros, O Jorge Fraquitelas? O Fernando Ribeiro ( das Quarras )? O Chelas ( chefe de Posto) ? O Xabregas tio do Chelas? O Bamba ( filho do Sequeira Alves)? O Jaques ? O Américo Nunes ? O Miquinho primo do Banga Ninito? Um que era do Bairro da Maianga, de nome Virgílio, grande poeta e que escrevia bons contos e belos poemas? O Manel Teddy Boy ( pai da Mariza Cruz)?
Silêncio. Os pardais chilreavam nas despidas árvores da Praça...
As lágrimas vieram aos olhos dos presentes...
Faleceram todos..., morreram todos! Tão novos! Estão, para sempre, nos cemitérios de Benfica, Feijó, Abóbada e no Alto de S. João... e no nosso pensamento.
Gaivotas que voam.......... ouviu-se da boca do poeta Andrade, quebrando o silêncio da nostalgia!
Gaivotas que voam.......... ouviu-se da boca do poeta Andrade, quebrando o silêncio da nostalgia!
2010
AMIGOS FIXES
CONFRARIA
Acta Gastronómica de um grupo de amigos fixes
Data: 10 de Dezembro de 1999
Local: Quinta da Chamorra – Santiago dos Velhos – Bucelas
Presenças: 15 machos a saber:
Hernâni, Cardoso, Vicente, Inácio, Sobral, Antunes, Reiçadas, Macau, Emídio, Bento, Oliveira, Avelino, Couchinho, Pinheiro, Adriano.
EMENTA -
Entradas: Chouriço e Morcela assada; queijo e pão caseiro ainda quente, azeitonas
Almoço: Galo e Pato do campo com arroz assados no forno, Batata frita a pedido
Sobremesa: Fruta e doces caseiros
Bebidas: Vinho Tinto e palhete. Água e Sumos para alguns Condutores
Factos assinaláveis:
O almoço foi servido na Adega isto é, rodeados de pipas e o respectivo lagar.
A comida estava deliciosa. O silêncio manteve-se durante a operação do enchimento das barriguinhas. O vinho caia nos copos e dali para as goelas sedentas. Liberta as vozes, entrou-se na animação, o que é natural, quando nos damos bem com o “Baco”.
O Reiçadas contou-nos ao pormenor uma cena do seu passado recente de uma “cadela” que meteu transporte a casa de Táxi e tudo para chegar a casa. Chegado a casa, teve que ser metido na cama com ajuda e foi difícil. Fico-me por aqui……
O Emídio pôs a tocar umas espanholadas em F.M. com olés e castanholas. Espetaram-se bandarilhas a duas mãos em miúras imagináveis.
O Bento sempre em “alta frequência” contou-nos umas anedotas com aquele jeito que lhe é peculiar, Depois cantou o fado de Coimbra.
Durante e após o café e o bagaço especial tivemos mais fado, desta vez pelo amigo Avelino. Foi muito aplaudido. O Zé Antunes ( melhor cantor da Cova da Piedade ) deu uns lamirés duma canção do Roberto Carlos, mas o povo gritou logo: Piedade, Piedade, Piedade………..
Entretanto alguém descobriu uma pipa com uma torneirinha de madeira que dava palhete. É claro deu palhete muitas vezes…
O Vicente deu para enfiar um grande funil que encontrou na adega nalgumas cabeças dos presentes, para ver o efeito. Enfim…. Coisas do palhete….
Mais umas larachas daqui e dali e pelas 15H40 abalaram o Hernâni, Macau, Emídio e o Oliveira. Muitos abraços e partiram satisfeitos e felizes.
Os restantes ficaram mais algum tempo a jogar umas cartadas e pelas 17H30 deu-se a debandada geral, pondo fim a este encontro gastronómico e báquico de 15 bons amigos.
E, não havendo mais nada a declarar, dou por terminada esta acta, que vai por mim assinada.
1999
UMA HISTORIA DA CONFRARIA DO PENICO DOURADO
Estamos no dia 31 de Julho de 1997, portanto véspera da minha partida para terras de D, Afonso Henriques onde iria passar uns dias de férias. É meio dia, o pessoal começa a dirigir-se para os restaurantes da baixa onde se iria organizar o almoço da Confraria, quando alguém se lembra de irmos ao Baleal outros sugerem que se deveria ir almoçar a outro lugar. Então onde se iria almoçar? Surge então a ideia inicial de ser no Baleal. Pronto foi uma correria para a porta do Restaurante. O primeiro a chegar foi o Machado que correu para uma sala para reservar uma grande mesa e logo ordenou " DOZE GARRAFAS DE VINHO". O empregado mirou-o mas lá foi andando, dando seguimento à ordem daquele confrade. Os minutos iam correndo e nada de aparecer a restante malta, o que estava a deixar o Machado um pouco aflito, pois não tinha estômago para tanto vinho...Lá apareceram os restantes Zé Antunes, Henriques, Vasco, Zé Ideias, Sousa, Soares, Biscoito, Barreiros, Ninito, Resende, Martins. Enfim todos juntos, sentados à mesa para atacar aqueles "panquês" e claro UMA DUZIA de rapaziada, juntos faziam uma algazarra enorme, não tendo em conta os restantes comensais que espantados com a alegria daquela confraria...O almoço correu bem com alegria (quem sabe se para disfarçar algumas mágoas) até que às tantas, depois de terem sido retirado os pratos com o que restava do repasto, apareceu um dos empregados com uma garrafa de champanhe e respectivos copos. Todos se entreolharam com um semblante de espanto e interrogação. Quem fez a encomenda dessa garrafa? perguntamos ao empregado que aguardava ordem para começar a servir." Foi alguém que está na sala que mandou servir, mas não quer se identificar" lá respondeu o empregado. Sendo assim agradecemos mas não podemos aceitar sem saber quem fez tal oferta, foi a resposta em coro. Bem depois de um certo período de tempo de olhares trocados entre o empregado e o nosso benfeitor lá informou: Foi este Senhor, ( foi o Zé Ideias ) tinha-lhe saído uma boa massa na Lotaria Nacional os DOZE BRAVOS CONFRADES DO PENICO DOURADO juntaram-se para beberem em conjunto. E felicitarem o benemérito de tão gostoso champanhe....Depois do repasto terminado cada um foi a sua vida ..
RECORDAR É FÁCIL PARA QUEM TEM MEMÓRIA ;
ESQUECER É DIFÍCIL PARA QUEM TEM CORAÇÃO."
1997
MANO MINGO
Mano Mingo tava desempregado há meses. Com a resistência que só os angolanos têm Mano Mingo foi tentar mais um emprego em mais uma entrevista. Ao chegar ao escritório, o entrevistador observou que o candidato tinha o perfil desejado, as virtudes ideais e lhe perguntou:
- Qual foi seu último salário?
- 30 mil Kwanzas, respondeu Mano Mingo.
- Pois se o Senhor for contratado, ganhará 10 mil dólares por mês!
- Aká.... Jura?
- Que carro o Senhor tem?
- Eu tinha um carro de mão aonde punha legumes pra vender na zunga, mas tambem era alugado!
- Pois se o senhor trabalhar conosco terá um VW para si e um Toyota para sua esposa, novos a estalar!
- Aiwéééé minha vida....Jura?
- O senhor viaja muito para o exterior?
- Quer dizer já fui até M'bula Tumba, visitar uns parentes...
- Pois se o senhor trabalhar aqui viajará pelo menos 10 vezes por ano,
para Londres, Paris, Dubai, China, Nova Iorque, etc.
- Adjiiiiiiiii num fala mais....Jura só?
- E lhe digo mais.... O emprego é quase seu. Só não lhe confirmo agora porque tenho q falar com meu Sócio.
Mas já está praticamente garantido. Se até amanhã (6ª feira) a meia-noite o senhor NÃO receber uma carta nossa a cancelar,
pode vir trabalhar na segunda-feira com todas essas regalias que eu lhe disse.
Então já sabe: se NÃO receber carta até a meia-noite de amanhã, o emprego é seu!
Mano Mingo saiu do escritório fraco das pernas mas feliz, apanhou um taxi com os ultimos 100 Kz e foi pra casa.
Agora era só esperar até a meia-noite da 6ª feira e rezar, mas tambem previniu-se e amarrou capim e colocou na esquina da rua que dava pra casa dele para que não aparecesse nenhuma maldita carta.
Sexta-feira, dia do homem, mais feliz não poderia haver.
E Mano Mingo ganhou coragem e reuniu a família e contou a nova.
Convocou o bairro todo para uma sentada comemorativa à base de muito cabrité´, fino e música de kilape.
Sexta à tarde já tinha 2 barris de fino aberto dos 7 de kilape.
Às 21 horas a festa fervia.
O Dj (de kilape) estava a pôr todas ketas fixe, o povo dançava (era do cambuá, era tudo...), a bebida era bar aberto....
22 horas, a mulher do Mano Mingo (tia Fatita) aflita, já achava que tudo era um exagero, e perguntava se a carta chegar...
A vizinha Matilde gostosa lá do bairro (mais conhecida por Beyoncé), interesseira dum raio, a bicha, já dançava do cambua só pro Mano Mingo.
E o Dj tocava (grandes cassetes sim senhora pá...)!
E as pipas abriam, uma atrás da outra!
O povo cantava "deixa a vida me levar... vida leva eu... (tava lhes kuiááááá malé)!
23 horas, Mano Mingo já era o papoite do bairro, pois tudo seria pago com os 10 mil Doláres....
E também porque o ultimo evento grande no bairro foi o óbito do Man Dadão que segundo o povo "bateu de milhões, muita bebida"...
E a mulher (tia Fatita) já não se aguentava, tava aflita, uns coxe alegre e já descabelada (quer dizer já com a peruca de lado)...
Às 23h50 minutos... Vira na esquina quase a chocar (por causa do capim amarrado lembram, ya quase deu certo)
e fazendo jogo de luzes, um Corolla amarelo da DHL...
Ewéééééé, era a carta!
O amistoso (boda) parou!
O Dj parou a música!
O homem do cabrité apagou o carvão!
A vizinha Matilde (bicha dum raio) afastou-se!
Tia Fatita peidou!
Todos se perguntavam, e agora? Os kilapes?
" Coitado do Mano Mingo!" Era a frase mais ouvida.
- O sr. das pipas já bebado exclamou, "eu então quero o meu kumbú, também fiz kilape na Cuca..."!
O fino parou!
O Corolla amarelo parou!
Sai um kota kilombo e se dirigiu ao Mano Mingo:
- Senhor Domingos Makubikua? (nome do Mano Mingo)
- Si, si....simmm, só, só eu simmm...
-Tia Fatita lhe empurrou para frente e disse " agora fala bicho de merda, não finge que és gago eu te avisei..."
A multidão não resistiu....
Ewééééééééé, bandeiraaaaa!!!!!!!!!!!
E o kilombo do Corolla diz:
- Tenho uma carta muito importante para o senhor...
Mano Mingo não acreditava...
Pegou na carta, com os olhos cheios d'água, levantou a cabeça e olhou para todos....
Silêncio total.
Não se ouvia sequer um mosquito, até o transito de repente aquela hora engarrafou a espera da noticia...!
Mano Mingo respirou fundo e abriu a carta a tremer, enquanto uma lágrima escorregava no canto do olho....
Olhou de novo para o povo e tirou a carta do envelope, abriu e começou a ler em silêncio....
O povo todo em silêncio aguardava a notícia e se perguntava:
- E agora? Quem vai pagar os kilapes?
Mano Mingo recomeçou a ler, levantou os olhos e olhou mais uma vez para o povo que olhava pra ele tipo novela da Globo...
Foi então que Mano Mingo abriu um largo sorriso, deu um berro triunfal e começou a gritar eufórico.
- É Mamã que morreeeeuuu!
-Mamã morreeeeuuu!!!!!!!
Pode continuar a festaaaaaaaaa...
E o povo gritou, ehhhhhhhh vivaaaa....
Autor desconhecido ( recebido via mail
2011
22/06/2012
RETORNADOS COMO EU
Eu sou um retornado. No ano 75 do século XX, o vocabulário português ganhava uma nova palavra - "retornado". Comecei a ouvir a palavra em 1975, à minha chegada a Lisboa. “és um retornado, volta para a tua terra!”. E eu, que obviamente me via como português, ficava atónito com aquela acusação. Tinha 20 anos e vinha de uma terra que se dizia ser "Portugal
Ultramarino
"A grande maioria dos retornados "deu a volta por cima" e são hoje fonte produtiva de Portugal! Nos últimos tempos, cerca de 100 mil portugueses foram para Angola! Há já quem defenda a teoria de que o futuro de Portugal passa pela emigração para aquele país. Provavelmente, muitos desses portugueses são agora "retornados" naquela terra que ajudam a renascer ao mesmo tempo que ajudam Portugal, por razões óbvias!"

E assim, muitos "retornados", depois de espoliados, ainda vão ajudar Portugal..."
" Obrigado aos "retornados" pelo que têm feito por este país!..."
Quem eram os retornados?
Mais de meio milhão de pessoas chegou, de repente, a Portugal. Essas pessoas, porém, de uma forma notável, conseguiram integrar-se na sociedade portuguesa sem conflitos de maior. Haverá casos semelhantes noutros países? Do número de retornados recenseados pelo INE em 1981, 61% eram oriundos de Angola, 34% de Moçambique e apenas 5% das restantes colónias. Quase dois terços desses retornados nasceram em Portugal (63%), embora esta proporção se inverta nas camadas mais jovens, 75% dos menores de 20 anos eram naturais das colónias.
O cais de Lisboa enchia-se de caixotes vindos de África, o aeroporto estava repleto de pessoas que dormiam sobre malas, e começou a aparecer também muita gente nova, gente diferente, gente que vestia roupas coloridas e tinha um ar triste, vindos de Angola, Moçambique, Guiné e Timor... Eram os retornados que depressa se misturaram com as gentes de cá e se distribuíram um pouco por todo o país. Procuravam, na sua maioria, ir para junto das suas famílias e das suas origens. E com eles vinham muitos que pisavam pela primeira vez o solo de Portugal continental
.
A Descolonização
O Programa do MFA previa a discussão do problema da Guerra Colonial. Em Julho de 1974, o Presidente da República, General Spínola, reconheceu o direito à independência dos povos africanos.
Iniciaram-se negociações para a descolonização: o governo dos territórios africanos foi entregue aos representantes dos movimentos de independência das colónias, os militares portugueses regressaram a Portugal e milhares de civis voltaram também (retornados).
Formaram-se assim cinco novos países africanos independentes.

Timor foi invadido e anexado pela Indonésia em Dezembro de 1975. Durante 24 anos a resistência timorense lutou pela independência que só veio a alcançar em Maio de 2002.
Macau voltou a ser território chinês em Dezembro de 1999.
Alguns livros sobre esta temática
:
Júlio Magalhães, "OS RETORNADOS - Um amor nunca se esquece"
Trata-se de um livro que me toca particularmente, pois transporta até à actualidade a saga do regresso dos retornados, como é o meu entre tantos outros casos.

António Trabulo, Retornados: o Adeus à África
Este Romance aborda também ele a temática dos retornados. Foi escrito a pensar sobretudo em homens e mulheres que ainda revisitam África nos sonhos.
Sobre o Autor: António Trabulo nasceu em Almendra (Foz Côa) em 1943; fez a instrução primária e secundária em Sá da Bandeira (Angola); estudou Medicina em Coimbra, é Neurocirurgião. Publicou: Mulemba, Contos de África (2003), No Tempo do Caparandanda (2004), O Diário de Salazar (2004), Eu, Camilo (2006), Os Colonos (2007) e A Última Profecia (2007).
Aida Viegas, Abandonar Angola
Publicado em 2002, é dedicado aos retornados, muitas vezes incompreendidos, gente corajosa que soube reerguer-se das cinzas do infortúnio.
anónimo
2010
OS RETORNADOS MUDARAM PORTUGAL
Ninguém sabe ao certo quantos são. Alguns referem oitocentos mil, outros um milhão e meio. Vieram por barcos e por aviões, golfados em caudais intermináveis de desespero e desamparo. Imobilizaram-se ao frio, ao pudor, o cansaço. O eco do seu êxodo, sem bíblia nem Israel, condoeu então o mundo. O velho império português retomava cabisbaixo, naufragado, às praias de onde, cinco séculos atrás, partira para uma epopeia de façanhas imorredoiras .
Refeitos os bocados de cada um, ergueram-se e atiraram-se em frente. Chegaram, em pequenos grupos, a todo o país; e em pequenas ocupações, a todos os sectores. Como novos bandeirantes, colonos uma vez mais, foram para o interior carregando cóleras e pânicos, vinganças e ousadias. A sua raiva foi a sua força; a anti-fé fê-los mover montanhas, dominar medos, vencer a loucura e o desamor. E dar provas espantosas de coragem, de persistência, de engenho de invenção.
ajudas de instituições, de subsídios, de empréstimos, de amigos, começaram a fixar-se e a transformar os locais onde se detiveram. A emigração e o exílio tinham despovoado meio país. Aldeias inteiras apenas albergavam velhos e crianças, povoações havia que não tinham sequer um habitante. Era um país de deserções e decrepitudes a viver das mesadas dos emigrantes e dos militares, e das contas dos turistas; um país onde estava (está) tudo por fazer, por merecer; como estavam (estão) os sertões da memória africana.
Então repetiram aqui o que há decénios faziam lá. Mas lá tudo era grande, fácil, farto, acessível: mão-de-obra, créditos, comércios, terrenos, colheitas, gados, máquinas, solidariedades. Havia terra, terra, e espaço e, como no oeste americano, sonho. Um homem tinha, se quisesse, a dimensão de um deus.
Há centenas de anos que desembarcamos de idas e retornos, a diferença nunca foi muita, que pegamos em proles, haveres, ilusões e feridas, e partimos para dentro, oceanos e continentes, em peregrinações interiores de fé, cobiça e trapaça.
Com a mesma convicção que iniciámos mares e impérios desistimos deles, renunciámos a eles. Deixamos tudo a meio, talvez por sermos, sem o saber, suficientemente sábios para isso. «Não foi a riqueza, nem a terra que Vasco da Gama buscou nos Lusíadas. Foi», diz-nos o professor Agostinho da Silva, «a Ilha dos Amores» .. Como a não encontrou/encontrámos, . suspendemo-nos, incompletamo-nos - que é uma maneira de nos completar. Daí que o fado seja a nossa realidade e o sebastianismo a nossa igreja. Estamos sempre a
partir e a chegar, somos retornados de nós próprios. Expulsos há dez anos de África queremos partir de novo para África - outra. Samora Machel é reverso de Vasco da Gama. A maior parte dos que vieram irá, porém, perecer aqui. Não sobreviverá à morte da sua Angola, do seu Moçambique, da sua Guiné. Que tenta reconstruir em Moncorvo, em Viseu, em Lisboa, em Sagres, em ...
Do mesmo modo que tentou reconstruir Moncorvo, Viseu, Lisboa, Sagres em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, em S. Tomé, na Índia, no Brasil. África foi portugalizada em África nos últimos séculos; Portugal está a ser africanizado em Portugal nos últimos decénios. Os musseques do Prenda irrompem no Alto do Dafundo; as marrebentas agitam os bailes dos domingos suburbanos; as churrasqueiras florescem nas estradas beirãs; o caril, a cerveja, o fumo, os fumos, sobem aos planaltos nortenhos; o imaginário dilata-se; as histórias de caça, de aventuras, de magia, de abundância, perpassam os cabeços de granito e giesta. Um sopro quente perturba a pele dos que ficaram, dos que na história só vêem partir, soldados, missionários, mercadores, emigrantes, xilados, e vêem voltar: deslumbrantes de riqueza uns, pasmados de vazios outros.
Vai fazer agora dez anos que o princípio do fim se deu. O que aconteceu, entretanto, a essas populações escolhidas para expiar a culpa do nosso colonialismo? Portugal está reduzido à sua origem, está devolvido a ele próprio - de vez. A exaustão apazigua as feridas, dissolve a angústia, enevoa a memória, gera o futuro. Novos países surgem aqui, em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, unidos na mesma língua e no mesmo afecto.
Quando D. Dinis acaba o seu reinado Portugal está pronto. Território definido, possui campos férteis (defendidos das areias pelo Pinhal de Leiria), dispõe de castelos sólidos (que não deixam avançar os espanhóis), desfruta de religião própria, exulta vontade de existir. xistir desenvolvendo-se internamente (podia ser hoje uma Dinamarca), ou derramando-se externamente. Derramou-se.
Engendra então a espantosa gesta dos Descobrimentos - que o faz mudar o mundo e perde-se de si. De senhores em Luanda, Lourenço Marques e Bissau, passamos a criados em Paris, Bona e Bruxelas. Regressados de uma condição e de outra, encontramo-nos no ponto de partida. E o pequeno berço range ao peso dos que se lhe aninham, ora cansados e submissos, ora esbracejantes e coléricos.
Portugal está a ser reconstruído pela raiva dos retornados. E a raiva dá muita força. «Em breve vamos sentir que estamos a ser colonizados por eles», especifica-nos o professor Agostinho da Silva. «Eles vão lançar mão a tudo ... agarrar-se à terra, usar com as pessoas de cá os mesmos métodos que usaram com as de lá. Para eles o aldeão é o preto, o nosso camponês começa já a dizer: patrão retornado é bruto l». «Cá os retornados olham e dizem: vamos fazer aqui a nossa vida como fazíamos em África, que não deu certo por culpa destes tipos, porque o Exército não se portou bem, nem os políticos». «Eles acham que têm que melhorar Portugal como os brasileiros de Camilo ... dentro de alguns anos o País vai reconhecer que a força fecundadora lhe foi dada por eles. São por natureza construtores de impérios, não são navegadores. No Brasil fundaram fazendas, em África abriram lojinhas».
«Para aqui não trazem divisas, como os emigrantes, constroem é coisas. E quando os emigrantes voltarem vão cair sob o seu domínio. Eles dominarão quando as reservas de oiro se acabarem e quando as remessas dos emigrantes cessarem. Nessa altura também o FMI terá desaparecido». Apontada como um fenómeno ímpar de absorção social, só possível em povos de grande generosidade,
a integração dos retomados tornou-se, escassos anos após a sua chegada, um caso surpreendente. A desconfiança inicial, por vezes hostilidade, com que foram recebidos, sucedeu a convivência a amenidade. A própria palavra «retornado» (rapidamente popularizada apesar de nem sempre exacta ou justa) quase que não se ouve já.
O exemplo que deram de trabalho, de iniciativa, de inter-ajuda, de perseverança granjear-Ihe-iam depressa respeito e admiração. E temor .. Desde ministros poderosos, no Governo Central - (Almeida Santos) a vogais humildes nas autarquias interiores (das 12 câmaras do distrito de Bragança, por exemplo, oito são de retornados); desde industriais prósperos a indigentes asilados, desde o grande hoteleiro de Albufeira à empregada de copa de Castro Daire, desde o aviário modelo de Pegões à queijaria tosca da Estrela, estão em toda a parte, bispos, militares, juízes, contrabandistas, artistas, jornalistas, cientistas, cozinheiros, professores, polícias, prostitutas, chulos, desportistas, funcionários, estão em toda a parte transformando o meio, matizando o tecido social, alterando os espectros políticos, religiosos, morais, ideológicos. De subvalorizados passar a sobrevalorizados. Vivendo em círculos concêntricos assumem-se em certas zonas como castas de poderio crescente. Alguns tomam-se os novos donos da terra.
«Mais de 50 por cento vive melhor aqui do que lá», repetem-nos. Hoje controlam vários sectores, são a sua classe dirigente e exigente; formam uma rede por todo o país que se organiza, alarga, fortalece, interpenetra. Mais do que o dinheiro, porém, ou a riqueza em si, é o triunfo, o êxito, o domínio que lhes interessa. «Se vez de nos terem disperso pelo país nos tivessem dado uma província só para nós, éramos agora uma potência, os de fora tinham de nos pedir batatinhas!» afiança-nos Custódio Antunes, no Cartaxo, antigo camionista no norte de Angola ..
Foi jogando nessa mentalidade que surgiram, por exemplo candidatos próprios à presidência da República, como Pompílio da Cruz, e candidatos seus representantes privilegiados como Galvão de Melo.
Os grandes partidos políticos depressa passaram a aliciá-los e a recebê-los nas suas estruturas internas de onde os injectaram na administração pública. «Eles é que fizeram pender, a balança no sentido da contra revolução!» comenta o antigo deputado José Manuel Jara, único retornado no grupo parlamentar do PCP.
A sua inserção provoca em muitos observadores surpresa. A França (com retomados da Indochina, da Tunísia, de Marrocos, da Argélia), a Itália (da Líbia e da Abissínia), a Bélgica (do Congo) ainda sofrem internamente as sequelas na sua descolonização. Aparentemente Portugal dirigiu-a. Aparentemente todos se ajeitaram. «Foi como se tivéssemos de entrar num estádio cheio, abana daqui,
acotovela dali, fomos avançando». A frase de João Meira, é expressiva. «A grande ajuda ao retornado foi ele próprio que a deu. Somos um povo com uma capacidade de integração maravilhosa, e em todas as circunstâncias. Fomos o único povo da Europa que se adaptou a viver no sertão, que se casou com pretas.
Mas a nossa adaptação tem sido feita à custa de muito esforço, de muito sacrifício, de muitas vítimas. Sofremos de uma doença muito grande: o saudosismo». Para João Cabral, oriundo do Lobito, actualmente director do Apoio Cristão Internacional, «o êxito da integração é muito relativo. Foi a política seguida pelos governos que calou os retornados. Separaram-nos, polvilharam-nos pelo país, tiraram-nos a força. E eles resignaram-se. Em França, não, os argelinos foram existentes, o mesmo aconteceu noutros países, por isso se ouve ainda falar dos seus retornados. Aqui amocharam!».
Diversos organismos surgiram em sua defesa e apoio. Organismos religiosos, políticos, assistenciais,culturais, educativos. Oficiais, como o IARN; internacionais, como o Apoio Cristão e a Cruz Vermelha; filantrópicos, como a Associação de Apoio aos Angolanos; reivindicativos, como a ANERM - Associação dos Naturais e Ex-Residentes de Moçambique, e a FRAUL - Movimento Nacional de Fraternidade Ultramarina (que pretendem indemnizações do Estado); recreativos, como «Os Inseparáveis do Lubango» (cerca de sete mil no último piquenique realizado no Buçaco. Os mais crentes têm uma Santa sua, a Nossa Senhora dos Retornados, a quem dedicaram há pouco, em Oliveira do Bairro, grandes festividades.
Dispõem também de uma imprensa própria (como o jornal «O Retornado», o boletim «A Voz do Cid») e, muito próxima (casos do «Dia» e do «Diabo»).
Após a sua chegada a Lisboa, onde eram acolhidos pela Cruz Vermelha e pelo IARN, recebiam alimentação e assistência; uma parte beneficiou de créditos, subsídios e empréstimos que permitiram a alguns, dado o seu juro bonificado, reorganizar-se e lançar-se em diversas actividades. Por quase todo o país surgiram, assim, empresas comerciais (cafés, restaurantes, supermercados), industriais (aviários, fábricas transformadoras, serviços de frio), agrícolas, transportadoras, piscatórias, etc.
Os funcionários públicos passaram por sua vez a ser integrados no Quadro Geral de Adidos com 60 por cento do ordenado. Educação, Saúde, Agricultura, Administração Interna (PSP), Finanças e Administração Autárquica são os ministérios onde se encontram maioritariamente. Mal concedidos, ou não concedidos, seriam os créditos para compra de habitação própria (572 mil contos), depressa bloqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. As especulações, os desvios de fundos, a corrupção, o compadrio, o oportunismo, o roubo, dificultaram e desacreditaram no entanto (as irregularidades ascendem a mais de meio milhão de contos) parte do esforço desenvolvido. Os processos judiciais levantados (1 800 por fraude, no valor de 130 000 contos) continuarão a correr depois da extinção da Comissão Liquidatária do IARN.
«O povo português não é colonialista», repete, insuspeito e surpreendente, Samora Machel. Muitos dos que voltaram de África também não. Foram mais colonizados do que colonizadores, deram mais do que receberam, deixaram mais do que trouxeram. Os que, deles, colonizaram, exploraram, não estão entre eles - arraia miúda espalhada de norte a sul, de oeste a este, a trabalhar com as suas proles e as suas fúrias, noites dentro, sem horários, sem fins-de-semana, na ânsia de um aturdimento devorador e final. Os anos passaram. Os frutos disso surgiram. O sopro de renovação que desencadearam transformou já a face portuguesa. A que preço? Um país marginal surge paralelo ao oficial. E sobrepõe-se-Ihe por vezes em vitalidade, em provocação, em ousadia.
É o país ambíguo e secreto das especulações, dos tráficos, dos subornos, das cumplicidades; o país que evita alfândegas, escamoteia fiscos, submerge éticas; o país que desconhece balanças de pagamento e imposições do FMI.
O português sempre foi sábio nesse saber escapar-se às normas da legalidade - política, económica, religiosa, militar. Daí que uma parte discreta de retomados se lhe tenha introduzido, célere. O submundo das cidades, os negócios penúmbreos, as especulações vertiginosas, foram roleta em que apostaram e ganharam. Os «bas-fonds» da capital, as boites de província, as transacções secretas (diamantes, automóveis, electrodomésticos, favores a poderosos) passaram a passar por eles na determinação de reconquistarem aqui privilégios e níveis de vida perdidos lá.
Desinseridos da luta que os trabalhadores portugueses desenvolvem há anos, curto circuitaram-na em diversos sectores por falta de tradição (dela) e por ânsia de caírem nas boas graças (e nos bons lugares) do sistema emergido.
Vindos de terras de menor exigência mas de maior abertura acabaram por modificar-se ao modificar o meio. Sobretudo os mais jovens, detentores de estatutos de outra liberdade, sem os tabus aqui solidificados nem as normas aqui secularizadas. ' As relações que estabeleceram com os que encontraram permitiram-lhes alterar comportamentos; idêntico fenómeno deu-se, aliás com os filhos dos emigrantes em férias. Entre os que vieram de África e os que vêem da Europa, o velho português abre-se, também ele, a novas convivências, a novas frontalidades. Os turistas estrangeiros e as telenovelas brasileiras ajudaram ao cerco que os tempos pós-modernos nos estendem à volta. Os jovens que enchem hoje os cafés e as discotecas da província são já produto dessa tão fascinante como curiosa miscigenação do cultural. As dificuldades, as faltas de perspectivas, os desalentos são os mesmos para todos eles, pretos, e brancos, e mulatos, e mestiços, e amarelos, e loiros, e ciganos; os que retomaram de África, os que nasceram cá, os que hão-de vir da Europa, os que não poderão já partir porque já não há África, nem Europas para desbravar e servir. O ciclo está fechado.
Expulsos do paraíso por pecados originais não assumidos, vivem agora assombrados na fixidez da memória. Passar horas entre si é recuar no tempo. As suas casas estão cheias dele, de objectos, de fotos e de símbolos, o «naperon», a estatueta de madeira, o carro, o tapete, a música, a balalaica, o espeto do hurrasco a pele de cobra. À volta da mesa bebe-se o cálice do reencontro. A solidariedade é-lhes uma religião quase patética, feita de rituais, de perguntas, de ternuras, de silêncios, de imprecações. Baptizados pelo mesmo fogo, conheceram o mesmo pânico, o mesmo desamparo, o mesmo Golgota, a mesma humilhação; um pacto de suor uniu-os para sempre. Não podem por isso aceitar o que se passou. Morreriam se o fizessem. Dizem-se, sentem-se enganados pelos políticos que os «iludiram deliberadamente»; dizem-se, sentem-se traídos pelas Forças Armadas que os deixaram, sem intervir, se golpeados; dizem-se, sentem-se vítimas e inocentes; só assim conseguirão salvar-se perante si mesmos.
Daí o seu apoio aos grupos de direita e extrema-direita aos que, por ironia, foram os primeiros grandes responsáveis pela «tragédia da descolonização» .. Não proceder como procedeu era, porém, admitir a sua cumplicidade, o seu desconhecimento, o não sentido, afinal, da sua vida - lá. Cá, ele contribuiu para o desandar da Revolução. Esta, que o sabia (na 5.ª Divisão houve quem preconizasse o seu abandono para o seu massacre), trouxe-o, no entanto, de regresso numa ponte aérea de incomensurável dimensão. A maior parte deles, porém, veio com a roupa do corpo, com escassos haveres em caixotes e notas inúteis nos bolsos.
Alguns tentaram permanecer em África. Amavam-na, serviam-na, era a sua terra. Nada tendo a esconder, nada tinham pensavam, a recear. Os governantes diziam-lhes, pela imprensa e pelos comícios, isso mesmo. Caso a caso, história a história, as suas vidas fazem-se mitos. As Africas distanciam-se na memória, ficam névoa que se dispersa pelo país, arco-íris em horizontes queimados de futuro.
Alentejo, Algarve, Beiras, Trás-os-Montes, em todo o lado encontrámos as mesmas faces, os mesmos olhares, as mesmas acusações, o mesmo aturdimento. Como exércitos de inocentes depois da derrota, estendemos as palavras e abrem-nas ao sol: Não têm arrependimento porque não têm culpa. A todos, e foram centenas, repetimos a pergunta: nunca pensaram que lhes poderia acontecer o que aconteceu? As respostas são unânimes: nunca! Não tinham informação do que se passava, os jornais e a rádio nada diziam, ou diziam que estava tudo resolvido.
Apenas ouviremos, num terceiro andar de Benfica, uma excepção: «Os que tinham consciência da situação sabiam. Aliás depois, da independência da Argélia e da independência do Congo, era previsível. Receava até que fosse pior». Ex- deputado do PCP, o Dr. José Manuel Jara acrescenta: «A camada progressista e intelectual de Angola era, porém, uma minoria. Em 600 mil brancos devia haver mil que tinham consciência do que se passava. Os outros quiseram viver a ilusão colonial até ao fim. Não conseguem agora suportar esse fim. Vieram de um mundo grande onde criaram coisas grandes. Aqui tentam fazer o mesmo, construir também coisas grandes. O pior é que aqui tudo é pequeno!» Nos extremos sociais que ocupam, os retomados habitam as casas mais modernas das aldeias e os tugúrios mais deprimentes das cidades. As grandes vivendas que irrompem pela província são, na verdade, deles e dos emigrantes; os bairros mais degradados também, como os de pré-fabricados vindos da Holanda e da Noruega, e de outros países caritativos. Desfazem-se ao frio, ao vento, ao tempo, em Braga, em Vila Real, em Viseu, em Moncorvo, em Montalegre, em Miraflores.
Construir casa e montar negócio foi o seu grande projecto lá e cá. A primeira coisa (única?) que o português fez em África e no Brasil foi o levantar abrigo, abrir balcão, arranjar mulher, semear prole; a sua melhor alfaia foi, continua a ser, a revenda. Daí o ele só saber organizar-se economicamente e adiologicamente (sem ideologia). Os povos de que descende/descendemos, judeus, romanos, fenícios, cartagineses, vieram, aliás, pelo mesmo corredor, o do Mediterrâneo, e tinham todos características comerciais, não agrárias.
As perspectivas de intensificar agora o comércio (legal) são, porém, difusas. O boom que se verificou nele, e por ele, na construção civil, nas explorações hoteleiras, industriais e pecuárias (possível devido aos empréstimos do IARN) entrou em declínio. Os economistas do FMI estão a desempenhar hoje aqui o mesmo papel que os políticos de Salazar desempenharam ontem em África.
Teremos de fazer outra, e depois outra, e outra descolonização; de voltarmos a ser náufragos e retornados porque só através dos regressos e das partidas nos reencontraremos. «Assistimos já», diz o escritor Rui Nunes (os criadores pressentem estes fenómenos antes dos técnicos e dos políticos) «a um retorno a África», visível, por exemplo, «no fascínio pela sua literatura; voltamo-nos para Sul, abandonamos a Europa». Que não, nos quer. Procuramos o útero na distância, o passado no destino; o País volta a estar pronto. D. Dinis poderá ser o próximo Presidente da República.
Fontes: compõem este escrito.
Fernando Dacosta http://www.prof2000.pt/users/secjeste/aidaviegas/Pg001000.htm
Refeitos os bocados de cada um, ergueram-se e atiraram-se em frente. Chegaram, em pequenos grupos, a todo o país; e em pequenas ocupações, a todos os sectores. Como novos bandeirantes, colonos uma vez mais, foram para o interior carregando cóleras e pânicos, vinganças e ousadias. A sua raiva foi a sua força; a anti-fé fê-los mover montanhas, dominar medos, vencer a loucura e o desamor. E dar provas espantosas de coragem, de persistência, de engenho de invenção.
ajudas de instituições, de subsídios, de empréstimos, de amigos, começaram a fixar-se e a transformar os locais onde se detiveram. A emigração e o exílio tinham despovoado meio país. Aldeias inteiras apenas albergavam velhos e crianças, povoações havia que não tinham sequer um habitante. Era um país de deserções e decrepitudes a viver das mesadas dos emigrantes e dos militares, e das contas dos turistas; um país onde estava (está) tudo por fazer, por merecer; como estavam (estão) os sertões da memória africana.
Então repetiram aqui o que há decénios faziam lá. Mas lá tudo era grande, fácil, farto, acessível: mão-de-obra, créditos, comércios, terrenos, colheitas, gados, máquinas, solidariedades. Havia terra, terra, e espaço e, como no oeste americano, sonho. Um homem tinha, se quisesse, a dimensão de um deus.
Há centenas de anos que desembarcamos de idas e retornos, a diferença nunca foi muita, que pegamos em proles, haveres, ilusões e feridas, e partimos para dentro, oceanos e continentes, em peregrinações interiores de fé, cobiça e trapaça.
Com a mesma convicção que iniciámos mares e impérios desistimos deles, renunciámos a eles. Deixamos tudo a meio, talvez por sermos, sem o saber, suficientemente sábios para isso. «Não foi a riqueza, nem a terra que Vasco da Gama buscou nos Lusíadas. Foi», diz-nos o professor Agostinho da Silva, «a Ilha dos Amores» .. Como a não encontrou/encontrámos, . suspendemo-nos, incompletamo-nos - que é uma maneira de nos completar. Daí que o fado seja a nossa realidade e o sebastianismo a nossa igreja. Estamos sempre a
partir e a chegar, somos retornados de nós próprios. Expulsos há dez anos de África queremos partir de novo para África - outra. Samora Machel é reverso de Vasco da Gama. A maior parte dos que vieram irá, porém, perecer aqui. Não sobreviverá à morte da sua Angola, do seu Moçambique, da sua Guiné. Que tenta reconstruir em Moncorvo, em Viseu, em Lisboa, em Sagres, em ...
Do mesmo modo que tentou reconstruir Moncorvo, Viseu, Lisboa, Sagres em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, em S. Tomé, na Índia, no Brasil. África foi portugalizada em África nos últimos séculos; Portugal está a ser africanizado em Portugal nos últimos decénios. Os musseques do Prenda irrompem no Alto do Dafundo; as marrebentas agitam os bailes dos domingos suburbanos; as churrasqueiras florescem nas estradas beirãs; o caril, a cerveja, o fumo, os fumos, sobem aos planaltos nortenhos; o imaginário dilata-se; as histórias de caça, de aventuras, de magia, de abundância, perpassam os cabeços de granito e giesta. Um sopro quente perturba a pele dos que ficaram, dos que na história só vêem partir, soldados, missionários, mercadores, emigrantes, xilados, e vêem voltar: deslumbrantes de riqueza uns, pasmados de vazios outros.
Vai fazer agora dez anos que o princípio do fim se deu. O que aconteceu, entretanto, a essas populações escolhidas para expiar a culpa do nosso colonialismo? Portugal está reduzido à sua origem, está devolvido a ele próprio - de vez. A exaustão apazigua as feridas, dissolve a angústia, enevoa a memória, gera o futuro. Novos países surgem aqui, em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, unidos na mesma língua e no mesmo afecto.
Quando D. Dinis acaba o seu reinado Portugal está pronto. Território definido, possui campos férteis (defendidos das areias pelo Pinhal de Leiria), dispõe de castelos sólidos (que não deixam avançar os espanhóis), desfruta de religião própria, exulta vontade de existir. xistir desenvolvendo-se internamente (podia ser hoje uma Dinamarca), ou derramando-se externamente. Derramou-se.
Engendra então a espantosa gesta dos Descobrimentos - que o faz mudar o mundo e perde-se de si. De senhores em Luanda, Lourenço Marques e Bissau, passamos a criados em Paris, Bona e Bruxelas. Regressados de uma condição e de outra, encontramo-nos no ponto de partida. E o pequeno berço range ao peso dos que se lhe aninham, ora cansados e submissos, ora esbracejantes e coléricos.
Portugal está a ser reconstruído pela raiva dos retornados. E a raiva dá muita força. «Em breve vamos sentir que estamos a ser colonizados por eles», especifica-nos o professor Agostinho da Silva. «Eles vão lançar mão a tudo ... agarrar-se à terra, usar com as pessoas de cá os mesmos métodos que usaram com as de lá. Para eles o aldeão é o preto, o nosso camponês começa já a dizer: patrão retornado é bruto l». «Cá os retornados olham e dizem: vamos fazer aqui a nossa vida como fazíamos em África, que não deu certo por culpa destes tipos, porque o Exército não se portou bem, nem os políticos». «Eles acham que têm que melhorar Portugal como os brasileiros de Camilo ... dentro de alguns anos o País vai reconhecer que a força fecundadora lhe foi dada por eles. São por natureza construtores de impérios, não são navegadores. No Brasil fundaram fazendas, em África abriram lojinhas».
«Para aqui não trazem divisas, como os emigrantes, constroem é coisas. E quando os emigrantes voltarem vão cair sob o seu domínio. Eles dominarão quando as reservas de oiro se acabarem e quando as remessas dos emigrantes cessarem. Nessa altura também o FMI terá desaparecido». Apontada como um fenómeno ímpar de absorção social, só possível em povos de grande generosidade,
a integração dos retomados tornou-se, escassos anos após a sua chegada, um caso surpreendente. A desconfiança inicial, por vezes hostilidade, com que foram recebidos, sucedeu a convivência a amenidade. A própria palavra «retornado» (rapidamente popularizada apesar de nem sempre exacta ou justa) quase que não se ouve já.
O exemplo que deram de trabalho, de iniciativa, de inter-ajuda, de perseverança granjear-Ihe-iam depressa respeito e admiração. E temor .. Desde ministros poderosos, no Governo Central - (Almeida Santos) a vogais humildes nas autarquias interiores (das 12 câmaras do distrito de Bragança, por exemplo, oito são de retornados); desde industriais prósperos a indigentes asilados, desde o grande hoteleiro de Albufeira à empregada de copa de Castro Daire, desde o aviário modelo de Pegões à queijaria tosca da Estrela, estão em toda a parte, bispos, militares, juízes, contrabandistas, artistas, jornalistas, cientistas, cozinheiros, professores, polícias, prostitutas, chulos, desportistas, funcionários, estão em toda a parte transformando o meio, matizando o tecido social, alterando os espectros políticos, religiosos, morais, ideológicos. De subvalorizados passar a sobrevalorizados. Vivendo em círculos concêntricos assumem-se em certas zonas como castas de poderio crescente. Alguns tomam-se os novos donos da terra.
«Mais de 50 por cento vive melhor aqui do que lá», repetem-nos. Hoje controlam vários sectores, são a sua classe dirigente e exigente; formam uma rede por todo o país que se organiza, alarga, fortalece, interpenetra. Mais do que o dinheiro, porém, ou a riqueza em si, é o triunfo, o êxito, o domínio que lhes interessa. «Se vez de nos terem disperso pelo país nos tivessem dado uma província só para nós, éramos agora uma potência, os de fora tinham de nos pedir batatinhas!» afiança-nos Custódio Antunes, no Cartaxo, antigo camionista no norte de Angola ..
Foi jogando nessa mentalidade que surgiram, por exemplo candidatos próprios à presidência da República, como Pompílio da Cruz, e candidatos seus representantes privilegiados como Galvão de Melo.
Os grandes partidos políticos depressa passaram a aliciá-los e a recebê-los nas suas estruturas internas de onde os injectaram na administração pública. «Eles é que fizeram pender, a balança no sentido da contra revolução!» comenta o antigo deputado José Manuel Jara, único retornado no grupo parlamentar do PCP.
A sua inserção provoca em muitos observadores surpresa. A França (com retomados da Indochina, da Tunísia, de Marrocos, da Argélia), a Itália (da Líbia e da Abissínia), a Bélgica (do Congo) ainda sofrem internamente as sequelas na sua descolonização. Aparentemente Portugal dirigiu-a. Aparentemente todos se ajeitaram. «Foi como se tivéssemos de entrar num estádio cheio, abana daqui,
acotovela dali, fomos avançando». A frase de João Meira, é expressiva. «A grande ajuda ao retornado foi ele próprio que a deu. Somos um povo com uma capacidade de integração maravilhosa, e em todas as circunstâncias. Fomos o único povo da Europa que se adaptou a viver no sertão, que se casou com pretas.
Mas a nossa adaptação tem sido feita à custa de muito esforço, de muito sacrifício, de muitas vítimas. Sofremos de uma doença muito grande: o saudosismo». Para João Cabral, oriundo do Lobito, actualmente director do Apoio Cristão Internacional, «o êxito da integração é muito relativo. Foi a política seguida pelos governos que calou os retornados. Separaram-nos, polvilharam-nos pelo país, tiraram-nos a força. E eles resignaram-se. Em França, não, os argelinos foram existentes, o mesmo aconteceu noutros países, por isso se ouve ainda falar dos seus retornados. Aqui amocharam!».
Diversos organismos surgiram em sua defesa e apoio. Organismos religiosos, políticos, assistenciais,culturais, educativos. Oficiais, como o IARN; internacionais, como o Apoio Cristão e a Cruz Vermelha; filantrópicos, como a Associação de Apoio aos Angolanos; reivindicativos, como a ANERM - Associação dos Naturais e Ex-Residentes de Moçambique, e a FRAUL - Movimento Nacional de Fraternidade Ultramarina (que pretendem indemnizações do Estado); recreativos, como «Os Inseparáveis do Lubango» (cerca de sete mil no último piquenique realizado no Buçaco. Os mais crentes têm uma Santa sua, a Nossa Senhora dos Retornados, a quem dedicaram há pouco, em Oliveira do Bairro, grandes festividades.
Dispõem também de uma imprensa própria (como o jornal «O Retornado», o boletim «A Voz do Cid») e, muito próxima (casos do «Dia» e do «Diabo»).
Após a sua chegada a Lisboa, onde eram acolhidos pela Cruz Vermelha e pelo IARN, recebiam alimentação e assistência; uma parte beneficiou de créditos, subsídios e empréstimos que permitiram a alguns, dado o seu juro bonificado, reorganizar-se e lançar-se em diversas actividades. Por quase todo o país surgiram, assim, empresas comerciais (cafés, restaurantes, supermercados), industriais (aviários, fábricas transformadoras, serviços de frio), agrícolas, transportadoras, piscatórias, etc.
Os funcionários públicos passaram por sua vez a ser integrados no Quadro Geral de Adidos com 60 por cento do ordenado. Educação, Saúde, Agricultura, Administração Interna (PSP), Finanças e Administração Autárquica são os ministérios onde se encontram maioritariamente. Mal concedidos, ou não concedidos, seriam os créditos para compra de habitação própria (572 mil contos), depressa bloqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. As especulações, os desvios de fundos, a corrupção, o compadrio, o oportunismo, o roubo, dificultaram e desacreditaram no entanto (as irregularidades ascendem a mais de meio milhão de contos) parte do esforço desenvolvido. Os processos judiciais levantados (1 800 por fraude, no valor de 130 000 contos) continuarão a correr depois da extinção da Comissão Liquidatária do IARN.
«O povo português não é colonialista», repete, insuspeito e surpreendente, Samora Machel. Muitos dos que voltaram de África também não. Foram mais colonizados do que colonizadores, deram mais do que receberam, deixaram mais do que trouxeram. Os que, deles, colonizaram, exploraram, não estão entre eles - arraia miúda espalhada de norte a sul, de oeste a este, a trabalhar com as suas proles e as suas fúrias, noites dentro, sem horários, sem fins-de-semana, na ânsia de um aturdimento devorador e final. Os anos passaram. Os frutos disso surgiram. O sopro de renovação que desencadearam transformou já a face portuguesa. A que preço? Um país marginal surge paralelo ao oficial. E sobrepõe-se-Ihe por vezes em vitalidade, em provocação, em ousadia.
É o país ambíguo e secreto das especulações, dos tráficos, dos subornos, das cumplicidades; o país que evita alfândegas, escamoteia fiscos, submerge éticas; o país que desconhece balanças de pagamento e imposições do FMI.
O português sempre foi sábio nesse saber escapar-se às normas da legalidade - política, económica, religiosa, militar. Daí que uma parte discreta de retomados se lhe tenha introduzido, célere. O submundo das cidades, os negócios penúmbreos, as especulações vertiginosas, foram roleta em que apostaram e ganharam. Os «bas-fonds» da capital, as boites de província, as transacções secretas (diamantes, automóveis, electrodomésticos, favores a poderosos) passaram a passar por eles na determinação de reconquistarem aqui privilégios e níveis de vida perdidos lá.
Desinseridos da luta que os trabalhadores portugueses desenvolvem há anos, curto circuitaram-na em diversos sectores por falta de tradição (dela) e por ânsia de caírem nas boas graças (e nos bons lugares) do sistema emergido.
Vindos de terras de menor exigência mas de maior abertura acabaram por modificar-se ao modificar o meio. Sobretudo os mais jovens, detentores de estatutos de outra liberdade, sem os tabus aqui solidificados nem as normas aqui secularizadas. ' As relações que estabeleceram com os que encontraram permitiram-lhes alterar comportamentos; idêntico fenómeno deu-se, aliás com os filhos dos emigrantes em férias. Entre os que vieram de África e os que vêem da Europa, o velho português abre-se, também ele, a novas convivências, a novas frontalidades. Os turistas estrangeiros e as telenovelas brasileiras ajudaram ao cerco que os tempos pós-modernos nos estendem à volta. Os jovens que enchem hoje os cafés e as discotecas da província são já produto dessa tão fascinante como curiosa miscigenação do cultural. As dificuldades, as faltas de perspectivas, os desalentos são os mesmos para todos eles, pretos, e brancos, e mulatos, e mestiços, e amarelos, e loiros, e ciganos; os que retomaram de África, os que nasceram cá, os que hão-de vir da Europa, os que não poderão já partir porque já não há África, nem Europas para desbravar e servir. O ciclo está fechado.
Expulsos do paraíso por pecados originais não assumidos, vivem agora assombrados na fixidez da memória. Passar horas entre si é recuar no tempo. As suas casas estão cheias dele, de objectos, de fotos e de símbolos, o «naperon», a estatueta de madeira, o carro, o tapete, a música, a balalaica, o espeto do hurrasco a pele de cobra. À volta da mesa bebe-se o cálice do reencontro. A solidariedade é-lhes uma religião quase patética, feita de rituais, de perguntas, de ternuras, de silêncios, de imprecações. Baptizados pelo mesmo fogo, conheceram o mesmo pânico, o mesmo desamparo, o mesmo Golgota, a mesma humilhação; um pacto de suor uniu-os para sempre. Não podem por isso aceitar o que se passou. Morreriam se o fizessem. Dizem-se, sentem-se enganados pelos políticos que os «iludiram deliberadamente»; dizem-se, sentem-se traídos pelas Forças Armadas que os deixaram, sem intervir, se golpeados; dizem-se, sentem-se vítimas e inocentes; só assim conseguirão salvar-se perante si mesmos.
Daí o seu apoio aos grupos de direita e extrema-direita aos que, por ironia, foram os primeiros grandes responsáveis pela «tragédia da descolonização» .. Não proceder como procedeu era, porém, admitir a sua cumplicidade, o seu desconhecimento, o não sentido, afinal, da sua vida - lá. Cá, ele contribuiu para o desandar da Revolução. Esta, que o sabia (na 5.ª Divisão houve quem preconizasse o seu abandono para o seu massacre), trouxe-o, no entanto, de regresso numa ponte aérea de incomensurável dimensão. A maior parte deles, porém, veio com a roupa do corpo, com escassos haveres em caixotes e notas inúteis nos bolsos.
Alguns tentaram permanecer em África. Amavam-na, serviam-na, era a sua terra. Nada tendo a esconder, nada tinham pensavam, a recear. Os governantes diziam-lhes, pela imprensa e pelos comícios, isso mesmo. Caso a caso, história a história, as suas vidas fazem-se mitos. As Africas distanciam-se na memória, ficam névoa que se dispersa pelo país, arco-íris em horizontes queimados de futuro.
Alentejo, Algarve, Beiras, Trás-os-Montes, em todo o lado encontrámos as mesmas faces, os mesmos olhares, as mesmas acusações, o mesmo aturdimento. Como exércitos de inocentes depois da derrota, estendemos as palavras e abrem-nas ao sol: Não têm arrependimento porque não têm culpa. A todos, e foram centenas, repetimos a pergunta: nunca pensaram que lhes poderia acontecer o que aconteceu? As respostas são unânimes: nunca! Não tinham informação do que se passava, os jornais e a rádio nada diziam, ou diziam que estava tudo resolvido.
Apenas ouviremos, num terceiro andar de Benfica, uma excepção: «Os que tinham consciência da situação sabiam. Aliás depois, da independência da Argélia e da independência do Congo, era previsível. Receava até que fosse pior». Ex- deputado do PCP, o Dr. José Manuel Jara acrescenta: «A camada progressista e intelectual de Angola era, porém, uma minoria. Em 600 mil brancos devia haver mil que tinham consciência do que se passava. Os outros quiseram viver a ilusão colonial até ao fim. Não conseguem agora suportar esse fim. Vieram de um mundo grande onde criaram coisas grandes. Aqui tentam fazer o mesmo, construir também coisas grandes. O pior é que aqui tudo é pequeno!» Nos extremos sociais que ocupam, os retomados habitam as casas mais modernas das aldeias e os tugúrios mais deprimentes das cidades. As grandes vivendas que irrompem pela província são, na verdade, deles e dos emigrantes; os bairros mais degradados também, como os de pré-fabricados vindos da Holanda e da Noruega, e de outros países caritativos. Desfazem-se ao frio, ao vento, ao tempo, em Braga, em Vila Real, em Viseu, em Moncorvo, em Montalegre, em Miraflores.
Construir casa e montar negócio foi o seu grande projecto lá e cá. A primeira coisa (única?) que o português fez em África e no Brasil foi o levantar abrigo, abrir balcão, arranjar mulher, semear prole; a sua melhor alfaia foi, continua a ser, a revenda. Daí o ele só saber organizar-se economicamente e adiologicamente (sem ideologia). Os povos de que descende/descendemos, judeus, romanos, fenícios, cartagineses, vieram, aliás, pelo mesmo corredor, o do Mediterrâneo, e tinham todos características comerciais, não agrárias.
As perspectivas de intensificar agora o comércio (legal) são, porém, difusas. O boom que se verificou nele, e por ele, na construção civil, nas explorações hoteleiras, industriais e pecuárias (possível devido aos empréstimos do IARN) entrou em declínio. Os economistas do FMI estão a desempenhar hoje aqui o mesmo papel que os políticos de Salazar desempenharam ontem em África.
Teremos de fazer outra, e depois outra, e outra descolonização; de voltarmos a ser náufragos e retornados porque só através dos regressos e das partidas nos reencontraremos. «Assistimos já», diz o escritor Rui Nunes (os criadores pressentem estes fenómenos antes dos técnicos e dos políticos) «a um retorno a África», visível, por exemplo, «no fascínio pela sua literatura; voltamo-nos para Sul, abandonamos a Europa». Que não, nos quer. Procuramos o útero na distância, o passado no destino; o País volta a estar pronto. D. Dinis poderá ser o próximo Presidente da República.
Fontes: compõem este escrito.
Fernando Dacosta http://www.prof2000.pt/users/secjeste/aidaviegas/Pg001000.htm
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