TuneList - Make your site Live

13/12/2012

CESARIA ÉVORA


Ai que saudades aiué!...

Faz dia 17 de Dezembro um ano que nos deixaste

Ai Cesária, quantas lágrimas vertidas na melancolia do meu recanto, ouvindo os sons do mar azul, relembrando os corpos de mulher perfumados, das cacimbas, da moamba, da mãe preta carregando seu moleque nas costas indo na floresta carregar lenha.

Ai que saudades me trazes Cesária, quando tinha a lua por minha testemunha nos arrebates do coração por mais uns momentos sensuais naquele mar imenso de matagal.

Ai que saudades daqueles momentos estonteantes, do rodopio pela sala, dançando uma coladera ou, então, encostando o meu corpo, num gesto voluptuoso, contra o corpo quente de uma africana ao som de uma morna. Desde cedo, Cise, como era conhecida pelos amigos, começou a cantar e a fazer atuações aos domingos na praça principal da sua cidade, acompanhada pelo seu irmão Lela, no
saxofone.

Aos 16 anos, Cesária começou a cantar em bares e hotéis e, com a ajuda de alguns músicos locais, ganhou maior notoriedade em Cabo Verde, sendo proclamada a "Rainha da Morna" pelos seus fãs.

Encorajada por
Bana (cantor e empresário cabo-verdiano radicado em Portugal), tive o privilégio de conhecer Cesária Évora na discoteca de Bana na Rua do Sol ao Rato em Campo de Ourique em 1985 onde Cesária Évora voltou a cantar. Tempos depois em Cabo Verde um francês de descendência portuguesa chamado José da Silva persuadiu-a a ir para Paris e tornou-se no seu Empresário.

Morreu no dia 17 de Dezembro de 2011, com 70 anos, por "insuficiência cardiorrespiratória aguda e tensão cardíaca elevada". A morte ocorreu por volta das 11h20 no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Muito de mim Cesária parte contigo. Ficam os sons dessa Terra que tudo me deu e tudo me tirou exceto... as recordações.

Cesária Évora foi maioritariamente relacionada com a
morna, por isso também foi por vezes apelidada "rainha da morna". Era conhecida como «a diva dos pés descalços». foi a cantora de maior reconhecimento internacional de toda história da música popular cabo-verdiana. Apesar de ser sucedida em diversos outros géneros musicais.

Canções

"Sodade" - "Bia" -“Cumpade Ciznone"- "Direito Di Nasce"- "Luz Dum Estrela"- "Angola"

“Miss Perfumado" - “Vida Tem Um So Vida"
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1ria_%C3%89vora - cite_note-3

A VOZ DE JOÃO KAJIPIPA 8


Aiué minha mãe!!! Só dá mesmo p’ra “XINGUILAR"!!!

Escuta ainda meu irmão....Juro, qui não tens coráge dé fazer us "TRUMUNOS" nesta banga - fukula!

É demais!!! É o Varela Bodinho...não lhi conhéces?? Cuidado com ele. Vê ainda as suas "BARONAS" no seu fluxo sanguíneo agitado...É demais estás "BOAMADO"?

Meu Deus!! Nossa Senhora da Muxima mi defenda....?!!!

Mas porquê, tanto castigo…viver aqui neste frio, “ Kinama gelado “, consternado, agarrado à crise, crise, crise, crise, e mais crise,,, porra! Maji qui mal, é qui eu fiz?

Quero “roçar”! quero “farfalhar”… quero “ baralhar” e “ marmelar”… Eu não sou di cá… sou da “banda”, nasci no Sambila … Sou mucequeiro puro….

Ai! Afinal di conta, fico aqui? Toda a vida? Já não acabou a guerra?

Filhos da P…. !!!

João Kajipipa deseja um bom natal a todos


Banga Ninito

2012

REALIDADE, TRISTE:


ANGOLANOS SÃO TÃO POBRES, QUE SÓ TÊM DINHEIRO...

Em nenhum outro país os ricos demonstram mais ostentação que em Angola. Apesar disso, os Angolanos ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos autocarros e candongueiros do subúrbio. E, às vezes, são assaltados, sequestrados, abusados e violentados no trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranquilos enquanto eles não chegam à casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos. Os ricos angolanos, usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam frequentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que ali por perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram. Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa. Os ricos Angolanos são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos angolanos continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência. No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os angolanos ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente. Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na lunda, destruidores da Floresta do maiombe em Cabinda, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de paludismo e de filária.. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros. Na verdade, a maior pobreza dos ricos angolanos, está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados. Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos com dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infeções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença. Há um grave quadro de pobreza entre os ricos angolanos. E esta pobreza é tão grave que a maior parte deles não percebe. Por isso a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais das pobres, ricas? elites? angolanas.

Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos angolanos, poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo. Esta seria uma decisão que enriqueceria ANGOLA INTEIRA - os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez. Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas".

por Edson Vieira Dias Neto

(adaptado de um texto de Cristovam Buarque que assenta que nem uma luva a esta Angola, ainda em plena "Acumulação Primitiva de Capital")

2012

A PRIMEIRA VEZ

Vou começar do princípio. Eu tinha 17 anos, era cabeludo e vestia à moda da altura, todo bangão. Aquele bangão que vivia em casa dos pais e andava sempre limpinho, camisa cintada e calças à boca de sino, estudante fim de curso, muitas vezes viajava com minha mochila nas costas, nos anos 70, muitas vezes à boleia outras com amigos, mas não ia muito longe, ia até as Palmeirinhas, Mussulo, Barra do Dande, Barra do Kuanza, outras vezes sim, ía mais longe, Nova Lisboa, Benguela, Lobito e por outras paragens. Havia vários jovens como eu, que ou sozinhos ou em grupos, fazíam essas viagens. Sexo era uma coisa linda, era o que importava além de PAZ e AMOR, um mundo livre da guerrilha de Angola e ter algum dinheiro para as despesas do dia ( tabaco, cerveja ). Diga-se de passagem nunca fumei Liamba. Aliás só fumava cigarros AC !

Numa dessas viagens loucas, com a turma da Escola Industrial de Luanda, passeio de fim de curso, fomos parar a uma Vila bem pequena, perto do Huambo, cujo o nome é Waco Kungo ( Antiga Cela ), mas vale ressalvar que tal Vila tinha como principal atração a exposição agro pecuária de gado, e de gado leiteiro. Enfim, rural, ruralíssima. Mesmo sem dinheiro no bolso, os anos 70 eram um verdadeiro paraíso pra viajantes amadores como nós, que não criávamos laços e que não faziam questão de se arriscar um pouco mais. Sempre se tinha o céu de estrelas como cobertor, Lá nessa Vila, conheci uma garina de 18 anos de Nova Lisboa, que também viajava com os amigos á boleia, e ai ficamos amigos..

Preciso falar dela, preciso dizer ao mundo o quanto ela foi importante na minha vida. Não, ela não foi o AMOR da minha vida. Não, mil vezes não, isso não é um conto romântico, não passa nem de longe de uma história cor-de-rosa, de contos de fadas ou de um romance apaixonado. Digo que ela foi importante, porque foi a mulher que me relacionei sexualmente pela primeira vez. Tivemos alguns minutos na conversa, mas não aguentei muito mais, sentei-me ao lado dela e beijei-a. Sentia-a nervosa, acho que ela se apercebeu do que ia acontecer. Fomos para a minha tenda e …….

Por favor, não tenho remorsos, nem tão pouco vaidades, não estou nem aí que ela me processe. Mas eu preciso de falar da minha primeira vez. Tinha que haver uma primeira vez, e esta foi a minha primeira vez, tinha 17 anos.

E A MINHA PRIMEIRA VEZ FOI COM A ALICE……..

1972

11/12/2012

A ESPERANÇA NA VIDA DA GENTE!



Às vezes não é sequer necessária a chegada ou ida ao médico, basta uma mudança dos nossos pensamentos, uma oração que saia lá do fundo da nossa alma e, de repente, sentimos que Deus está próximo de nós e que podemos confiar Nele. “A esperança, é a ultima a morrer”, como se diz em gíria popular.

Nós portugueses, desanimamos por tudo e por nada. E agora, com essa coisa da crise…ainda pior! Quando a derrota domina uma pessoa, a coisa mais fácil e lógica a fazer é…desistir! É exactamente isso que a maioria faz. Mais de cinco centenas dos homens de maior sucesso que este país alguma vez teve, alegaram que o seu maior sucesso surgiu apenas a um passo para além do ponto em que a derrota os teria assolado. O falhanço, é uma “ratoeira” com um apurado sentido de manha. O seu maior prazer é passar uma rasteira a alguém quando o êxito está quase a ser alcançado. Uma das causas mais comuns do falhanço, é o hábito de se desistir quando se é assaltado por uma derrota temporária. Todas, ou quase todas, as pessoas cometem este erro, num ou noutro momento.

Leiam esta pequena história verídica:

“Um cidadão americano, foi apanhado pela “febre do ouro”. Foi para o oeste do Colorado escavar, após ter reclamado os seus direitos sobre a terra, afim de se tornar rico. Depois de semanas de trabalho, foi recompensado com a descoberta de um minério brilhante. Precisava de maquinaria para trazer o minério à superfície. Contou o seu achado aos seus familiares e amigos. Esses (em conjunto), juntaram o dinheiro necessário para a aquisição de material, afim de darem início aos seus trabalhos (exploração da mina). O primeiro carro com minério foi carregado e enviado para uma fundição. Os resultados provaram que eles tinham uma das mais ricas minas de Colorado. Mais alguns carros, com aquele minério, chegariam para pagar as dívidas. Depois iriam começar os lucros. As brocas enterraram-se nas profundezas e as esperanças daquela gente, crescia. Então, uma coisa aconteceu. O veio de ouro desapareceu! Tinham chegado ao fim do “arco-íris” e o pote de ouro já lá não estava. Continuaram a escavar, a tentar desesperadamente apanhar outro filão, mas…sem qualquer proveito. Finalmente, decidiram desistir. Venderam a maquinaria a um Sucateiro e regressaram a casa desolados. O Sucateiro pediu a um engenheiro de minas para fazer umas pesquisas à mina e fazer alguns cálculos. Mais tarde, o engenheiro informou, que o projecto tinha falhado porque os proprietários não estavam familiarizados com o terreno. Os seus cálculos mostraram que o veio poderia ser encontrado apenas a um metro do sítio onde eles tinham parado (desistido) para escavar”. Conclusão: O Sucateiro retirou milhões de dólares da mina, porque não desistiu e porque sabia bem, que era necessário pedir o conselho de especialistas antes de ceder.

Estou convencido de um facto: não existe nada no mundo, de certo ou de errado, que a crença, aliada ao desejo ardente, à esperança e à força de vontade, não consigam tornar realidade. Estas qualidades estão ao alcance de todos.

BANGA

2012
                                   

ALMOÇO DA FISIPE

Foi um sucesso o 1º almoço dos antigos colaboradores da Fisipe empresa japonesa que se dedicava á fabricação de fibra têxtil sintética, nos anos 70, o almoço foi realizado no dia 24/11/12.

Trabalhei lá 3 meses pela Metalúrgica Tejo, quando vim de Angola - Luanda em 1976, com o Zé Banqueiro e o João da Lusolanda.

E fiquei um pouco surpreendido pelo convite, não estava à espera depois destes anos todos. Este almoço deve-se somente ao Carlos Ramalho que se lembrou de convidar as pessoas para este almoço, são passados 36 anos desde que trabalhei lá.
Antes de se iniciar o almoço, o antigo Encarregado da Fábrica Sr. Carlos Ramalho, agora aposentado, agradeceu a presença de todos que estiveram presentes.

Entre muitos abraços daqueles que habitualmente se vão encontrando e daqueles que nunca tinham beneficiado da oportunidade de rever os antigos companheiros volvidos estes anos todos, foram-se recordando passagens e acontecimentos que dominaram a nossa juventude e nos marcaram de qualquer forma para sempre.

Após a realização da missa na igreja de Penafirme, à memória daqueles que, por já não se encontrarem entre nós, e não terem o privilégio de poderem gozar estes momentos de saudável convívio, rumamos em direção ao restaurante "Mirante” em Santa Cruz", onde se fizeram as poses para as fotos de conjunto, tendo no horizonte uma bonita vista sobre o mar.

Deu-se então a degustação de tão apetitoso almoço:

Aperitivos - Rissóis de Marisco, Pastelinhos de Bacalhau, Chamuças Vegetarianas, Patés, Queijo Brie quente com Mel Pólen de Flores, Casca de Sapateira recheada com tostinhas.

Bebidas - Sumos diversos, Moscatel de Setúbal, Gin Gordons, Vinho Branco Seco, Sangria de Champanhe c/ Frutos Vermelhos, Caipirinha, Vodka, Whisky Novo, Coca-cola, Águas Minerais.

Iguarias Quentes - Sopa (Puré de Feijão c/ Nabiças) - Bacalhau à Posta c/ Broa Assada a murro, Grelos Salteados e Vinho Moscatel - Lombinhos de Porco c/ Migas de Espargos Verdes, Castanhas e Laranjas às rodelas - Pão Diverso.

Bebidas da refeição - Vinho Branco de Marca, Vinho Tinto de Marca, Cervejas, Sumos Laranja/Limão, Águas Minerais.

Sobremesa em Buffet - Pudim de Ovos, Leite-creme, Salada de Frutas, Bolo de Chocolate, Frutas Laminadas, Mousse de Manga, Castanhas de Ovos, Tartes, Profiteroles com Molho de Chocolate.
Café

Digestivos
- Licores, Whisky Novo, Aguardentes Velhas.

Bolo - Festivo - Aniversário - Champanhe.

Após o corte do bolo de aniversário e porque, para alguns, havia um longo caminho a percorrer até casa, fizeram-se as despedidas e a esperança de um novo encontro para o próximo ano.

2012

LIAMBA E SEXO


Após o 25 de Abril de 1974, o País sofreu profundas alterações estruturais nas suas componentes Políticas, Sociais e Econômicas.

Muitos dos Portugueses que até ai viviam de um modo acomodado, aproveitaram a Revolução dos Cravos para darem largas à sua, em alguns casos, abusada liberdade, e de uma forma descontrolada procederam a excessos vários como foram as ocupações “selvagens” de propriedades rurais, fábricas, instituições bancarias, órgãos de comunicação social e praticamente tudo quanto no entendimento dos “cabecilhas” dos movimentos revolucionários, eram mais que muitos, poderia dar algum lucro direto e ao mesmo tempo a uma nova classe política em formação e que necessitava de status social para se afirmar na sociedade e por outro uma nova classe; os chamados novos ricos.

O ambiente em Lisboa era muito diferente daquele a que estava habituado na calmaria de Luanda por onde me movia: a coisa era mais urbana, mais nervosa quase me sentia numa grande Capital.

Nessa época dourada ou se era fascista, ou anti-fascista e portanto assumia-se como democrata todo aquele que batia forte no peito e gritava “eu nunca fui do antigo regime”. Era o antes e o depois de 25 de Abril de 1974, mas o mais estranho era que quase ninguém assumia ter sido apoiante do regime deposto, tendo surgido assim milhares de democratas, anti-fascistas, de aviário, auto-fabricadas da noite para o dia, e que surgia de tudo quanto era canto.

Saber perdoar é realmente uma grande virtude dos homens, ou de alguns homens, mas esquecer não deve ser uma regra para ser seguida, pois quem um dia ajudou a lançar nas masmorras do regime, homens e mulheres, só pelo simples facto de pensarem diferente, nunca pode ser alguém confiável, passem os anos que possam vir a passar sobre os acontecimentos.

Para Portugal Continental ficou reservada a parte de leão de acolher dezenas de milhares de portugueses espoliados e escorraçados das antigas colônias, quantos deles nascidos já em solo de Angola, Timor, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e que assim eram banidos das suas terras e recambiados para Portugal, na sua maioria com uma mão á frente e outra atrás, deixando para o passado das suas vidas uma memória de realizações e muitos sonhos não concretizados, com uma vida perfeitamente alterada e destruída de um dia para o outro.

O Portugal de 1975 não tinha estruturas nem condições políticas, Sociais, Geográficas e Econômicas entre outras para conseguir com o mínimo de condições absorver todos aqueles milhares de Portugueses, a quem pomposamente desde logo batizaram de “retornados”, bem como, muitos militares que passaram à disponibilidade.

Todo o país sofreu profundas transformações e Lisboa não foi exceção, na receção de muitas centenas de “novos” portugueses que vinham tentar adaptar-se ás condições do continente e por seu lado o próprio continente teve que se adaptar a esta nova realidade social e econômica.

Esta nova formula de vida que transformou Portugal de um dia para o outro num centro de acolhimento de desalojados que chegavam carregados de novas culturas e formas de vida, e obviamente como seria também de esperar, de muitos fatores nefastos para a sociedade, nomeadamente e em especial, a toxicodependência, até então praticamente inexistente em Portugal e que num ápice explodiu em termos de qualidade e quantidade.

Da simples “Maconha - Liamba”, passaram para outras ervas, para o L.S.D. para os ácidos, foi a explosão de uma geração para uma nova realidade em principio popularmente aplicada em termos culturais, mas que por detrás escondia os muitos jovens que fumavam Maconha - Liamba, tomavam os comprimidos de ácidos variados, etc, etc, e a escalada foi rápida e silenciosa, com efeitos terríficos e incontabilizáveis em termos de perdas e custos reais para o País, até aos dias de hoje, pois esta escalada nunca mais teve fim.

De forma alguma se pode acusar os alegados “retornados” pelo facto de que Portugal é um País tão igual a todos os outros em termos de toxicodependência, pode-se isso sim ter a certeza de que apenas diminuíram o tempo de surgimento e concretização desse processo de uma forma determinante.

Aquela geração, saída daqueles históricos acontecimentos, pode bem apelidar-se para alguns, sem ofender ninguém, de “Geração da Liamba e dos Ácidos!”

Enquanto em Luanda se começavam timidamente a fumar uns charros de erva; ( liamba ), nome Angolano, pois com a descolonização alguns dos retornados das províncias ultramarinas trouxeram como carga nos caixotes alguns quilos do vegetal, num país onde tinham chegado de mãos a abanar. E, de repente, a calmaria de Lisboa foi sacudida por aquela substância ilegal (cujo nome, unificador e botânico, é Cannabis sativa), que inundou a cidade em tal quantidade que nos anos entre 1975 e 1976 era mais rápido comprar erva em alguns cafés de Lisboa principalmente no Rossio do que um maço de cigarros!

Em Lisboa encontrei um ambiente diferente, não faltava o sexo. Recordo até hoje uma amiga, que estudava com uma prima minha, que na melhor oportunidade convidou o Fernando para uma ida a sua casa, que redundou numa tarde de estudos anatômicos e corporais, que culminou com a grande satisfação da sua vida, ou seja ter-se tornado mulher.

Nessa altura o Fernando teria 25 anos e a jovem adolescente 16 ou 17 e o Fernando não escondia que ficou com o ego de “macho” elevado, mas por outro lado ficou deveras constrangido, assustado mesmo, com o ocorrido, e ela maravilhada, diria mesmo extasiada como tudo tida decorrido, na verdade nessa época o Fernando já tinha tido aquelas maravilhosas lições da Espanhola, e portanto achava-se o homem mais experiente e conhecedor dos segredos de alcova do mundo. Ela não se conteve e contou para algumas amigas, tendo como resultado imediato um grande assédio por parte de outra sua colega que, ao seu contacto para esse fim, ele recusou, por manifesto medo dos resultados posteriores.

Anos mais tarde em 1986 aconteceu um encontro casual com essa pessoa, e ela acabou por me confessar que tinha ficado curiosa e frustrada, ia-se casar e que para ela, só o facto de agora poder concretizar esse seu sonho a podia de alguma forma compensar daqueles dias de tristeza passados no ano de 1976.

Lá estava o rock’n’roll (com a música brasileira e o jazz embutidos), mas, no que diz respeito a drogas, o panorama era mais pesado. Nalgumas garagens e arrumos do rés-do-chão das entradas de prédios degradados, havia gente que tratava por tu a coca e a heroína e, para grande arrepio meu – a quem as agulhas davam um terror gelado – não apenas fumada, mas injetada. E, com angústia de permeio (nomeadamente nalguns membros da família), havia depois os amigos de Angola completamente agarrados àquilo na bela idade da Juventude.

Em 1976, quando isto se passou, eu tinha 21 anos de idade, e esses foram os meus primeiros contactos com quem estava agarrado á droga ( Zé Huila que era empregado bancário em Sá da Bandeira e deambulava pelo Rossio embrulhado num cobertor e já só se alimentava com um bolo de arroz esfarelado e metido dentro de uma garrafa de coca cola, já falecido no ano de 1981, eu e mais amigos conversávamos sobre isso, e se aquele caminho seria um caminho tão legítimo como qualquer outro para se chegar à idade adulta, à sabedoria, sabe-se lá onde... Nem nós sabíamos bem por onde ir nem de que era feito o mundo. O Toguta que diambulava ali nas tascas da Rua do Arco Bandeira, sempre pedrado, uma vez vi-o tão pedrado que comia uma maçã, bebia uma cerveja, dormia em pé e arrumava carros, e sempre que tinha 500 Escudos até de táxi ia a meia Laranja no casal Ventoso comprar a dose, faleceu em 2006.

Os metralhas que arranjaram maneira de vender e consumir, eram três irmãos e um deles matou o próprio irmão à facada já nos idos anos de 1983, os outros dois faleceram em 1985, nesse ano também faleceram os irmãos o Tico e o Teco, filhos de uma ilustre família vinda de Angola que moravam no Estoril.

Disso tudo fizeram parte os excessos (de drogas leves e duras e álcool), avilo da Vila Alice, tivesse os defeitos que tivesse, o Tó Zé ( c…. de égua ), esteve no Canadá, voltou em 2009, as impurezas das drogas duras, muitas vezes misturadas com outros produtos, sobretudo quando injetadas, entopem o filtro que é o fígado. O facto de se usarem agulhas, muitas vezes em condições de esterilização duvidosa e partilhadas com outros, atrai o vírus da hepatite C, doença que deixa marcas permanentes no fígado e o torna num tecido cicatricial que vai perdendo a habilidade de filtrar seja o que for. Ah! e o álcool, a tequila – por exemplo, faz um efeito sobreponível ao da hepatite C: transforma um organismo vivo e vital para nos livrar das impurezas que o nosso canastro produz num courato sem préstimo, parecendo uma isca requentada de roulotte de porta do Campo Pequeno. Por todos estes excessos, que se potenciam uns aos outros, o fígado do Tó Zé deu o berro, é hospitalizado em 2010, e de um modo tão definitivo que tiveram de fazer uma cirurgia e trocar o fígado por outro, mas houve rejeição e faleceu.

No caso concreto da cidade de Lisboa, na segunda parte dos anos 70 as escolas tornaram-se um alvo apetecível para espalhar uma cultura de alegada modernidade, que vinha acompanhada de novos ritmos musicas, novas modas de vestuário, uma auto-colonização a nível da linguagem, a que a memória desses tempos não mata expressões como: Maningue, Bué, Avilo, Yá meu, Fixe, Bunda, Frique, Ok; e uma abertura a novas realidades de convívio social com a importância da “curtição” como polo determinante da sociabilização entre os jovens, quem não se adaptava a estas novas regras de convivência e conduta adotadas pela maioria era logo designado como “careta!”

Nesta época tornou-se perfeitamente normal, “curtir”, ou seja namoriscar com várias garotas ao mesmo tempo, e em especial as mais atualizadas/modernizadas, já iniciavam a utilização dos meios anti-concetivos para não existirem novidades, por outro lado alteraram-se profundamente os hábitos de decisão e muitas vezes as jovens decidiam por sua livre iniciativa levar um relacionamento afetivo mais além em termos de liberdades, consumando o ato com quem elas decidiam ser o “macho” mais adequado para esse importante passo nas suas vidas, e quantas vezes nós os potenciais “Machos Latinos” ficávamos como que encavacados com alguns convites mais ousados, que a nossa mentalidade da época mandava ter prudência para evitar novidades indesejáveis de formação de famílias de um modo precoce.

Com a chegada dos jovens das ex-colonias chegaram também ás escolas os novos hábitos do tabaco e da bebida com fartura.

Na bebida misturavam-se refrigerantes para atenuar as largas quantidades de álcool, especialmente encontradas no vodka que se diluía em sumo de laranja em quantidades generosas, de acordo com os resultados a obter, desde que fosse ingerido com fartura.

No tabaco misturavam a “maconha” de um modo que só mesmo o cheiro intenso e de alguma forma adocicado deixava transparecer a preparação para uma passa, que corria de mão em mão dos apreciadores.

Um largo grupo de amigos da minha geração derrapou nesta “nefasta” nova realidade sócio-cultural, e se alguns conseguiram de alguma forma acautelar o seu futuro e jogar com a realidade, outros infelizmente entraram nesse túnel escuro e húmido de onde nunca mais conseguiram sair, continuando a viver muitos deles dentro desse pesadelo como foi o caso do já citado Zé Huila, um autentico farrapo humano, que vivia “vegetava” de esmolas e deambulava ali no Rossio só com um cobertor a servir de roupa.

Outros companheiros de juventude, conseguiram gozar a vida à sua maneira e manter posteriormente uma distância considerável desse sub-mundo, com uma postura correta e normal perante a sociedade, tendo vivido esse período pós vivencia atribulada de um modo normalíssimo.

Felizmente que a maioria dos nossos amigos, nem sequer chegou a entrar por esses caminhos, da descoberta das luzes brilhantes e vindas do além diretamente para a imaginação de cada um, dos fumos que davam “Bué de pica”, das passas que deixavam entorpecidos os músculos e os sentimentos, e os únicos vícios que realmente nos levaram a andar muitos dias e noites nas “borgas” foram a loucura pelo futebol, pelas garotas, e por uns bons petiscos acompanhados por umas boas canecas de cerveja bem fresca.

Nenhum de nós pode esquecer que de qualquer forma pertencemos a esta geração construída debaixo dos efeitos da Revolução dos Cravos e da Liamba que chegou em quantidades industriais trazidas da África Colonialista, e que tudo isto nos ajudou a formar e nos tornou nos homens que hoje somos e que quando olhamos para trás realmente como que se nos torna o passado florescente aos nossos olhos, mas pelas melhores razões, de saudades de uma infância e juventude muito bem vivida, apesar de todas as condicionantes que circulavam em nosso redor.
1976