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14/02/2013

CAMPO DE REFUGIADOS




Darfur
Ellina Dominic, filha única, nunca foi casada, ela é do Sudão no leste da África, e tem 24 anos.

No começo ela estava residindo no campo de refugiados de Darfur no Chade em Julho de 2006, num certo momento houve uma divisão e foram enviados alguns refugiados, para o Senegal no Oeste Africano em 10 de agosto 2007 onde ela está atualmente residindo em N'dioum campo de refugiados devido à guerra civil no seu país. Ela está sofrendo as dores de todo o povo que está neste acampamento e ela realmente precisa de ter pessoas ao seu lado para a encorajar, ela está disposta a mudar a sua situação e sair do país, para valorizar também a sua vida profissional.

Seu falecido pai Dr, Coronel Dominic Nduto era o diretor industrial Gerente da (DOMINIC NDUTO INDUSTRIAL COMPANY LTD) em Cartum, a capital económica de seu país (Sudão) e ele também foi o assessor pessoal do ex-chefe de Estado antes de os rebeldes atacarem a sua residência numa manhã bastante cedo e ai mataram sua mãe e seu pai a sangue frio, ela escapou da morte porque tinha já saído para a escola, quando os rebelde atacaram a sua casa, ela é única filha dos seus pais, já nascida tardiamente, não tem nenhum irmão.

Este campo de refugiados é chefiado por um Reverendo Padre, e ela vai usando seu computador do escritório para enviar estas histórias, e ela só tem permissão de utilizar o Computador quando Reverendo Padre não está muito ocupado.


Os senhores do Darfur

"A Auatif não regressou. Quatro janjaweed apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjaweed. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios.

«Dizias que me ias mostrar a tua aldeia!?» «É aqui mesmo. Foi! Até há dois anos.» Os meus pés estão a pisar escombros; vêem-se canas no chão, sinal de algo que foi a sebe de um pátio. Aqui e além alguns restos de tijolos «verdes» (assim chamados porque cozidos ao sol). O aldeamento já não existe, mas o nome ficou: Talata Ardeb. «A minha casa era mesmo ali em frente. Consistia num kurnuk, uma guttia (isto é: duas cabanas distintas no seu formato e aplicação) e um pátio; a minha foi uma das poucas das 37 famílias que puderam escapar antes do grande massacre, onde foi morta quase metade da população.» Quanto ao El Nur, agora habita, com a mulher e os três filhos, em Majok, uma aldeia perto do aeroporto de Nyala que os janjauid não destruíram, talvez para fazer boa impressão a quem chega a Nyala por via aérea.» «E aquelas mulheres (bem mais de uma dezena) que andam a rebuscar lenha?» «Não as conheço, mas não podem ter vindo senão no campo de refugiados de Kalma, a três quilómetros daqui.» Não muito longe de nós, um rebanho de umas três centenas de ovelhas e cabras vagueia livremente à procura de pasto que o sol abrasador de 43 graus fez desaparecer, aumentando o deserto que, entretanto, espera a próxima bênção das chuvas. Estendo os olhos na direcção das colinas de Dajo e avisto duas grandes manadas de camelos que imaginei tivessem fugido dos seus donos para agora, com toda a liberdade, tomarem conta dos mangueirais aí à volta. Aquelas mangas não terão tempo de se criar e amadurecer. O El Nur, com uma frase que lhe custou muito pronunciar, assentiu: «Tudo o que vemos à nossa volta pertence agora a um só e mesmo dono (colectivo): os janjauid. Terra, manadas e rebanhos, plantações.» «E as mulheres não têm medo?» «O medo está sempre presente. Mas a distribuição de alimentos pelas organizações humanitárias não dá para tudo. Elas sabem que os janjauid podem aparecer a qualquer momento. Mas arriscam porque a prioridade é sobreviver. Tu e eu também estamos em situação de risco.» Procurei dissimular e não dar importância ao arrepio que me veio por todo o corpo. Mas do meu amigo El Nur ouvi palavras que me aliviaram: «Até agora não houve notícias de ataques a estrangeiros. E quanto a mim, já não tenho nada a perder; a minha verdadeira riqueza (mulher e filhos) vive agora em Majok.» Ele parou a olhar para mim, enquanto eu lhe expressava os meus votos sinceros: «Deus te conserve sempre "rico" e te faça realizar os teus desejos.» E ele concluiu à maneira de bom muçulmano: «Ámen.» Quanto a este e outros grupos de mulheres que fomos encontrando a apanhar lenha, só desejo que possam regressar com os feixes ao campo de Kalma. Todas! Porque, frequentemente, algumas delas não têm regressado. Os janjauid são os donos de tudo. E delas também! Quisera não ouvir mais histórias como aquela do grupo de mulheres que saíram, um dia, a apanhar lenha não muito longe do campo de refugiados de Kalma, onde viviam. Uma delas, a Auatif, não regressou. Quatro janjauid apareceram, montados em camelos. Agarraram-na, mas como ela resistia, arrastaram-na por uns metros. Até que a ataram a um camelo. Ora de rastos, ora a caminhar. Caía, outra vez de rastos… Para onde? Para quê? Para ser escrava dos senhores do Darfur: os janjauid. Com eles vale tudo, desde a violação ao espancamento, até deixar a presa inanimada no chão, à mercê dos abutres e dos cães vadios. Os donos e senhores do Darfur? Não existiriam, se não lhes fosse dada a luz verde dos senhores do Governo de Cartum!"


Testemunho enviado por voluntário no terreno, 9/2007

recebidos via internet

2009

Ó POBRE PORTUGAL…QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ




PARTE II

Foram anos que não esqueceremos tão cedo. Anos seguidos em que o bem-estar de praticamente toda a gente melhorou. Vivemos trinta a quarenta anos a progredir e melhorar. Tudo tinha começado nos anos sessenta para setenta. Depois da adesão à CE, continuámos no mesmo caminho, acelerando. Ultrapassámos a Grécia em rendimento por habitante. Crescemos, ano após ano, quase sem excepções, mais do que a média da União Europeia. Aliás, se formos mais atrás, entre 1960 a 1990, Portugal foi mesmo o país que mais cresceu. Porém, na década de noventa, as coisas começaram a correr menos bem. E de 1990 a 2000, Portugal já não é a camisola amarela, mas sim a Irlanda. No fim da década, o retrato é ainda mais doloroso: começámos a descair, lentamente, muito menos que a média da União Europeia, deixando que outros países (com menos potencial que nós) nos ultrapasse…em quase tudo. E é provável, que dentro de poucos anos, se distanciem cada vez mais.

No entanto, digam lá o que disserem, progredimos bastante! Adoptámos tecnologias modernas. Temos acesso avançado à Internet. Consumimos telemóveis, dos mais sofisticados, como poucos. Construímos uns largos e belos quilómetros de auto-estradas. Distribuíram-se computadores pelas escolas, repartições e tribunais. Compraram-se os melhores aparelhos do mundo para ressonâncias magnéticas e outras maravilhas do diagnóstico. Edificaram-se fabulosos hospitais e extraordinários campos de futebol, bem como um Parque das Nações de vanguarda. Integrámos na legislação portuguesa as mais sofisticadas regras de controlo de qualidade. Fizemos nossas as mais complexas normas de saúde pública. Preparamos o “Euro 2004 de futebol”, enfim, estamos na Europa de pedra e cal.

E depois: nos hospitais, espera-se como em nenhum outro país, mesmo se temos mais médicos e hospitais novos. Nos tribunais, as longas esperas de Justiça, têm um remédio, os absurdos adiamentos em recorrer a pena em julgado No fisco, não se sabe exactamente quantas, mas qualquer coisa como 30 a 40% das empresas não pagam impostos. Aliás, a maior parte dos profissionais liberais não paga (ou não pagava) impostos, ou contribui com uns simbólicos euros para a despesa pública. O trabalho clandestino não cessa de aumentar. A exploração e a fraude de que são vítimas os Africanos e os Europeus de Leste, não tem uma vigilância rigorosa, por parte da Inspecção do Trabalho.

Nas Universidades privadas, a formação cultural e científica é duvidosa; nas Públicas, as taxas de abandono e de insucesso são as mais altas da Europa. De vez em quando, deixados subsistir por ineficiência dos serviços de inspecção, descobrem-se autênticos escândalos na qualidade dos produtos alimentares e no cumprimento das regras de saúde e higiene. Não temos Inspectores suficientes…! O País está endividado. As famílias estão empenhadas. As empresas estão na penúria. A facilidade com que se aprovam leis e normas moderníssimas só tem de igual a desatenção prestada aos serviços práticos de organização, produção e inspecção. Ao basbaque que compra e exibe tecnologia é-lhe indiferente que haja quem a saiba utilizar ou sequer que seja útil utilizá-la. Ao legislador exibicionista pouco lhe interessa saber se as leis que aprova são exequíveis e têm os meios de ser postas em prática….!

As vicissitudes da economia e da sociedade portuguesa confirmam um estilo: adiar o que faz falta para fazer o que dá nas vistas.

Cruz dos Santos
2013

SAUDADES DE ANGOLA


Vou recebendo opiniões de vários amigos e amigas, comentários que retratam a nossa infância e Juventude no Pais que ainda nos trás bastantes saudades, e ao ler alguns destes pequenos desabafos, lá vem uma lagrimita ao canto dos olhos. Nasci em Portugal mas fui muito novo para Angola e amo aquela terra, como se fosse minha. Há relatos que expressam tudo o que foi a minha adolescência e juventude, no Blog LUANDA TROPICAL, em principio era só para escrever as minhas memórias, mas com a anuência de vários amigos também eles me mandam as suas opiniões para eu inserir no Blog LUANDA TROPICAL o que faço com muito gosto, recebi este via mail ao qual passo a transcrever.

Caro amigo, á muito que eu vinha procurando ter noticias da minha querida Angola, e descobri este Blog maravilhoso, nasci em Angola - Luanda - São Paulo, nasci no ano de 1965 e só quem viveu lá, é que pode dizer com tanta exatidão as maravilhas de lá, e no seu blog são descritas bem, pois aquele sim, era um país maravilhoso de se viver. Só quem viveu lá é que pode descrever as maravilhas que lá existiram, digo existiram porque aí veio a guerra e destruiu todos os nossos sonhos, destruiu a nossa infância, pois eu era pequena mas lembro-me de tudo como se fosse hoje, lembro-me dos passeios ao Baleizão, lembro-me dos passeios ás montras ( vitrines), lembro-me das praias maravilhosas, da Avenida principal ( a Marginal ) enfim está tudo bem guardado na minha memória, assim como está na minha memória o dia em que meu pai chegou a casa e disse para a minha mãe! Vamos embora!!!, e sem olhar para traz, deixamos tudo saímos só com a roupa do corpo e uma mala de mão, vi o sofrimento do meu pai ao ter que deixar todas as nossas coisas pelas quais ele lutou tanto, pois ele sempre foi e continua sendo um homem trabalhador e que luta para que não falte nada para a sua família. Tinha-mos bens e tivemos que deixar tudo para traz e ir para um pais desconhecido e começar tudo de novo. Há pessoas que mandam e-mails e comentários criticando os portugueses, ou mesmo criticando as palavras destes homens que têm a coragem de colocar tudo o que pensam em sites relacionados com o retorno dos Nacionais. Essas pessoas maldosas não sabem do que falam, pois ninguém sabe o que é estar um dia em nossas casas com a família vivendo, lutando por eles trabalhando em dois empregos como o meu pai fazia, e de repente no outro dia vamos normalmente á nossa escola como de costume, e de repente!!!! escuta-se uma confusão do lado de fora da Escola e a professora vem avisar que ninguém pode sair até os pais virem nos buscar, pois a guerra tinha começado e desde então nossa querida Luanda não foi mais aquela maravilha, não mais se podia sair á noite, ( recolher obrigatório) ou ir á escola ou passear pela avenida Marginal, foi nos tirado tudo desde os bens até a liberdade, e não venham, me dizer que os angolanos foram explorados, pois encontrávamos muitos deles que nos diziam que desde que os portugueses foram embora, Angola não foi mais a mesma e mesmo quando a guerra começou os próprios angolanos se escondiam com medo. Bem como já disse meu pai trabalhava em dois empregos para que não nos faltasse nada e sempre tivemos uma vida com dignidade, depois tivemos que deixar tudo para traz e começar tudo de novo em um país que mal conhecia-mos, e viemos para este pais aonde somos constantemente humilhados somos chamados de ladrões pois para eles todo e qualquer estrangeiro é ladrão. Então senhores vocês não sabem o que é sair do seu pais para viver em outro, desde o dia que saí da minha querida Luanda uma grande angustia tomou conta de mim, principalmente quando desci aqui, eu era pequena mas nunca me esqueço da sensação que tomou conta de mim, uma tristeza enorme, pois eu tinha certeza que nunca mais ia colocar os pés na minha terra querida. Eu dou os parabéns a todos que procuram e divulgam notícias verdadeiras da minha terra querida. Obrigada pelas matérias maravilhosas, eu estou sempre á procura de noticias da minha querida Angola – Luanda, este país que não me canso em dizer: era Maravilhoso, só quem viveu lá é que sabe.

Comentário de Irene do Céu

ZÉ ANTUNES
2013








NÃO HÁ PRIVACIDADE E MUITO MENOS VERGONHA!




Vivemos numa época de exibicionismos. O “jet-set”, os chamados “famosos”, ou o que muitos imaginam que são, foi quem inaugurou o estilo “Pimba”! Onde dantes a reserva e o pudor eram sinal de bom-gosto e de bom senso, hoje passou-se à exposição pública de todo o tipo de coisas desprovidas de senso, ponderação e raciocínio. Hoje, as festas de casamento, aniversário, ou outras comemorações, só se realizam, se houver um repórter destas “revistas cor-de-rosa” por perto. As viagens de férias, os divórcios, “uniões matrimoniais” do mesmo sexo, “luas-de-mel”, são vendidas, em “reportagem exclusiva”, a troco de algumas centenas, milhares de euros, ou ofertas de bilhetes de passagem de avião. Já não há privacidade, e muito menos vergonha! Actualmente, a ficção agarra em temas como sexualidade e vaidade. Estão na moda os saltos altos, a mini-saia, “mamas” recheadas de silicone, “beiças” Africanizadas, “piercings” no nariz e em outras partes recatadas, designadas de pudicas. Bem como a exibição de tatuagens, (umas) a colorirem, (outras) a enegrecerem a estatura anatómica do corpo. A exposição de posarem nuas nas “Playboy” ou na “Internet”, é outro dos “modernismos” que rende, não só pela popularidade e fama, como pelas ofertas pagas a ouro. Assim como pertencer ao “Facebook”, “You Tube”, Twitter” (adicionando Amigos), que, posteriormente, servirão de “padrinhos” para conseguirem emprego de secretária e de outros “sites” convidativos, através de “e-mails” e do “mensager”…a preço de saldo! Meus Senhores: levado por essa voragem dos tempos, até o pretendente ao trono de Portugal, homem simples e humilde, acabou a vender a reportagem do próprio casamento, a uns anos atrás. Outros “artistas”, propagam em entrevistas os seus divórcios; discutem em público os alimentos dos filhos e a partilha dos bens; outros, dramatizam perante as câmaras televisivas, os seus rostos esmurrados, olhos negros por “hematomas” por “violência doméstica” (um tema recorrente nos “talk shows” e em programas informáticos, exercendo um papel de correcção de actos condenáveis e de ajuda às vítimas). E há aqueles ainda, que exibem os novos amores pós-conjugais, armados em “craques” de “Hollywood”! A televisão proporciona-lhes esse direito. O “voyeurismo, a delação, a confissão, cristalizada no “confessionário” do “Big Brother” (“Casa dos Segredos”) sobre intimidades, os pedidos públicos de perdão; “máquineta da verdade”, a ambição, os apetites sexuais, a capacidade de rastejar por um punhado de notas, são os programas mais vistos e que, obviamente, rendem mais! Vivemos projectados num mundo louco e fictício. Os conteúdos dos mesmos, atraem pelo insólito e divertido, não sendo o apreço por eles um sinal de ignorância da má qualidade, criado por especialistas em comunicação. Assim, a sociedade mediática vai atarracando a nossa dimensão psicológica. Somos cada vez mais aquilo que queremos ver no mundo.

Cruz dos Santos

2013

JOSÉ FARIA




A LUANDA QUE ELE CONHECEU

Quando o meu grande amigo José Faria se apresentou no Quartel do Grafanil em Março de 1970, fez um telefonema a meu pai a dizer que estava em Luanda, visto ele ser de Mirandela e ainda ser primo do meu pai,

Como era amigo do meu tio André do Patrocínio que esteve em comissão no N.R.P. Vasco da Gama no ano de 1964 a 1967, foi com essas referências que ele chegou a Luanda para procurar a Família Antunes Gonçalves, depois do telefonema, meu pai foi ao Grafanil, ao seu encontro, foi ai que eu o conheci. Em Abril de 1970 meu pai foi para a África do Sul e eu, meu irmão Fernando e minha mãe viemos para Portugal onde se encontravam meus irmãos Victor e Melita.

José Faria ficou a viver em casa dos meus pais sempre que vinha de fim de semana, meu amigo não tinha carro, durante esses primeiros tempos, não saía muito. O Quartel do Grafanil ficava distante do Centro da cidade e mesmo do Bairro Popular nº 2 onde residíamos.

Só quando tinha boleia ia até ao Bairro Popular nº2 e depois, utilizando o machimbombo, que o levava do Bairro Popular nº 2 ao largo da Mutamba, no coração da cidade, aventurando-se depois ou a pé, ou á boleia, ia para a Ponta da Ilha, praia que era a mais frequentada, e era complementada por um frequentadíssimo bar. “A Barracuda“ onde muitos madiés vendiam o seu artesanato. Também ia, por vezes, comer um gelado ao Baleizão, à Versalhes ou à Pólo Norte, na avenida Salvador Correia, mas muitas vezes o seu destino era a encantadora ilha do Mussulo que ficava um pouco a sul de Luanda e era local obrigatório para muita gente visitar nos fins-de-semana, tendo ele passado parte de uma tarde de um domingo com outro soldado e pessoas amigas a percorrer o mar circundante, indo até a ilha dos Padres, dentro de uma pequena lancha motorizada por mero prazer lúdico.

Luanda já era uma cidade, grandiosa, propriamente dita e de Musseques nas zonas periféricas. Nas várias zonas da cidade do asfalto e do cimento, habitadas essencialmente por brancos e mestiços. Existiam importantes vias como as avenidas dos Combatentes da Grande Guerra, Avenida do Brasil, Avenida dos Restauradores de Angola, Avenida do Brasil, Alameda D. João II e a bonita marginal (Avenida Paulo Dias de Novais) que limitava a lindíssima baía de Luanda a leste, percorria toda a estrada da ilha do Cabo, ia passear ao largo da Mutamba e ao Largo de Diogo Cão, junto da zona portuária no extremo norte da marginal, passeava na zona da igreja da Sagrada Família, gostava muito de ir à Maianga, e pelo estádio dos Coqueiros.

Mas também viu vários musseques, manchas de pobreza na periferia da progressiva cidade que era Luanda naquela época, e habitados essencialmente por negros. Musseque dos Pescadores na Ilha, o Marçal, o Prenda, o Sambizanga, o Bairro Operário e outros nomes que se foi habituando a ouvir enquanto por lá esteve. Os musseques eram um amontoado de pequenas habitações feitas de lata, madeira e barro, tendo tectos de Lusalite (fibrocimento), zinco, latão ou folhas de palmeira, com estreitas ruas de terra batida, sem água canalizada nem saneamento básico.

Confessou-me um dia que se ficava com uma péssima impressão da cidade, mas não demorou muito tempo que começou a encantar-se com aquele mundo.

Na altura, Luanda tinha 600.000 habitantes e era a segunda cidade de Portugal depois de Lisboa. Hoje tem cerca de 6.000.000.

A zona da Boavista onde ficava as refinarias de petróleo, e que limitava a baía a norte, a zona do Cacuaco também era visitada, para saborear o belo marisco. Mais tarde comprou uma Mota marca Honda CBR 350

À noite, muitas vezes ia dançar (ou ver dançar) o merengue, a rebita, ia aos bailes nas zonas dos bairros Populares. Principalmente gostava de ir ao Desportivo União de São Paulo, ao Clube do Sarmento Rodrigues e ao Clube do Bairro Popular nº 2, outras vezes ia ao cinema: lembra-se de ver filmes no Miramar, um cinema ao ar livre mas com uma cobertura por causa das chuvadas tropicais, que ficava numa zona alta e rica, e tinha uma vista deslumbrante sobre a Baia e a Ilha de Luanda. Mas havia também o Colonial, o Tropical, O Império, o Avis, o Restauração e outros.

Em diversas ocasiões ia beber um copo ou ver um espetáculo a casas noturnas como a Gruta, ou o Tamar na restinga, mesmo à entrada da ilha, à esquerda. À direita ficava o fino Iate Clube. No interior da cidade havia, por exemplo, o Maxime ou o Copacabana.

A ilha do Cabo era separada da parte continental por uma estreita faixa de água atravessada por uma ponte. Imediatamente antes da ponte e do lado da cidade, à esquerda, erguia-se a Fortaleza de S. Miguel.

Mas, o que se repetia noite após noite eram as cavaqueiras, com os amigos e com uns finos de Cuca ou Nocal na mesa e a apanhar um ar mais fresco, principalmente no Restinga Bar.

O José Faria no tempo que esteve no Serviço Militar esteve no Grafanil sendo mais tarde transferido para o R.I. 20. Fez duas comissões no Leste de Angola. Muitas histórias tem ele para contar, mas essas ficam para outra ocasião.

Como todos que estiveram em Angola sabem que o clima de Luanda era aprazível. Há duas estações: a das chuvas ou verão, com o sol sempre aberto, mais quente e mais húmida, que durava de Setembro a Maio, e a do cacimbo, em que o calor era menos intenso e decorria em Junho, Julho e Agosto.
José Faria confessou-me que se ia apercebendo, que não havia racismo digno desse nome. A segregação era essencialmente económica.

Um caso curioso e que atesta bem a forma de sentir e pensar dos nativos foi-me contada da seguinte forma: um operário negro (que ele conheceu ), especializado, já de meia-idade e que trabalhava na reparação de automóveis na Casa Americana, vivia no musseque. Katambor, como ganhava razoavelmente, o Silva que está hoje nas oficinas da EMEF, e o pessoal da Oficina convenceu-o a alugar uma vivenda na zona da Madame Berman. Ele assim fez mas, ao fim de poucos meses saiu e regressou ao sítio onde estavam as suas origens e onde se sentia bem, o musseque Katambor.

Também se lembra perfeitamente de ter visto negros e branco a laborar juntos em obras de construção civil e outros trabalhos, e até a serem os nativos a darem ordens aos ditos colonos.

Nos últimos meses de Serviço no Exercito Português, foi à Refinaria da Petrangol, oferecer os seus préstimos. A sua candidatura foi muito bem vista, mas só se poderia concretizar depois de se desvincular do Exercito Português.

Numa festa no Clube Transmontano, cuja causa já não se recorda, travou conhecimento com uma funcionária dos antigos Correios, Telégrafos e Telefones ( CTT ) de Luanda. A Isabel Costa que era mais velha do que ele, sete ou oito anos, cabelos loiros e curtos, franzina mas muito ativa, com um magnífico Fiat 850, separada do marido, com dois filhos e vivendo só num apartamento de três assoalhadas duma torre situada no Bairro Prenda perto do aeroporto. Não passou muito tempo e já lá estava a dormir e a fazer vida com ela. Saiu do Exercito no ano de 1973, e empregou-se numa empresa de Cimentos a “ Secil “.

Em 1974 dá-se o 25 de Abril e tudo começou a mudar, ao princípio lentamente mas em 1975 os acontecimentos iriam precipitar-se de forma dramática em Luanda, cada vez mais queria acompanhar melhor o desenrolar dos acontecimentos na Metrópole, nomeadamente pela leitura dos jornais “A Província de Angola” e “O Diário de Luanda”, mais o primeiro, e do semanário “Expresso” que ainda ia de Lisboa e chegava a Luanda ás 2ªs Feiras.

Mas a situação nas colónias, nomeadamente em Angola, também era alvo da sua atenção, pois tinha bons quadros, apesar da sua ideologia pró-comunista. Rosa Coutinho encarregou-se de dar uma preciosa ajuda para a sua reabilitação. prática, desarmado a população principalmente branca.

Em Luanda, a população branca, que manifestava a intenção de não abandonar o território, ia-se alinhando de forma mais ou menos explicita com os movimentos de libertação: os mais ricos com a FNLA, a média burguesia mais direitista com a UNITA, a gente de esquerda com o MPLA.

Sobretudo depois dos acordos do Alvor e de o general da Força Aérea Silva Cardoso ter assumido as funções de alto-comissário, grupos armados dos três grupos que reivindicavam cada um para si os maiores contributos para a independência, cuja declaração já estava aprazada para o dia 11 de Novembro de 1975, infiltraram-se na cidade e foram abrindo delegações, especialmente em pontos estratégicos.

E foi aí que, aos poucos mas de forma imparável, começou a guerra civil.

As populações negras, de várias etnias, viram-se forçadas a deixar Luanda pois a situação ativou, de forma notória, os ódios tribais. Como a etnia predominante na zona eram os quimbundos, aos quais o MPLA estava umbilicalmente ligado, os apoiantes deste movimento eram os que iam ficando na cidade.

As populações brancas, que não foram molestadas, salvo casos pontuais, de alguns merceeiros e de taxistas, viram-se envolvidas pelo fogo cruzado dos tiroteios que, muitas vezes, saíam dos bairros negros e vinham para o asfalto. E o pânico apossou-se da maior parte das pessoas que decidiram abandonar Luanda, procurando fugir para Portugal Continental, mas também para o Brasil e para a África do Sul que, ao tempo, ainda vivia em regime de apartheid.

Foi o tempo dos caixotes de madeira contendo os bens que era possível tentar transportar e da gigantesca ponte aérea. E as lutas e o pânico foram-se estendendo a todo o território angolano.

Entretanto, a debandada dos colonos continuava e cada vez mais intensa. Quando ele diz colonos está a ser redutor, pois muitos negros e mestiços também abandonaram a cidade. Mais…todo o território.

José Faria recorda-se de uma bela e elegantíssima negra, muito bem vestida que, passava sempre à mesma hora em frente ao Restaurante onde almoçava, diz ele que estava enfeitiçado pela garina mas com os acontecimentos e estando a viver com a Isabel Costa, nunca a abordou,

Lembra-se que numa tarde, uma estudante branca (ele referia-se sempre à cor da pele pois isso era importante para se perceber melhor o que era a Luanda daquela época) muito conhecida, não por mim, estava no jardim perto de sua casa, sentada, na Vila Alice a estudar, quando foi atingida mortalmente por uma bala perdida. Foi uma ocorrência triste que ainda fez aumentar mais o pânico na população de raça caucasiana. Muitas pessoas deixaram Angola logo no mês de Maio de 1975.

Conta ele que uma vez, a Isabel Costa resolveu cozinhar muamba, um prato à base de galinha mas com uma série de condimentos africanos que o poderiam tornar muito picante e lhe davam um paladar desconhecido para ele, que ele gostou e ainda hoje passados estes anos todos, quando vem a minha casa pergunta pela Muamba!

A sua companheira, a Isabel Costa entretanto, vendeu o Fiat 850 e comprou um pequeno Mitsubichi Colt. Com medo de ficar só no seu apartamento afastado da baixa citadina e sobretudo pelas zonas perigosas que tinha de atravessar ao ir para o trabalho ou para o centro, também largou o T2 e alugou um outro apartamento na baixa. Ele vendeu a mota Honda CBR350 .

Entretanto, a cidade que ele conhecia tornava-se cada vez mais descaraterizada. Como estava mais triste e feia… Restava a vista sempre linda da baía, e da Marginal.

Nas montras não se via artigos para vender, e nas ruas cada vez menos pessoas e menos tráfego automóvel. Era uma cidade moribunda, quase fantasma. Viam-se muitas camionetas com caixotes, em direção ao Porto de Luanda.

Pouco antes a Isabel disse-lhe que estava grávida. Decidiram que não era nada oportuno ter um filho naquela altura e assim se cumpriu.

A Isabel continuava a pensar em continuar por lá, mas os acontecimentos precipitaram-se e resolveram embarcar, para Portugal. Começava a escassear os produtos alimentares.

O fim do mês de Setembro aproximava-se e o José Faria, depois de a companheira ter embarcado, começa a ir todos os dias para o Aeroporto afim de arranjar vaga nos voos da Ponte Aérea, embarca no dia 15 de Outubro de 1975.

Regressou a Portugal com a ideia de voltar, e foi viver para Mirandela- Aguieiras sua terra natal. Já em Portugal contactou a Petrangol. Ao fim de pouco tempo disseram-lhe para fazer uns exames médicos e preencher a papelada para poder ser admitido a ir trabalhar na refinaria.

Gozou umas merecidas férias. Foi para Luanda em Janeiro de 1976 e vinha a Lisboa de 6 em 6 meses.

A Isabel Costa também voltou a Portugal, em 01 de Outubro de 1975, ainda na Ponte Aérea, e foi viver com a avó e os filhos numa localidade perto de Mirandela - Mascarenhas. A relação com o Carlos manteve-se durante cerca de dois anos. Passado esse tempo a relação deles acabou.

Recebeu uma proposta melhor e foi para uma plataforma de extração de Petróleo na Venezuela, e nunca mais viu a Isabel Costa.

Meu grande amigo José Faria nunca mais voltou a Luanda, e sempre que vem a Lisboa é com os amigos da Confraria do Penico Dourado, que nos reunimos e fazemos umas jantaradas para recordar estes momentos passados e presentes. Foi num desses encontros que ele me deu estes pequenos apontamentos dos cinco anos da sua estadia em Luanda, dois dos quais ao serviço do Exercito Português.

ZÉ ANTUNES
1970



11/02/2013

DEPOIS DO ADEUS- 4 - 5 - 6





EPISÓDIO 4 - MAIS UMA MUDANÇA

7 e 8 de agosto de 1975
 Uma acesa discussão entre Natália e Maria do Carmo leva Álvaro a sair da casa da irmã. A família instala-se na pensão de Sílvio, onde já mora Teresa, amiga de Angola. Lá está também Nando, um menino que perdeu os pais e que Ana encontrou no aeroporto quando chegaram a Lisboa.
Daniel regressa de Angola e dá conta a Álvaro da destruição e desorientação que existe no país. Daniel procura o filho, mas Jorge não quer saber do pai. Jorge é amigo de Gonçalo e Catarina e conhecido de Ana, a filha de Álvaro. Depois de ter ficado sem o dinheiro que o pai mandava, Jorge vive revoltado pela situação e despreza os retornados.
Daniel tenta reaver os seus bens através de um advogado conhecido, mas não consegue nada. O advogado está de partida para o Brasil, depois do escritório ter sido ocupado e as propriedades nacionalizadas.
Álvaro, Maria do Carmo, Ana, João, Daniel e Teresa participam no desfile de retornados. 

EPISÓDIO 5 - ZANGAS DE FAMILIA
 14 e 15 de agosto de 1975

João rouba um chocolate na loja da D. Odete e é apanhado. Maria do Carmo fica muito envergonhada e Natália faz questão de ir contar ao irmão para culpar a cunhada de não saber cuidar dos filhos.
Catarina convida Ana para ir viver com ela e os dois irmãos em sua casa, mas Álvaro e Maria do Carmo n...ão deixam.
Luísa encontra-se com Ana em casa de Catarina e ofenda a prima, lembrando o episódio do roubo do chocolate.
Natália e Joaquim vão visitar a família a Castelo Branco.
Daniel encontra-se com o filho Jorge, mas a conversa não corre nada bem. Jorge acusa o pai de o ter abandonado aos cuidados dos avós e de ter partido para Angola sem nunca mais dizer nada.
Álvaro reproduz os filmes que trouxe de Angola num projetor de Artur. Toda a família e amigos estão presentes para recordar os bons velhos tempos passados em Luanda.


EPISÓDIO 6 - NOVO DESAFIO
 18, 19 e 20 de agosto de 1975

Teresa conta a Maria do Carmo que antes de conseguir fugir de Luanda foi violada por vários guerrilheiros.
Joaquim espera que o cunhado saia da fábrica para combinar um encontro com Rosário na empresa.
Maria do Carmo arranja emprego na mercearia da rua onde trabalha Odete, que é amiga de Natália. Álvaro não reage nada bem ao facto de a mulher ir trabalhar, mas Maria do Carmo não está disposta a abdicar disso.
Os trabalhadores da metalúrgica decidem sanear o patrão Casimiro por ter interferido com o plenário que decidia fazer greve. Álvaro vê-se obrigado a votar a favor do saneamento para não perder o emprego.
Ana beija Gonçalo, o namorado da prima Luísa, e sente-se incomodada com o facto.

06/02/2013

MARINHA



NAVIO NRP VASCO DA GAMA


Foram criadas as chamadas "Instalações Navais", as de Bissau (Guiné), da Ilha do Cabo (Luanda) e de Metangula (Lago Niassa), nas quais estavam instalados os aquartelamentos, as oficinas, as messes e outros órgãos de apoio logístico.

No rio Zaire, fronteira natural de Angola, com fortes correntes de 4 a 8 nós, foi sempre utilizado pelos movimentos de libertação para as infiltrações no território. Ao longo das 90 milhas de margem fronteiriça, cabia à Marinha, com um dispositivo naval de Lanchas e Fuzileiros a fiscalização de margens e múltiplos canais.os fuzileiros embarcam na fragata “Vasco da Gama” que larga das Instalações Navais das Ilha do Cabo (INIC) em Luanda, com armas e bagagens, rumo ao norte, numa viagem que os levará aos diferentes postos de vigilância do rio Zaire.

Depois do transbordo para uma LDM – Lancha de Desembarque Média, esta unidade continuará para montante do rio, rendendo nos diferentes postos os camaradas que completaram as suas missões: Quissanga, Pedra do Feitiço, Puelo, Macala e Tridente.

Ao longo do percurso são visíveis os vestígios gravados no tempo pelas guarnições que ali passaram: “Cais construído pelo Destacamento n.º 11 FZE – os Rangers, Maio de 1965”.Mais a montante “Homenagem dos que partem aos que ficam na defesa das fronteiras de Portugal eterno – Destacamento n.º 6 FZE”, num obelisco ali construído. No posto do Tridente também os sinais da passagem do DFE 13. Foram dezenas os oficiais da Reserva Naval que ali cumpriram as suas missões em Unidades Navais (Fragatas, LFG’s ou LFP’s), Destacamentos ou Companhias de Fuzileiros. A própria fragata “Vasco da Gama” é também disso um testemunho com a passagem do 2TEN RN Luis Lourenço Soares de Albergaria Ambar, 5.º CEORN que, desde 27.10.63 pertenceu à guarnição daquela unidade naval que, mais tarde, cumpriu uma comissão em Angola de Agosto de 1964 a Abril de 1966. Meu tio André do Patrocinio esteve nesta comissão. Era o barbeiro do navio. O navio era comandado pelo então CFR Rui Ferreira Molarinho do Carmo. Houve ainda uma outra comissão da fragata “Vasco da Gama” em Angola, de Maio de 1970 a Agosto de 1970, sob o comando do CFR António de J.B.B. de Carvalho. Ai esteve o meu grande amigo Carlos Bastos.

Elementos pesquisados na net

1970