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24/05/2013

ESTAMOS NUM BECO, À PROCURA DE UMA SAIDA!


O Sociólogo britânico Anthony Giddens alertou, para o aumento do populismo e do extremismo que minam as democracias a nível global. “Nunca encontrei o Mundo tão opaco como hoje”, disse. O também antigo director da “London School of Economics” (LSE) referiu que nem os Economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), sabem o que vai acontecer no “mundo económico”, devido às transformações observadas a nível global que influenciam a vida dos cidadãos. A Alemanha está a ganhar muito, por estar no euro” (…), e que não vai perder se aceitar uma forma de parceria, entre os países (…), porque nós sabemos que são necessários investimento e emprego e isso não vai ser possível com essa austeridade”, disse à Agência Lusa.

Mas…o que está acontecer na economia, também está acontecer na democracia. Estamos a entrar numa fase muito complexa e, simultaneamente, conflituosa. O nosso País está a suportar, assim e inconscientemente, a acção de um sistema político-partidário fechado sobre si mesmo, com reduzida qualidade, intencionalmente “armadilhado” de burocracia e corrupção, sem qualquer capacidade para promover a sua reforma e combate judicial rigoroso. Estamos num“beco” e procuramos uma “saída”. No entanto, assistimos, impávidos e serenos, a todo este desenvolvimento descontrolado de uma nova e muito diferente crise, incluindo a crise de valores éticos, que está a atingir dimensões assustadoras, sem que as instituições políticas e religiosas, revelem qualquer discernimento e capacidade de intervenção.

Quanto à “Aprovação da sétima avaliação da Troika”, o Sr. Presidente da República Dr. Cavaco Silva, declarou num tom descontrolado, para surpresa de todos, que “foi uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima”. Valha-nos a Nossa Senhora dos Aflitos!

Sabe porventura Sr. Presidente, o que quer a maioria dos Portugueses? É que a“Troika”, vá á…”BardaMerkel”!

Cruz dos Santos

2013

BALADA DA CRISE EXTERNA OU ETERNA?


Pode dizer-se que uma Europa “acabou” em redor de 1975 e outra “evoluiu” desde então. Evoluiu? Sim! Evoluiu para pior, pelos muitos sinais que ultimamente têm vindo a inquietar a nossa sociedade e que são estes: a elevada taxa de desemprego (mais de 950 mil Cidadãos); a crescente precarização do emprego; as cargas fiscais, que são cada vez mais elevadas; a “mobilidade” decretada para o pessoal da Administração Pública, sem critérios objetivos estáveis, e ameaçada com despedimentos; a subida elevada, inconstitucional, das rendas de casa; o pesado endividamento das famílias, que suportam ainda as sucessivas subidas das taxas de juros; os preços dos medicamentos que se agravam e os milhares de cidadãos que continuam sem médicos; a certeza, já presente, de que as pensões irão perder valor e de que os salários públicos terão de baixar; as “fronteiras físicas” do Estado social, que não param de recuar com o fecho de maternidades, de centros de saúde, de estações dos correios, de escolas, de tribunais, de esquadras de polícia; os pobres que estão cada vez mais pobres, enquanto alguns ricos ficam cada vez mais ricos; a perda de valores éticos; a pesada atmosfera de suspeição sobre a corrupção e o compadrio, que se adensa em redor dos principais partidos, indiciante da distorção dos mecanismos da economia e fator de desigualdades cada vez mais fundas e mais ilegítimas; os elevados índices de suicídios, criminalidade e prostituição; a descrença em redor da maioria dos responsáveis políticos e da democracia “representativa”, que representa muito pouco e cada vez menos: o sistema do governo, dito “semipresidencialista”, que é ineficaz, irresponsável e incapaz de produzir, em tempo útil, as “verdadeiras” mudanças de cujos resultados precisamos obter…enfim, com todas estas austeridades e injustiças penosas, olhamo-nos e interrogamo-nos sobre se o festejado “projeto europeu” (que tanto prometia), não é demasiado ambicioso para o nosso desejo de “conservação” e se, por isso, não estaremos já a concretizar um outro de “reaproximação” da costa africana, 590 anos depois do desembarque em Ceuta.

Termino com as saudosas palavras do Ex-General (sem medo). Humberto Delgado, que dizia isso, no tempo de Salazar:“ Qual é o nome que merece um governo que procede assim? Um governo sem pudor; um governo mentiroso; Um governo que não serve; É um governo que tem de se ir embora. O país cansou-se. Todos nós, cidadãos pacíficos de uma candidatura pacífica, queremos pacificamente conquistar a paz. Mas os “esbirros” do governo como têm visto, andam a chamar-nos subversivos nos jornais e a tratar-nos na via pública como malfeitores. Ninguém sabe portanto, minhas Senhoras e meus Senhores, onde isto pode ir ter. Há uma coisa porém que eu quero jurar aqui: estou pronto a morrer pela liberdade”!

 Mais palavras para quê?

C.R.


2013

21/05/2013

HERANÇAS

Tia Genoveva como tantas mulheres, novas nos anos 1950, vem para Lisboa, pois a vida na província está mal e não tem perspetivas de futuro, e dedica-se ao trabalho. Contrai matrimónio e tem um filho.

Lutadora, granjeou a estima e consideração pelos colegas, família e amigos. Mais tarde por divergências familiares separa-se do marido em comum acordo fazem as partilhas dos bens que ambos possuem.

Começa a adoecer e é internada num lar, pois a morte do filho, pouco tempo antes abala com a sua estrutura efetiva e emocional aos quais os seus 78 anos não suportaram, veio a falecer pouco tempo depois.
São seus herdeiros os irmãos dos quais: Jaime, António e Conceição também já falecidos ficando os sobrinhos, filhos destes irmão como herdeiros e os sobrinhos dos irmãos vivos, João e Alice. Como irmã mais velha, tia Alice ficou como cabeça de casal da herança.

Alguns sobrinhos só saberão da morte da Tia Genoveva, meses depois. Na entrega da Relação de bens não teve problema, mas mais tarde na entrega da habilitação de herdeiros, é que se lembram dos sobrinhos ausentes, a Sobrinha Sandra na Africa do Sul, os sobrinhos Hélder e Leonor no Brasil e o sobrinho Alcino na Alemanha.

O sobrinho Alfredo que está em Lisboa é chamado, e é ai que ele toma conhecimento de tudo o que se está a passar e da morte da tia Genoveva.

Indignado o sobrinho Alfredo diz:
Só agora depois deste tempo todo e porque precisam da minha documentação e de meus irmão é que me dizem que a tia Genoveva faleceu!!!!
Alfredo não teve resposta.
Depois de algumas trocas de palavras, pois pensavam que como o António, pai do Alfredo era falecido que os filhos não tinham direitos à Herança, foi por isso que não disseram nada.

Mais tarde Alfredo telefona ao seu tio Gualter ex- esposo da tia Genoveva, e ficou admirado de também a ele não lhe terem comunicado a morte da ex esposa.

Alfredo reuniu os documentos necessários e fizeram a habilitação de herdeiros tendo, como a lei consagra a irmã mais velha eleita Cabeça de Casal da herança da Tia Genoveva.

Mais tarde aparece a conta das finanças sobre a transmissão dos bens da tia Genoveva. Até à data presente e que Alfredo saiba, nunca tal conta foi paga, entrando a dívida das finanças para relaxe e a render juros para o Estado.

Entretanto um dos bens valiosos é vendido antes da tia Genoveva falecer, andando alguns sobrinhos em guerras, pois segundo as duas versões a tia Genoveva tinha prometido aos dois o mesmo bem, mas esse bem já estava escriturado para outra pessoa.

No outro bem, por meio de telefonema que Alfredo recebeu, soube que foi vandalizado, levando inclusive algumas mobílias, portas e janelas.

Nesse telefonema Alfredo alertou que há o imposto sobre imóveis ( I M I ) para pagar, sendo que quem tem que tratar disso é o Cabeça de Casal, e ao que Alfredo sabe, ninguém ainda pagou. Está ali um bem valioso sem nenhuma rentabilidade.

Segundo o tio Gualter existe ainda um bem que não foi vendido e que está alugado, Alfredo pergunta sobre as rendas da loja comercial e ninguém lhe sabe responder.
A ser verdade alguém está a ficar com os alugueres ou então o locatário não paga a respetiva renda, pois ninguém lá vai receber.
Alfredo quis individualmente pagar a parte sua e de seus irmãos, em tudo relacionado com a herança, mas não poderá, pois terá que ser o cabeça de casal a pagar, indo-se agravar sempre, se não se pagar até ao valor do bem em causa, ou quem sabe se não vêm buscar outros bens.  Comentário 
O filho do tio João responde a este pequeno texto enviado via mail

Olá Alfredo.
Como vai isso?
Por cá está tudo bem, graças a Deus.

Estive a ver o blogue e a ler o mail que envias-te e achei estranho a principio teres resolvido colocar os factos todos por escrito com a descrição da situação da tia Genoveva, mas é um direito que te assiste.

Também, tal como tu, não tenho interesse nenhum com os possíveis lucros gerados pelos referidos bens, só não gostava de ainda ter de suportar encargos quando julgo que também já fiz o que deveria fazer, até fiquei com a tia a meu cargo durante uma semana, quando ela foi para o Egas Moniz e tentei ser sempre um sobrinho (e afilhado) digno, na medida das minhas possibilidades económicas e de tempo.

O que não queria era preocupar o meu pai, nem o meu filho com esta situação pois o teu tio João tem uma saúde um pouco frágil que eu nem sei como iria reagir ao saber que estás ainda a mexer nisto, quanto ao meu filho também tem a vida ocupadíssima com os estudos e a profissão pelo que não queria que eles voltassem a ficar preocupados com tudo isto.

Foi por isso que me despedi de ti daquela forma no Estádio da Luz, também não tenho nada contra ti, és uma pessoa que estimo muito, como sabes, e que respeito por tudo o que conseguiram na vida.

Agora não sei como resolver tudo isto, parece-me que só com o auxilio de um profissional, mas também para isso é necessário fazer despesas e os tempos não estão famosos para os funcionários públicos, como também deves saber.
Acresce ainda o facto da tia Alice ainda estar vida (e que Deus a conserve por muitos anos) que era a pessoa mais indicada a subscrever qualquer iniciativa.
Assim, não sei como resolver isto, mas se quiseres, vai dando noticias tuas e dos teus irmãos e restante família.

Um forte abraço.


Anibal
Abril 2013

 

ZÉ ANTUNES

2013

“ A PRISÃO “


Na vinda das colónias Portuguesas no ano de 1975, nem todos conseguiram se integrar na sociedade portuguesa.
Alguns para sobreviverem, enveredaram por esquemas de candonga e de tráfego de estupefacientes.

Jaime Silva em Angola trabalhava numa gráfica como linotipista, devido ao chamado verão quente de 1975, Jaime não conseguia emprego. É Jovem tem 27 anos.

Nesta história está o drama que a contas da compra e venda de droga, alguém não paga a mercadoria, nosso amigo Jaime na altura sem dinheiro para sustentar dois filhos menores e a esposa, perde a cabeça e de arma em punho, dispara dois tiros certeiros que matam o seu amigo.

Preso, julgado, é-lhe aplicada uma pena de 20 anos de cadeia.
A esposa Rosa Silva vinda também ela de Angola, trabalhava como dactilógrafa numa pequena fábrica em Viana cidade satélite de Luanda, vê-se sozinha com os dois filhos, na época por intermédio de um tio que tinha uma frota de táxis na cidade de Lisboa, trabalhava como motorista de táxi, penso que foi uma das primeiras mulheres a ser motorista de táxi, com a ajuda de alguns amigos lá vai sobrevivendo mais os filhos.

No táxi conhece muitas pessoas, muitas histórias, e um belo dia recebe uma proposta tentadora, apesar de o Jaime estar preso devido a ter morto um amigo por causa de negócios de droga, a proposta é ser correio de 2.5 kgs. de droga para o Brasil. Tudo acertado, os filhos entregues a uma pessoa amiga, faz as malas, fundos falsos coloca a droga, e dirige-se para o Aeroporto da Portela para embarcar diretamente para São Paulo.
Antes mesmo de entrar no aeroporto é presa, vai para tribunal e o juiz sentencia com 5 anos de prisão em Tires.

Com os filhos menores vive na cadeia até ser libertada. Em 1985 é libertada, Rosa viveu tempo suficiente na Prisão para saber, que para a sociedade o fim do castigo ou da pena não são conquistas, reconhece isso ao procurar emprego, e ao dar as suas referências, no pensamento dela, diz a muitos amigos que a sociedade a marginaliza.

Nas visitas que faz ao Jaime, diz-lhe o que vai fazer, ele reprova essa absurda ideia que a atormenta.

No Rossio compra uma arma, dias depois entrega os filhos, a Andreia com 8 anos e o André com 6 anos a uma amiga de confiança dos tempos da sua juventude, dizendo que vai ao Porto, por causa de uma proposta de trabalho.
Refugia-se em casa e poe termo à vida com um tiro na boca, morreu jovem.

O Jaime Silva saiu da prisão no ano de 1995

Em liberdade refez a sua vida, arranjou trabalho numa gráfica, casou de novo e vive com seu filhos.

O que o faz viver e pensar neste anos todos que poderia ser feliz junto dos filhos e da Rosa, muitas vezes culpa-se pela morte da Rosa
Hoje os filhos crescidos estudaram e emigraram para a Austrália onde está um irmão do Jaime.
Ele está a espera da sua reforma


ZÉ ANTUNES
2013

MATARAM DONA ARMINDA



É muito fácil falar de Dona Arminda, sua mãe foi amiga pessoal de minha mãe, dos tempos do Mercado do Kinaxixe onde minha mãe tinha uma banca de legumes, mas eu só a conheci pessoalmente quando certa vez, eu e minha mãe fomos ao hospital Maria Pia e ai vi como ela era generosa e afável Dona Arminda, uma pessoa alegre, bem disposta, dedicada mas delicada com todos.

Dona Arminda era de uma bondade angelical, de uma delicadeza de princesa, de uma serenidade, de um amanhecer e de uma calma de monge. Muitas vezes ao entardecer, minha mãe visitava-a e ficavam ali na conversa até muito tarde.

Como diz o poeta, ela deveria ser eterna. 

Dona Arminda gostava de ouvir no seu rádio de pilhas em cima de uma pequena mesa na cozinha coberta com uma linda toalha de plástico xadrez amarelo e azul, quando começavam a transmitir a rádio novela “MARIA” e o início era sempre assim: Luanda são 17 horas, a linda música que antecedia o início da rádio novela fazia-a viajar pelo mundo através da voz do grande locutor e descobrir mundos e lugares jamais imaginados por sua mente. 

Vim para Portugal em 1975 e nunca mais ouvi falar nela, sei que ficou em Luanda, e neste ano de 2013 pesquisando na net reparei neste escrito que transcrevo na integra.

Nossa amiga das noitadas naqueles mufetes dançantes, que invadiam os centros recreativos de S. Paulo, Ginásio, Maxinde, Escrequenha e Perdidos. Ela partiu, deixando um grande vazio entre nós, exatamente quando tinha-mos planeado mais uma vez festejar, o seu aniversário, numa das salas da (Liga Nacional Africana ) mesmo por detrás de sua casa. Ainda me lembro como se fosse hoje, da aquela senhora branca sem kigila, como ela própria se definia. Ela morreu numa tarde de sexta-feira ( junho de 1976 ), cravada com um tiro na cabeça, quando pretendia abrir a porta, para um suposto amigo. Foi duro, ver seu corpo feito escombros dois dias, deitada no corrimão, daquele 1°- andar no Zé-Pirão.
 
Ela descansava, depois de mais um dia de trabalho, no hospital ( Maria Pia ) onde exercia medicina, quase 20 anos. Ela era um grande encanto para todos que a conheciam, e alegria das crianças, daqueles tantos vizinhos, que viam nela um grande exemplo de humanismo, carinho e amor. Quantas vezes, distribuiu rebuçados e balões para aquelas tantas crianças, que se prendiam á sua saia, mal estacionasse o seu Ford-Capry cor de laranja. Que pena !!!
 
Em Angola ela sempre, sentiu-se, como se estivesse em casa, pois de portuguesa, nascida na pátria de Camões, Mário Soares e tantos outros, ela até já tinha perdido o sotaque. Mulher alegre, sempre presente e participativa, quando fosse chamada. Respeitada e admirada pelos seus colegas de trabalho, que não hesitaram em indicar seu nome para chefiar a comissão sindical de trabalhadores do hospital, dado a sua competência e qualidade profissional.
 
Aos fins de semana, lá estava ela com seus melhores amigos ,ora na Palhota saboreando um bom churrasco ou no Maxinde dançando o semba em passadas largas, que ela adorava e escutava sempre no seu carro. Era impressionante, a alegria daquela mulher, que sabia viver todos os dias e tirava o máximo de rendimento das oportunidades que a vida lhe oferecia. Lembro-me dela como se fosse hoje, do brilho de seus olhos e das vezes que vibrava quando o ( ASA ) sua equipa de coração, entrasse em campo, ou quando no seu caro escutasse ,os brindes de ; David Zé, Urbano de Castro ou de Roberto Carlos.
 
Raramente viajava para Portugal, no seu período de férias. Tinha familiares em Benguela onde viajava sempre que pudesse. Arminda foi duro para nós ver-te partir daquele jeito, tão brutal e cruel. Os corações daqueles, que te conheciam e das crianças com quem tantas vezes brincaste, escrevem em letras de sangue, lágrimas e dor o teu nome inesquecível "Arminda " Amiga, tua imagem continua bem viva em nossa memória. Aquelas ontem crianças, hoje pais, mães e avôs ainda se lembram de ti e dos bons momentos que passaram mergulhadas em teus braços.
 
Descanse em paz, Arminda...Foi revoltante saber que teu assassino de nome ( Zé Manuel ) pouco depois tinha sua liberdade, suas armas nas mãos, para fazer novas vítimas, destruindo outras amizades, e deixando outros órfãos. 

Quem era Zé Manuel ? ----- Um jovem corpulento ( negro chocolate) como era conhecido, no meio feminino, dono de tantas garotas, charmoso, carapinha brilhante, mergulhado na fama de ser engatatão. Zé Manuel, sobrinho querido de um então, pesado major de patente, de uma importante brigada de transporte rodoviário. ( B.T.R ). Seu tio de nome conhecido "Nga Kumono ", homem arrogante, de um sorriso furioso e falso, gostava de ter a fama de ser bruto e poderoso. Não tinha filhos daí, o sobrinho ser o mais querido e protegido de tudo e todos. Para além, dos defeitos que ele considerava como virtudes, Nga Kumono era considerado um dos homens mais ricos do bairro onde nasceu ( Katepa ) em Malange. Tinha de tudo o que queria sem o menor esforço. Em Luanda morava numa das melhores, mansões da cidade, coberto por um equipamento eletrónico de vigia, piscina com mármore dourado, criados vindos do sul de Angola, muitos deles curiosamente até andavam descalços.
 
Tinha cozinheiras, Mercedes de luxo e falava-se, que era um dos maiores traficantes de diamantes no momento, e sócio de um hotel em Malange com seu conterrâneo o famoso (Paulo Stop ).Importa dizer que tal hotel chamava-se: " Kigima " também na cidade de Malange. Nga kumono tinha uma das suas mansões em Luanda, exatamente no coração entre a Vila-Alice e o bairro do Maculusso. Seu sobrinho Zé Manuel muito cedo foi identificado como o assassino de nossa amiga, pois era pessoa que frequentava o prédio. Uma vez militar, foi levado para a PM \"Policia Militar \"e segundo testemunhos, bastou dizer que era sobrinho de major Nga Kumono, os policias começaram ,a olharem-se uns para os outros.
 
Zé Manuel, não precisou confessar, pois tinha sido visto a fugir, depois do disparo mortal que levou nossa amiga para sempre. Nga Kumono, correu para a PM e lá soltou seu sobrinho, perante o olha inconformado de "Escorpião, Jacinto Lima e Veloso" que eram responsáveis da unidade militar. Onde estavam os direitos humanos ? A grande injustiça é que perdemos a nossa amiga para sempre e o assassino foi posto em liberdade como disse, delicerando familiares e amigos com a dor da perda que sentimos. Nossa dor minha amiga. Pesadelo, a família e os amigos delicerados, descrentes de tudo numa Angola, dos nossos governantes perdidos, olhando para o nada.
 
Ficamos com nossas feridas no peito, que não cicatrizarão até ao fim dos nossos dias. Juntos conhecemos o verdadeiro significado da palavra amizade. Tu partiste. Tivemos que começar tudo de novo. Nossos planos eram compartilhados. Tudo fizemos, para defender tua honra, acabamos abafados e intimidados. Juntamo-nos fizemos abaixo-assinado e acabamos por ser marcados. A quem haveríamos de recorrer? Policias e tantas outras instituições, só nos diziam que, nada havia a fazer, pois o major era forte e bem protegido. Houve até policias, que nos diziam que estavam a meter suas posições em risco, pois o major tinha cunha em todo setor, público e político. Meus irmãos, a perda de nossos amigos não pode ser em vão. Essa dor muda completamente nossas vidas e que, sabemos, nos acompanhará pelo resto dela no pode ser atoa.
 
Foi dos crimes mais bárbaros de que, alguns que moraram no Zé Pirão, tiveram conhecimento. Acredito que essa atitude monstruosa seja fruto da impunidade que já reinava em nosso país, onde nada é levado a sério e as inúmeras mortes que ocorrem de forma semelhante são encaradas apenas como números em algumas estatísticas. Irmãos, se nada for feito, amanhã poderá ser você, sua mãe, tio, amigo, irmão, vizinho, conhecido ou outro compatriota.



Fernando Vumby


2013

16/05/2013

ZACARIAS E O CHEQUE


Naqueles tempos antes da Dipanda, ai no ano de 1974, Zacarias “ o Bom Moço “ andava bué de contente, lhe tinham arranjado um salo como porteiro de uns escritórios ali na baixa de Luanda, perto do Largo Serpa Pinto.

Zacarias estava mesmo sem fazer nada e esse salo veio em boa altura pois kitar mal é, estava mali mali. Ele falava sem kumbú estou frito.

Nos primeiros quinze dias sempre a bumbar sem faltas todo aprumadinho mesmo na banga, mas os cumbús ainda estavam a faltar, vai na tesouraria do escritório e fala:

Tenho ai uns mambos para saldar, queria então pedir um vale de 500 escudos, porque a situação está péssima, estou na penúria.

Lhe falaram que não podia ser, no fim do mês que lhe iam pagar tudo, mas Zacarias sabe chorar e lhe adiantaram 100 escudos, lhe falaram é o que temos em caixa agora só se trabalha com cheque.

Ainda assim desconsolado porque o kitare não chegava, porque ele queria rústir com a kivita numa funguta do Bairro do Rangel, na dona Amália.

Chega o tão esperado fim do mês, Dona Loudes a secretária do boss lhe chama:

Zacarias está aqui teu cheque, agora vais ai na esquina tem o Banco Comercial de Angola ( gerente era sobrinho do famoso Peyroteu ) assinas só aqui atrás e tens o teu salário, tudo certinho com o teu vale descontado.

Zacarias fica na bicha do banco, quando chega a sua vez entrega o cheque ao funcionário e todo sorrisos, fala para o funcionário: assino aonde mesmo?

O funcionário diz:

Vais assinar aqui, mas tens que me apresentar o teu documento para ver se está válido, para registar aqui no cheque.

Eh nada, me falaram só assina, meu documento não tenho, a camba lá do meu trabalho falou só que eu assino, como agora falas dos documentos.

O funcionário vai falar com o gerente pois a empresa em causa era boa cliente, talvez pudesse facilitar sem a amostragem dos documentos de identificação, só com a assinatura.

Nesse entretanto como a demora era muita, um madié, bem grande e cheio de cabedal que está a trás do Zacarias, já impaciente fala:

Como é “ oh meu “ assinas e dás os documentos, ou então levas aqui um enxerto de porrada que nem sabes donde vieste.

Zacarias todo intimidado grita para o funcionário do Banco:

Trás ai o cheque que eu assino e te dou os documentos, tu não falaste bem, este madié aqui, é que sabe falar.

Zacarias recebe os seus cumbús e sai do Banco todo feliz, nesse fim de semana vai com a barona rústir um pé de dança numa funguta.


ZÉ ANTUNES
1974

PADRE VERGÍLIO


Olá a todos 
 
A São Costa Pereira está inconsolável

Infelizmente venho por este meio informar que mais um amigo partiu...
Para os amigos do Bairro Popular nº. 2, que não tenham tido conhecimento, sirvo-me deste meio para cumprir o doloroso dever de vos informar do falecimento, dia 31.10.2011, pelas 03h00 da madrugada de doença súbita do nosso muito querido amigo, e companheiro, Padre Vergílio da Costa Pereira, 

Não sei se recordam, mas o Padre Vergílio era sobrinho do Padre da Igreja de Santa Ana o padre Costa Pereira e primo da nossa amiga que organiza os almoços do Bairro a São da Costa Pereira.

O corpo encontra-se em câmara ardente na Igreja do Carregado
Paz à sua alma, e a todos os familiares os meus sentimentos.

Agradeço que comuniquem também a outros amigos esta funesta ocorrência, pensando em todos quantos queiram e possam tributar-lhe, em presença, um derradeiro adeus.

Foi através do Carlos Abreu, que recebi esta noticia triste, a partida de mais um amigo de muitas jornadas e convívios, que muito prezava-mos pela sua amizade, carácter e lealdade. 

Em nome dos nossos amigos e companheiros, queremos associar-nos à vossa dor, deixar uma palavra de carinho e expressar a nossa solidariedade aos familiares e amigos, em especial à São Costa Pereira, com os nossos mais sinceros votos de pesar. Queremos também reafirmar que o Padre Vergílio e todos os outros amigos que partiram na frente serão sempre lembrados até que, a nossa memória se extinga. 
 
ZÉ ANTUNES
 

2011