TuneList - Make your site Live

28/05/2013

MAXIMBOMBO


À dias a caminho do Hojy-yá-Henda, a bordo (como habitual) de um dos machimbombos da TCUL Viana vila - Cuca, (privilegio este meio de transporte por ser o mais barato e acessível aos pobres para rotas longas, mau grado a 'sardinhada e a catingada'), um dos vários azulinhos que 'palmilham' as nossas estradas, os nossos emblemáticos táxis coletivos, chamou a atenção do público, exibindo no seu 'traseiro' o seguinte dístico;  


DEUS É BRANCO, MULATO É ANJO, PRETO É DIABO.

Tal dístico é óbvio levantou as mais diversas celeumas entre os passageiros do machimbombo e creio entre todos os 'observadores' e transeuntes por onde o dito azulinho (mini maximbombo) 'rasgava' o seu 'popó-show'.

Raciocinei com os meus botões e os meus botões comigo, as causas que levaram o proprietário do 'popó' ou do 'chauffeur de praça' a mencionar e exibir tal 'desgraçado ou ditoso (?!)' rótulo. Na busca mental das 'causas', não pude deixar de comparar o modo de vida de hoje e o da administração colonial, quando o País e a grossa maioria dos países do continente Africano, era administrado por indivíduos maioritariamente de raça branca, provenientes da Europa, "os tais colonos", poderia Africa ser comparada a um paraíso? A quem diga que sim, e eu não discordo dele!

"Colonialismo caiu na lama!" Lembram-se deste célebre estribilho 1974-1977?

Isomar Pedro Gomes
 
Natural de Malange, estudou em
UNISA - University of South Africa; reside em Benguela.
Desmobilizado, em 1991, por força dos Acordos de Bicesse, foi entre­gue à sua sorte. Atirado para as sarjetas do desempre­go, sem apoios da Caixa Social das Forças Armadas Angolanas (FAA) ou de uma outra instituição castrense, lamenta a sua sina, assim como de milhares de ex-companhei­ros de farda. Recebi este pequeno escrito de sua autoria.


2013
 

CORTES SIM! MAS… A COMEÇAR POR CIMA!


Será que a única solução de nos vermos livres da “Troika”, é a “dissolução do Euro”? Mas será, que o atual Sr. Ministro das Finanças, distinto Economista, especializado em parcimónias científicas do manejo do dinheiro (erário público), não veja que a saída desta calamitosa crise da dívida, não se combate com mais endividamento, desemprego, e muito menos com mais “cortes salariais” e “cortes” nos subsídios? E será também, que de entre tantos Peritos, versados em Finanças, não sabem, que cada vez mais, os contribuintes estão atentos ao modo como é gerido ou gasto o dinheiro dos seus impostos? Será, que todos estes distintos Senhores, não vejam, que há uma saída, e que esta saída é-lhes indicada pelos "princípios da boa gestão das verbas", baseada pela orientação imparcial de exame formal das finanças, maior controlo, uma mais eficiente e séria "avaliação dos custos" e benefícios, dos recursos disponíveis e, principalmente em “cortes” nas despesas do Estado?
 
Não eram essas medidas, que se deveriam impor, como tarefa cívica e nacional? Ou é sempre com esta austeridade, imposta constantemente aos mais desfavorecidos, que se consegue reduzir esta polémica dívida? Mas será, que de entre todas estas sumidades em matemática, não haja ninguém, que consiga corrigir ou calcular isso? “Cortes”? Sim senhor!…Mas a começar por cima! São eles que deveriam dar o exemplo. Miguel Torga em 1993, dizia: “…Não posso mais com tanta lição de Economia, tanta megalomania e tão curta visão do que fomos (…) tanta subserviência às mãos de uma Europa sem valores”. 

Meus Senhores, com o devido respeito, mas um Estado moderno exige flexibilidade, transparência, simplificação, responsabilidade, descentralização, menos burocracia, coordenação, respeito pelos contribuintes, pelos seus Reformados, pelos seus Universitários, pelos seus distintos Professores e Cientistas, subsidiariedade, proximidade, avaliação e, acima de tudo, Justiça!
 
 É indispensável haver um cuidadoso, solícito e zeloso cumprimento da lei. Só assim se defenderá o interesse de todos e se cuidará do bem comum com exatidão e regulamentação que garante a satisfação de indivíduos ou instituições. Termino, com uma frase de De Gaulle, que dizia: “Política é uma questão muita séria, para ser deixada para os políticos”!


Cruz dos Santos

2013

24/05/2013

SNACK – BAR “ PIC – NIC “


No dia seguinte ao meu aniversário convidei alguns amigos para no famoso Snack bar Pic-Nic, festejar-mos, para beber-mos umas cervejolas e comer uns quitutes.
Meu amigo Américo foi logo me informando:



Hotel Metrópole em baixo o pic-nic


Zé Antunes o Pic-Nic está fechado, está em obras. O Café Nicolas comprou-o e vai abrir como Café Italiano venda de (Pastas e Massas ).

Segundo o "Diário de Lisboa" de 03 de Novembro de 1969, o primeiro snack-bar do País surgiu em 1954 no Rossio, em Lisboa, o Pic-Nic.

Uma outra geração, a nova, justifica a existência e a inauguração constante de snack-bares. O snack-bar está dentro do futuro, escrevia o jornal em 1969.

E é a partir de 1975 que o Snack Bar Pic-Nic tem as maiores clientelas da época, em virtude da vinda dos retornados de Angola que se concentravam ali para saber de novidades de familiares ou dos amigos que ainda não tinham chegado, as pessoas acotovelavam-se gentilmente e ali ficavam tardes inteiras a contar as sua aventuras vividas em Angola.

O Pic-Nic fica ao lado do célebre Café Nicola, situado em lugar previlegiado. Ao lado, do Nicolas na entrada para a pensão Santo Tirso o nosso amigo Santos o ( Arrumadinho ) que trabalhou em Luanda na Papelaria Argente Santos, montou uma banca de jornais e revistas, onde todos nós lá ia-mos comprar os jornais, revistas e cigarros, ficando na esplanada do Pic-Nic a ler as noticias e a beber uns finos na companhia dos amigos vindos de Angola.



Esplanada do Pic – Nic


Foi no Pic-Nic no tempo do Sr. Luis que houve uma grande confusão entre manifestantes que passavam e as pessoas vindas de Angola, palavra puxa palavra, palavras revolucionárias e ofensivas, de repente só se vêm cadeiras da esplanada pelo ar, os mais novos entraram na disputa, e muitos dos mais velhos refugiaram-se na cave.

Passados uns anos o Pic-Nic fechou por causa das obras do metro, reabrindo mais tarde com nova gerência, o Jorge e o Pai que tinham ido de Angola para o Brasil regressando a Portugal, e a Lisboa, assumiram a gerência do Pic–Nic.

Muitos anos se passaram, muitas pessoas passaram por lá, todos nós que frequentava-mos o Pic-Nic tinha-mos uma relação de amizade com todos os funcionários.

Hoje o Pic-Nic, um dos primeiros Snack Bar em Lisboa está fechado, está para obras.

ZÉ ANTUNES

2013

OS MEUS 58 ANOS























Os meus 58 anos foram festejados a 12 de Maio, com a família e alguns amigos, fiz uma pequena festa em casa, um almoço que depois se prolongou por toda a tarde. Tendo os convivas conversado sobre os mais variados temas, ressalvando claro está as nossas traquinices da juventude. Alguns convidados ainda ficaram para uma pequena ceia, tendo depois cada um regressado a suas casas.

Desde que festejei o meio século de vida, agora só peço um ano de cada vez, e tento viver esse ano intensamente, como que fosse o último, para o próximo que seja igual ou melhor.

Depois dos 50 anos a vida fica mesmo muito mais saborosa. Mais descomplicada. Mais autêntica. Sou apaixonado, por viagens, por novas culturas e novas vivências, por pessoas, amizades.

Fazer 58 anos é, antes de mais nada, ter construído muitos caminhos e atalhos, ter desmontado muitas armadilhas, ter carregado pedras, ter cruzando muitos rios para chegar até aqui. É lembrar todos os momentos, principalmente os bons, e as grandes amizades que até hoje perduram.

Completar 58 anos significa também que temos menos pedidos pessoais a fazer na hora de apagar as velas do bolo, a nossa individualidade, está cada vez menos nítida, envolvida por vários rostos e problemas múltiplos.

Aos 58 deveríamos ser mais pacientes, mais tolerantes, todavia nossa personalidade ainda está em pleno vigor, portanto, isso dependerá de cada um. O que acontece com maior frequência é que deixamos de supervalorizar coisas pequenas, pois hoje já sabemos que não vale a pena tanto incômodo, já que a resolução desses problemas do dia-a-dia geralmente é bem mais simples do que quando jovens, imaginamos.



Aniversário com dois bolos


Com essa idade, os vícios vão sendo substituídos por remédios e o travesseiro passa a ter espinhos, as noites encurtam, as madrugadas começam mais cedo, pelo menos para os que ainda não tomam nenhum tipo de remédio “milonga”.

Nesta fase da vida parece que já não conseguimos ter grandes desejos, grandes frustrações, grandes expectativas. É tudo mais ameno, menos apaixonado, menos caloroso, a gente gosta mais do que “adora!”. Nem grandes alegrias, nem tantas deceções. Parece que a adrenalina sumiu das nossas veias, ou só aparece nos sustos.

É comum que se tenha mais paciência com o filho, mais ternura por ele e um carinho infinito por nossos pais, caso ainda os tenhamos ao lado, eu infelizmente já não tenho os meus.

É certo que tenho muito mais paciência com a neta, com suas travessuras e até com as primeiras demonstrações de gênio ou teimosia. O que me irritava no filho faz-me sorrir diante da neta, porque vejo aquele ser pequenino, ainda tão novinha, tão inexperiente achando que já sabe tudo e pode tudo também.

As pessoas da minha idade costumam olhar bastante para o passado, reconheço que ficou muita coisa por fazer, para ser vivida, mas as diabruras da vida não deixaram.

Mas está próximo o dia de me aposentar e se calhar vai-me sobrar tempo para folhear os álbuns de fotografias, aproveitar para fazer aquela infinidade de coisas para as quais nunca tinha tempo e não saía da minha lista de prioridades.

Ou então continuo a trabalhar para não sair da vida ativa, para não perder os colegas, para não me sentir vazio.

De minha parte, optei por ajudar a criar minha netinha e ainda não cheguei há fase de reler os livros preferidos, porque não dou conta de ler tanta coisa boa que os escritores do mundo inteiro continuam produzindo.

Como tudo na vida, há exceções, a este padrão de cinquentão, que estou a caminho do sessentão, eu não fujo a esse padrão. Sempre quis exercer plenamente meu Patriarcado e chego aos cinquenta e oito anos com saúde, graças a Deus, uma esposa compreensiva, um filho maravilhoso, uma nora adorável e uma neta espetacular!



Foto de caneca comemorativa retirada da net

ZÉ ANTUNES

2013

CRISE

 
A crise já vem de há muito tempo e hoje chegou-me ao conhecimento que na Pascoa de 2011, empregados, desempregados e sem abrigos procuraram refeição gratuita, refeição gratuita que foi fornecida pela associação “Nouni”

Um empregado de uma Câmara Municipal aproveitou uma refeição grátis dada hoje em Lisboa no dia de Pascoa. “O que ganha não dá para sustentar a família e vem sempre a estes eventos”, relata o organizador.




Agostinho Rodrigues, presidedente da  "Associação NOUNI ",

olha para as pessoas que se sentam numa esplanada coberta junto da Praça do Campo Pequeno e destaca a “expressão das pessoas”.

“Não são só pessoas que são da rua. São pessoas desempregadas que caíram nesta situação agora”, afirma o responsável, acrescentando que a procura por ajuda social desde a agudização da crise subiu “mais de 50 por cento”.
Nas anteriores refeições, que se repetem em dias como o Natal, Santo António, São Martinho e Páscoa, a procura rondava as 200 pessoas.

“Hoje vamos estar perto das 300”, antecipa Agostinho Rodrigues, no restaurante que estará a funcionar em exclusivo para pessoas com carências até às 20:00. “Frango, batatas fritas, salada, chouriço e presunto”, relata Olga Antunes sobre o menu que já acabou de comer: “Esta foi uma Páscoa que caiu bem, graça a Deus e que agradeço. Obrigado”.

Todos os dias Olga Antunes pede esmola na Rua Augusta para pagar os 13 euros de uma pensão. Com um marido alcoólico, vai contando com a ajuda da irmã quando esta “pode”.

Da câmara de Lisboa espera ainda uma casa porque as duas que lhe foram destinadas não tinham elevador que a transportasse na sua cadeira de rodas. Carlos Miranda vem acompanhado de dois filhos e um neto: “Felizmente não sou sem-abrigo, mas isto está mau e eu não nego nada”.

Desempregado da câmara de Lisboa, de onde foi “corrido” por ter estado a recibos verdes “inventados pelo Mário Soares”, Carlos Miranda vai “vivendo de ganchos e biscates aqui e ali”.
 

O filho Telmo Miranda estudou até à quarta classe e há muito que está inscrito no centro de desemprego, mas sem conseguir arranjar ocupação critica “primeiros-ministros e ministros por andaram a roubar o país”.
 
“Ando pelos caixotes (do lixo) para poder sobreviver”, conta. E hoje soube da “festa dos sem-abrigo” e veio até ao Campo Pequeno para passar um “dia mais ou menos”.

Os 100 frangos assados para as refeições saem da grelha que Mohamed toma conta e “sem picante porque há pessoas que não gostam”.

A queixar-se de dores nos braços está Patrícia, que há 20 minutos tira cervejas de pressão e não tem tempos de descanso.
 
A tarefa é dividida por outros empregados, mas mesmo sendo “dura” não tira o sorriso a Patrícia.

“É um bocado duro. Mas hoje estamos a ajudar pessoas que não têm nada e um prato de comida já é suficiente e eles saem daqui contentes”, diz.


ZÉ ANTUNES

2011





A MARMITA ( TERMO )



Hoje estava mudando os canais na televisão, fazendo zapping para encontrar um programa de desenhos animados para minha netinha assistir, ela gosta muito do Panda e do Disney, quando repentinamente deparei com um programa de culinária, destinado às donas de casa, que estavam a ensinar a preparar marmitas, também chamados de ( termos ) e lancheiras, fiquei por alguns instantes no programa e deu-me uma vontade imensa de escrever umas simples lembranças sobre a bela época da minha juventude, quando eu ia ao Bar do Matias buscar o comer na marmita, passo a descrever a história:

As primeiras marmitas, também chamados de ( termos ) que eu ia buscar ao Bar São João, o Bar do Matias, no Largo do Bairro Popular, em Luanda, foi quando minha mãe e meu pai foram para a África do Sul, meu pai foi trabalhar com o meu tio Manuel numa empreitada de abastecimento de água potável e minha mãe para ser operada, uma pequena cirurgia.

Eu na época tinha 17 anos de idade. As marmitas ( termos ) eram de alumínio, com tês andares ( sopa, carne ou peixe e o conduto ).

Perto do meio dia, lá ia eu ou um dos meus irmãos buscar o comer, que vinha quentinho e então era só pôr no prato e começar a comer, confesso que no primeiro dia fiquei um pouco constrangido, mas com o passar dos tempos e sempre que não havia alternativas ao almoço, ou jantar, lá ia buscar o comer com a marmita. Mais tarde foi formada uma empresa “ A Paparoca “ que levava a marmita a casa dos clientes. Eu ainda hoje às vezes levo a lancheira, e sei todos os nuances de como preparar, carregar, aquecer e comer os alimentos acondicionados nos " Tupperwares ".

Vezes sem conta ficava muito envergonhado de vir com a marmita ( termo ) a descer, desde o largo, toda a Rua de Serpa até casa. Passados alguns dias deixamos de ir buscar a marmita ( termo ) e com o dinheiro que nossos pais deixavam para pagar a marmita começamos a comprar os alimentos e valha-me a minha irmã com 12 anos cozinhava para nós e era muito mais saboroso, comíamos cada pitéu que ela fazia que era de chorar por mais. Com aquela idade ela era já uma excelente cozinheira.

Até á bem pouco tempo, eram raras as pessoas, que levavam as tradicionais marmitas de alumínio para os seus empregos, pois começaram a utilizar os "Tupperwares" e depois que inventaram o tal Ticket Restaurante, a nossa tão querida marmita ( termo ) caiu no esquecimento de todos, mas presentemente nos tempos atuais só se vê pessoas levando as tradicionais lancheiras, marmitas ou os também célebres " Tupperware " com os seus almoços.


Termo de 3 andares

E ainda falam que levar marmita ( termo ) para o trabalho ou para a escola é coisa de pobre, pobre nada, a criseassim obriga, mas o mais importante é mantermos as nossas barriguinhas cheias e que se dane, todos os que criticam aqueles que levam a lancheira, quem nunca levou uma marmita ( termo ) para o trabalho ou para a escola, pois não terá uma história engraçada como esta para contar!

Bela recordação!


ZÉ ANTUNES
1972

SUA PEN DRIVE TEM BLUETOOTH


Ontem recebi um e-mail de um amigo aí de Luanda, o Francisco Manuel, que foi intitulada de: "Sua Pen drive tem Bluetooth". É uma história bem contada mostrando como que a rapidez à modernidade é difícil e quase impossível para alguns de nós, os “cotas” e as “cotas”, acompanharem! Começa com o João Luis a se deslocar a uma loja de venda de produtos informáticos, e tirando uma anotação do bolso, foi perguntando ao Empregado como se ele fosse um profundo conhecedor:

- Amigo, bons dias, vocês têm pen drives?

No que ele respondeu:

- Temos sim.

Como ele nem tinha ideia do que estava a falar e não querendo ficar mal visto com futuras indagações, perguntou logo:

- Amigo o que é pen drive? Pode me explicar? Meu filho me pediu para comprar uma.
- Como se chama o Senhor?

Eu??? Sou o João Luis

Senhor João, pen drive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.
- Ah! É como uma disquete...
- Não. No pen drive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. A disquete, que já não existe mais, só salvava texto.
- Ah, “tá” bom. Vou querer uma.
- Quantos gigas?
- O quê?
- De quantos gigas o senhor João quer o seu pen drive? – replicou o empregado da Loja.
- E o que é giga?
- É o tamanho da “pen” - respondeu o empregado.
- Ah “tá” bom!
- Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.
- Todos eles são pequenos senhor João. O tamanho que eu pergunto é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.
- Ah, então de quantos tamanhos tem?
- Temos dois, quatro, oito, dezasseis gigas...
- Bom! Meu filho, não disse quantos gigas queria.
- Neste caso é melhor o senhor João levar o maior.
- Sim! Eu acho que sim. Quanto custa?
- Bom o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada do PC é USB?
- Não entendi...
- Bom, é que para acoplar o “pen” no computador, tem que ter uma entrada compatível.
- USB não é a potencia do ar-condicionado?
- Não, aquilo é BTU - responde o Empregado.
- Ah! É isso mesmo, confundi as iniciais. Bom, sei lá se a entrada do PC é USB.
- Senhor João, USB é assim olhe: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o PS2 mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é PS2.
- O PC do meu filho foi comprado à dois anos. O anterior PC ainda era com disquete. Este não agora não tem disquete.
- Lembra da disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador que meu filho teve, funcionava com aquelas disquetes do tipo bolacha, grandes e quadrados. Era bem mais simples, não acha?
- Senhor João, os de hoje não têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou é pen drive.
- Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.
- Quem sabe o senhor pode ligar para ele?
- Bem que eu gostaria, mas meu telemóvel é novo, tem tanta coisa nele que ainda nem aprendi a discar.
- Senhor João, deixe-me ver – disse o empregado da Loja
- Poxa! Um smartphone! Este é bom mesmo! Tem bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, máquina de filmar, rádio AM/FM, TV digital, dá para mandar e receber e-mail, mensagens direcional, micro-ondas e liconexão wireless...
- Blu... Blu... “Blutufe”? E micro-ondas? Dá para cozinhar com ele?
- Não senhor João. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.
- Para que serve esse tal de “blutufe”? - pergunta o senhor João...
- É para um telemóvel se comunicar com outro sem fio.
- Mas que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os telemóveis não se comunicam com os outros sem usar fio? Nunca precisei de fio para ligar para outro telemóvel. Fio em telemóvel, que eu saiba, é só para carregar a bateria.
- Não, já vi que o senhor João, não entende nada mesmo. Com o bluetooth o senhor passa os dados do seu telemóvel para outro sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.
- Ah, e antes precisava de fio?
- Não, só tinha que trocar o chip.
- Hein? Ah, sim o chip. E hoje não precisa mais de chip...
- Precisa sim, mas o bluetooth é bem melhor.
- Que bom ter chip. O meu telemóvel tem chip?
- Um momento... Deixe-me ver... Sim tem chip.
- E que faço com o chip?
- Bom, se o senhor João, quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe...
- Sei sim portabilidade, não é? Claro que sei. Como não iria saber uma coisa dessas tão simples? Imagino, então, que para ligar tudo isso no meu telemóvel, depois de fazer um curso de dois meses eu só preciso clicar em uns duzentos botões...
- Não! É tudo muito simples, o senhor João logo apreende.
- Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele.
- Isso. Agora e só teclar
- Um momentinho
- E apertar no botão verde... Pronto, já está chamando.

João Luis segura o telemóvel com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta:

- Oi filho, é o pai.
- Sim.
- Diz-me uma coisa filho, o teu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas?
- Quatro gigas está bom?
- Ótimo. E tem outra coisa. O que era mesmo? Nossa ligação é USB? É? Que loucura. Então, “tá” filho, o pai vai comprar uma pen drive. De noite eu levo para casa.
- Que idade tem seu filho? - pergunta o Empregado de Balcão. Vai fazer 12 no mês que vem.
- Então é isso!
- Vou levar um de quatro gigas, com ligação USB.

Mais tarde, na oficina, examinou o pen drive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha com receio para o telemóvel sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa.
Tudo o que ele quer é um telefone para discar e receber chamadas. E tem nas mãos um equipamento sofisticado, tão complexo, que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de 50 saberá compreender.

Já em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um "heavy metal" infernal invade o quarto e os ouvidos de João Luis. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:

- Pronto pai, baixei a música. Agora eu levo o pen drive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu telemóvel por exemplo.
- E teu telemóvel tem entrada de USB?
- Lógico. O teu também.
- É? Isso quer dizer que eu posso gravar músicas em uma pen drive e ouvir pelo meu telemóvel?
- Se o senhor não quiser baixar direto da internet...

Naquela noite, o João Luis, antes de dormir, deu um beijo na esposa e disse:

- Amor, você sabe que eu tenho Blutufe?
- Como é que é? - replicou a mulher.
- Bluetufe. Não vai me dizer que não sabes o que é?
- Não me chateies João , deixa-me dormir.
- Amor! Tu lembras-te como era simples a vida, quando o telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão para as coisas funcionarem?
- Claro que lembro, João. Mas hoje é bem melhor, não é? Várias coisas em uma só, até “Blutufe” você tem.
- E ligação USB também.
- Que ótimo João, meus parabéns.
- Meu amor, vou te contar uma coisa: com tanta tecnologia nós envelhecemos cada vez mais rápido. Eu fico doente só de pensar em quanta coisa existe por aí que nunca vou usar.
- “Ué”? Por quê?
- Porque eu não tinha aprendido a usar computador e telemóvel e tudo que acabei de aprender já está ultrapassado. Aliás, por falar nisso, temos que trocar nossa televisão.
- “Ué”? A nossa avariou?
- Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slow-motion e reset button.
- Tudo isso?
- Tudo...
- Boa noite João, vai dormir que eu não aguento mais...

(O autor deste texto é desconhecido, mas pode ser algum de nós ou alguém que tenha nascido nos anos 40, 50, 60, 70, 80 ou até 90). E uma pequena ressalva: nunca o nosso idioma português esteve tão americanizado. Infelizmente.



ZÉ ANTUNES

 2013