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29/07/2013

VOU PARA FÉRIAS



Vou ausentar-me por uns escassos dias, da vossa prestigiosa e valiosa Amizade e companhia.

Vou respirar outros ares (“Made-In-Portugal”), contemplar outros rostos, tentar fazer outras Amizades (efémeras), escutar outras opiniões, enfim, deixar Lisboa por três semanas (01 a 26 de Agosto).

Vou repousar o sistema imunitário, que é o mesmo que defender o “Físico” dos invasores (gérmenes e micro organismos), que abundam aqui pelo meu bairro.

Vou “BAZAR”, mas de carteira “encolhida”, magra (ando a fazer dieta) e, provavelmente, estacionar junto ao MAR e dialogar, amistosamente e sózinho com as ondas.

Sabem por que razões, os portadores de psicose, falam sozinhos? É que quando não têm personagens reais com quem se relacionar, criam-nas no seu psiquismo; caso contrário, implodem o seu sentido existencial, vivem o caos da solidão. Os que botam no seu imaginário angustiam-se mais. Por essa razão é que ADORO falar com as ondas, escutar o MAR.Ó mar salgado, / quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal”!! As suas ondas entendem-me perfeitamente. Vão e vêm, pois trazem sempre na sua companhia, notícias da minha/nossa terra, recados da minha/ nossa Ilha de Luanda.

A vida é um espetáculo, mas, sem ondas, sem MAR, ela pode tornar-se num espetáculo sem sabor, monótona, fria, doente.
E PRONTO, NÃO VOS MAÇO MAIS!!
Portanto já sabem, entre os dias 01 a 26 de Agosto, não me mandem nada para o correio eletrónico, com bastante mágoa minha.

E o que são três semanas hoje? Ainda ontem fiz 22 anos e estávamos em 1977.

UM GRANDE KANDANDU aos avilos e

BEIJOCAS ás garinas
ZÉ ANTUNES

2013

VIDAS NO BAIRRO


Praticamente nasci nesse recanto da cidade de Luanda, Bairro Câncio Martins, ou mais conhecido por Bairro Popular nº2, fui para lá morar tinha pouco mais de 6 anos de idade.

Nos anos 1960 e 1970, como grande parte da cidade a vida resumia-se do centro da Cidade de Luanda, aos Bairros periféricos, Vila Alice, Terra Nova, Bairro Popular nº 2, Cazenga, Bairro da Cuca, Bairro Salazar, Prenda, Samba e outros. Nossos pais a trabalhar, os filhos logo aos 15 para 16 anos, quem não seguia os estudos empregava-se, outros seguiam os estudos, não dava tempo para ficar stressado, não existia "trabalho infantil " infrator, óbvio que com poucas exceções, pois como um dos moradores do bairro, acompanhei esses companheiros dos anos 1960, e sua transformação, esses moradores na sua maioria conseguiram êxito na vida com seu trabalho digno.

Ainda encontro nas ruas, muitos filhos e até netos dos moradores da época de meu pai, e a pergunta de sempre, e teu pai como vai? Ah, ele já faleceu há muitos anos, foi no ano de 1978, ah o meu também, esquecemos que já estamos na casa dos 60 anos e para os outros ainda somos novos, velhos são os outros, interessante, pois sou amigo de muitos de minha idade, crescemos juntos e meu pai foi amigo do pai desses amigos, essa foi uma das vantagens de morar-mos sempre no mesmo bairro e acreditem, muitos netos se identificam dizendo aos outros meninos, meu avô conheceu teu pai e assim por diante...

Vejo hoje essa malta dos anos 1960, quase todos reformados já com netos e na sua grande maioria tiveram bons exemplos. Quem sempre morou no mesmo bairro como eu e cresceu com ele, pode desfrutar e lembrar de como era, e esperando sempre que alguém mande fotos ou relate de como está o Bairro e mesmo aqueles que vieram embora para Portugal, e quando voltam podem verificar a transformação, com muitos deles nosso contato é constante e outros em menor escala, mas a conversa é sempre de saudade, antigamente o Bairro era assim, agora está doutra maneira ou melhor ou pior.

Alguns fatos interessantes que não é possível esquecer, era que nada acontecia de novidade na época no bairro, sempre aquela vidinha, escola para casa, trabalho para casa, às vezes íamos caçar passarinho, nadar nas linda praias da Ilha ou na Corimba e nos fins de semana futebol no campo do Clube do Bairro ou no Preventório, trumunos na Defesa Civil de futebol de salão.

Os divertimentos em casa era ouvir o jogo de futebol dos Campeonatos de Portugal, pelos profissionais da rádio, ou músicas do nosso tempo, ir ao cinema no Cine São João, ir a outros cinemas da cidade, Restauração, Império, Avis Tivoli, Miramar, Kipaca e outros sem pensar se era longe ou caro, tinha malta amiga, mais cotas que gostavam de contar histórias, e anedotas geralmente à noite, no muro do Matias ( alguém o batizou de Nosso Poleiro ).

Aos 15 ou 16 anos os pais já procuravam encaminhar os filhos para o trabalho e aí acabava as brincadeiras para muitos, escola só à noite. Muitos iam para a Escola Industrial, aprender mecânica, em tornos, engenhos de furar, fresas, época gloriosa financeiramente para quem era torneiro, fresador, hoje são apenas saudades, as máquinas computadorizadas tomaram conta de tudo, e assim como os desenhadores, hoje temos o CAD. (Desenho Assistido por Computador).

Os pais nos fins de semana ora trabalhavam em casa, pequenas obras, e depois iam beber uns finos ao Bar São João e conversar com os amigos. 

A vida era tão calma que parecia também que ninguém morria, lembro-me só uma vez de um velório, na antiga capela de Santa Ana, mas não fui ver, o pavor era grande, lembro-me que só entrei num cemitério pela primeira vez com os meus 17 anos, mais ou menos, em Santa Ana , em compensação hoje em dia vemos uma morte por dia no mínimo aqui em Portugal.

Nesse Cemitério a maioria dos sepultados era de morte por doença, de idade avançada e muitos jovens, de acidentes de moto..

Quando fui para o Bairro as ruas ainda eram de terra batida, mais tarde foram alcatroadas, as ruas projetadas eram na maioria paralelas, ruas com denominações de cidades de Angola e de Portugal.

Afinal, todas as cidades, começaram um dia como uma pequena Vila, com os seus moradores, e se hoje conhecemos, por exemplo, a história oficial ou oficiosa da cidade de Luanda, dos seus bairros, é por que alguém há 500 anos escreveu, fotografou sobre a vida na cidade. O primeiro padre, o primeiro morador, a primeira família, geraram o que somos e fazemos hoje, assim caminha a vida que depois se transforma em metrópole, mas nunca esquecendo dos verdadeiros heróis que foram os primeiros moradores, a razão de tudo e graças àqueles que têm a capacidade de passar para o papel esses fatos para eternidade. Penso fazer o que me compete, recordar o que foi a minha, nossa juventude e os belos momentos vividos.

ZÉ ANTUNES

1970

MUITA BEBIDA


Em 1976 morava na Avª Álvares Cabral nesse tempo com as nacionalizações, com as greves, por muitos saneamentos feitos pelas comissões de Trabalhadores em muitas Empresas, Portugal estava na banca rota, Lisboa era a capital do caos.

José Carlos primo da Marinha Gonçalves, residente na cidade do Porto, vem a Lisboa para tratar do Bilhete Identidade, combina comigo e eu digo-lhe para vir passar o fim de semana, para ter tempo de visitar alguns amigos.

Chega Sábado pela manhã, viajou toda a noite, pois as viagens de Lisboa ao Porto ou Porto Lisboa eram bem demoradas, só existia a Auto Estrada Porto Carvalhos e Lisboa Vila Franca de Xira.

Almoçamos no Tasco, no Largo do Rato, no Restaurante do Sr. Fernando, que se situava ao lado da Sede do Partido Socialista.

Degustamos um Bacalhau à Zé do Pipo, acompanhado de Vinho Verde “Casal Garcia”.

Findo o almoço dirigimo-nos à Pastelaria Estrela do meu grande amigo Júlio, situada na Álvares Cabral, onde bebemos uma saborosa bica (café) e um digestivo ( Aliança Velha ).

Seguidamente dirigimo-nos ao Princepe Real onde a Isabel Madruga nos esperava, iriamos receber um telefonema de sua mãe que ainda se encontrava em Luanda, telefonema esse que seria recebido ás 16 h 00. Telefonema recebido, feito pela a mãe da Isabel, onde nos relata mais ao menos as dificuldades de vida em Luanda, onde já faltava tudo.

Despedimo-nos da Isabel, ela iria na semana seguinte para Santarém, para a Escola Agricola. Dali descemos até à Avenida da Liberdade, e fomos ter com meu pai à Ginginha da Avenida onde bebemos umas ginginhas com elas.

Eu e o José Carlos seguimos até ao Rossio, onde nos esperava outros avilos, João da Lusolanda, Zé Banqueiro entre outros, ai chegados fomos para a esplanada do pic-nic e saboreamos uns finos, para refrescar as gargantas sedentas.

Como o José Carlos trazia uma carta para ser entregue ao Sr. Octávio, dirigimo-nos para o Castelo de São Jorge, lá chegados disseram-nos que o Sr. Octávio estava na Pastelaria do Daniel, para lá nos dirigimos, e ai ficamos, na companhia de mais uns amigos a recordar a nossa juventude, da nossa linda Luanda.

Como a subida que fizemos até ao Castelo foi feita a pé, lá chegados estavamos com bastante sede, vai dai mais uns finos ( cerveja em copo ).

Regressamos a casa, muito bem dispostos, só sei que no dia seguinte Domingo dia de descanço, acordei com uma fortíssima dor de cabeça, derivado ás misturas de bebidas que ingeri, no dia anterior, mas diga-se que foi um Sábado bem passado, em grande.

Mas eu nesse domingo prometi a mim mesmo que nunca mais faria misturas de bebidas alcoólicas, e até aos dias de hoje estou a cumprir

ZÉ ANTUNES

1976

JOSÉ SALGADO! BOM AMIGO...


José Salgado, cedo perdeu a mãe, seu pai com muitos sacrificios lá o foi educando. Ele vivia no Bairro do N`Gola, perto da Avenida Brasil e na Escola primária Nossa Senhora de Fátima, ai fez o ensino primário, era o mais traquinas e só queria galhofa, indo depois para e Escola Preparatória “ João Crisóstomo” foi ai que o conheci. transitamos os dois para a Escola Industrial de Luanda, onde entramos para o Curso de Aperfeiçoamento de Serralheiro.

Mecânica era a sua paixão, acabado o curso começou a trabalhar na Robert Hudson na zona industrial e com os primeiros dinheiros ganhos com o seu suor, como gostava de sublinhar, comprou uma Honda SS50Z , com a qual se deslocava do Bairro Indígena até ao seu trabalho lá na 5ª Zona Industrial no Cazenga, mais tarde o pai, deu-lhe uma moto Yamaha 250 c.c. com a qual fez o último motocrosse Internacional de Luanda nas Barrocas do Miramar. Ele e o Stop bateram-se bem, contra as potentes máquinas dos Sul Africanos e Belgas residentes no Zaire, acabaram os dois por fazer uma bela corrida.

Era com ele e mais outros amigos que fugava-mos principalmente ás aulas de Oficinas de mestre Paixão e íamos ou para a Piscina de Alvalade ou para o Porto de Luanda, para com meia dúzia de escudos comprar cigarros e revistas eróticas, de ressalvar que na época essas revistas eram proibidas.

Devido aos conflitos nas mercearias de muceque, seu pai em Setembro de 1974 foi expulso do Bairro Indígena, e foram residir para o Bairro Salazar e como meu amigo começou a frequentar mais vezes o Bairro Popular nº 2, integrando-se no nosso meio, participando muitas vezes nas corridas à volta do Largo.

Quando do seu regresso a Portugal na Ponte Aérea em 1975, foi residir para Viana do Castelo, de onde eram originárias as suas raízes e estabeleceu-se lá com uma oficina de Motos.

Muitas vezes quando me deslocava ao Norte do País ia a casa dele, ficava-mos horas a lembrar os bons momentos vividos na nossa querida Luanda. Mantinha contacto com ele através de telefone e pelas redes Sociais.

No dia 18 de Julho de 2013, um brutal acidente de viação na A3 perto de Braga, um veiculo pesado ( camião ) descontrolado embateu na mota do José Salgado, arrastando-o vários metros, ceifando a vida deste nosso grande amigo,

Descansa em Paz amigão


 ZÉ ANTUNES

2013


A CULTURA PELAS "HORAS D´AMARGURA”!


A Língua Portuguesa tem-se amoldado sempre às glórias e às desgraças do nosso Portugal. Ela foi brilhante em Aljubarrota, canção dolente e de saudade no alto mar, e elegia cortante em Alcácer-Quibir.

Foi corneta de fama e de patriotismo de Camões, grito de paixão e de súplica em “mares nunca dantes navegados”! Mas Hino, Literatura, Poema lírico, canção de lamento ou canto triste, ela nunca perdeu a sua beleza, a sua graça, o seu brilho. “Se foi lágrima, nunca deixou de ser sorriso; se foi cobardia - alguma vez - nunca deixou de ser força”! A literatura é uma profissão em que se torna indispensável dar provas constantes de que se tem talento para convencer pessoas que não têm nenhum. Hoje, a Literatura, está em vias de desaparecer.

O público, hoje, não tem tempo para analisar e muito menos para apreciar a “Arte de Redigir”. Só correm atrás da tragédia, da política, da busca da violência, passando por cima dos pontos sérios. A paixão do futebol, toldou-lhes o cérebro e fez com que eles dessem um “pontapé” nos livros e em jornais. Por outro lado, a doença da velocidade, bem como notícias “abimbalhadas” dos casamentos, divórcios e infidelidades, de todos estes “craques”, principalmente da bola”, exibidas constantemente pela TV, e denunciadas (catalogadas), por estas revistas “côr-de-rosa”, de “famosos” ou “célebres”, são, não só a a “gonorreia”do “lixo”, como o da loucura do interesse e da febre do utilitarismo. A televisão e os seus canais portugueses, são, na realidade, o “ópio do Povo”!

É um vento pestilento que ajuda a murchar a flor do bom gosto literário. Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno. 

Ao contrário do que existe noutros países, em Portugal, as televisões não conseguem fazer coexistir as duas tradições: a Culta” e a “Popular”. As televisões (com uma ligeiríssima ressalva para certos programas da estação pública), optaram definitivamente pelo afastamento de qualquer expressão de cultura. Mais do que a vulgaridade, deste batalhão de “Bimbos”, e a violência, o que realmente choca e enfurece é a destruição da Cultura, o desprezo pela informação séria, o escárnio pela Ciência e o ataque à inteligência perpetrados todos os dias. 

Com meios diferentes e com objetivos novos, as televisões estão a provocar tantos danos à inteligência e à cultura quantos, no passado, produziram os inquisidores, as polícias e os censores.

Cruz dos Santos

2013

26/07/2013

UM PEQUENO CONTO ANGOLANO


Lembras-te João Cambaio, das nossas aventuras, quando brincávamos às escondidas nos quintais do “Bairro Pop“? Quando “pelejamos”, dava-mos “galhetas” e “baçulas à pescador” um ao outro, e no outro dia, já estávamos amigos outra vez? Nesses tempos, eu julgava era pecado a gente se insultar, porque Deus estava, também, a ouvir e se ia zangar. Minha mãe me avisava: “se não fores bonzinho para com os teus amigos, sejam eles negros, mulatos ou brancos, vais parar no Inferno”! Depois explicava-me o que era o Inferno. Ela dizia sempre, que no inferno, havia lá um grande caldeirão cheio de azeite a ferver e que um “gajo” – depois de morrer - se tivesse sido pecador e tivesse sido mau, muito mau, para os outros, passava a “eternidade” ali mergulhado, a sofrer p’rá burro! Mas ela tinha razão! Cada vez era mesmo verdade! Te lembras também da Domingas? Aquela negra fula, cheia de “demengueno”,quando passava no passeio da loja do “Sr. Novo” Casa Confiança, toda a “malta” lhe assobiava? O quê? Não ti estás a lembrar? Porra! Aquela miúda qui andava sempre vestida di mini-saia, e “kimone” de “chita”, qui um dia até lhi dei boleia na minha mota “Honda 350”, e lhe “reboquei” até no bairro da Vila Alice? Aquela…qui toda a gente dizia, qui era minha namorada? Mas não era, nessa altura já namorava, com respeito.

-Não me digas, qui era aquela qui era irmã do Tonico, o rei das cabeçadas? Qui o pai dela, além de ser alfaiate, também fabricava no quintal, “quimbombo”?

-Sim! Era essa mesma!

-Possas “Meu”!! Você é corajoso!!! E o irmão sabia?

-Claro qui sim! Coitada, depois, deixei de lhe ver, quando fui no “Rangel” na casa do Velho Inhana, passou muito tempo, e um dia mi disseram qui ela estava “amigada” (vivia) com um branco, um “H’nguenta”do “Puto”, todo vermelho, qui parecia qui tinha “massa de tomate” na cara. Eh!!…Diziam até, qui ela parecia uma senhora, bem vestida. 

-Foi a sorte dela!
-Estás mas é com Inveja! Inveja é cuêsa má, o senhor padre Luis das barbas (os Capuchinhos), da Igreja de São Paulo, tinha ensinado, que há pessoas tinham sorte e por isso viviam bem. Deus é que sabia, a nossa vez também ia chegar. E se não chegava, depois no céu, Deus tinha mais pena de nós…

-Vai-te lixar Zé Antunes! Afinal a Domingas é que ficou lixada: lhe deixaram com filho na barriga, coitada…!

-Tás a brincar…João Cambaio?

-Juro “Sangue de Cristo”! Mas mantem-te calmo Zé Antunes! A vida é pra ser vivida e no meio de tanta desgraça, ao menos um “coche” de calma. Vamos mas é “varrer uma cabeça de “peixe-pungo”, no Bar do Cravo”! Uma caveira de peixe. Ecologia. Uns comem. Outros são comidos. É assim a Natureza e de outra maneira não havia vida. Errado. Nem sequer havia outra maneira. Porque para haver outra maneira só com vida….Fim de citação”!

-Onde é que tu ouviste isso João? (já a postes para se instalar na cadeira).

-Foi mesmo na TPA (Televisão Pública de Angola)…Ó Banga Zé!!

-ALDRABÃO!! Naquele tempo Televisão? só “Rádio Ecclésias”, “ Voz de Angola” ou “Emissora Oficial”!! 
Zé Antunes

1971

"KANDENGUES VISIONEIROS"


Quando estávamos parados, na frente da minha casa, no muro do "Preventório Infantil de Luanda", os "Madiés" mais velhos, com as suas "motorus" (Zé Tó, Henriques, Minguitos, Paquito, Lili, Jorge, Carlos, Zé Antunes, Banga Ninito, Escaqueirado, Carnapeto , Russo da Garelli, Carlos Magalhães e outros), convertiam as conversas, nas habituais e acostumadas aventuras dos seus "engates", ou seja, nas "garinas namoradas di fingir", misturando toda esta "caldeirada dialogante", em histórias de combates de boxe e marcas famosas e de grande cilindrada de motos, tais como a "Honda", "Yamaha" e "Suzuki", que eram, sem dúvidas alguma, as mais populares e, como é óbvio, as mais procuradas e vendidas em Luanda, naquela época. Nessas alturas, apareciam alguns "kandengues", com sapato "João Domingo", remendo nus calças, qui falavam - entre eles - sobre as potentosas e nossas "máquinas".

-"Xê Mano Zito", a Honda é melhor! Tem mais "banga-fukula", mais bonita, escape cromado e "manda" pineu" mais grosso. Tás a brincar, ou quê?" 

-"Makuto caxe"! Vê-se mesmo, qui não percebes nada di motas. A "Yamaha" é que é a melhor. Lhe "avistaste" aquela corrida, na Fortaleza? Hum!!! Vou te falar".

-"Vocês, são mesmo "Buçais"! Não entendem nada de motos. A melhor mesmo...é a "Suzuki", aquela do Carlos Magalhães"

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Para felicidade de muitos "Miúdos", era ir dar uma volta com estes "malucos" na chamada "pendura", que - cheios de "Cagunfa" - e com a sensação da aventura, se agarravam a um "Gajo" na cintura, com receio de cair. Mas era bom, porque depois de vermos, todos eles, cheios de felicidade, ainda comentavam a favor da volta que tinham dado".

-"Banga Zé", "Banga Ninito", mi deixa ainda dar uma "quicorta" na tua "Motoru"!

-"Chê kafito-Fito"dum raio! Tás a brincar, ou quê? Ti vou "rebocar", com todo esse "ranho" pendurado no nariz? TÁS a Julgar que és Quê? Não vês qui sujas a moto! Porra! Vai lá mas é lavar a tua "xipala", seu "badalhoco" di merda"!!

Então...aí já, punha o "muleke" no banco de trás e ia dar uma volta, com ele no "Bê-Ó", "Bairro Zangado", atravessava alguns musseques em alta velocidade, levantando Poeira. O "Kandengue", ficava todo assustado, mas ao mesmo tempo feliz e falava já para os outro "diambeiros" à toa...

"-Banga Zé" e "Banga Ninito", são verdadeiros Amigos, andei só com ele na torraite, fomos à toa, ultrapassamos uns "Kaíngas" qui estavam só parados, e nós passamos na "Gazuza até cair", qui parecia vento...!"

Os amigos falavam já: Possas “Meu”!! Você é corajoso!!! Andares com esses malucos mais velhos, mete medo. Outras vezes lhe diziam: "-vamos dar uma volta, mas me dás uma quinhenta para a gasolina"!

-"Hi Hi este "Madié" manda "pimpa"! Não tenho quinhenta nenhuma, Juro mesmo - sangue de Cristo - faz lá um "coxito" de boa vontade Banga Zé. Dinheiro acabou. "Kuabo-Kaxe"! "Kitar malé", nem nus bolsos dus documento, nem no "cafukolo".

Zé Antunes
1970