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11/11/2013

TOURADA DE LUANDA

A praça de touros de Luanda recebeu touradas durante o Estado Novo. Após a independência passou a receber apenas espetáculos musicais. Agora, a praça de touros, obra que nunca foi terminada, vai ser requalificada e transformada num Palácio da Cultura. Um bom exemplo vindo de Angola onde os portugueses tentaram sem êxito impor a 'tradição' tauromáquica.

Em 1975 o "poder popular" inaugurou a era dos grandes assaltos, dos raptos, das buscas domiciliárias sob nenhum motivo, das violações de mulheres e raparigas, até de crianças, em plena via pública, e diante dos maridos e pais, das torturas, das mutilações, dos assassínios a sangue frio e só pelo prazer de matar, das casas incendiadas por desfastio, e das prisões. O MPLA possuía diferentes tipos de cadeias e felizes eram aqueles que escapavam às sevícias mais abjetas ou à detenção nos curros da praça de touros de Luanda, além de forte dispositivo bélico na Praça de Touros (onde a FNLA dizia que o MPLA prendia, matava e enterrava pessoas), torná-las alvo de violações sexuais ou outras, de maus tratos físicos e morais, obrigando-as a ingerir dejetos humanos tal como a alguns prisioneiros que foram retidos durante semanas na praça de touros, aparecerem mortas em qualquer lugar como sucedeu no quintal duma vivenda na Vila Alice onde foram encontrados quatro corpos esquartejados e enfiados numa fossa séptica ou darem-lhes sumiço nas densas matas onde os obrigariam a percorrer distâncias inimagináveis expostos a perigos de toda a ordem e por fim sumirem-nos sem deixar rasto.

 

Interior ( foto de 1985)

Esta história passou-se no Largo da Tourada, em Abril de 1975. 
Liliana Teixeira, estudava no Colégio “Moisés Alves de Pinho “, á data tinha 16 anos e era repetente do 5º ano ( hoje é o 9º ano). Muitas vezes fazia o trajeto do Colégio para o Bairro Sarmento Rodrigues, perto da Vala, na companhia do namorado o João Luiz, outras vezes na companhia de uma amiga a Maria Pacavira, por essa altura já tinha sido decretado o recolher obrigatório e existiam os conflitos entre os movimentos. 
O irmão da Pacavira, foi logo avisando a irmã que começava a ser perigoso virem por aquele trajeto, pois na tourada estava o M.P.L.A. e estavam a prender discriminadamente pessoas, que desapareciam sem se saber porquê. 

Liliana aceitou o aviso, e começou a vir pela estrada de Catete no machimbombo 22 para o Bairro Popular, ou esperava pelo pai que trabalhava no Porto de Luanda. 

Uma certa tarde, como estava tudo calmo sem tiroteio, entendeu ir a pé para casa, estava sozinha, e foi andando, ao chegar ao Largo da Tourada, foi logo ali interpelada por um soldado do M.P.L.A. : 

- Como é garina, sozinha a esta hora, o que andas a fazer, para onde vais? 

Liliana com os seus 16 aninhos, cheia de medo disse: 

- Venho do Colégio “ Moisés Alves de Pinho” e vou para casa, moro já ai no Sarmento Rodrigues, ai depois da Vala. 

O militar das F.A.P.L.A.s esclareceu: 

- Não estás a ver o quanto perigoso é? Tão novinha e andas por aqui sozinha? E a mais está já a escurecer! 

- Liliana disse que costumava passar por ali, muitas vezes no fim das aulas, com os amigos, mas hoje a minha amiga não quis vir. 

O Militar com a sua arma empunhada, e aquele ar de superioridade falou: 

- Vai-te lá embora e toma cuidado. 

Liliana ao chegar a casa e ainda com medo estampado na sua cara, contou ao pai o que se tinha passado. O pai disse que o militar até foi gentil para com a Liliana, mas o certo é que acabada as aulas desse ano letivo, os pais da Liliana, o Sr. Teixeira, a esposa e a Liliana em Junho de 1975 embarcaram para Lisboa na Ponte Aérea.

Panoramica ( foto de 1985)

 
Vista exterior ( foto de 2005 )


ZÉ ANTUNES
1975



10/11/2013

DIA DE SÃO MARTINHO

 
Dia 11 de Novembro, dia de São Martinho. Este dia é comemorado um pouco por todo o Portugal, junto às lareiras ou aquecedores. É o dia em que se vai à adega e se prova o vinho da última colheita.

Vinho Novo 

É um momento de convívio. Chama-se os amigos à adega, para beber um copo de "água-pé", e da bem afamada jeropiga, comer umas castanhas assadas num braseiro de pinhas, pondo muito sal por cima para estalar a casca da castanha e dar-lhe paladar algo salgado. É o popular Magusto. 

O Magusto de São Martinho comemora-se, celebrando-se o Outono, a chegada do tempo frio e a proximidade do Natal.

Castanhas assadas 

Provérbios e Frases de São Martinho 

"No dia de S. Martinho vai-se à adega e prova-se vinho." 

"Pelo S. Martinho mata o teu porco e bebe o teu vinho." 

"Pelo S. Martinho semeia favas e vinho." 

"Pelo S. Martinho, nem nado nem cabacinho." 

"Água-pé, castanhas e vinho, faz-se uma boa festa pelo S. Martinho." 

"Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro." 

"No dia de S. Martinho fura o teu pipinho." 

"Do dia de S. Martinho ao Natal, o médico e o boticário enchem o teu bornal." 
"Pelo S. Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho." 

"Se o Inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo S. Martinho." 

"Se queres pasmar teu vizinho lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho." 

"Dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho." 

"Dos Santos até ao Natal, é um saltinho de pardal." 

Lenda de São Martinho


"Num dia tempestuoso ia São Martinho, valoroso soldado, montado no seu cavalo, quando viu um mendigo quase nu, tremendo de frio, que lhe estendia a mão suplicante e gelada.

S. Martinho não hesitou: parou o cavalo, poisou a sua mão carinhosamente na do pobre e, em seguida, com a espada cortou ao meio a sua capa de militar, dando metade ao mendigo.

E, apesar de mal agasalhado e de chover torrencialmente, preparava-se para continuar o seu caminho, cheio de felicidade.
Mas, subitamente, a tempestade desfez-se, o céu ficou límpido e um sol de Estio inundou a terra de luz e calor.

Diz-se que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o ato de bondade praticado pelo Santo, todos os anos, nessa mesma época, cessa por alguns dias o tempo frio e o céu e a terra sorriem com a bênção dum sol quente e miraculoso, a que chamamos de Verão de São Martinho. 

 
ZÉ ANTUNES
 
2013

XI CONVÍVIO DE AMIGOS FERROVIÁRIOS DA Ex OFICINA DA BOAVISTA

 


Posto de Manutenção da Boavista ( Porto )


No passado dia 9 de Novembro, o pensamento dos antigos trabalhadores do Posto de Manutenção da Boavista era apenas um: dirigir-se atá à vila de Nine, para se juntarem aos seus amigos e companheiros no habitual encontro anual, que por tradição se realiza nesta época do ano. 

Desta vez o encontro dos trabalhadores das Ex-Oficinas da Boavista teve lugar no belo cenário que se avista do Restaurante “ Mélinha ” em Nine.

O encontro teve a organização do José Machado e do Arlindo de Sousa, tudo correu pelo melhor. Foi mais uma jornada onde as recordações e as memórias de cada um proporcionaram um regresso aos anos de 1980 e às imensas peripécias e acontecimentos daqueles saudosos tempos em que todos nós éramos rapazes com vinte e poucos anos e que nestas alturas estão sempre presentes.

E há sempre uma história para contar, um acontecimento para recordar. Uns são encarados com alegria, outros com alguma melancolia e saudade. Nestes momentos não há lugar para a tristeza. Só para a saudade… saudade, sobretudo, daqueles companheiros que tiveram a mesma vivência que nós, sofreram as mesmas tristezas, sorriram os mesmos sorrisos, mas que infelizmente a inexorável lei da vida já os levou da nossa companhia, impedindo que também eles pudessem rumar até Braga ( Nine ) nesse dia 9 de Novembro de 2013.

Aqui ficam gravadas as imagens desse convívio que foi memorável.

Neste almoço teve como é habitual a convidada Paula Teixeira, filha do nosso querido chefe TEIXEIRA.

Os restantes convidados foram:

-José Machado – Arlindo Sousa – Zé Antunes – José Manuel – José Matos – Américo Joaquim – Orlando Mendes – David Faria – Joaquim Coelho – António Silva – António Leal – Alberto Dias – António Luis Silva – Inácio Santos – Domingos Santos – Amilcar Sevilha – Jorge Ferrer Dias – F. Azevedo – Fernando Teixeira – José Pinheiro – Artur – Fernando Fernandes – Faustino Gomes – Joaquim Figueiredo – Macieirinha – Aires – Luiz Cerqueira – Narciso – Álvaro Francisco – Jaime Pereira – Luiz Rocha – Miguel Barbosa – Carlos Lourenço – João Silveira – Joaquim Ferreira – Augusto Leal – Carlos Arménio – Gaspar – José Carvalho – José Vieira – Carlos Passos – Joaquim Pereira – José Tavares.

A concentração maior deu-se na Estação ferroviária de Campanhã, depois foram entrando em Ermezinde e na Trofa, chegados a Nine, encaminhamo-nos para o Restaurante “MÉLINHA” uns de boleia, pois o Restaurante ainda dista uns três kilómetros da estação ferroviária.

Eu e o Augusto Leal fizemos o trajecto a pé mostrando que ainda estamos em grande forma.

Estes encontros fazem melhor do que qualquer medicamento, encontros como este não podem acabar" Já é o 11º Almoço "Adorei o convívio! Para o ano cá estarei!"

Falámos assim! Escrevemos assim! E muito mais! .... UI , nem vos conto!!!!

É o sentir, o viver, o amar de todos e de cada um! Um misto de saudades e nostalgia

Foi lindo, muuuuito lindo! Ver os rostos contentes, desejando mais e mais!

CONTAGIANTE!!!!!

 Que entusiasmo! E dissemos SIM. Haverá Mais! Sempre! Queremos estar juntos! SEMPRE!

P´RO ANO CÁ ESTAREI

Contando o Percurso..... reunimo-nos todos à porta do "RESTAURANTE" .... para ainda ver chegar os últimos, era vê-los chegar! aos grupos! Que espetáculo!

Por entre os abraços, a contar as novidades em grandes cavaqueiras, lá entramos e sentamo-nos mos lugares previamente reservados.

NATURALMENTE, houve o momento de homenagear os que já partiram e que serão sempre lembrados, foi guardado um minuto de silêncio.

Depois foram as entradas .... dobrada com feijão branco, feijão frade, arroz de cabidela, pataniscas de bacalhau, e uns pastelinhos de bacalhau! huuuuuuuuuuummmmmmm! Rissóis, variadíssimos enchidos e alheira de Mirandela.

Foi de seguida servido o famoso bacalhau “á Melinha “, seguidamente uma carne assada, com batatinha assada no forno de lenha, ambas as iguaeias estavam deliciosas.

A refeição foi excelente, um saborzinho.....e então regada com o tradicional vinho à portuguesa ... ai, senhor , que bom! ( também havia suminhos e águas para os mais delicados , ih ih ih!!!)

Serviu-se a sobremesa que constava de Pudim caseiro, frutas da época, macã assada e peras cozidas em vinho e um famoso leite creme.

EEEE...

Entre a galhofa, a cavaqueira, o recordar, as fotografias, foi passando o tempo....... feliz!

Brindámos à saúde dos companheiros que estão neste momento com alguma fragilidade ( é a crise… é a crise ) que esperamos seja passageira, àqueles que não puderam estar, por estarem doentes.

Um agradecimento sentido à organização que tem a doçura de nos proporcionar estes momentos inesquecíveis.

A debandada foi acontecendo aos poucos.....

P´RO ANO CÁ ESTAREI

é um desejo forte ...robusto como uma locomotiva a vapor.... Não podemos deixar escurecer aquele colorido !!!!!!!

A todos, um forte abraço. Tenhamos, todos, dias lindos!

Até breve!  Para todos um grande abraço do Zé Antunes 


ZÉ ANTUNES 
2013








ALDEIA ONDE NASCI

Nos tempos em que o meu avô materno, que nasceu e sempre viveu na Póvoa de Penafirme, nesta pequena aldeia situada perto da Praia de Santa Cruz, pertencente á freguesia de A-dos-Cunhados. Foi nessa aldeia que nasceu minha mãe, e mais tarde nasci eu. Antes de ir para África, ali minha mãe viveu até aos 20 anos.

O meu avô vivia numa casa feita de pedra, com as divisões em alvenaria, sem casa de banho, só em 1970 é que construíram a casa de banho e mais um quarto para o meu tio Zé, não tinha eletricidade, nem água da rede, nem esgotos, não tinha nada. Era á luz de uma candeia a petróleo que os iluminava e iam buscar água ao poço da aldeia. A casa tinha ao fundo do quintal umas capoeiras e umas arrecadações. Comia–se praticamente do que se cultivava na horta e dos animais que se criavam.

Matança do Porco na Aldeia ( foto net ) 

Quando era feita a matança de um porco, as carnes eram conservadas nas salgadeiras (arca feita em barro ou pedra que levava sal grosso), as bebidas eram metidas num poço com água, para ficarem frescas. O pão que se comia era feito pelos cereais moídos no moinho do Tio Fernando Moleiro, e eram cozidos num forno a lenha. Raramente se comia peixe, apenas quando aparecia o peixeiro e era só o peixe mais barato, peixelim, carapaus e caras de bacalhau. 

Na loja do Ti André, uma mercearia que tinha quase tudo, era onde as mulheres ( minhas tias e primas ) iam ás compras. 
Perto da casa do meu avô estava o Zé Crispim (padrinhos de minha mãe), dum lado um mini mercado do outro uma tasca à antiga portuguesa. 

Durante o Inverno, o aquecimento era ao lume da lareira e este servia também para, numa panela de ferro, fazer a comida. 
Muitas histórias contadas pelo meu avô que trabalhava no campo de sol a sol, para poder sustentar a família. Como não tinham dinheiro, não havia luxos. Os sapatos duravam uma vida e ainda cortavam a biqueira para dar para mais tempo. Não é do meu tempo, nem me lembro mas contaram-me que muitas vezes, andavam descalços. Era na taberna do Tio João Lourenço “Canino” que se juntavam para jogar às cartas e combinar as caçadas ( os caçadores ) ou as vindimas (os agricultores), Era ai que eu ficava quando vinha da Escola á tarde, a ver os filmes do Bonanza, e do Agente Secreto 99.

Serie do Bonanza ( foto net ) 

Na loja da ti Maria do Carmo, era os correios, os telefones, havia sempre um jornal ou uma revista para se ler.

“Moderníssimo” telefone instalado na casa da tia Maria do Carmo 
( foto net ) 

Quando se estava doente, eram os mais velhos ( medicina popular) que nos receitavam uns chás de ervas do campo. Curaram a perna do meu irmão que estava com uma valente ferida na canela. 

O meu avô democraticamente obrigava os filhos a irem para casa antes do pôr-do-sol, não deixava as filhas saírem sozinhas, nem ir a festas. ( quatro meninas e um rapaz ). 

O meio de transporte mais utilizado era a carroça puxada por burros, pois só os mais abastados é que tinham mota ou carro. 

Para eu ir estudar para a Escola em Torres Vedras, viajava nas Camionetas dos Claras.


Autocarro do Claras ( foto net ) 

Até á instrução primária, estudava-se na Póvoa de Penafirme que também tinha o Seminário no Convento. 

A malta nova frequentava muito, para beber o seu cafézinho e entabular umas conversas o Bar “Gaiato” 

Quando surgiu a luz elétrica na aldeia, minha avó para poupar só ligava a luz quando fosse preciso, meu avô gostava de tudo acesso e dizia que queria tudo iluminado pois tinha muito tempo de ficar no escuro quando morre-se. 

Era na taberna Perola da Póvoa do Manuel Custódio ( que é hoje a Churrasqueira da Povoa) onde se juntava mais pessoas, porque foi ai que instalaram a primeira televisão a preto e branco, e uma telefonia, para aos domingos ouvirem os relatos de futebol. Era ai que eu ia ler os jornais desportivos. E davam informações sobre os horário das carreiras dos Claras. 

A tasca do José Nogueira ficava numa transversal á rua principal e era onde os mais velhos iam jogar ás cartas e beber o seu copito. 

Ao lado da Serração do Albino havia a loja do Manuel Lourenço que vendia rações e algumas alfaias agrícolas. 

Mais tarde, depois do 25 de Abril de 1974, com a revolução em curso pavimentaram os acessos e ruas principais, hoje a Póvoa de Penafirme é uma aldeia modernizada, virada para a agricultura e para o turismo. 

Com a ajuda de todos foi fundada a “ COJOPE “ Comissão de Jovens de Penafirme, edificada ao lado da Padaria que cedeu os terrenos, para mais tarde as instalações serem ampliadas, e que existe até aos dias de hoje, e é onde as raparigas e rapazes, se divertem nos bailes, e onde todos os dias se convive. 

Aos domingos, todos com os seus fatos domingueiros, os habitantes principalmente os mais idosos, encaminhavam-se para o Convento onde iam assistir á missa.


Celebração da Santa Missa. ( foto net ) 

As festas em honra de Nossa Senhora da Graça, padroeira da Póvoa de Penafirme, muito venerada por um povo extremamente religioso, realizam-se no último domingo do mês de Julho de cada ano. 

Lembro-me ainda de uma oficina de bicicletas e motorizadas do José Luis que ficava ao pé da Maria do Carmo e mais tarde foi para a estrada nacional. 

Já nos anos 90, a Povoa de Penafirme teve um projeto para passar a freguesia. 

Perto da minha casa e na estrada que vai para o Vimeiro tem a moderníssima discoteca Faraó


Discoteca 

Esta é a minha aldeia onde vivi o ano de 1970 e depois de 1975, no meu regresso de Angola, e porque tenho lá família, e a casa da minha mãe, vou lá muitas vezes, passar os fins de semana. 


ZÉ ANTUNES 

1970

30/10/2013

“ARRE, QUE TANTA BESTA É MUITO POUCA GENTE”!


Disse o ilustre crítico e ensaísta literário Dr. Eduardo Lourenço: “Em que espelho se deve olhar a multidão de seres que perdeu o sentido de tudo, até mesmo o sentido do sentido? Se se olharem nos espelhos paralelos do seu próprio desespero sem finalidade, receberão na face a álea sombria e interminável de figuras gesticulantes e desatinadas como eles próprios”.

Estamos realmente a perder o sentido de tudo, num desespero de revolta e ódio, inimagináveis…porque estamos, constantemente, acusados de termos vivido acima das nossas possibilidades. Por isso cortam-nos no salário, e aumentam a idade da reforma. Acusam-nos de privilégios que nunca tivemos, metendo na gaveta “direitos adquiridos” porventura supérfluos. “Sacam-nos” os subsídios: férias e o décimo terceiro mês, flexibilizando despedimentos, rasurando feriados, aumentando impostos e rendas de casa, diminuindo o tempo de férias. Querem nos tirar agora os nossos fiéis Amigos - os nossos cãezinhos - pretendendo com isso roubar-nos a estabilidade emocional, impossibilitando-nos do convívio da sua presença e da paz, que estes seres, meigamente, nos oferecem. Que justiça é essa? Que mais facilmente condena um “pilha-galinhas”, do que um criminoso de colarinho branco. Cortam-nos na saúde, para garantir a saúde financeira dos bancos e as mordomias dos seus administradores. Mas está tudo bem! Como podemos justificar que está mal, se mais facilmente os portugueses se envolvem à pancada por causa de um jogo de futebol do que por este estado de coisas?
 
Como podemos sequer supor que a injustiça social seja um facto, se mais facilmente os portugueses se excitam com tricas domésticas entre figuras públicas, do que com o assalto de que são diariamente vítimas? O arrivismo que recrudesce é proporcional ao caciquismo que se instala, com suas oligarquias cada vez mais protegidas por um poder económico absolutamente desligado da sociedade. Um povo que vê tudo isto e entra no sistema, pedindo favores a toda a hora e alimentando a máquina que tanto critica…

“…Arre, que tanto é muito pouco! / Arre, que tanta besta é muito pouca gente! / Arre, que o Portugal que se vê é só isto! / Deixem ver o Portugal que não deixam ver! / Deixem que se veja, que esse é que é Portugal! / (...) Arre! Arre! / Oiçam bem: ARRRRRE!”
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa)

 
Cruz dos santos

2013

 

24/10/2013

ISTO VAI DE MAL A PIOR!


Por toda a parte se fala, permanentemente, no desemprego. Enquanto se diverte o “pagode”, há milhares de pessoas, incluindo chefes de família com crianças e pessoas idosas a seu cargo, desempregados, que não sabem como agir a tanta aflição; que não sabem o que vão comer amanhã. Multidão de seres que lutam, solitários ou em família, para não “cair em desgraça”, ou pelo menos só em parte, ou só a pouco e pouco. Sem contar, na periferia, com os que, incontáveis, temem cair nessa situação e correm esse risco.
 
É a chamada miséria envergonhada! O mais grave, não é o desemprego em si, mas o sofrimento, a inquietude, a obsessão da tragédia…que julgam puder vir a enfrentar, dum momento pró outro. Este problema é gravíssimo. Está no centro das preocupações de todos, porque se trata de um drama catastrófico, penoso e delirante! 
Com as dificuldades conhecidas do Estado Social e a necessidade, urgente, de dar respostas à crise económica, resta saber como vamos enfrentar o crescimento da pobreza? E não é em tais circunstâncias de angústia coletiva que podemos buscar respostas muito mais eficazes e mais adequadas, se verificarmos que a nossa economia está em queda, diria mesmo, em ruína, desde os anos 80; que há uma reduzida taxa de natalidade, e um acentuado envelhecimento (longevidade) demográfica; que temos um Governo “desarmado” de poderes de intervenção económica, uma vez que estes foram transferidos para instituições europeias; que o universo de beneficiários de prestações públicas, é enormíssimo; que a “carga fiscal”, já é insustentável com o nosso nível de riqueza “per capita”, incluindo também o muito elevado peso da despesa pública (que o Governo, não decide “cortar”) e que portanto, num Estado “sem” poderes de intervenção e com uma economia falida, descontrolada, vai ser difícil meus Senhores, sairmos desse “buraco”, ou seja, dessa angustiante tragédia. Vamos de mal a pior!

Perguntam os Portugueses, por essas gigantescas manifestações de revolta, sobre o tempo necessário para que Portugal se liberte do “garrote” da imoralidade a que hoje está a ser submetido? Os políticos…Falam, falam e Nada dizem! Que corja de burlões!

Cruz dos Santos

2013

18/10/2013

MISCELÂNIA POLÍTICA


Dizia Miguel Torga: “Oiço e leio esta inflação de discursos, entrevistas e comunicações que toldam a atmosfera política do país, e fico agoniado. Somos na verdade uma “cambada” de primários, de temperamento e paixões à medida da nossa testa. Só nesta “santa terra”, é possível encontrar gente com mentalidade para acreditar que uma ideologia é uma opção mimética capaz de anular a realidade e negar a própria biologia”.
É este o país que temos. Um país “inflamado” de técnicos Economistas e comentadores políticos, que além de subjugar, explorar nos actuais governantes, pelas actuações que todos sabemos e…dolorosamente sentimos na pele e nos bolsos, reaparecem armados em “salvadores da Pátria”, com argumentos de peso, moralistas, prometendo acção ou efeito de inovar nos costumes, na educação, na ciência, com maior aperfeiçoamento e novidade…enquanto a austeridade soma e segue, com a aplicação de novos cortes na despesa social e nas pensões de miséria. No fundo, a lógica é a mesma. O país é pobre! Será? Ou há pobreza a mais para tanta riqueza, e essa é que é a “pobreza”? A pobreza mediática absoluta em que vivemos - sinal máximo da corrupção ética de uma certa elite que despreza estrategicamente a imaginação - conduz à pobreza de espírito profunda, representada…serão após serão, porta atrás porta, café após café, numa omnipresente televisão. Uma televisão patética e boçal na ficção e no entretenimento, e néscia na forma como usa a informação para dar crédito às demais javardices.
A nossa geração qualificada está arredada do mercado de trabalho porque a economia é pré-histórica e os direitos adquiridos criaram a casta dos que têm emprego para a vida e os que não têm nada. O sistema tratou de expulsar os mais novos. O sol e o bom tempo não enchem a barriga a ninguém...”Estratégia” é uma palavra desconhecida no país. Os portugueses têm a porcaria de líderes que querem. Estamos perante um povo que elege e apoia criminosos condenados. Isto não tem grande volta a dar...Já lá dizia António Aleixo: “Tu que vives na grandeza, / Se calçasses e vestisses / Daquilo que produzisses, / Andavas nu, com certeza”.

Cruz dos Santos 
 
2013