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05/02/2014

EPISÓDIOS CARICATOS NO DIA DE NATAL!


É durante os dias festivos, que por vezes se registam acontecimentos inéditos, soltos ou isolados, relacionados com uma série de outros factos, nomeadamente daqueles que estão ligados a essa terrível austeridade, a essa crise monumental, onde houve mais de 300 mil reformados com cortes sucessivos nas pensões nos últimos anos.

O episódio que vos vou narrar, ocorreu precisamente o ano passado, a uma semana antes do dia de Natal. Como sabem, há nos Correios uma pessoa especialmente designada para processar a correspondência cujo destino seja ilegível ou fora dos padrões autorizados. Certo dia apareceu uma carta, cujo destinatário aparecia escrito por mão pouco firme, e onde se percebia vagamente a palavra “Deus”. O homem resolveu então abrir e ler a carta. Dizia isso: “Meu querido Deus, tenho 83 anos, sou viúva e vivo com uma pequena pensão mensal que me deixou o meu falecido marido. Ontem, no autocarro, alguém roubou a minha carteira. Tinha lá 100 euros, que era todo o dinheiro que tinha. Para a semana que vem, já é Natal e eu, tinha convidado para jantarem comigo, as duas únicas amigas que me restam. Sem esse dinheiro não me vai ser possível comprar nada para o jantar. Não tenho família e Tu És a minha última esperança...Será que me podes ajudar? Com os melhores cumprimentos, Maria das Dores.

O Funcionário dos Correios, não pôde deixar de se emocionar com o teor da carta e mostrou-a aos restantes colegas. Resolveram então, todos, ajudar a Senhora, tendo cada um oferecido dois ou cinco euros. No final do dia, o homem tinha conseguido juntar 96 euros, que colocou num envelope e os remeteu, de imediato, à pobre Idosa. Após o Natal uma segunda carta chegou, nos mesmos moldes e escrita pela mesma mão. Todos os colaboradores da agência, cheios de curiosidade se juntaram, quando a carta foi aberta. Dizia: “Meu querido Deus, jamais poderei agradecer-Te o que fizeste por mim. Graças à Tua Generosidade pude cozinhar um jantar belíssimo e apreciá-lo na companhia das minhas duas queridas amigas. Tivemos as três, uma maravilhosa ceia de Natal, durante a qual lhes pude contar o teu bonito gesto de amor. Já agora aproveito para Te dizer que apenas recebi 96 euros, ou seja faltavam quatro euros. Devem ter sido aqueles “Sacanas” dos Correios que ficaram com eles...Mas não faz mal!

Bem Hajas e Obrigado Meu Deus!
Cruz dos Santos

2013

NÓS E A MANIA DAS GRANDEZAS!


Andamos “Tesos”, porque tivemos sempre a “mania das grandezas e das fachadas”! É natural que, em obras como as realizadas no Alqueva, Centro Cultural de Belém, sede da Caixa Geral de Depósitos, com a “Expo”, auto-estradas (por todo o país), pontes, Organismos Públicos, campos de futebol, aquisição de material de guerra, incluindo carros de combate, submarinos e outros “colossais” empreendimentos, adquiriram uma dimensão apocalíptica, aos olhos de toda a Europa. Nunca se viu tanto desperdício! Precipitação, falta de planeamento, caprichos políticos, mania das grandezas e “mitologia nacional” são traços comuns a estes “grandes projectos”, que fizeram as “delícias” dos interesses económicos e tiverem o condão de “entontecer” o poder político. Como é óbvio, os custos, para o contribuinte, foram e continuam a sê-lo enormíssimos (porque há obras dessas que continuam), mesmo se os Governos e os promotores dessas obras persistirem em afirmar, que tudo será pago com “receitas próprias”. Parte dos custos de alguns desses empreendimentos, foi e ainda deve ser, habilmente transferida para o contribuinte, nomeadamente para as tais chamadas “obras colaterais”, tais como as efectuadas com a ponte sobre o Tejo, os acessos rodoviários, o alongamento, ou seja, o estender do metropolitano, o caminho de ferro, a “Gare do Oriente”, o saneamento básico, a deslocação dos petróleos e do gás nas refinarias de Sines, os transportes urbanos, os telefones e a electrificação, quase tudo a cargo de empresas públicas. Outros custos de “viabilização económica”, que foram sempre suportados pelo contribuinte, seja por intermédio de “impostos excepcionais de mais-valias” ou pela especulação fundiária, etc., tudo isso se tornou num “oceano” de despesas (custos e atrasos), que vieram sempre estimular a curiosidade da imprensa e do público. 

Qual a razão, de termos cada vez mais a impressão de vivermos apanhados no seio de um poder fatal, “mundializado”, “globalizado”, tão poderoso que seria inútil pô-lo em causa, fútil analisá-lo, absurdo opor-se-lhe e delirante simplesmente sonhar em libertar-se de uma tal omnipotência que se diz confundir-se com a História?

Viviane Forrester, romancista e ensaísta francesa, crítica do jornal “Le Monde” e membro do júri do prémio literário Fémina, diz isto: “Não vivemos sob o domínio da globalização, mas sim sob o jugo de um regime político único e planetário, inconfessado – o ultraliberalismo, que gere a globalização e se aproveita dela, em detrimento da grande maioria dos cidadãos. Esta ditadura sem ditador não aspira a conquistar o poder, mas sim a dispor de todo o poder sobre aqueles que efectivamente o detêm”.

Mais palavras para quê?

Cruz dos Santos

2013

CORRUPÇÃO É CRIME GRAVE!


Na sua essência, a corrupção, ao nível político-administrativo de um Estado, consiste num acto secreto praticado por um funcionário ou por um político, que solicita ou aceita para si ou para terceiros, com ele relacionados, e por ele próprio ou por interposta pessoa, uma vantagem patrimonial indevida, como contrapartida da prática de actos ou pela omissão de actos contrários aos seus deveres funcionais. A corrupção pode ser definida como utilização do poder ou autoridade para conseguir obter vantagens e fazer uso do dinheiro público para o seu próprio interesse, de um integrante da família ou amigo. A corrupção é crime. Veja alguns exemplos que revelam práticas corruptas: “favorecer alguém prejudicando outros"; "aceitar e solicitar recursos financeiros para obter um determinado serviço público (retirada de multas ou em licitações favorecer determinada empresa”); “desviar verbas públicas, dinheiro destinado para um fim público e canalizado para as pessoas responsáveis pela obra”; até mesmo desviar recursos de um condomínio", etc. Os efeitos que gera são profundamente complexos, constituindo um problema grave para o Estado de Direito. Isto porque a sua divulgação conduz à desregulação dos sistemas politico, social e económico, e à degradação incontrolável dos serviços do Estado, especialmente porque são ignorados os princípios de imparcialidade e igualdade que devem nortear a Administração Pública, as Polícias e os Tribunais. Numa lógica de corrupção, o poder político ou administrativo dos titulares de cargos públicos transforma-se numa mercadoria, num objeto de negócio, orientado quase exclusivamente para objetivos criminosos de enriquecimento ou de poder, individual ou de um grupo.” Toda sociedade corrupta sacrifica a camada pobre, que depende puramente dos serviços públicos. A violação dos deveres do cargo, do político, autarca ou funcionário, tem um defeito de afinação, com implicações políticas e socioeconómicas corrosivas para todo o aparelho estatal, incluindo o autárquico e para a sociedade. Por essa razão e outras, de carácter mais grave, é que se tem de eliminar, de uma vez por todas, com a corrupção e seus vis autores, ligados ao mundo do crime. É que ao reproduzir-se – impunemente – a corrupção, essa vai contaminando toda a “estrutura pública”, criando uma subversão desregulada, porque a complexa teia de interesses e cumplicidades criada vicia o desenvolvimento do país e do próprio mercado.
Cruz dos Santos

2013

16/01/2014

SOCIEDADE, PROGRESSO E OBIDIÊNCIA!


Todos nós fomos ensinados a encarar a educação com seriedade. Disseram-nos que a educação molda e governa as nossas vidas. Disseram-nos que, se trabalharmos arduamente na escola e na universidade, havemos de colher os benefícios mais tarde.

O que nos disseram é verdade! 

Mas não nos disseram, o preço que teríamos de pagar pelos nossos anos de educação. Nunca nos disseram o preço que a sociedade espera cobrar por termos as nossas vidas moldadas e formadas. Dividiram-nos! Estamos divididos em classes, regiões, gerações e grupos. Por essa razão, é que o ministro da Educação Nuno Crato, pretende ou já está a substituir o Ensino Público, por colégios particulares, “enchendo”, não só os cofres desses mesmos estabelecimentos, como de outros empresários. Não lhes serviu o exemplo das universidades privadas, que passavam diplomas a troco de chorudas benesses. Por outro lado, os Hospitais públicos estão – desavergonhadamente – a ser cambiados (trocados) por hospitais privados e casas de saúde, luxuosamente equipadas. É assim. Hoje, os ministros, em vez de governarem, estão a dividir os portugueses para, desta forma, poderem ser os “donos” deste falido País. É por essa razão, que no meio da maior crise de que há memória, o número de milionários (mais de 85) aumentou, sendo que a fortuna conjunta dos 870 que detêm esse estatuto ter crescido, este ano, cerca de 11% que vale 75 mil milhões de euros, quase metade do PIB anual do país. É coisa para nos deixar a todos abismados e preocupados.

O Jornalista e Diretor da TSF Paulo Baldaia, pergunta: “Como é possível que menos de 0,01% da população tenha ficado cerca de oito mil milhões de euros mais rica, enquanto a maioria da população ficou bastante mais pobre? Onde estava o Estado? Onde estavam os senhores e as senhoras que elegemos para governar o País?” É verdade! Nós criámos um mundo e uma sociedade que agora nos controla a nós. Não temos poder sobre o nosso destino. O nosso presente e o nosso futuro, são controlados pela estrutura social que nós inventámos. Uma coisa é certa: a sociedade não está interessada na verdade nem em qualquer compromisso. A sociedade precisa de progresso desenfreado para poder crescer. As instituições da nossa sociedade, têm um apetite insaciável pelo progresso. A política é como a publicidade. Tanto uma como outra, alicerçam-se em promessas que raramente são cumpridas. São concebidas para substituir liberdade por constrangimento. Elas obtêm sucesso, tornando as pessoas infelizes. A publicidade é o símbolo da sociedade moderna. Ambas alimentam tentações falsas, esperanças vãs, infelicidade e desencanto, e inspiram muitas vezes valores baseados no medo, na ganância e na avareza.

Cruz dos Santos 

2013


10/01/2014

JOGO DA LERPA

Quando da chegada dos avilos de Angola, depois de uns copos no Pingo Bar, e como não tínhamos para onde ir á noite, alguns madiés iam para casa do Manuel ali na Rua do Ouro, iam jogar à batota, iam jogar principalmente á lerpa. Uma noite depois de saber que amigos meus lá iam. Fui e pedi autorização para jogar ao jogo e autorizaram.


Comecei logo por ser o Banqueiro, o jogo da lerpa começou-me a correr bem. A certa altura havia muito dinheiro em jogo, vários madiés iam lerpando. Foram dadas cartas para nova jogada, trunfo é Quina de Copas



três avilos disseram que iam ao jogo e depois de porem as respetivas lerpas anteriores na mesa, eu era o quarto a receber cartas e quando as recebi tinha lerpa real.



Mostrei as cartas e disse – amigos tenho lerpa real, quando me preparava para arrecadar o dinheiro, o Manuel que era um dos lerpados, disse-me para não mexer no dinheiro. Disse-me que não tinha nada que mostrar as cartas, devia deixar correr o jogo para outros lerparem. Argumentei que era assim que procedíamos na banda em Luanda, e que com lerpa real não há lerpados.

A maioria deu-me razão principalmente os três primeiros peguei no dinheiro, eram três mil escudos, assim fiz. Ninguém repostou, sabiam que eu tinha razão.

Passado pouco tempo acabou o jogo

No total, nessa primeira vez que joguei á lerpa, em Portugal ganhei quase quatro mil escudos, em mil novecentos e setenta e cinco, era algum dinheiro, dei uns trocos aos Avilos para uns copos. Passados uns dias soube que o Manuel dono da casa tinha sido despedido pois era vendedor de bebidas alcoólicas e quando recebia as faturas dos clientes ficava com o dinheiro e perdia tudo na Batota, acabou-se por não se jogar mais. 


ZÉ ANTUNES

1975

EPISÓDIOS CARICATOS NO DIA DE NATAL!

Foi durante estes dias festivos, que por vezes se registam acontecimentos inéditos, soltos ou isolados, relacionados com uma série de outros factos, nomeadamente daqueles que estão ligados a essa terrível austeridade, a essa crise monumental, onde houve mais de 300 mil reformados com cortes sucessivos nas pensões nos últimos anos.


O episódio que vos vou narrar, ocorreu precisamente o ano passado, a uma semana antes do dia de Natal. Como sabem, há nos Correios uma pessoa especialmente designada para processar a correspondência cujo destino seja ilegível ou fora dos padrões autorizados. Certo dia apareceu uma carta, cujo destinatário aparecia escrito por mão pouco firme, e onde se percebia vagamente a palavra “Deus”. O homem resolveu então abrir e ler a carta. Dizia isso: “Meu querido Deus, tenho 83 anos, sou viúva e vivo com uma pequena pensão mensal que me deixou o meu falecido marido. Ontem, no autocarro, alguém roubou a minha carteira. Tinha lá 100 euros, que era todo o dinheiro que tinha. Para a semana que vem, já é Natal e eu, tinha convidado para jantarem comigo, as duas únicas amigas que me restam. Sem esse dinheiro não me vai ser possível comprar nada para o jantar. Não tenho família e Tu És a minha última esperança...Será que me podes ajudar? Com os melhores cumprimentos, Maria das Dores.

O Funcionário dos Correios, não pôde deixar de se emocionar com o teor da carta e mostrou-a aos restantes colegas. Resolveram então, todos, ajudar a Senhora, tendo cada um oferecido dois ou cinco euros. No final do dia, o homem tinha conseguido juntar 96 euros, que colocou num envelope e os remeteu, de imediato, à pobre Idosa. Após o Natal uma segunda carta chegou, nos mesmos moldes e escrita pela mesma mão. Todos os colaboradores da agência, cheios de curiosidade se juntaram, quando a carta foi aberta. Dizia: “Meu querido Deus, jamais poderei agradecer-Te o que fizeste por mim. Graças à Tua Generosidade pude cozinhar um jantar belíssimo e apreciá-lo na companhia das minhas duas queridas amigas. Tivemos as três, uma maravilhosa ceia de Natal, durante a qual lhes pude contar o teu bonito gesto de amor. Já agora aproveito para Te dizer que apenas recebi 96 euros, ou seja faltavam quatro euros. Devem ter sido aqueles “Sacanas” dos Correios que ficaram com eles...Mas não faz mal!

Bem Hajas e Obrigado Meu Deus!

Cruz dos Santos

2013

LOJA DO MUSSEQUE

Na noite de 10 para 11 de Julho de 74 dão-se os primeiros incidentes violentos em Luanda.
Manuel da Silva, vivia no Bairro Popular nº 1, na rua que ia até ao mercado que existia (praça do Largo) que confrontava com o Bairro da Madame Berman. 

Ele tinha uma pequena mercearia onde vendia variadíssimos artigos tais com Roupas, Panos, candeeiros Petrómax, vendia tudo até as famosas bicicletas, as chamadas (pasteleiras).

Foto do Google

O que ele vendia mais era a cerveja Cuca e Nocal, e vinho que recebia de Portugal mas que era logo acrescentado com água, vendia milho e a farinha de mandioca ( fuba de bombom ).

Aos fins de semana, o nosso amigo Manuel, no seu quintal com um gira-disco daqueles tipo mala, a tampa era a coluna de som, punha a tocar umas merengadas e rebitas e era ver o povo feliz por estar na funguta do Kota Manuel e ele a facturar com a venda de bebidas, tabaco e comida, ele queria era ver o povo feliz e ver o kumbu a entrar na gaveta.

Todos sabiam que ele na balança da mercearia tinha um prato mais pesado, tinha no fundo um disco de chumbo com aproximadamente 200 gramas, o que cada kilo era só 800 gramas do produto pesado.

A vida sorria ao kamba Manuel, e lá ia vivendo com o seu negócio.

Mas na noite de 10 para 11 de Julho de 74 dão-se os primeiros incidentes violentos em Luanda. No musseque Rangel, às primeiras horas da madrugada de 11 de Julho, aparece o corpo de um taxista branco degolado, um grande burburinho, tiros para um lado, tiros para o outro, expulsão violenta dos comerciantes brancos, dos roubos, saques e incêndios dos seus estabelecimentos e casas.

E o kota Manuel da Silva foi apertado por aqueles que lhe queriam mal, principalmente pelo Zé Grande, que se fazia de grande avilo, mas todos sabiam que lhe queria ficar com a loja.

Mandou a mulher para casa do irmão que vivia na Vasco da Gama perto da igreja do Carmo.

Manuel da Silva foi encurralado na Loja, fechou-se a sete chaves, sem alternativa para fugir. A vizinha Maria Josefa, uma mulata toda bonita e boazona que era sua amante, pelas traseiras da loja escondeu-o em sua casa, e á noitinha vestiu o kota Manuel com os seus panos e levou-o vestido de mulher para o Bairro Popular nº 2, onde pediu ajuda a um familiar, que nessa mesma noite o levou para a baixa da cidade de Luanda, para casa do irmão.

No dia seguinte estava a embarcar para a África do Sul.

No ano de 1984 regressou definitivamente a Portugal estando a residir em Almada.


ZÉ ANTUNES

1975