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21/10/2014

ANDAMOS AMORDAÇADOS E À ORDEM DOS PODEROSOS


A União Europeia (EU), nem sempre teve as dimensões atuais. Em 1951, ano em que se iniciou a cooperação económica na Europa, apenas a Bélgica, a Alemanha, França, Luxemburgo e os Países Baixos participavam nesse projeto. Com o passar do tempo, o número de países interessados em fazer parte da UE foi aumentando e, com a adesão da Croácia em 1 de julho de 2013, a UE passou a ter 28 Estados-Membros. No entanto, a população europeia em vez de crescer…está a decair. Nas previsões da ONU, constata-se que os países que constituem a atual União Europeia, vão perder mais de 23 milhões de pessoas até 2050. Só Portugal, vai perder um (1) milhão, mais que a média. Como o globo, no mesmo período, aumentará mais de 2.500 milhões de pessoas, o peso demográfico da Europa cairá acentuadamente.

O facto desse descalabro, é que os europeus desistiram de ter filhos, agravado pela confusão ideológica e estratégica de que padecem os europeus. A União parece ser a única zona do mundo, que não sabe o que quer, ou que quer coisas inconsistentes. Enquanto os outros Povos lutam por afirmação civilizacional e trabalham arduamente para o desenvolvimento produtivo e influência político-militar, Portugal, esgota-se em controvérsias axiais, debates conceptuais e abstratos que, mesmo se resolvidas, só confirmarão o crepúsculo. Daí, sermos hoje, uma reserva de eucaliptos para uso de uma obscura entidade económica, que tem o pseudónimo de CEE.

Cunha Leal, um dos políticos mais ativos e esclarecidos no final da Primeira República, numa conferência que pronunciou na Sociedade de Geografia em 1925, afirmou: “O Exército não deve realmente actuar contra os partidos, mas tem o direito de fazer ouvir a sua voz e indicar aos poderes públicos que, se lhe compete neutralizar as ameaças de dissolução da sociedade portuguesa, também lhe compete o direito de agir…”. Por sua vez, o Prof. Fidelino de Sousa Figueiredo, político, historiador e crítico literário português, fez a síntese da situação catastrófica que se vivia naquele final de 1925, nos seguintes termos: “Desprestigiados o poder, perseguidos a inteligência e o carácter como irritantes superfluidades, e criados os falsos valores, os governos não governam, só pensam durar au jour le jour e infiltrar-se na burocracia e na finança”. 

Hoje, certamente, ninguém terá dúvidas de que a nossa dependência se agravou e cada dia temos menos liberdade para decidir do nosso futuro. Será o que os outros quiserem como quiserem. Estamos amordaçados e à mercê dos interesses dos poderosos. Pequenos mas “orgulhosamente acompanhados”, como afirmava recentemente o Sr. Primeiro-Ministro. Eu diria antes, “envergonhadamente dominados”.

Cruz dos Santos

2014
 

MACAMBIRA


Da "Fábrica Imperial de Borracha", no Macambira, junto à Rua Eugénio de Castro na Vila Alice ( hoje Bairro Belito Soares ) onde trabalhei nas Férias do 1º ano de Curso de Aperfeiçoamento de Serralheiro da Escola Industrial no ano de 1970.

Frequentava a Escola Industrial de Luanda, cursando o Curso de Aperfeiçoamento de Serralheiro e durante as férias grandes o meu pai punha-me a trabalhar para assim aprender a arte e como era amigo do Sr. Alfredo que residia na Rua de Porto Alexandre, e era chefe da secção de Serralharia da Fábrica Imperial de Borrachas pediu-lhe que me coloca-se na Fábrica. O Sr. José Rodrigues Pereira deu o seu aval e assim no 1º ano do Curso estive os três meses das férias grandes na Fábrica Imperial de Borracha ( Macambira ).

José Rodrigues Pereira residia no Bairro Popular nº 2, na rua de Ourique, frequentava o Bar São João onde com o Jorge o mais velho de dois irmãos, jogavam ás damas e ao Xadrez. O Jorge conseguia ganhar-lhe nas damas mas em xadrez era ele o mais forte, o que não admira pois ele aprendeu a jogar xadrez com o seu pai, a partir dos seis anos e muitas vezes saia do Bar São João e à noite ia jogar ao Clube de Xadrez de Luanda, onde era sócio. 

José Rodrigues Pereira estava ao leme da Fábrica e ainda ficou em Luanda, após a independência, a 11 de Novembro de 1975, continuando na Fábrica com plenos poderes para a gerir. O sr. Macambira deixou-lhe uma procuração para o substituir e manteve-o 6 ou 7 meses nesse cargo, altura em que o Governo de Angola entendeu nacionalizar todas as empresas cujo donos tivessem regressado a Portugal e deixado procuração a terceiros. A partir daí, José Rodrigues Pereira foi integrado ao serviço do Ministério da Indústria, em todas as fábricas têxteis de Luanda, Macambira, Textang, Fiangol, em Viana e Satec no Dondo, bem como as fábricas Macambira de Borracha, Plásticos e Cobertores.

Da parte do Governo angolano ele teve todas as facilidades nesse trabalho e
nunca houve problemas de produção nessas fábricas. Voltou a Luanda em
1989, mas com os problemas que existiam da falta de matérias primas e acessórios, numa reunião avisou as chefias angolanas que dentro de dois
a três anos, todas as fábrica iriam parar de laborar o que assim aconteceu. Voltou para Portugal em 1991.

Em 2004, quando lá voltou, todas as fábrica tinham sido desmanteladas e ficaram sem emprego cerca de 6.000 trabalhadores.

Luanda tinha também a Curbol, que fabricava botas e os famosos Kedis e estava prestes a produzir os sapatos “Campeão Português”, o topo de gama da época.
Este grande amigo que conheci em 1970 na Fabrica Imperial de Borracha faleceu em Lisboa em Outubro do ano de 2014.

José Rodrigues Pereira descansa em paz, que eu lembrar-me-ei sempre de ti.


ZÉ ANTUNES 

2014


01/10/2014

SAUDADES DE QUANDO EU ERA “KANDENGUE”!


Estou só e silenciosamente a meditar, naquelas “velhas” e saudosas recordações de infância, que trago gravadas até aos dias de hoje. Daí eu partilhar convosco, estas rememorações, de tempos que já não voltam. Quero manifestar, dividir, com todos vós, essas lembranças, todos esses fascículos que ficaram por escrever, interrogações sem fim, separações, despedidas…que brotam da minha já cansada memória e que julgo terem sido verídicas, porque se fossem uma ilusão, não poderiam resistir ao tempo nem magoarem tanto. Se fossem apenas a criação imaginária de um espelho, elas não seriam aquele foco, que me tem atraído, constantemente, até à exaustão. Será a razão, a técnica ou o pensamento despidos do afeto que são capazes de ganhar essa luta desigual?

Óh que recordações meu Deus!, a envolverem lugares, terras, ocorrências passadas com pessoas, misturada com a fragrância da terra molhada, dos amigos de escola, das feridas causadas em “berridas” e nas “baçulas”, dos “trumunos” com bolas de borracha e de catchú, da Feira Popular, que ficava ali para os lados da avenida Lisboa em Luanda e de centenas de lugares, que me marcaram para todo o sempre! Óh…como me recordo de tudo! Estava a lembrar-me daquelas corridas de carros, onde tínhamos que “bater” num manípulo, para que uma bola passasse dentro de uma espécie de cesto que fazia o carro lá em cima avançar. E quando era mesmo pequeno adorava andar nos Póneis e numa pista que lá havia que fazia um 8 e uma parte passava por cima tipo viaduto.

Lembro-me também que os meus Pais ralhavam comigo por ficar acordado até mais tarde a ler os livros aos quadradinhos do Mandrake, Cisco Kid, Major Alvega, Fantasma, etc. etc.

É verdade, também me lembro de jogar à bola em frente do portão da minha casa, no Largo do Preventório Infantil de Luanda, descalço ( para não estragar os pancos ) jogava de manhã á noite, até cansar, era de deixar os velhotes quase doidos principalmente minha mãe, que queria que eu estudasse, e eu o que queria era jogar á bola, lembro-me do jogo do espeto, jogar ao berlinde, bate pé, quarto escuro, os carrinhos de rolamentos, as trotinetes e as rodas feitas de arame com uma gancheta, dos jogos do Monopólio e da Glória. Bons tempos.

Também me lembro de o meu pai ouvir os relatos dos jogos do campeonato Português de futebol principalmente os jogos do Benfica, que era quase sempre campeão!!

Lembro-me dos bolos que vendiam á porta da Escola João Crisóstomo e da Escola Industrial , os famosos bolos ROCHA, malvados bolos, mas tão bons, foram logo batizados de MATA-FOME.

Quando era kandengue não tínha TV em Luanda, mas acordava cedo aos sábados para arrumar as minhas bicuatas ( a minha mãe fazia questão que cada um dos seus filhos arruma-se o que era seu ), depois do almoço, como não tinha aulas e então ai estávamos todos para brincar, ia-mos para a rua jogar à bola, às escondidas, ao bate pé, enfim, uma série de brincadeiras que hoje não se vê mais nas ruas.

Lembro-me das quedas que dava na terra batida, era com cada ferida nas pernas que eram só desinfetadas e logo depois estava tudo bem, hoje é um cabo de trabalhos quando isso acontece.

Eu uma vez a jogar à bola caí (mas que valente baçúla) e de seguida levantei-me e disse não foi nada. E o pessoal a olhar para mim como se estivesse a ver um fantasma. Quando reparei tinha um fio de sangue a escorrer pelo braço abaixo, tinha feito uma grande ferida no cotovelo.

Conclusão, fui a casa, desinfetei, coloquei um penso grande e siga para o jogo.

Nas férias de verão, aderia muito aos encontros organizados pelo Padre Costa Pereira, como os passeios que se faziam na companhia de todos e das catequistas que nos davam catequese, as idas ao “ campo e à praia".

Bons tempos mesmo! SAUDADES

Belos tempos, o que eu me divertia . 

Os tempos passam e sempre fica a saudade.

Lembro-me, de acontecimentos narrados pela Emissora Oficial de Angola, pela Rádio Eclésias de Luanda, e pela Voz de Angola;

1º Festival da Eurovisão que Portugal participou em 1964 (António Calvário ) com "A Oração"

Das transmissões do Mundial de 1966 ( mais tarde vi em cinema )

Na inauguração a 6 de Agosto de 1966 da Ponte Salazar (hoje 25 Abril)

Das "Conversas em Família" do Prof. Marcelo Caetano (1968/73) ( era uma seca meu pai queria silêncio enquanto ouvia o Marcelo )

Do "Zip-Zip", programa transmitido em direto do Teatro Villaret, com R. Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia, em 1969, que mexeu com muita coisa no País, era reproduzido na Rádio, lembro-me que á tarde mais ao menos pelas 18 h00, quase todas as mães ouviam a radionovela “MARIA” transmitida pela Rádio Eclésia.

Da agitação juvenil nas universidades e das eleições legislativas de 1969 e 1973. No ano de 1970 (eu estava em Lisboa a estudar).

Da eleição da miss Portugal ganha pela Riquita.

Da revolta fracassada do RI 5 das Caldas da Rainha, a 16 de Março de 1973.

Assisti "in loco", á revolução do "25 Abril ", em Luanda, íamos ouvindo e lendo os jornais da capital Angolana sobre o ocorrido em Lisboa.

Vivi toda a turbulência politica ou social ( o chamado PREC ) ou ( Verão quente de 75 ) ocorrida após o 25 Abril (manifes, paralisações, greves, quedas de governos sucessivamente, tentativas de tomada do poder, golpes militares, como o 11 de Março e 25 Novembro de 1975, etc. etc. etc. tudo isso porque já estava em Lisboa. Lembro-me da descolonização, e tantas e tantas outras coisas, que passaria aqui o resto do dia a enumera-las.

Eu sou do tempo em que me lembro de comer de manhã as "sopas de leite" e a farinha 33 que tinha como slogan, algo parecido a isto: Come farinha 33 e valerás por 3, e ainda a célebre farinha Amparo.

Já nos tempos de jovem dos bons velhos tempos, dos anos 1975 já a residir em Lisboa, em que na época só existia 2 canais de TV para ver, e em que não havia telemóveis que hoje se diz indispensável, hoje tenho 2 telemóveis um da empresa e um particular, ( hoje tenho 100 canais, internet e telefone ).

Depois já adulto lembro-me do que o meu filho gostava :

Os Soldados da Fortuna (a primeira vez que passou, para os mais novos, antes da versão Esquadrão Classe A da Herbert Richards ) e o Norte e Sul.

Nas séries lembro-me que ele adorava o D´Artacão. Gostava igualmente de ver o Alf, o Allô Allô, os Marretas...

E da Orangina e do Caprisonne (que agora voltou em força) e do Topo Gigio. e os Jogos Sem Fronteiras. Ele não perdia um. 

E dos Kalkitos, alguém se lembra???

E as mini tortas da DanCake, ou não???

A Heidi e o Marco

A Pipi das meias altas

O fungágá da bicharada

O jornalinho

Sou a favor da modernidade, mas ás vezes dá-me a nostalgia e fico com saudades de quando não existiam telemóveis, multibancos, nets, TV`s por cabos, shoppings, fast foods, as Auto Estradas a A7, A8, A9...A49, IC´s e afins.

E quando demorávamos 7 horas a fazer a viagem de Lisboa a Guimarães, em que passávamos pelo interior de muitas cidades, pois só existia auto estrada de Lisboa a Vila Franca de Xira e dos Carvalhos ao Porto

Até destes tempos mais atuais tenho saudades, e que saudades.

O sempre igual, o repetitivo, cansa nesse eterno retorno do acontecer. O espaço da vida precisa desse tempo sem tempo que só o amor e a arte engendram pelos tortuosos caminhos da sem razão. E há palavras mudas que o olhar desenha…Palavras que discretamente moram no fundo de um silêncio, palavras que enunciam a certeza de um sentido oculto…!


ZÉ ANTUNES

2014
 

09/09/2014

VOZES ANTIEUROPEIAS, RECLAMAM ATENÇÃO E CUIDADO…!

A democracia é o regime de todos, incluindo os não democratas. Pode ser infeliz, arriscado, mas…é assim! No dia em que a democracia excluir os antidemocratas, está a negar, a sua essência. É certo que os regimes democráticos têm a obrigação de se defender. Ou seja, os democratas têm de defender a democracia, impedindo, por meios lícitos, que os seus adversários cheguem ao poder. 

No entanto, se estes lá chegarem, por caminhos democráticos, não podem ser impedidos. Ora, para evitar que a democracia seja destruída por dentro, existem “obstáculos constitucionais” contra tais desígnios. Não se pode é agir de modo a que a democracia seja um feudo (um domínio) de certos democratas certificados. Não é possível, em particular, invocando princípios, acarinhar uns déspotas e perseguir outros, nomeadamente aqueles que se escondem por trás de uma máscara de “bom samaritano”. Aqueles que, ao longo das últimas décadas, têm representado essa duplicidade (defensores da liberdade e igualdade), mas que não passam de conservadores manhosos e astutos traidores.

A União Europeia e Portugal, estão – cada vez mais – a trilhar esse funesto caminho, minados por “vermes”, como larvas da fruta, por todo o lado. Abundam por aí, a trepar sorrateiramente como a hera, envolvendo corpos vizinhos, por meio de uma haste venenosa, enrolando-se como o feijão, através de órgãos especiais (nepotismo), confundindo, baralhando essa gente, esse Povo inerte, abatido, inativo, desprovido de força física, descolado das realidades nacionais e locais.

Há anos que vozes minoritárias, julgadas céticas e antieuropeias, reclamam atenção e cuidado. Que pedem uma retificação de estratégias, uma alteração de políticas e uma mudança de rumo. Lembrem-se, que a Europa comunitária ignorou agricultores e pescadores. Esmagou aldeias e paróquias. Deixou as cidades transformarem-se em inóspitas semelhanças. Passou por cima dos pobres, das diferenças de cultura. 
 
Aumentou os salários e as reformas aos mais ricos e cortou aos mais pequenos. Habituou-se à corrupção e à promiscuidade. Há anos que esses fenómenos nacionalistas e racistas, de esquerda e direita, vão pôr em causa a Europa em nome de ideologias populistas, que faz da democracia a sua moral, mas que a não pratica convenientemente.

Há anos que se ouvem estas vozes, há tanto tempo quanto o da surdez dos dirigentes nacionais e europeus. Cuidado…olhem que a “fratura já não é entre a esquerda e a direita, é entre o social e o negócio”!

Cruz dos Santos

2014

26/08/2014

CABINE TELEFÓNICA

Bairro Popular nº 2, inicio dos anos 70. Entre as Ruas de Moura e a de Porto Alexandre existia um largo onde estavam instaladas uma cabine de transformação de Energia Eléctrica e ao lado uma cabine telefónica.

No Posto de transformação de Energia Eléctrica tinha uma pequena escada em betão com 5 degraus, onde os kandengues ficavam sentados a conversar e a pouco mais de 3 metros estava a cabine telefónica.


 
Cabine Telefonica em 2005

Este largo situava-se também entre a Rua Machado Saldanha e o Largo do Bairro onde parava o maximbombo 22, também neste mesmo local entre a Rua de Moura e a Rua da Gabela existia uma passagem estreita.

Muitas vezes ficavamos sentados nos degraus da dita escada do Posto de Transformação de Energia Eléctrica á espera que alguém fosse telefonar para depois recolhermos as moedas que estrategicamente não caiam no cofre do telefone, já tinhamos feito a marosca.

Dinheiro esse que depois de dividido dava para comprar gelados de covete, gelado de água cinco tostões, gelados da Mission( laranja ou maçã ) um escudo, íamos comprar á mãe do Carlos Burity ou á mãe do Garção.

Outras das nossas travessuras era assustar as garinas que lá iam telefonar, introduziamos uma pena bem amarrada num arame pela parte da ventilação da cabine que era 3 réguas tipo persiana, com a dita pena de um qualquer galinácio tocavamos nas pernas das garinas asustando-as.

Eramos todos jovens, jovens que alinhavam nessas salutares brincadeiras


ZÉ ANTUNES

1970
 
 
 

25/08/2014

UMA AVENTURA AMOROSA, LÁ DA “BANDA”!


PEQUENO CONTO ANGOLANO

SÓ PARA AMIGOS E AMIGAS DE PEITO

Desculpem-me qualquer coisita, que vos possa "ferir" a sensibilidade!

Esta pequena aventura amorosa, aconteceu por causa de um problema alheio, quando o Zacarias acompanhou uma “garina”, chamada MARIA, muito minha amiga do “Bê-Ó”, à casa de uma “kimbandeira” (bruxa), conhecida lá do bairro. E, diga-se de passagem, nem sempre bem vista pelos “Kalús e "Kotas", seus vizinhos. É que o Povo tanto ama como odeia e, se uns a procuravam quando necessitavam, logo logo depois, fingiam qui não lhi conheciam e até mudavam de passeio quando lhe avistavam na rua. Recebeu-os numa sala, com paredes de “pau-a-pique”, coberta de chapas de zinco e “luando”. Tinha duas galinhas pretas amarradas junto de uma “sanga”, numa mesa toda torta com três pernas. O “cubico” (quarto) estava pouco iluminado (com um candeeiro de petróleo), que até assustava um “gajo”. Parecia qui tinha "Kamzúmbi"! Mandou-os sentar em dois caixotes vazios de sabão azul e branco e esta minha amiga, expôs o que a preocupava. Aqui para nós, creio que existem situações que temos, nós mesmos, di resolver e não contar tudo da vida, a uma “gaja” qui nem sequer lhi conhecia. Não é bem o meu estilo. Quando a Maria já estava esclarecida e aviada de um “patuá” e acompanhada de umas ervas para fazer chá, “milongo” (remédio), com a promessa que lhe iria trazer o "Xulo" (o namorado) dela de volta, a “Kimbandeira” virou-se para o Zacarias, fixou-lhe com olhos de "Liambeira" e lhe disse:


-E você, meu “kamanguista” dum raio, não precisas de nada? É que, desde que entraste aqui, senti que andas a fugir do amor…

Zacarias meio embaraçado respondeu:

-Desculpe? Mas…mas…como é que sabe que….?!!!


-Foi muito simplesmente pelo teu olhar, pois quem ti deseja quer mesmo ti conquistar e você estás com o medo, por causa de outras namoradas qui tivestes na Maianga, no Bairro do Cruzeiro e ti enganaram. Queres levar umas “coisitas”, uns “muloges” para ti dar entusiasmo?
-Não leve a mal, mas dispenso. Mesmo assim obrigada, respondeu Zacarias

 -De nada! Vou rezar à Nª. Srª da Muxima para ti dar “guzo” (força)!


E piscou-lhe o olho. Saíu dali todo baralhado e a pensar: como raio é que ela sabia que o Zacarias já tinha sofrido por amor e que andava “marado”, com a Josefa, uma miúda, preta-fula, cheia de “demengueno”, saia curta, com trança na carapinha, qui lhe pôs a delirar, e que há mais de 6 meses não a via. Oito dias depois (PASME-SE!) cruzou-se com a Josefa junto à loja do “Campino”, perto da Farmácia São Paulo, à entrada do Bairro Operário (Bê-Ó) e, como sempre, ela foi muito gentil. Convidou o Zacarias a sair com ela de noite, a assistir o filme “Aventureiros na Lua”, no Cine-Colonial. Sem perceber como, completamente “Boamado”, a boca dele respondeu-lhe que sim, que podia ser. Foi a correr p’ra casa, vestiu a calça de “Kaqui”, engraxou os “pankes” com as solas meias rotas, encheu os cabelos de brilhantina sólida, e “bazou”, mas…sempre a pensar na bruxa! Acreditem se quiserem, teve uma noite incrível em que a Josefa confirmou tudo o que ele pensava sobre ela e que, embora o negasse, se tivesse apaixonado por ela. Jantou no Cravo, dançáou no Braguez e aceitou ir para casa dela tomar um “Katembe” (vinho branco com pepsi-cola) bem gelada. A gostosura da “gasosa” com o vinho do “Puto”, levou-lhe a partilhar com ela num profuso beijo linguado e, se lhe inundou a boca, só pelo contacto do beijo, ficou “arrasca” com uma vontade grande de fazer amor com ela. E…”chôxo para ali, chôxo práculém”, despojados de roupa e numa histeria de sentimentos “embruxados”, fizeram amor logo ali na esteira, onde deitados nela, lhi arrancou gemidos de prazer. Gritava parecia qui tinha diabo na alma...

Excelente amante, a Josefa! Que conseguiu travar o “tsunami” íntimo dentro do Zacarias. Não satisfeita, lhe arrastou para a cama, com colchão de palha de milho – cheio de caroços – e aí, sim! Amáram-se com fervor enfeitiçado, até dizer basta….! Abraçado a ela e totalmente feliz, pensou com os meus botões, se no meio daquele “trumuno” todo, não houve “dedinho” da “Kimbandeira”….?!
RECORDAÇÕES…que dão sempre Histórias para contar!


BANGA NINITO

2014

30/07/2014

O AMOLADOR


Hoje quando me dirigia para as Finanças do Cacém vi com uma motorizada toda moderna um antigo amolador de tesouras e facas e que também arranja chapéus de Chuva. Com curiosidade e por ser um jovem entabulei conversa e ele disse-me: amigo antes isto que andar a roubar, esta era uma das profissões do meu avô. Nostalgicamente recordo-me que nos idos anos em frente à Ginjinha da Avenida, depois de percorrer a rua de São José nos anos de 1975 parava o Amolador Sr. Venâncio para se refrescar com uma ginja com elas e ter dois dedos de conversa com o meu pai que na altura trabalhava na dita Ginjinha. Esta pequena história, passada na minha juventude para dizer que é umas das tais profissões que com os avanços tecnológicos se extinguiu. O Senhor Venâncio percorria todo o Rossio e Praça da Alegria, 

foto obtida em: http://www.amolador.htm

 
Estamos em tempo de chuva e este é também tempo de amoladores! Antigamente associava-se o som da “gaita” deles, ao sinal de chuva iminente.

O amolador o qual, antigamente, também era reparador de sombrinhas, é um comerciante ambulante, o qual transporta-se numa bicicleta ou motocicleta para oferecer seus serviços de amolar facas, tesouras e outros instrumentos de corte. Modernamente, ao longo do século XX, os amoladores urbanos tinham que se estabelecer em comércios situados já dentro do recinto dos mercados já na rua. Estes comércios têm uma dupla função, tanto lugar de trabalho para o amolado de ferramentas de corte como ponto de venda das mesmas.

O amolador tinha como funções afiar tesouras e facas, consertar guarda-chuvas, rebitar panelas e tachos e consertar alguidares de barro partidos (por aplicação de gatos – pequenos ganchos de arame).

Na primeira metade do século XX, havia uma grande comunidade de galegos em Lisboa, dedicados nomeadamente às antigas profissões de aguadeiros, amoladores, carvoeiros, taberneiros, merceeiros e alguns ligados à indústria hoteleira, que mais tarde se tornaram grandes empresários.


A bicicleta tem sido modificada de forma que em sua parte traseira leve montada o esmeril mecânico com uma pedra de amolar a qual emprega-se para amolar os objetos cortantes. Anda pelas ruas da cidade ou povoado e para anunciar sua proximidade usa uma flauta de pã de canos ou plástico como apito, chamada em espanhol de chiflo, a qual sopra fazendo soar suas tonalidades consecutivas, de grave a aguda e vice versa.


A começos do século XXI Já não se veem amoladores pelas ruas, mas agora vejo que ainda os há e assim vão ganhando uns trocados para as despesas.






 

 
 
 
 
 


 
Amolador da era moderna
 

 
ZÉ ANTUNES

1975