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27/01/2015

CORTEM, E DESCONTEM, A QUEM NÃO PRECISA!


Senhor Diretor:

Permita-me V. Exa. que enumere algumas injustiças, cometidas contra todos os contribuintes sérios, que – honradamente - se preocupam com o pagamento dos seus impostos. Qualquer política social, salvo melhor opinião, tem de obedecer sempre a um princípio: o “Estado tem de ajudar a quem precisa”! Até aqui tudo certo. Mas…é baseado nessa filosofia (já gasta), que este pobre país é constantemente “inundado” de oportunistas (“chicos-espertos”), que sabem tirar proveito das circunstâncias de dado momento em benefício de seus interesses. Porque esse mesmo Estado, quando distribui dinheiro dos contribuintes, tem de ter a certeza de que quem está a ser ajudado necessita mesmo dessa ajuda. É que existem p’raí, infelizmente, muitos “chorões” e aldrabões a “pedinchar”, mas…com avultadas somas depositadas em instituições bancárias. Até há bem pouco tempo, podia candidatar-se ao “Rendimento Social de Inserção” (RSI), quem não tivesse rendimentos, mesmo que tivesse uma conta bancária com 99.999 euros. É verdade! Eu disse bem, noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove euros. “A poupança do candidato só não poderia ser igual ou superior aos 100 mil euros”. Inacreditável, não é? Mas, poderia ter o primeiro valor referido em dinheiro depositado, mais a posse de barcos, carros e casa, no valor de centenas de milhares de euros, esses “pobrezitos” coitados! O discernimento e a sensatez, como é óbvio, foi recentemente alterada. Mas a chamada condição de recurso para os candidatos ao Rendimento Social de Inserção (RSI) e outros apoios, ainda permite a posse cumulativa de: conta bancária com saldo até 25 mil euros; bens móveis sujeitos a registo, como carros, motas e outros, até ao valor de 25 mil euros; casa para habitação própria e permanente de valor até 188 mil euros. Tudo somado, a condição de recurso ainda permite ao candidato ao “subsídio social a posse de um patrimônio avaliado em 238 mil euros”.

Quantas famílias portuguesas conseguiram acumular esta riqueza? Mas afinal, perguntarão os Leitores do Diário de Coimbra, se alguém tiver patrimônio até este valor, fugir ao fisco, não declarar rendimentos e alegar que é pobre, pode receber o RSI? Em que país estamos? Estamos num país de oportunistas, de burlões, em que diretores de escolas particulares revelam que, ainda hoje lhes aparecem pais “a pedirem os formulários para pedido de ajuda do Estado ao pagamento da mensalidade dos filhos”, quando sabem que esses mesmos pais têm negócios, vivem bem, mostram sinais exteriores de riquezas, mas os mesmos responsáveis das escolas não podem recusar o “encaminhamento dos pedidos de ajuda”. Mas há mais “chicos-espertos” escondidos, cheios de “papel”, que passam por “gente de bem”, muito carinhosa, religiosa, crente em Jesus, amigos de comungar aos domingos, na santa missa! Bendito seja Deus!

Cruz dos Santos

2015

09/12/2014

HÁ, EM PORTUGAL, MUITA POBREZA INFANTIL!


Há um fator muito importante e com grande impacto sobre as crianças, que é o desemprego. O desemprego é um fator que tem um peso enorme, pela privação enorme que isso representa para as famílias na diminuição dos rendimentos, mas também na menor disponibilidade que os pais têm, porque estão preocupados, em procurar formas alternativas, que lhes possam dar algum rendimento.” Essa austeridade tem causado sérios impactos sociais, principalmente a Portugal, país resgatado pela Troika. 

É que além da geração perdida de jovens desempregados, essa crise também hipotecou a vida de milhões de crianças! Há famílias desesperadas, a viverem cheias de medo. Medo, porque os empregos não são seguros; medo, porque trabalham alguns meses e pouco tempo depois estão desempregadas; medo de ficar sem a reforma; medo de não conseguirem emprego e de não sobreviverem a todas essas privações; medo de serem despedidas, ou serem mal classificadas pelo chefe e, no meio de todos esses medos, quem sofre são as crianças! Essa severidade, tem vindo a causar um impacto forte na vida dos mais novos. Cerca de 500 mil pessoas ficaram sem abono de família; 120 mil dependem de ajuda alimentar para escapar à fome e mais de 85% destes desempregados têm filhos. 

E há quem já nem sequer tenha subsídio de desemprego nem Rendimento Social de Inserção. Há crianças que vivem em lugares onde não é possível crescer e aprender valores positivos. Essa rispidez de governação, é uma autêntica violação dos direitos das crianças e do homem. O ilustre Dr. Jorge Sampaio (ex-Presidente da República), disse na Gulbenkian que, «Não estamos a conseguir garantir igualdade de oportunidades às gerações mais jovens nem sequer a mostrar-lhes que o sucesso não depende de alguém ter nascido rico ou em privilégio, mas sim do seu próprio mérito». 

A desigualdade dos mais jovens, como a pobreza infantil, não são chagas apenas do presente, terão reflexos cruéis no futuro. Comprometer o futuro é o que estamos a fazer com aquilo que Sampaio descreve como a «aplicação severa e drástica de medidas de austeridade centradas no curto prazo e unicamente movidas pelo intuito da redução de défices». Por outro lado, a distinta Magistrada Drª. Maria José Morgado, denunciou que: “A classe política aproveitou a sua oportunidade, que não é a oportunidade do bem comum. Choveram fundos europeus para ajuda a Portugal, mas esses fundos foram apropriados individualmente, para enriquecimento individual, para a miséria da população e não para o desenvolvimento económico, tal como foram atribuídos os fundos sociais europeus.” 

Meus Senhores: nos próximos sete anos, Portugal vai receber 1600 milhões de euros do Fundo Social Europeu, para ser usado em colmatar a pobreza e minorar, o sofrimento e a fome dessas crianças. Pergunto: Será que vai ser mesmo usado, para esse fim? Termino com essa sentença de Almeida Garret, que dizia que “Para fazer um rico, são necessários milhares de pobres!”

Cruz dos Santos

2014

14/11/2014

A N G O L A /// L U A N D A


Um PEQUENO DESABAFO, nesse tempo chuvoso e frio!

 "Tenho vontade de chorar...quando me lembro de Angola...."


É verdade! Sinto fome de ti Luanda. Das palavras livres, proferidas pelos "miúdos" da minha sanzala! Estou farto, saturado mesmo, de palavras que apenas dizem o que podem dizer, e que...Não me dizem nada! Tenho ânsia de viajar com as palavras por dentro dos imensos infinitos da linguagem. Quero saborear os "ditongos" e os "substantivos" da minha Lavra, que são adocicadas pela cana do açúcar. Tenho ânsia de ser um "pimplau" (pássaro) impossível que recusa as palavras que dizem apenas o que querem dizer. Estou farto de palavras direitas e certas, controladas por essas leis burocráticas. Palavras "amarradas", carregadas de vocábulos difíceis de entenderem e que dizem o que toda a gente diz...NADA! Sinto fome de liberdade, de correr e levar "berrida" no interior dos meus becos; sinto saudades dos meus Amigos "Kandengues" e dos nossos "mais velhos" da Ilha, no bairro dos pescadores! Sinto fome e sede, de comer o meu "funge" numa cubata de pau-a-pique e de beber daquela água da "moringa", filtrada na pedra até à "sanga"! Fome do fascínio das mulatas, e do poder embriagador que envolve a beleza "achocolatada" da Negra...Ai que saudades..."Gana Zambi"! Tenho fome de soltar este surdo grito que está dentro de mim, carregado de saudades e que me tem "aleijado", dia e noite, esta minha alma já desgastada de tanto chorar. 

Até quando meu Deus!?? Sinto por dentro de mim esta liberdade enclausurada, que as palavras livres oferecem, sinto esta divina transgressão que me seduz até à medula da minha alma. Para que é que hei-de dizer sempre o essencial, o fundamental, ou o que se pensa que está certo para toda a gente? Grito sozinho à noite, suplicando à Nossa Senhora da Muxima, que não me deixe morrer aqui, nesta terra de palavras que nada me dizem! Eu não entendo nada destas palavras, acreditem! Porque não experimentar a liberdade desta transgressão? 

Gostaria de ser como o Poeta de verdade, que arranca dos monstros do "não-sentido", as mais belas crianças desejosas de nascer...Crianças nunca vistas, flores nunca sonhadas, gritos que a curta visão do presente procura levianamente matar na sua dimensão de futuro.

Sinto fome de palavras, provindas do "Kimbundo", que são palavras livres, soltas e grandiosas de poesia, que o Poeta fecunda e desentranha de um dizer imenso, onde a humanidade inconscientemente se espraia, sonha e espera...

"TENHO VONTADE DE CHORAR...QUANDO ME LEMBRO DE ANGOLA"!! ( canção do duo Ouro Negro )


BANGA NINITO

"Tenho vontade de chorar...quando me lembro de Angola...."


 A saudade é uma coisa lixada, basta ás vezes olharmos para um feito, ouvirmos uma música, tantas vezes uma conversa e lá está a saudade a alojar-se dentro de nós num cantinho do peito destinado ás boas memórias ( alguém disse: a saudade não tem braços mas que aperta aperta ) ás vezes aperta tanto que sufoca e quando já não cabe no peito escorre pelos olhos, tenho saudades tuas, disto e daquilo, daqui e dali saudades de Angola de Luanda que hoje 11 de Novembro celebras 39 anos da tua independência, hoje é o teu dia de todos os angolanos e daqueles que lá viveram. Por tudo isso sinto saudades da minha Angola, do meu Bairro, dos meus amigos.

Eu sei que num silêncio ensurdecedor que se instala no nosso coração, durante estes anos todos existe aquele sentimento ambíguo. Sentimento que sentimos quando vemos partir aqueles que fizeram parte das nossas vidas, aqueles a quem considero amigos do peito.

Tudo nos aconteceu de um dia para o outro, tristezas pela separação de amigos quando fomos bombardeados na guerra dos senhores e dos interesses estratégicos, e tivemos que abandonar a terra que mais amava-mos.


Continuo a ter saudades tuas LUANDA e a gostar de ti ANGOLA, sinto como sempre um nó na garganta quando penso em tudo que vivi nos meus anos de infância e juventude.

Parabéns Angola por mais um aniversário da tua independência.

 
ZÉ ANTUNES

11-11-2014

05/11/2014

O DRAMA DA SOLIDÃO NA VELHICE!


Tem esta a finalidade de satisfazer alguns pedidos, oriundos de alguns elementos de instituições de caridade, sobre o desfecho pesaroso que muitos dos nossos "Seniores" estão a passar e que são verdadeiras "condenações de solidão" e de outras "atrocidades" ao seu bem-estar. Por essa razão, foi-me solicitado que publique, com a brevidade que me seja possível, esta pequena contribuição, no sentido de "aliviar" esse pesado "fardo", que todos nós, depois de velhos, estamos sujeitos a suportar.

Tem, ultimamente, chegado até nós, através dos meios de Comunicação Social, tristes e pesarosas notícias, alusivas ao desaparecimento de alguns idosos (a maioria sofrendo de Alzheimer), de outros a viverem sós e doentes, enfrentando “espinhosas” e consternadas batalhas de solidão, tremendamente aflitiva. Seguem-se aqueles que morrem sozinhos, em suas casas, sem um braço amigo ou uma palavra de conforto, que os possa aliviar ou socorrer. naquelas horas derradeiras de maior aflição. São esses dramas melancólicos, que ultimamente se têm registado, e que têm provocado estados de depressão e de revolta, a todos nós.

As ruas são lugares estranhos. As pessoas cruzam-se distraídas, de olhar abstrato e, nem sequer olham para aquilo que vêm. Uma senhora mais velha ou mais nova, pode tropeçar e cair, sem que ninguém pare, para a ajudar. Assusta perceber a indiferença nos outros. Deixa-nos vulneráveis, perplexos e, simultaneamente confusos, perante essas indiferenças. Perguntamos: mas…de onde vem tanta frieza, tanta inércia e negligência? “Quem são os responsáveis por esses nossos idosos?” Quando as relações com a família estão cortadas, deverão ser os vizinhos a ter essa preocupação, por uma questão de solidariedade? Existem associações ou entidades que possam prestar assistência a estas pessoas, sem fins meramente lucrativos? Também, nem todas as famílias têm disponibilidade para acompanhar o envelhecimento dos seus familiares. E é aqui que se levantam outras questões: devem estes idosos ser colocados em instituições onde, à partida, terão um melhor acompanhamento a todos os níveis, ou será uma egoísta transferência de deveres da família para uma instituição? O que leva a família a optar por esta solução privando, muitas vezes, o idoso do relacionamento familiar? Será, na verdade, uma solução válida, ou puro abandono de responsabilidades? E até que ponto estarão essas instituições preparadas para fazer face às necessidades dos idosos? Um escritor e psiquiatra francês (não me recordo o nome), escreveu sobre a “nossa bela civilização de sprinters”, para sublinhar esta espécie de corrida contra o tempo (e contra tudo e todos) em que vivemos, e nos deixa sem margem para olhar, para quem passa ao nosso lado. Sem capacidade de olhar e ver, de atender às necessidades dos que nos procuram, de parar e vermos (com olhos da alma), perdermos um “pedacinho” de tempo, para com o nosso semelhante. “Hoje eles, Amanhã nós!” Esta imensa passividade (ou sofrimento) que se instalou à nossa volta contraria as leis da natureza. Pelo menos, as da natureza do ser humano. Por tudo isso, é essencial ter presente, que os idosos não passam de um número, de uma mensalidade a mais a receber, em que apenas lhes é proporcionada uma cama, alimentação e pouco mais. E não são raros os casos de maus tratos e falta de condições. De qualquer forma, quem optar por essa solução, deve acompanhar, sempre que possível, os seus familiares, manter-se informado sobre a forma como são tratados, e constatar que realmente se sentem bem. Acima de tudo, é uma questão de amor – de cuidar e zelar pelo bem-estar e qualidade de vida daqueles que, um dia, já o fizeram por nós!
BANGA NINITO 

2014

03/11/2014

ESTAMOS PREPARADOS PARA UMA INVASÃO MILITAR?


A elite Europeísta, composta pelos seus soberanos magnatas capitalistas, têm vivido, única e exclusivamente, preocupadíssimos, com os dividendos e lucros obtidos pelos milhares de milhões de “Juros” acumulados dos empréstimos, do que pela tão propalada “ajuda financeira” (ajudas?) aos países mais pobres. Mas…que ajudas afinal temos tido com esses “auxílios”, se estamos, cada vez mais pobres! Essa elite europeia, especializada em relações internacionais vive dominada por uma escola de pensamento apolítico que assenta no paradigma pós-estatal, que tem vindo a anular a realidade por decreto ideológico. Consequentemente, essa mesma “aristocracia”, ao lutar ideologicamente contra a realidade e contra o “realismo”, perdeu o contacto com os instrumentos conceptuais, que permitem ver os fatos da política internacional. Portanto esta filosofia da mentira, mais não é do que o “suicídio” duma união falida, que desde o início, nunca ligou (pessoas) por laços afetivos e sociais. O que sempre fez, foi esconder e trocar a dignidade humana, pelo vil metal, esquecendo-se até (pasme-se!), da sua própria segurança militar. Por norma, as críticas dirigidas à Europa mencionam a falta de vontade política para empregar o poder militar. Daí a pergunta, dos Europeus mais céticos:“ Estaremos nós preparados, para enfrentarmos uma invasão área, ou terrestre em “grande escala”? “O que andam a fazer os russos, no nosso espaço aéreo português”? Que Forças Armadas temos, para a proteção deste frágil país: Portugal? Bom! A questão do “Poder” não se esgota no uso da força militar. Existe uma segunda dimensão do “Poder” – raramente salientada no debate europeu– que não está relacionada com o uso político da força militar, mas sim com uma questão intelectual situada a montante, a saber: a sensibilidade estratégica, ou seja, a capacidade para pensar através de conceitos como Estado, Potência, Sociedade de Estados, etc. Aqui, estamos no campo da sensibilidade (que falta a estas magnatas: Sensibilidade!), para compreender que uma “segurança duradoura” não depende da ajuda ao desenvolvimento ou do combate ao terrorismo, mas sim, da “observância de um certo padrão comum de moralidade” entre as grandes potências do momento. Isto porque a Europa, se continuar (só com as preocupações ligadas às obtenções dos lucros provenientes dos juros) e recusar os conceitos realistas, corre o risco de ficar afastada do processo de elaboração da “ordem mundial mínima”, bem como desprotegida de qualquer “invasão” militar. Em suma, se continuar a recusar as mudanças conceptuais e políticas impostas pelo mundo “pós-atlântico”, a Europa corre o risco de ser uma “peça secundária na política mundial”. “Um mundo sem europeus”!
 


Cruz dos Santos 

2014

21/10/2014

É SÓ PARA RECORDAR...


NOMEADAMENTE NO DIA 25 DE ABRIL DE 1974


"Descolonização portuguesa foi feita à pressa em Angola", diz António Passos Coelho

Lisboa– António Passos Coelho considerou ainda que o Portugal de hoje “é uma coisa séria” e culpa os políticos, dos vários Governos PS e PSD, pelo estado a que o país chegou. A descolonização portuguesa foi feita “à pressa” em Angola, país que ficou entregue a partidos armados que faziam guerra em vez de política, afirmou domingo, 30 de Março, o médico António Passos Coelho, que há 40 anos vivia em Luanda.




 

Retornados ( Foto net )
A Revolução de Abril apanhou o médico pneumologista em Luanda, onde residia com a mulher e os quatro filhos, entre eles o atual primeiro-ministro, e ocupava o cargo de diretor de hospital e chefe do serviço de combate à tuberculose.

Nascido em Vale de Nogueiras há 87 anos, em Vila Real, António Passos Coelho deixou o Caramulo em 1970 para embarcar naquela que viria a classificar como a “loucura africana”, ao aceitar o desafio lançado pelo então ministro do Ultramar de organizar um serviço de pneumologia moderno em Angola.

Esta passagem por África inspirou, anos mais tarde, o livro “Angola, amor impossível”, em que o autor aborda a guerra, o 25 de Abril e a descolonização.

Na altura, encontrou uma Angola onde a “vida era normalíssima” e apenas do norte e leste chegavam alguns relatos da atividade da guerrilha. Primeiro passou pelo Bié e, só depois, se instalou na capital para colocar em funcionamento um novo e moderno hospital. 

A notícia da revolução foi-lhe dada por uma enfermeira, mas não ligou. O “puto”, como em Angola chamavam à metrópole, estava demasiado longe, mas depois o país africano “entrou em efervescência”. 

Quanto à descolonização, afirmou à agência Lusa que “foi tudo feito à pressa”. “Eu acho que a independência deveria ter sido dada com o auxílio da ONU ou da organização das Nações Africanas, deveria ter sido assim, de maneira a ter lá uma força qualquer que evitasse a guerra entre eles”, salientou. 

O MPLA ou a UNITA eram “partidos armados” que “não faziam política” e o resultado foi, na opinião do médico, “uma guerra que matou famílias inteiras” e “destruiu Angola”. 

António Passos Coelho acreditava que o país caminhava já há alguns anos para uma independência que iria acontecer com ou sem 25 de abril e revelou que, quando estava a recrutar pessoal para o hospital, recebeu uma “confidencial” que dizia para contratar também angolanos. 

A revolução, na sua opinião, precipitou tudo. Luanda mudou, transformando-se numa cidade solitária e deserta, onde os cafés e restaurantes de sempre se encontravam de portas fechadas. Pelo meio, o médico teve também de se esconder quando se deparou com trocas de tiros e teve que lutar para conseguir combustível para o funcionamento do hospital, que ficou sem eletricidade ou telefone. 

Apesar do clima de instabilidade que se foi alastrando, Passos Coelho permaneceu naquele país até às vésperas da independência, a 11 de novembro de 1975, apanhando o último avião da carreira área para Lisboa.

Talvez por trazer na bagagem a memória de uma Angola “florida e limpa”, o Portugal que encontrou, “sujo e imundo”, deixou-o desolado. Admirou-se com o desleixo das pessoas, mal vestidas e de barba por fazer, e a alegria que não parecia natural. 

Declinou convites que surgiram para deixar de novo o país e fixou-se em Vila Real, onde foi também diretor de hospital, abriu consultório e foi presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PSD. 

Quarenta anos depois, disse acreditar que a Revolução de Abril trouxe “vantagens fantásticas” ao país, com destaque para a liberdade de expressão e de crítica, ainda ao nível do Serviço Nacional de Saúde ou da justiça.

Lamentou, no entanto, que não se tenha conseguido aproveitar o que estava bem antes e afirmou que não se revê neste Portugal, onde a falta de educação é encarada com normalidade e se insultam ministros e presidentes. “Vejo tudo isto com muita preocupação. Não há um meio-termo, onde se critique sem insultar”, questionou. 

António Passos Coelho considerou ainda que o Portugal de hoje “é uma coisa séria” e culpa os políticos, dos vários Governos PS e PSD, pelo estado a que o país chegou. “Isto está mau, está a ser complicado a cortarem-nos nos vencimentos, está mal, e o Estado não tem dinheiro, de maneira que isto é um problema”, concluiu.
 
Recebido via mail

Fonte: Lusa

2013

 

OS CALOIROS


No ano de 1967, nas férias escolares estava eufórico com os exames de admissão ás Escolas Técnicas e aos Liceus.

Antecipadamente já sabia que iria para uma escola Técnica caso fosse aprovado nos exames, meu pai desejava que os filhos homens seguissem profissões técnicas e que a filha mulher seguisse uma profissão administrativa.

Isto tocou a uma grande parte de todos nós, estudantes do ensino primário. Nesse ano as férias grandes foram ligeiramente mais curtas. Tive que fazer três exames: o da 4ª classe e os de admissão, às Escolas Técnicas e aos Liceus.

Como estudava na Escola Primária nº.176 no Bairro Popular nº. 2, foi na Emídio Navarro (antiga João Crisóstomo), ali na Vila Alice perto da Fábrica Imperial de Borrachas ( Macambira ), que tive que fazer os exames de admissão ás escolas técnicas. Tudo correu bem, tive que ir à oral – penso que era obrigatório.

Nas orais, lembro-me que na prova de Português foi sempre o mesmo texto nos três exames “A camaradagem” do livro de leitura da 4ª classe, foi no exame da Escola Primária nº. 176, na Escola Preparatória Emídio Navarro e no Liceu Nacional de Salvador Correia.

Outra coisa que me ficou presente na memória. O professor que me fez o exame no Liceu Salvador Correia era bem conhecido de muitos alunos, para me meterem medo me disseram logo “ Estás tramado esse professor é do piorio”.

Mas aí estava eu aprovado e com três opções a meu bel-prazer. Escolhi a Escola Preparatória João Crisóstomo, naquele tempo as aulas começavam só a 1 de Outubro.

Mas, no Bairro Popular nº 2 onde eu residia, os amigos e alguns colegas mais velhos do que eu, iam-me informando o que poderia acontecer-me.

Sabes, lá na João Crisóstomo ninguém se chama pelo nome! Todos têm um número atribuído, dizia um! Logo outro “Eh pá, vais apanhar uma carecada do caraças! Faz mas é tudo o que dizem pra fazeres, senão… tás lixado, ainda te fazem umas picadas pela cabeça toda!”.

Com estes avisos todos, inicio do ano lectivo, no dia 1 de Outubro fui no Maximbombo 22 com vários amigos do bairro que também iam para a João Crisóstomo, descemos nos Maristas, depois seguimos o descampado ( uma picada de terra batida ) ai existente até chegarmos á novíssima João Crisóstomo (foi inaugurada nesse ano de 1967). 

Logo ali vi o grande movimento à entrada da Escola, com uma maior concentração à entrada e no espaço interior. Entrei no grande portão e o filme que me tinha sido contado pelos mais velhos tornava-se agora mais real, podendo ouvir-se um movimento de “algazarra” no amontoado de estudantes, quase todos rapazes, do lado exterior. “Ó miúdo és do 1º ano?!..” Era a caça ao caloiro.

E lá me mandaram colocar a jeito, baixando a cabeça, enquanto um bramia a tesoura de contentamento, dando-lhe aqueles movimentos entusiasmados que produziam o som metálico de abrir e fechar repentina e constantemente a tesoura, outro ensaiava a técnica da circunferência perfeita, colocando um escudo angolar na coroa da minha cabeça, desenhando uma circunferência com a esferográfica no couro cabeludo... bem ao meio

Depois era só cortar o cabelo que constituía o círculo até fazer uma careca, tão ou mais perfeita que a de um seminarista, ou padre capuchinho.
Hagh! O executante, após a feitura da coroa, pegava na sua Bic e rubricava a obra de arte, apondo um carimbo à moda de um punho assente de cima pra baixo na mesma.

Caloiro… Baixa a Careca!! E lá baixava eu a tola! E eles, que andavam em grupo, lá malhavam com os dedos todos unidos neste novo caloiro.
A obediência e a simpatia que cada caloiro demonstrasse era meio caminho andado para que tudo corresse normalmente, porque quem espigasse estava tramado. Apanhava forte e feio, com a palma da mão, com pequenos sacos com sal grosso, ou com as colheres de pau, algumas lindamente decoradas a cores, para que o caloiro medisse e refletisse, antes que se armasse em corajoso protestante!

Mas o melhor mesmo, por segurança, era arranjarmos um padrinho, um mais velho de preferência conhecido, daqueles considerados, ou com algum status, e não importava o tipo de status entre os mais velhos, tinha era que ter peso. Foi o que me aconteceu quando entrei na Escola Industrial de Luanda, conhecia alguns avilos mais velhos como o Tomané (António Manuel dos Santos Diniz) que era dado aos Karts e com mais amigos do Bairro.

Hê malta!!.. Este é meu conhecido, meu afilhado!” Aí ficava tudo bem melhor e as palmadas na careca era não mais que um cumprimento.
Alunos do meu tempo… O Piteira, Amílcar, Alberto Rodrigues, Carvalho, Gomes, Camilo, Ernesto, Nelson, Francisco Pereira, Walter Sério e outros,,,,

ZÉ ANTUNES

1975