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25/09/2012

VERDADES INCONTORNÁVEIS


Os Retornados!!!


Uma das ideias feitas que ainda hoje subsiste no nosso País, é a de que os «retornados do Ultramar» constituíam uma legião de indivíduos que vieram agravar de várias formas o já de si deplorável estado da sociedade portuguesa à data da Descolonização. Sociedade que estava sofrendo o inevitável depauperamento causado pela emigração maciça dos seus braços mais válidos em busca de melhores condições de vida, sangria que começara muito antes das chamadas «guerra colonial» e que esta veio inevitavelmente acentuar. Disse-se, escreveu-se, e ficou gravado no entendimento comum dos portugueses, que a maioria dos retornados era uma legião de pessoas rudes, na maioria já de idades avançadas, que tinham queimado as suas energias pelas terras de África, pouco produtivas para a tarefa da reconstrução nacional, e sobretudo escassamente preparados do ponto de vista profissional. A ideia geral que se fazia e intencionalmente se propalou!... acerca dos retornados do ex-Ultramar, era a de uma maioria de rudes capatazes agrícolas, broncos e violentos, de astutos comerciantes do mato, e de uns tantos «endinheirados» que exploravam negócios altamente chorudos! Acontece que os sucessivos contingentes que os aviões despejavam diariamente no Aeroporto de Lisboa, nos dois ou três meses que se seguiram ao êxodo maciço dos portugueses de Angola e de Moçambique, bem como as imagens fotográficas ou da Televisão, davam uma aparência de realidade a tão deploráveis e errados juízos. São hoje suficientemente conhecidas as deploráveis condições em que os retornados de Angola e Moçambique regressaram a Portugal - nove em cada dez, apenas com as roupas que tinham vestidas no momento do embarque, por não terem tido tempo nem possibilidade de voltar aos lares de onde tinham sido expulsos a ferro e fogo para salvar as vidas. Todavia, serenada a tempestade ou calamidade que se abateu sobre os retornados do Ultramar, acalmadas as inevitáveis paixões políticas e serenados os juízos precipitados as estatísticas encarregaram-se de rectificar as asneiras insidiosas e intencionais, e de dar ao País um retrato real dos retornados, sob mais diversos aspectos. Paralelamente, as manipulações da opinião pública foram cessando, e estudiosos atentos e imparciais debruçaram-se sobre a realidade - e os retornados do ex-Ultramar surgem aos olhos da opinião pública e dos seus concidadãos em geral, como aquilo que na realidade são. Para esboçar esse retrato do retornado socorremo-nos de um valioso e insuspeito estudo realizado por um grupo de universitários, prefaciado por uma brilhante Secretária de Estado de um dos Governos pós 25 de Abril, editado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, para neste momento e neste local, traçarmos um RETRATO DE CORPO INTEIRO dos retornados, e da sua contribuição para a revitalização da sociedade portuguesa. O apuramento realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em 1978, citado pelo referido grupo de universitários no estudo que consultámos, referia a existência de 505.078 indivíduos entrados no País e inscritos como «retornados do Ultramar». Em termos percentuais esses 505 mil retornados representavam pouco mais de 5% do total da população nacional.

Este número é discutível e muitas fontes insistem em números mais elevados, entre 700 a 800 mil. Mas trata-se de números oficiais, registados pela estatística oficial, e é em presença deles que temos de raciocinar. Ora, segundo os números do Instituto Nacional de Estatística, daqueles 505.078 retornados, um pouco mais de metade - exactamente 298.968 - eram nascidos ou oriundos de Portugal, e portanto os restantes 206.110 eram portugueses já nascidos nas então províncias ultramarinas. Por enquanto trata-se apenas de distinguir entre portugueses oriundos de Portugal que regressavam ao país de origem, e portugueses nascidos noutras terras e aos quais, só por isso, parecia querer negar-se a qualidade de portugueses também...Porém, o que é realmente importante, e mostra insofismavelmente que os retornados vieram rejuvenescer a sociedade portuguesa, é a observação desses dados estatísticos quando entra na discriminação etária, cultural e profissional dos retornados. Assim, sob tais aspectos, verifica-se que: daqueles 505.078 retornados, 65,5% tinham menos de 40 anos e constituíam portanto uma parcela válida. Mas acima dos 40 e até aos 64 anos a percentagem de retornados era de 29,8% - todos sabem como no Ultramar os homens até aos 60 anos eram uma das parcelas mais válidas das populações, senão em energias físicas pelo menos em saber e experiência acumulada. Além disso, do total de retornados, 52,74% eram homens e apenas 47,26% mulheres o que pressupõe uma maioria de braços válidos para o trabalho. Porém, um dos aspectos mais importantes desta notação estatística, é aquele que refere que a população retornada era em regra profissional e intelectualmente mais bem preparada do que a da metrópole, pois que do recenseamento efectuado, resultava que: 48,4% tinha instrução primária (numa época em que na metrópole havia mais de 20% de analfabetos); e dos restantes 51,6%, descontando apenas 6,5% de não-alfabetizados constituídos quase exclusivamente por crianças com menos de 10 anos de idade, havia 8,5% de possuidores de cursos superiores incluindo médicos, professores universitários, investigadores, advogados, etc., e mais de 30% possuíam cursos médios, secundários e profissionais. Com a entrada dos retornados, a sociedade portuguesa foi subitamente enriquecida com mais de 5.000 mil engenheiros, arquitectos e técnicos dos mais elevados graus e ramos da engenharia civil e de minas, de industrias transformadoras e outras; cerca de 1.800 biólogos, agrónomos, investigadores dos ramos fisico-químicos e similares; quase 13.000 professores e outros docentes de todos os ramos do ensino, desde o primário ao universitário; 325 navegadores, pilotos e outro pessoal especializado da navegação aérea e marítima; cerca de 16.000 quadros de serviços administrativos e outros, desde estenógrafas a operadores de informática. No sector da produção, a força do trabalho metropolitana foi enriquecida com mais 13.000 mecânicos especializados; cerca de 7.000 serralheiros civis, montadores de estruturas metálicas, caldeireiros e profissões similares. A construção civil, cuja maior força de trabalho tinha emigrado para os países da Europa, foi enriquecida com 13.000 pedreiros, carpinteiros e outros profissionais dos mais diversos ramos. As indústrias transformadoras foram enriquecidas com mais 12.000 operários especializados, desde os ramos têxtil ao da alimentação e bebidas, da mecânica fina ao mobiliário. O sector dos transportes viu-se repentinamente valorizado com a entrada de mais 13.000 condutores de veículos pesados e de transportes públicos. No sector agro-pecuário surgiram mais 16.000 capatazes e condutores de trabalhos agrícolas, de maneio e tratamento de gados ou de exploração florestal, em escalas que, em muitos casos, não eram conhecidas neste país. Mas vieram ainda cerca de dez mil trabalhadores dos ramos de hotelaria, restaurantes e similares, cozinheiros, ecónomos e outros. Porém, e talvez mais importante ainda que as suas especializações profissionais, os retornados trouxeram à força de trabalho do País a contribuição valiosíssima da disciplina, da produtividade, da assiduidade, que rapidamente os distinguiram (e não raro os tornaram detestados...) num ambiente em que apenas se falava de postos de trabalho... mas não se trabalhava; em que o absentismo ascendeu a taxas inconcebíveis, em que os locais de trabalho se transformaram em centros de organização de manifestações a propósito de tudo e de nada. Cremos que estes números, extraídos de fontes absolutamente insuspeitas, serão suficientes para desfazer certas ideias que, infelizmente, ainda de tempos a tempos afloram em certos meios e em determinadas ocasiões, acerca dos Retornados do ex-Ultramar. Na realidade, e a despeito das desgraçadas condições em que se desenrolou o seu regresso à Pátria de origem ou de opção - o fluxo dos retornados constituiu na realidade um indiscutível e precioso factor de valorização da sociedade portuguesa,

Até que enfim

Sempre disse que a vinda dos retornados, e refugiados foi uma transfusão de sangue para este país envelhecido, amorfo, estagnado...

De repente, milhares de pessoas com outros horizontes, maior abertura de espírito, força de vontade e absoluta necessidade de começar vida noutro lugar por lhe ter sido tirado o chão onde viviam (e gostariam de ter continuado a viver!), espalhou-se por todo este território...

Houve de tudo, como sempre... bons e maus exemplos, mas o saldo foi positivo e este artigo revela alguns dados importantes. Gostei de o ler.

Bem podemos divulgá-lo e mostrar a todos que a vinda dos africanos depois da descolonização exemplar só veio beneficiar o retângulo onde nem foram assim tão bem recebidos...

Este texto peca por tardio mas, mesmo assim, reencaminhem o mais possivel, para Que estes números fiquem na memória de quem contestou o nosso regresso à Terra-Mãe!

Um abraço angolano da Maria da Graça Garcez

2012

22/06/2012

RETORNADOS COMO EU






Eu sou um retornado. No ano 75 do século XX, o vocabulário português ganhava uma nova palavra - "retornado". Comecei a ouvir a palavra em 1975, à minha chegada a Lisboa. “és um retornado, volta para a tua terra!”. E eu, que obviamente me via como português, ficava atónito com aquela acusação. Tinha 20 anos e vinha de uma terra que se dizia ser "Portugal
Ultramarino

 
















"Mas, note-se que este termo foi "arranjado" pelo próprio governo, com a criação do IARN. E se é verdade que muitos desses portugueses retornaram a Portugal, muitos outros não retornaram! Retornar é voltar a..., regressar a ... e esses portugueses que tinham nascido e crescido nas colónias, acabaram por vir parar a Portugal e não retornar !” (…)


"A grande maioria dos retornados "deu a volta por cima" e são hoje fonte produtiva de Portugal! Nos últimos tempos, cerca de 100 mil portugueses foram para Angola! Há já quem defenda a teoria de que o futuro de Portugal passa pela emigração para aquele país. Provavelmente, muitos desses portugueses são agora "retornados" naquela terra que ajudam a renascer ao mesmo tempo que ajudam Portugal, por razões óbvias!"




E assim, muitos "retornados", depois de espoliados, ainda vão ajudar Portugal..."
" Obrigado aos "retornados" pelo que têm feito por este país!..."

Quem eram os retornados?

Mais de meio milhão de pessoas chegou, de repente, a Portugal. Essas pessoas, porém, de uma forma notável, conseguiram integrar-se na sociedade portuguesa sem conflitos de maior. Haverá casos semelhantes noutros países? Do número de retornados recenseados pelo INE em 1981, 61% eram oriundos de Angola, 34% de Moçambique e apenas 5% das restantes colónias. Quase dois terços desses retornados nasceram em Portugal (63%), embora esta proporção se inverta nas camadas mais jovens, 75% dos menores de 20 anos eram naturais das colónias.



O cais de Lisboa enchia-se de caixotes vindos de África, o aeroporto estava repleto de pessoas que dormiam sobre malas, e começou a aparecer também muita gente nova, gente diferente, gente que vestia roupas coloridas e tinha um ar triste, vindos de Angola, Moçambique, Guiné e Timor... Eram os retornados que depressa se misturaram com as gentes de cá e se distribuíram um pouco por todo o país. Procuravam, na sua maioria, ir para junto das suas famílias e das suas origens. E com eles vinham muitos que pisavam pela primeira vez o solo de Portugal continental


.
A Descolonização

O Programa do MFA previa a discussão do problema da Guerra Colonial. Em Julho de 1974, o Presidente da República, General Spínola, reconheceu o direito à independência dos povos africanos.

Iniciaram-se negociações para a descolonização: o governo dos territórios africanos foi entregue aos representantes dos movimentos de independência das colónias, os militares portugueses regressaram a Portugal e milhares de civis voltaram também (retornados).



Formaram-se assim cinco novos países africanos independentes.


Timor foi invadido e anexado pela Indonésia em Dezembro de 1975. Durante 24 anos a resistência timorense lutou pela independência que só veio a alcançar em Maio de 2002.






Macau voltou a ser território chinês em Dezembro de 1999.
Alguns livros sobre esta temática

:


Júlio Magalhães, "OS RETORNADOS - Um amor nunca se esquece"

Trata-se de um livro que me toca particularmente, pois transporta até à actualidade a saga do regresso dos retornados, como é o meu entre tantos outros casos.



António Trabulo, Retornados: o Adeus à África

Este Romance aborda também ele a temática dos retornados. Foi escrito a pensar sobretudo em homens e mulheres que ainda revisitam África nos sonhos.

Sobre o Autor: António Trabulo nasceu em Almendra (Foz Côa) em 1943; fez a instrução primária e secundária em Sá da Bandeira (Angola); estudou Medicina em Coimbra, é Neurocirurgião. Publicou: Mulemba, Contos de África (2003), No Tempo do Caparandanda (2004), O Diário de Salazar (2004), Eu, Camilo (2006), Os Colonos (2007) e A Última Profecia (2007).



Aida Viegas, Abandonar Angola

Publicado em 2002, é dedicado aos retornados, muitas vezes incompreendidos, gente corajosa que soube reerguer-se das cinzas do infortúnio.
anónimo
2010


OS RETORNADOS MUDARAM PORTUGAL



Ninguém sabe ao certo quantos são. Alguns referem oitocentos mil, outros um milhão e meio. Vieram por barcos e por aviões, golfados em caudais intermináveis de desespero e desamparo. Imobilizaram-se ao frio, ao pudor, o cansaço. O eco do seu êxodo, sem bíblia nem Israel, condoeu então o mundo. O velho império português retomava cabisbaixo, naufragado, às praias de onde, cinco séculos atrás, partira para uma epopeia de façanhas imorredoiras .

Refeitos os bocados de cada um, ergueram-se e atiraram-se em frente. Chegaram, em pequenos grupos, a todo o país; e em pequenas ocupações, a todos os sectores. Como novos bandeirantes, colonos uma vez mais, foram para o interior carregando cóleras e pânicos, vinganças e ousadias. A sua raiva foi a sua força; a anti-fé fê-los mover montanhas, dominar medos, vencer a loucura e o desamor. E dar provas espantosas de coragem, de persistência, de engenho de invenção.

ajudas de instituições, de subsídios, de empréstimos, de amigos, começaram a fixar-se e a transformar os locais onde se detiveram. A emigração e o exílio tinham despovoado meio país. Aldeias inteiras apenas albergavam velhos e  crianças, povoações havia que não tinham sequer um habitante. Era um país de deserções e decrepitudes a viver das mesadas dos emigrantes e dos militares, e das contas dos turistas; um país onde estava (está) tudo por fazer, por merecer; como estavam (estão) os sertões da memória africana.

Então repetiram aqui o que há decénios faziam lá. Mas lá tudo era grande, fácil, farto, acessível: mão-de-obra, créditos, comércios, terrenos, colheitas, gados, máquinas, solidariedades. Havia terra, terra, e espaço e, como no oeste americano, sonho. Um homem tinha, se quisesse, a dimensão de um deus.

Há centenas de anos que desembarcamos de idas e retornos, a diferença nunca foi muita, que pegamos em proles, haveres, ilusões e feridas, e partimos para dentro, oceanos e continentes, em peregrinações interiores de fé, cobiça e trapaça.

Com a mesma convicção que iniciámos mares e impérios desistimos deles, renunciámos a eles. Deixamos tudo a meio, talvez por sermos, sem o saber, suficientemente sábios para isso. «Não foi a riqueza, nem a terra que Vasco da Gama buscou nos Lusíadas. Foi», diz-nos o professor Agostinho da Silva, «a Ilha dos Amores» .. Como a não encontrou/encontrámos, . suspendemo-nos, incompletamo-nos - que é uma maneira de nos completar. Daí que o fado seja a nossa realidade e o sebastianismo a nossa igreja. Estamos sempre a

partir e a chegar, somos retornados de nós próprios. Expulsos há dez anos de África queremos partir de novo para África - outra. Samora Machel é reverso de Vasco da Gama. A maior parte dos que vieram irá, porém, perecer aqui. Não sobreviverá à morte da sua Angola, do seu Moçambique, da sua Guiné. Que tenta reconstruir em Moncorvo, em Viseu, em Lisboa, em Sagres, em ...

Do mesmo modo que tentou reconstruir Moncorvo, Viseu, Lisboa, Sagres em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, em S. Tomé, na Índia, no Brasil. África foi portugalizada em África nos últimos séculos; Portugal está a ser africanizado em Portugal nos últimos decénios. Os musseques do Prenda irrompem no Alto do Dafundo; as marrebentas agitam os bailes dos domingos suburbanos; as churrasqueiras florescem nas estradas beirãs; o caril, a cerveja, o fumo, os fumos, sobem aos planaltos nortenhos; o imaginário dilata-se; as histórias de caça, de aventuras, de magia, de abundância, perpassam os cabeços de granito e giesta. Um sopro quente perturba a pele dos que ficaram, dos que na história só vêem partir, soldados, missionários, mercadores, emigrantes, xilados, e vêem voltar: deslumbrantes de riqueza uns, pasmados de vazios outros.

Vai fazer agora dez anos que o princípio do fim se deu. O que aconteceu, entretanto, a essas populações escolhidas para expiar a culpa do nosso colonialismo? Portugal está reduzido à sua origem, está devolvido a ele próprio - de vez. A exaustão apazigua as feridas, dissolve a angústia, enevoa a memória, gera o futuro. Novos países surgem aqui, em Angola, em Moçambique, na Guiné, em Cabo Verde, unidos na mesma língua e no mesmo afecto.

Quando D. Dinis acaba o seu reinado Portugal está pronto. Território definido, possui campos férteis (defendidos das areias pelo Pinhal de Leiria), dispõe de castelos sólidos (que não deixam avançar os espanhóis), desfruta de religião própria, exulta vontade de existir. xistir desenvolvendo-se internamente (podia ser hoje uma Dinamarca), ou derramando-se externamente. Derramou-se.

Engendra então a espantosa gesta dos Descobrimentos - que o faz mudar o mundo e perde-se de si. De senhores em Luanda, Lourenço Marques e Bissau, passamos a criados em Paris, Bona e Bruxelas. Regressados de uma condição e de outra, encontramo-nos no ponto de partida. E o pequeno berço range ao peso dos que se lhe aninham, ora cansados e submissos, ora esbracejantes e coléricos.

Portugal está a ser reconstruído pela raiva dos retornados. E a raiva dá muita força. «Em breve vamos sentir que estamos a ser colonizados por eles», especifica-nos o professor Agostinho da Silva. «Eles vão lançar mão a tudo ... agarrar-se à terra, usar com as pessoas de cá os mesmos métodos que usaram com as de lá. Para eles o aldeão é o preto, o nosso camponês começa já a dizer: patrão retornado é bruto l». «Cá os retornados olham e dizem: vamos fazer aqui a nossa vida como fazíamos em África, que não deu certo por culpa destes tipos, porque o Exército não se portou bem, nem os políticos». «Eles acham que têm que melhorar Portugal como os brasileiros de Camilo ... dentro de alguns anos o País vai reconhecer que a força fecundadora lhe foi dada por eles. São por natureza construtores de impérios, não são navegadores. No Brasil fundaram fazendas, em África abriram lojinhas».

«Para aqui não trazem divisas, como os emigrantes, constroem é coisas. E quando os emigrantes voltarem vão cair sob o seu domínio. Eles dominarão quando as reservas de oiro se acabarem e quando as remessas dos emigrantes cessarem. Nessa altura também o FMI terá desaparecido». Apontada como um fenómeno ímpar de absorção social, só possível em povos de grande generosidade,

a integração dos retomados tornou-se, escassos anos após a sua chegada, um caso surpreendente. A desconfiança inicial, por vezes hostilidade, com que foram recebidos, sucedeu a convivência a amenidade. A própria palavra «retornado» (rapidamente popularizada apesar de nem sempre exacta ou justa) quase que não se ouve já.

O exemplo que deram de trabalho, de iniciativa, de inter-ajuda, de perseverança granjear-Ihe-iam depressa respeito e admiração. E temor .. Desde ministros poderosos, no Governo Central - (Almeida Santos) a vogais humildes nas autarquias interiores (das 12 câmaras do distrito de Bragança, por exemplo, oito são de retornados); desde industriais prósperos a indigentes asilados, desde o grande hoteleiro de Albufeira à empregada de copa de Castro Daire, desde o aviário modelo de Pegões à queijaria tosca da Estrela, estão em toda a parte, bispos, militares, juízes, contrabandistas, artistas, jornalistas, cientistas, cozinheiros, professores, polícias, prostitutas, chulos, desportistas, funcionários, estão em toda a parte transformando o meio, matizando o tecido social, alterando os espectros políticos, religiosos, morais, ideológicos. De subvalorizados passar a sobrevalorizados. Vivendo em círculos concêntricos assumem-se em certas zonas como castas de poderio crescente. Alguns tomam-se os novos donos da terra.

«Mais de 50 por cento vive melhor aqui do que lá», repetem-nos. Hoje controlam vários sectores, são a sua classe dirigente e exigente; formam uma rede por todo o país que se organiza, alarga, fortalece, interpenetra. Mais do que o dinheiro, porém, ou a riqueza em si, é o triunfo, o êxito, o domínio que lhes interessa. «Se  vez de nos terem disperso pelo país nos tivessem dado uma província só para nós, éramos agora uma potência, os de fora tinham de nos pedir batatinhas!» afiança-nos Custódio Antunes, no Cartaxo, antigo camionista no norte de Angola ..

Foi jogando nessa mentalidade que surgiram, por exemplo candidatos próprios à presidência da República, como Pompílio da Cruz, e candidatos seus representantes privilegiados como Galvão de Melo.

Os grandes partidos políticos depressa passaram a aliciá-los e a recebê-los nas suas estruturas internas de onde os injectaram na administração pública. «Eles é que fizeram pender, a balança no sentido da contra revolução!» comenta o antigo deputado José Manuel Jara, único retornado no grupo parlamentar do PCP.

A sua inserção provoca em muitos observadores surpresa. A França (com retomados da Indochina, da Tunísia, de Marrocos, da Argélia), a Itália (da Líbia e da Abissínia), a Bélgica (do Congo) ainda sofrem internamente as sequelas na sua descolonização. Aparentemente Portugal dirigiu-a. Aparentemente todos se ajeitaram. «Foi como se tivéssemos de entrar num estádio cheio, abana daqui,

acotovela dali, fomos avançando». A frase de João Meira, é expressiva. «A grande ajuda ao retornado foi ele próprio que a deu. Somos um povo com uma capacidade de integração maravilhosa, e em todas as circunstâncias. Fomos o único povo da Europa que se adaptou a viver no sertão, que se casou com pretas.

Mas a nossa adaptação tem sido feita à custa de muito esforço, de muito sacrifício, de muitas vítimas. Sofremos de uma doença muito grande: o saudosismo». Para João Cabral, oriundo do Lobito, actualmente director do Apoio Cristão Internacional, «o êxito da integração é muito relativo. Foi a política seguida pelos governos que calou os retornados. Separaram-nos, polvilharam-nos pelo país, tiraram-nos a força. E eles resignaram-se. Em França, não, os argelinos foram existentes, o mesmo aconteceu noutros países, por isso se ouve ainda falar dos seus retornados. Aqui amocharam!».

Diversos organismos surgiram em sua defesa e apoio. Organismos religiosos, políticos, assistenciais,culturais, educativos. Oficiais, como o IARN; internacionais, como o Apoio Cristão e a Cruz Vermelha; filantrópicos, como a Associação de Apoio aos Angolanos; reivindicativos, como a ANERM - Associação dos  Naturais e Ex-Residentes de Moçambique, e a FRAUL - Movimento Nacional de Fraternidade Ultramarina (que pretendem indemnizações do Estado); recreativos, como «Os Inseparáveis do Lubango» (cerca de sete mil no último piquenique realizado no Buçaco. Os mais crentes têm uma Santa sua, a Nossa Senhora dos Retornados, a quem dedicaram há pouco, em Oliveira do Bairro, grandes festividades.

Dispõem também de uma imprensa própria (como o jornal «O Retornado», o boletim «A Voz do Cid») e, muito próxima (casos do «Dia» e do «Diabo»).

Após a sua chegada a Lisboa, onde eram acolhidos pela Cruz Vermelha e pelo IARN, recebiam alimentação e assistência; uma parte beneficiou de créditos, subsídios e empréstimos que permitiram a alguns, dado o seu juro bonificado, reorganizar-se e lançar-se em diversas actividades. Por quase todo o país surgiram, assim, empresas comerciais (cafés, restaurantes, supermercados),  industriais (aviários, fábricas transformadoras, serviços de frio), agrícolas, transportadoras, piscatórias, etc.

Os funcionários públicos passaram por sua vez a ser integrados no Quadro Geral de Adidos com 60 por cento do ordenado. Educação, Saúde, Agricultura, Administração Interna (PSP), Finanças e Administração Autárquica são os ministérios onde se encontram maioritariamente. Mal concedidos, ou não concedidos, seriam os créditos para compra de habitação própria (572 mil contos), depressa bloqueados pela burocracia e pela falta de vontade política. As especulações, os desvios de fundos, a corrupção, o compadrio, o oportunismo, o roubo, dificultaram e desacreditaram no entanto (as irregularidades ascendem a mais de meio milhão de contos) parte do esforço desenvolvido. Os processos judiciais levantados (1 800 por fraude, no valor de 130 000 contos) continuarão a correr depois da extinção da Comissão Liquidatária do IARN.

«O povo português não é colonialista», repete, insuspeito e surpreendente, Samora Machel. Muitos dos que voltaram de África também não. Foram mais colonizados do que colonizadores, deram mais do que receberam, deixaram mais do que trouxeram. Os que, deles, colonizaram, exploraram, não estão entre eles - arraia miúda espalhada de norte a sul, de oeste a este, a trabalhar com as suas proles e as suas fúrias, noites dentro, sem horários, sem fins-de-semana, na ânsia de um aturdimento devorador e final. Os anos passaram. Os frutos disso surgiram. O sopro de renovação que desencadearam transformou já a face portuguesa. A que preço? Um país marginal surge paralelo ao oficial. E sobrepõe-se-Ihe por vezes em vitalidade, em provocação, em ousadia.

É o país ambíguo e secreto das especulações, dos tráficos, dos subornos, das cumplicidades; o país que evita alfândegas, escamoteia fiscos, submerge éticas; o país que desconhece balanças de pagamento e imposições do FMI.

O português sempre foi sábio nesse saber escapar-se às normas da legalidade - política, económica, religiosa, militar. Daí que uma parte discreta de retomados se lhe tenha introduzido, célere. O submundo das cidades, os negócios penúmbreos, as especulações vertiginosas, foram roleta em que apostaram e ganharam. Os «bas-fonds» da capital, as boites de província, as transacções secretas (diamantes, automóveis, electrodomésticos, favores a poderosos) passaram a passar por eles na determinação de reconquistarem aqui privilégios e níveis de vida perdidos lá.

Desinseridos da luta que os trabalhadores portugueses desenvolvem há anos, curto circuitaram-na em diversos sectores por falta de tradição (dela) e por ânsia de caírem nas boas graças (e nos bons lugares) do sistema emergido.

Vindos de terras de menor exigência mas de maior abertura acabaram por modificar-se ao modificar o meio. Sobretudo os mais jovens, detentores de estatutos de outra liberdade, sem os tabus aqui solidificados nem as normas aqui secularizadas. ' As relações que estabeleceram com os que encontraram permitiram-lhes alterar comportamentos; idêntico fenómeno deu-se, aliás com os filhos dos emigrantes em férias. Entre os que vieram de África e os que vêem da Europa, o velho português abre-se, também ele, a novas convivências, a novas frontalidades. Os turistas estrangeiros e as telenovelas brasileiras ajudaram ao cerco que os tempos pós-modernos nos estendem à volta. Os jovens que enchem hoje os cafés e as discotecas da província são já produto dessa tão fascinante como curiosa miscigenação do cultural. As dificuldades, as faltas de perspectivas, os desalentos são os mesmos para todos eles, pretos, e brancos, e mulatos, e mestiços, e amarelos, e loiros, e ciganos; os que retomaram de África, os que nasceram cá, os que hão-de vir da Europa, os que não poderão já partir porque já não há África, nem Europas para desbravar e servir. O ciclo está fechado.

Expulsos do paraíso por pecados originais não assumidos, vivem agora assombrados na fixidez da memória. Passar horas entre si é recuar no tempo. As suas casas estão cheias dele, de objectos, de fotos e de símbolos, o «naperon», a estatueta de madeira, o carro, o tapete, a música, a balalaica, o espeto do hurrasco a pele de cobra. À volta da mesa bebe-se o cálice do reencontro. A solidariedade é-lhes uma religião quase patética, feita de rituais, de perguntas, de ternuras, de silêncios, de imprecações. Baptizados pelo mesmo fogo, conheceram o mesmo pânico, o mesmo desamparo, o mesmo Golgota, a mesma humilhação; um pacto de suor uniu-os para sempre. Não podem por isso aceitar o que se passou. Morreriam se o fizessem. Dizem-se, sentem-se enganados pelos políticos que os «iludiram deliberadamente»; dizem-se, sentem-se traídos pelas Forças Armadas que os deixaram, sem intervir, se golpeados; dizem-se, sentem-se vítimas e inocentes; só assim conseguirão salvar-se perante si mesmos.
Daí o seu apoio aos grupos de direita e extrema-direita aos que, por ironia, foram os primeiros grandes responsáveis pela «tragédia da descolonização» .. Não proceder como procedeu era, porém, admitir a sua cumplicidade, o seu desconhecimento, o não sentido, afinal, da sua vida - lá. Cá, ele contribuiu para o desandar da Revolução. Esta, que o sabia (na 5.ª Divisão houve quem preconizasse o seu abandono para o seu massacre), trouxe-o, no entanto, de regresso numa ponte aérea de incomensurável dimensão. A maior parte deles, porém, veio com a roupa do corpo, com escassos haveres em caixotes e notas inúteis nos bolsos.

Alguns tentaram permanecer em África. Amavam-na, serviam-na, era a sua terra. Nada tendo a esconder, nada tinham pensavam, a recear. Os governantes diziam-lhes, pela imprensa e pelos comícios, isso mesmo. Caso a caso, história a história, as suas vidas fazem-se mitos. As Africas distanciam-se na memória, ficam névoa que se dispersa pelo país, arco-íris em horizontes queimados de futuro.

Alentejo, Algarve, Beiras, Trás-os-Montes, em todo o lado encontrámos as mesmas faces, os mesmos olhares, as mesmas acusações, o mesmo aturdimento. Como exércitos de inocentes depois da derrota, estendemos as palavras e abrem-nas ao sol: Não têm arrependimento porque não têm culpa. A todos, e foram centenas, repetimos a pergunta: nunca pensaram que lhes poderia acontecer o que  aconteceu? As respostas são unânimes: nunca! Não tinham informação do que se passava, os jornais e a rádio nada diziam, ou diziam que estava tudo resolvido.

Apenas ouviremos, num terceiro andar de Benfica, uma excepção: «Os que tinham consciência da situação sabiam. Aliás depois, da independência da Argélia e da independência do Congo, era previsível. Receava até que fosse pior». Ex- deputado do PCP, o Dr. José Manuel Jara acrescenta: «A camada progressista e intelectual de Angola era, porém, uma minoria. Em 600 mil brancos devia haver mil que tinham consciência do que se passava. Os outros quiseram viver a ilusão colonial até ao fim. Não conseguem agora suportar esse fim. Vieram de um mundo grande onde criaram coisas grandes. Aqui tentam fazer o mesmo, construir também coisas grandes. O pior é que aqui tudo é pequeno!» Nos extremos sociais que ocupam, os retomados habitam as casas mais modernas das aldeias e os tugúrios mais deprimentes das cidades. As grandes vivendas que irrompem pela província são, na verdade, deles e dos emigrantes; os bairros mais degradados também, como os de pré-fabricados vindos da Holanda e da Noruega, e de outros países caritativos. Desfazem-se ao frio, ao vento, ao tempo, em Braga, em Vila Real, em Viseu, em Moncorvo, em Montalegre, em Miraflores.

Construir casa e montar negócio foi o seu grande projecto lá e cá. A primeira coisa (única?) que o português fez em África e no Brasil foi o levantar abrigo, abrir balcão, arranjar mulher, semear prole; a sua melhor alfaia foi, continua a ser, a revenda. Daí o ele só saber organizar-se economicamente e adiologicamente (sem ideologia). Os povos de que descende/descendemos, judeus, romanos, fenícios, cartagineses, vieram, aliás, pelo mesmo corredor, o do Mediterrâneo, e tinham todos características comerciais, não agrárias.

As perspectivas de intensificar agora o comércio (legal) são, porém, difusas. O boom que se verificou nele, e por ele, na construção civil, nas explorações hoteleiras, industriais e pecuárias (possível devido aos empréstimos do IARN) entrou em declínio. Os economistas do FMI estão a desempenhar hoje aqui o mesmo papel que os políticos de Salazar desempenharam ontem em África.

Teremos de fazer outra, e depois outra, e outra descolonização; de voltarmos a ser náufragos e retornados porque só através dos regressos e das partidas nos reencontraremos. «Assistimos já», diz o escritor Rui Nunes (os criadores pressentem estes fenómenos antes dos técnicos e dos políticos) «a um retorno a África», visível, por exemplo, «no fascínio pela sua literatura; voltamo-nos para Sul, abandonamos a Europa». Que não, nos quer. Procuramos o útero na distância, o passado no destino; o País volta a estar pronto. D. Dinis poderá ser o próximo Presidente da República.


Fontes: compõem este escrito.

Fernando Dacosta
http://www.prof2000.pt/users/secjeste/aidaviegas/Pg001000.htm












2010

A BANDA ?



Mas onde fica a banda???

Conheci um budjurra, lá na tuga, esteve em Angola e conheceu as 18 províncias, mas voltou decepcionado porque não chegou a conhecer a "Banda". - Vocês falam tanto da banda, mas em que parte de Angola fica ela então? Interrogou ele. . Talvez, nem nós, os puros mangolés, saibamos explicar a definição ou localização da banda, porque, para nós a banda não se define nem se vê, ela sente-se quando o Boing 747 da Taag abre a sua porta e aquela quentura empoeirada toca-nos a pele. . Não importa se vens da Tuga, USA, da South ou do Brasil... A banda sente-se ali naquele tapete rolante do Aeroporto 4 de Fevereiro, quando vamos pegar as malas e encontramos a mistura de passageiros e bagagens entre Lisboa/Luanda e Kinshasa/Luanda, ou de Johannesburg/Luanda e Ponta Negra/Luanda, tremenda confusão e de repente uma gostosa falha de energia na sala de desembarque. Sente-se na neblina de poeira naquela comprida avenida que sai do aeroporto até ao Largo da Maianga, onde nos cruzamos com um Hiace azul e branco e um Hammer H2 amarelo ao mesmo tempo. Sente-se nos ambulantes que te batem no vidro com a dica «cota temos todas as novidades, é só escolher» ou «tio olha o cheirinho pro boter, esse é mesmo do puro», no engarrafamento provocado pela nova onda da construção das pontes ou túneis, como alguns dizem. . Quando chegamos a casa, sentimos a banda assim que ligamos a TV e nos deparamos com a emissão da Globo ao invés da TPA que estávamos a espera. Daquele cheiro do bagre fumado ou do funge quentinho que vem lá da cozinha, do som que vem da rádio com as novidades musicais que estão a bater em determinada altura, da 1ª conversa com os cambas em que nos contam as novidades tintim por tintim; os novos calões que estão a bater, a nova forma de dançar kuduro ou tarraxinha, a praia e disco que estão na moda e muitas outras dicas, insignificantes para alguns mas importantes para todos nós que queremos ver ou sentir a Banda. Muitos, podem entender "banda" como uma dica que os angolanos inventaram para dizerem que foram ou vão para Angola, mas se assim pensam é porque não apanharam a dica! . Pra Angola, qualquer madiê pode bazar... Um tuga, brazuca, santolas ou chinoca que agora vêm pra cá aos montes; mas pra Banda, humhum, só mesmo nós sabemos o caminho para aquele "paraíso" empoeirado. Eu, até já pensei em abrir uma agência de turismo, única e exclusivamente para levar turistas e não só, a conhecerem a banda. Mas como? A par das questões do kumbu, há uma mais complicada que me estraga a ideia de negócio. Onde fica a Banda!? Por vezes, penso que sou "bandense", porque angolanos de BI. e passaporte existem muitos, basta querer sê-lo acompanhado de alguns dólares e já está; agora "bandense", não é para quem quer nem para quem pode, é só para quem é! Ali, onde se sente a dificuldade em que alguns vivem, mas que todos se riem independentemente do nível de vida que têm. Ali sim está a Banda. A nossa, tua, a minha banda!!!
Acacio resende
2006

COISAS DE ANGOLA… ( ÓBITOS )



Em Luanda agora é assim! As pessoas se produzem todas para ir a um funeral, como se à uma festa de gala se tratasse. Se antes o branco e o preto eram as cores para actos fúnebres, agora as damas bazam até de vermelho, rosa, amarelo, laranja, quer dizer, só as cores "mais cheguei" para chamar mesmo a atenção.

Na verdade, os óbitos se transformaram em locais predilectos para desenvolver uma paquera, na ausência de locais públicos de lazer que proporcionem encontros, afinal quem não tem cão nem gato, caça com rato. Há quem diga que as damas vão para ver os BOSS´S da família. Ficam de olho bem aberto para marcar qual é o tio que dá mais kumbu. Depois jogam todo o seu charme para cima do kota, não importando se casado, solteiro ou viúvo, nem respeitam o luto.

Já os homens, parece que são mais discretos, bazam a estes encontros para beber de graça, consentir uma paquera e, claro, pitar (comer) um coxe, afinal, de graça, bar aberto, boca-livre, não faz mal a ninguém. Os óbitos, há muito que deixaram de ser cerimónias nostálgicas em que os parentes e amigos se encontram para consolar quem perdeu um ente querido. As Mulalas das kotas deram lugar ao desfile de moda e posses. Tas a ver aquela expressão " ché quez da caldo", já ficou ultrapassada. A canjica e o caldo foram superados pelos Mufetes, Muambas, Bolos, Doces diversos, Rissóis, Tortas e Pudins à maneira.

Da Kissangua, coitada, já nem se fala mais, nem nos círculos mais conservadores das famílias, de vez em quando, aparece nas praças e paragens de candongueiros mas, com novo nome para disfarçar: "Sumol em Saco". Nada de coisa de pobres (kissangua) nos óbitos a onda agora é Cuca, Sagres, Castle, Carlsberg, Coca-Cola e associadas, Sumol e até a forasteira Kiss, agora também Blue's, por que as Youk´s sumiram do mapa. Quer dizer, até aquelas kotas que produziam os pitéus dos óbitos naquelas panelas bué gudas (grandes) também estão desempregadas, foram substituídas pela contratação dos serviços de Bufetes e Catering.

Óbito na cidade da Kianda ( Santa Ana ) é festa grande. Já há quem prefira patar nos kombas (óbitos) do que ir aos casamentos; nos óbitos não olham nas caras nem querem saber se é parente do noivo ou da noiva para te servirem. Só falta mesmo contratar DJ´s para animar o bo... digo o óbito, com músicas da igreja, já que os kuduristas já fazem questão de cantar daquele jeito neh.





 
Nesses encontros não podia faltar a turma dos BUFUS, aqueles que definem a qualidade dos óbitos, segundo critérios já bem definidos. Adesão de pessoas famosas, número de carros, que inclui os da moda, último grito, os que mais choram, quem desmaia mais, a quantidade e qualidade do pitéu e bebida etc. quem não consegue um óbito nestes moldes é logo taxado de "JIMBA DIAFU", "DIBINZERO".

É... meu, morrer na Nguimbe (capital) não é negócio para qualquer um!!!

E não pára por aí, o que dá mais pontos é o lugar onde será o enterro. Tem que ser ALTO DAS CRUZES ou SANTA ANA porque o resto é mesmo resto. O óbito pode ter tudo, mas se o funeral não for nestes lugares perde todos os pontos. Diante disso, começa um novo dilema já que conseguir espaço nestes cemitérios não é coisa fácil e carece de "cunha forte", mas também, o cemitério 14 ou kamama ( Bairro do Golfo ) não são cemitério para Vip´s, tipo, não vão ser comidos também pelos sálálés. Então o defunto chega mesmo a ficar uma semana ou mais a espera que se decida sobre seu próximo endereço.

Mas nem tudo mudou, ainda se vê aquelas kotas que sempre exageram na hora de exprimir sua tristeza. Aquelas kotas que vão chorar no Kinaxixi, quando o óbito é no Marçal, para depois reclamar dos rins. Ainda é a oportunidade ímpar para ver todos os parentes, onde os que menos choram são as vítimas quando se procura o culpado pela morte: "EIE U MULOGI". Ele é o feiticeiro, vês que nem chora, eu já sabia. Os vizinhos da rua toda continuam com aquele mau e velho hábito de faltar ao serviço durante um mês sob pretexto de óbito na casa do vizinho que em vida nem sequer os cumprimentava.



Isto é caso para perguntar: AONDE ESTAMOS E PRA ONDE VAMOS? SABES??????
Jornalista de Angola
2005

REGRESSO E ADAPTAÇÃO A PORTUGAL






Cheguei ao aeroporto da Portela em Lisboa com uma pequena mala de mão com os meus documentos pessoais alguns escudos angolanos, a guia passada pela comissão organizadora de repatriação, umas calças e uma camisa. Tudo o mais ficou lá nos caixotes, na vivenda que meu pai entregou para o seu Ajudante Agostinho com todo o recheio. Troquei 5.000$00 angolanos pela mesma importância de escudos portugueses.

Entretanto mais tarde chegou a Lisboa o barco Italiano onde os caixotes com as bicuatas dos meus pais vinham. Fui assistir ao desembarque dos caixotes e das viaturas. Um Mercedes que descia pela rampa de repente chocou contra uma coluna de cimento ficando a frente toda danificada. Tinha sido feito propositadamente pelo trabalhador do Porto de Lisboa, em braço de prata, e digo mais sem estar habilitado para o conduzir.

Os caixotes que vinham nos barcos eram descarregados e aglomeravam-se às centenas ao longo do cais. Alguns deles eram deixados cair das gruas propositadamente só para os destruir. Já não bastara a pilhagem dos pretos. Aqui procedia-se na mesma. Quando viam que nos caixotes vinha algo de mais valor eram sistematicamente roubados.

Aqueles que não tinham família ou casa eram alojados em pensões ou hotéis que estavam vazios, no Parque de Campismo do Inatel na Costa da Caparica, com subsídios do IARN. Não foram só os brancos que saíram de Angola mas também pretos e mestiços que, tal como nós, foram perseguidos e fugiram da guerra.

Com a madeira dos caixotes o meu pai fez alguns móveis improvisados e dormíamos em colchões e cobertores emprestados. As nossas camas, a geleira, e algumas roupas acabaram por chegar. Começámos praticamente do zero.

A vinda dos retornados para Portugal mudou os hábitos de vida de muita gente que não estava habituada à nossa maneira franca de conviver e de estar na vida. Onde vivo há muita gente que veio do Ultramar aliás, por todo o país também. Quando conversamos com alguém distinguem-nos pelo nosso modo de falar e de ser e há sempre um patrício onde menos se espera. Somos estimados porque reconhecem o nosso valor. Há retornados em todos os quadrantes sociais, na política, na indústria, no comécio, enfim em todo o lado.

Mas o nosso coração está em Angola na nossa querida terra que poderíamos ajudar a construir e engrandecer e que nos foi negada pela traição dos ultra esquerdistas traidores do MFA com uma visão ideológica cega e a ambição dos chamados movimentos para a libertação de Angola sobretudo do MPLA.

Destruíram tudo o que construímos e sabe-se lá quantos anos mais levarão para que seja aquela Angola que deixámos em 1975!

Com a independência das antigas colónias portuguesas, (PALOP) a economia desses novos países degradou-se de tal maneira que a vida dos seus cidadãos (o povo) desceu a níveis tão baixos que eles, imagine-se, por ironia do destino, vêm para Portugal aos milhares. Como é óbvio, procuram instalar-se junto de familiares nos bairros periféricos de Lisboa que em Angola chamávamos musseques.

Há vários messeques, mas um dos mais conhecidos é o da Cova da Moura perto da cidade da Amadora. Há mais desses bairros da lata espalhados pela periferia das cidades satélites de Lisboa. Aí habitam cidadãos brancos, pretos e mestiços em pacífica convivência que trabalham honestamente nas mais variadas profissões tal como em Angola, nas mais modestas como na construção civil, limpezas, enfim, naquilo que conseguem arranjar mas, mesmo assim, têm um nível de vida muito superior à que tinham nas suas terras de origem. Infelizmente também lá habitam pessoas desonestas, ladrões e assassinos que nos estão a causar muitos problemas.

Portugal além se ser um país pequeno não é rico como Angola, cujas riquezas naturais como o petróleo, diamantes, minérios, café, etc. davam perfeitamente, se fossem utilizadas em proveito das suas gentes, uma vida digna para todos os seus habitantes e não só para os preveligiados. Mas eles estão aí e cada vez mais. Vêm com passaporte de turismo e por cá ficam alguns legais mas a maior parte ilegais.

Alguns habitantes desses bairros, a maioria de raça negra já nascidos em Portugal e, embora no nosso país a instrução básica seja obrigatória para todos sem excepção tal como já era em Angola em 1975, esses indivíduos preferem não estudar e dedicarem-se à vadiagem, ao roubo e à venda de droga.

É frequente nas ruas de Lisboa e cidades próximas (menos no interior) ver pessoal africano, pretos e mulatos por todo o lado. Se assim continuar daqui a pouco parece que estamos em Angola. As pessoas que vêm para cá muitos deles nasceram depois de 1975 por isso, desconhecem o que se passou, caso contrário não se sentiriam bem se fossem os mesmos que em Angola nos diziam: "vai para a tua terra colono"!

Penso que são muitos, os cabo verdianos, alguns guineenses e moçambicanos mas a maior parte são angolanos.
Algum desse pessoal africano que não quis estudar nem trabalhar mas quer botar figura com roupa, ténis de marca e telemóveis por isso, dedica-se ao roubo. Ultimamente juntam-se em grupos e assaltam os passageiros nos comboios principalmente os da linha de Sintra na zona de Amadora - Queluz.



O nosso Governo não tem sido suficientemente firme dando a necessária força e material adequado às autoridades policiais para actuar em conformidade nestas ocasiões como está a ser feito noutros países da Europa. Estrangeiro que não tenha o devido comportamento é imediatamente extraditado nascido ou não no país. No dia 10 de Junho de 2005, na praia de Carcavelos houve um arrastão provocado por pessoal africano dos bairros periféricos, imitando o que se passa nas praias do Brasil como se pode ver na fotografia. As autoridades foram apanhadas de surpresa mas actuaram. Pouco tempo depois houve assaltos nos comboios mas, actualmente a situação parece estar controlada, com as autoridades a actuar firmemente.

Na opinião da maioria dos portugueses esse pessoal africano provocador de desacatos deveria ser imediatamente repatriado para as suas terras de origem. Com essa espécie de gente não pode haver contemplações e se as autoridades agirem em conformidade como deve ser nestes casos os problemas acabavam de vez.

Esperemos que sim para não termos de assistir a este triste espectáculo de violência que não iremos tolerar.
Adaptado da internet
2006

LUANDA A DEBANDADA



Na Luanda isolada, fartura só de medo e de boatos. Nos musseques, afiam-se as catanas para cortar as gargantas dos brancos; milhares de soldados da FNLA já se encontrariam escondidos dentro dos limites da cidade, para se juntarem aos invasores. Aumentando a tensão, chovem panfletos, nos quais se anuncia a "iminente marcha para libertar Luanda".(...) Luanda está estranhamente silenciosa. Deixam de se ouvir as marteladas nos caixotes de madeira, armados pelos portugueses. "Em Luanda, vive-se já, entretanto uma transição histórica. O centro da cidade é atravessado, por vezes, por camionetas de carga, carregadas de colonos brancos, na direcção do aeroporto. No caminho para o porto, alinham-se ainda uma fila interminável, camiões com caixotes e automóveis. Às portas de muitas moradias encontram-se caixotes prontos para seguirem para Portugal. No aeroporto militar, a confusão é permanente.(...).

Uma atrás de outra, as cidades mudavam de mãos. Na sequência da retirada das tropas portuguesas, O MPLA não conseguiu suster as posições, Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Porto Alexandre, Moçâmedes, Lobito e Benguela – as maiores cidades tinham sido tomadas pelos dois movimentos rivais e, a sul, pelos sul-africanos, e, em ambas as frentes, por portugueses dispersos. (...) Este isolamento de Luanda era especialmente visível num mapa que existia, e ia sendo actualizado, no quartel-general das tropas portuguesas. Com o corte dos acessos a sul, ia-se confirmando o pior para quem estava na cidade: Luanda poderia vir a tornar-se um enclave, uma ratoeira infernal e quem ali ainda permanecesse em 11 de Novembro, depois da saída das tropas portuguesas (que até lá constituíam a única garantia de segurança) poderia morrer sem que fosse viável qualquer auxílio do estrangeiro. Os presságios diabólicos pareciam cumprir-se, um atrás de outro. Com a queda de Benguela, fechava-se o acesso a sul.(...)

Na baía de Luanda, estavam ao largo duas fragatas da Armada portuguesa, uma corveta, um navio petroleiro e dois navios de passageiros, o Niassa e o Uíge. Nos pátios do palácio governamental, concentrava-se uma força de fuzileiros, a Cavalaria (com os seus blindados e camionetas Berliets) e páraquedistas. E, às 15.30, era arriada, por um marinheiro, a última bandeira das quinas. O destacamento português pôs-se em movimento. E logo as guaritas do palácio-quartel foram ocupadas por polícias angolanos, nas suas novas fardas turquesa. Na varanda colonial, assistindo à despedida, ao render do poder, apenas alguns empregados africanos, vestindo as fardas brancas: Adeus Portugal.

Os portugueses partiam de cabeça (fisicamente) levantada, como anunciara o último alto comissário, Leonel Cardoso. Mas com os corações apertados e intranquilos. Pessoalmente, senti um grande nó na garganta e na boca um sabor amargo.(...) e já estava em Portugal. Assim, com a previsível carga pesada das consequências, que traduziria em 13 anos de guerra colonial, Portugal fechava o ciclo aberto em 1483, quando as primeiras embarcaçõesportuguesas lançaram âAutor desconhecidoncora na foz do rio Congo".

autor desconhecido
1975

HISTORIA DO BERNARDO




É voz corrente que a integração dos chamados Retornados/Refugiados” das ex-colónias portuguesas foi pacífica, e que Portugal até conseguiu superar a poderosa França nessa matéria! Há alguma verdade nessa afirmação, mas terá sido assim tão linear? O autor, na qualidade de funcionário - retornado, expulso de Angola, vai tentar pôr o leitor em contacto com pessoas, famílias e funcionários públicos que tiveram de recomeçar a vida em Portugal, debaixo de dificuldades, privações várias, após terem deixado para trás – TUDO - [quiçá, a própria alma), em nome de uma Descolonização a que chamaram, imagine-se, de “Exemplar”, e que, ainda hoje, no ano de 2000, exibe as suas feridas crónicas - casos de Timor, Guiné, Moçambique e Angola - como é do conhecimento de todos. Pretendo, assim, com este modesto trabalho, prestar a minha justa homenagem a todos os “Retornados/Refugiados” que souberam engrandecer este Portugal, (nas artes, letras, ciências, ensino, funcionalismo público, construção civil, comércio, etc. ) na altura mais crítica das suas vidas e da sobrevivência deste país, recém saído do 25 de Abril de 1974.

I- A FUGA

Fujam, fujam... era a voz que se ouvia no cais de Lobito, naquela manhã de sol de 1975...
Ao longe, o matraquear das metralhadoras e o estoiro dos morteiros de sessenta milímetros. Era a guerra que chegara do mato e invadia a cidade. Bernardo tinha saído de casa para o seu emprego de contínuo no porto e só teve tempo para saltar para o bojo de uma traineira, ainda agarrada ao molhe por um cabo de aço, rangendo e pingando ferrugem amarelada. O motor foi ligado a todo o gás e a embarcação desprendera-se do cais, deixando um pedaço do cabo de aço ainda agarrado ao molhe. Malaquias, só com a roupa que levara no corpo para o serviço, um fato azul, gravata vermelha e camisa branca, foi atirado para o convés da traineira, ficando quase a lamber as tábuas cheirando a peixe seco e que forravam o castelo da proa. O mar estava grosso; as nuvens de fumo das morteiradas ainda toldavam a bela cidade de Lobito, com a restinga ao fundo, ladeada de coqueiros e de belas vivendas.

Bernardo teve medo de levantar a cabeça e olhar a sua cidade, através do buraco da âncora da traineira, por onde a água do mar entrava aos jorros...Adeus Lobito, adeus
minha terra de Angola!

Já recomposto do susto, o seu amigo Pacavira agarrado a uma boia com o nome da embarcação, o Bengo, ainda nem queria acreditar que estava a caminho de um porto mais seguro. A máquina fazia trepidar a estrutura da traineira, com a sua proa altaneira, cortando o oceano em direcção ao porto de Luanda, um pouco mais a Norte. O destino final seria Lisboa ou outro porto, depois de atestarem os depósitos para a longa viagem... A noite caíra e o Sol-posto manchava o mar com pinceladas alaranjadas e de um encarnado intenso. Algumas gaivotas seguiam a marcha do Bengo, à cata de restos da comida que não faltava a bordo. O rumo era Walwis Bay, na Namíbia, onde poderiam efectuar algumas reparações urgentes de que a traineira carecia. O Bernardo, ainda estupefacto, contemplava a costa angolana, pensando na família que ficara escondida no mato, esperando que a guerra acabasse, para se juntar a ele na cidade de Lobito. Relembrava-se de uma Angola em paz, com o porto cheio de barcos carregando ou descarregando mercadorias e traineiras despejando caixas de peixes apanhados ao largo de Moçâmedes e Baía dos Tigres. A traineira, já com a noite sobre o mar, após uma estadia breve em Walwis Bay, voltou a rumar para o Norte de Angola, passando por Novo Redondo e Porto Amboim...
Após alguns dias de mar, enfim, a cidade de São Paulo de Luanda, onde o Bengo iria fazer escala, para se reabastecer de combustível e víveres para uma longa viagem. Na memória do Malaquias, a saída inesperada da cidade de Lobito e o futuro incerto para a sua família. Deitando contas à vida com o seu amigo Pacavira, natural da bela cidade de Benguela, assim falava, perturbado pelo tantan do motor da traineira:
Espero chegar a Portugal e ver como vão as coisas por lá, após o 25 de Abril, e só depois mando ir a mulher e os meus dois filhos, ainda escondidos na mata em casa do meu sogro...

Pacavira, muito pensativo, limpando as unhas com um canivete e sentado sobre uma caixa de madeira ainda com as marcas da empresa de pesca (N & Silva), deitava contas à vida. Falou em voz alta:

É a guerra, amigo Bernardo? Enquanto Angola tiver esses malditos diamantes e o negro petróleo não vamos ter sossego...

A traineira branca de nome Bengo, após alguns dias de viagem, aportara Luanda para se reabastecer, não obstante o clima de guerra civil já aí reinante.
Numa tarde cinzenta, a traineira rumou mar alto, a caminho de S.Tomé a próxima escala - tendo na sua rota as ilhas de Cabo Verde, as Canárias, a Costa de Marrocos e, por fim, Portugal desejado. Bengo, donde vinham o Bernardo e o Pacavira, chegou à costa portuguesa, mais precisamente ao porto de Lagos, no Algarve, após uma escala forçada em Las Palmas e em EL Jadida, em Marrocos. Pensavam ter encontrado a Terra Prometida Portugal - o país donde partiram os navegadores, séculos antes, à descoberta do Mundo.

(Não vou narrar a viagem, que só ela daria para mais cinco capítulos) mas, adiante:

-II- A CHEGADA

Foi num 10 de Junho do ano de 1975 (Dia da Raça ou de Camões, como queiram), data em que pisaram, pela primeira vez, a terra portuguesa, ficando a traineira Bengo abandonada e triste, apodrecendo num cais de Lagos. A Capitania recolheu os refugiados. Foi então que ouviram a nova palavra Retornado, escrita numa guia, passada pelas autoridades, para se apresentarem em Lisboa no IARN [Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais] recém-criado pelo governo português de então, para Apoio aos refugiados que chegavam, diariamente, das Ex-colónias portuguesas de África.
Pacavira chamaram-nos de Retornados?

Quem?
Aquele marinheiro da Capitania, o de boné sebento, barba por fazer e cravo encarnado no peito da farda!

Esse mesmo!

Sou refugiado e não Retornado dizia-lhe o Bernardo, bastante aborrecido! Nem sou de cá! Não nasci em Portugal! Sou de Angola, de Lobito! Refugiado e funcionário de

Portugal, SIM...

Um velho maximbombo, estacionado debaixo de uma frondosa árvore, ia partir para Lisboa. Entraram. A viatura ainda tinha lugares vagos e iria parar, sucessivamente, na Vila do Bispo, Aljezur, Sines e Alcácer do Sal, antes de rumar para o IARN. Pacavira observava a cidade através da janela do velho maximbombo, que largava para o ar uma densa fumarada negra. Todos os passageiros estavam calados e espantados com o que viam.

Passaram por uma das ruas de Lagos, onde decorria uma manifestação do PC, no

meio de bandeiras encarnadas e cartazes:

Mais nenhum soldado para África,

Portugal para os portugueses,

África para os africanos

O Bernardo assim falou ao companheiro:

Isto está mau, caro amigo, penso que pior que Angola donde saímos, há já algumas semanas...
O motorista da fumegante e velho maximbombo, rangendo os dentes, abrandou a marcha e viu-se engolido e forçado a parar junto a uma esplanada, para deixar avançar o desfile, cujos manifestantes entoavam, cadenciadamente, as tais palavras de ordem.: o povo unido jamais será vencido... Ao verem o maximbombo com as letras do IARN, os manifestantes e os circunstantes tomaram mais ânimo e desataram aos berros:

Seus colonialistas vão mas é para as vossas terras! Correram connosco de lá e agora vêm tirar os poucos empregos que temos para os nossos filhos...
O motorista, de barba de vários dias, camisa bem suada nos sovacos e boné descaído sobre a testa, animado pelo ruído da rua, foi comentando, enquanto palitava os dentes ainda com bocados do pastel de bacalhau comido na tasca do tio Zé:
Pois é verdade! Já éramos poucos aqui e agora passo os dias a levar esses malandros dos retornados para o IARN, em Lisboa. Para os nossos filhos, os desta terra, nem uma camioneta para irem para as escolas, aqui a dois passos...

Bernardo, mesmo sem querer, entrou na conversa:

Olha, senhor motorista, se vocês tivessem feito uma descolonização “exemplar” e não um simples abandono das colónias ao bicho-homem, nós não estaríamos aqui, agora, entende!
O motorista desviou-se de um caixote de tomates, caído no pavimento, e não deu resposta ao seu interlocutor com a face queimada pelo mar, para bem de todos os

passageiros já inquietos com o tom da conversa...

Entretanto, a manifestação política deixara a rua livre e concentrava-se, agora, na Praceta da Revolução, previamente preparada com altifalantes, tribuna de tábuas pregadas e bidons. O Maximbombo conseguiu seguir viagem pela marginal, com o mar à esquerda e as praias cheias de veraneantes, pois decorria o mês de Junho do ano de 1975.

 autor desconhecido )

 1975

04/06/2012

RETORNADO

Mais valera havermos ser bons burgueses, mercadores de sal e tripa, em fainas de missanga e comezainas.
Só assim poderíamos ter sido os inventores da economia de mercado e dos brandos costumes de um deve e haver regrado.
Sem armas nem bagagem regressamos de viagem e postos na praia, abandonados, na própria pátria desterrados, voltamos a subir montanhas, retornados, revoltados.
Quanto dói estar aqui neste sitio do passado, pisando as pedras e as areias de um pais revisitado.
Neste discreto recanto, donde ousei o sonho de partir
para desvendar o Universo, sofro agora a dor do meu regresso.
Neste canto Lusitano de terra da velha Hispania, ja sem mar para desvendar, vai doendo a tormenta de ficar entre as poeiras e as pedras das serras do desespero.
Foste Pátria de encantar
Pátria de mar e além mar
Foste Porto de partida
Para a terra prometida.
Depois de ousarmos mais alem
Das terras do fim do mundo
Eis que tristes aquém voltámos
às maternais terras do demo.
E enrodilhados na derrota,
resta-nos a esperança da revolta.
Cabe-nos tão só procurar
os caminhos do mar imaginado
onde podemos sempre viajar
descobrindo as descobertas.
As alvas do doce frio
acalentam o desejo
e emigrante de quem sou
volto de novo a quem fui.
Persiste o sonho
na semente que deponho
no ventre a terra cansada.
E resiste o sentido nestas terras decompostas
com que vou refazendo
a traça do lar antigo.
Sempre o destino vagabundo
de um singular português
em sua rota derrotado
saí daqui, regressei
e dentro de mim perdido
de novo me procurei.


(Autor desconhecido)

1975